sexta-feira, 14 de março de 2014

Uma espécie de carta aberta ao Chaparro

Que dias.
Dias cheios de tudo. Sinto que deixei de ter noção do tempo.

Ontem, no regresso de Lisboa, o Chaparro dizia-me que se sentia realizado, que tinha sensação de missão cumprida. Naquele momento, tudo se revolveu dentro de mim e fiquei sem voz por uns segundos. Queria dizer-lhe o mundo todo e não conseguia. Sentia as ideias na minha cabeça, mas não conseguia fazer delas um discurso. Após alguns segundos de silêncio consegui confessar-lhe pensamentos muito maus que tive há duas semanas. Já na altura eu sabia que eram pensamentos maus e que, ao confessá-los, iria levar com uma rodada de “sua parva!”. Por momentos, senti um poucochinho daquilo que penso devem sentir pessoas que ficam fisicamente dependentes de terceiros e resolvem acabar as suas relações amorosas para não “prenderem” a vida dos seus companheiros.

Por vezes, a carga de se viver com determinadas condições é tão desmedida que se perde o Norte e damos por nós a ter pensamentos que jamais pensámos vir a ter. Subitamente essa noção de se ser um peso na vida de alguém está dentro da nossa pele e, inibidos de qualquer clarividência, o que nos surge é a vontade de libertar o nosso objecto de amor de tal encargo.

E podem chamar-me parva à vontade, mas foi o que eu senti. Que viver a meu lado acarreta demasiada empreitada, que a vida poderia ser muito mais simples longe de mim. Que provoco instabilidade a qualquer um que se proponha viver os dias a meu lado. Que nunca se sabe com o que se pode contar, porque num dia estou activa e faço imensas coisas e até mobilizo gente para coisas giras mas no dia seguinte posso estar prostrada no sofá. Acreditem que cheguei a questionar-me se não seria bipolar. Eu sei que é uma leviandade imaginar psicopatologias, mas juro que o pensei.

As voltas que temos dado para construir uma família - consultas e tratamentos de fertilidade, as voltas e pesquisas e estudos para uma adopção consciente, são tudo manobras que tiram muito dos dias a outros tantos projectos em que estamos metidos, e que seriam suficientes por si só para preencher a vida. São coisas maravilhosas que nos realizam e chegam a muita gente, e não tem nada a ver com filhos nem família nem saúde. Mas deu-nos para desejar filhos, e ao Chaparro calhou uma mulher que não é super-fixe-e-bué-fértil e que ainda-por-cima anda sempre a queixar-se de dores-aqui-e-acolá.

E foi assim que, de baixa médica em casa, dei por mim a pensar que o Chaparro estaria a desperdiçar a sua vida e criatividade ao meu lado e que provavelmente estaria muito melhor sem mim. Porém não tive coragem de lho confessar na altura, porque ele nunca se zangou comigo nestes quase 8 anos em que estamos juntos, mas não imagino que fosse ser muito agradável vê-lo zangado. E uma pessoa minimamente consciente quando tem pensamentos destes sabe que são proibidos e sabe dos argumentos que possam ser arremessados contra os mesmos. Pelo que me sobrou uma tarde de auto-comiseração em modo Madalena arrependida, no sofá, com (muitos) lenços de papel.

Portanto, ontem fiquei sem voz quando o Chaparro me disse sentir-se muito conciliado com a sua vida. Quer dizer… ele passou as últimas semanas a alimentar-me e a cuidar da casa e a assumir o meu papel nos nossos outros compromissos, faltou ao trabalho e foi para Lisboa acompanhar-me na marcha com o telefone a tocar cons-tan-te-men-te, rodear-se de mulheres como eu (não lhe bastasse uma!) e… e, nada! Sim! Faz todo o sentido, Chaparro! Sim, a nossa vida é completa mesmo com todos estes problemas e preocupações.

Podia ser sem dor, pois muito bem, mas é a nossa vida. E é uma vida partilhada. Linda.

Nunca (nunca) me mostraste a mínima dúvida ou impaciência sobre os meus relatos de dor. Saberás o quão gratificante é ter alguém que acredita em nós e que não nos apelida de histéricas inconformadas na sua condição de mulher? Oh céus. És uma dádiva tão maravilhosa. Dentre tantas coisas magníficas que és, és a negação da solidão.

E deves sentir orgulho em quem és.

Viste bem a quantidade de homens que (não) conseguiram estar lá ontem? Não é fácil (nem barato) faltar ao trabalho assim a meio da semana. Mas tu lá conseguiste estar ao meu lado. E entregaste panfletos pelas ruas de Lisboa a dezenas de pessoas. Chegaste-te às pessoas para as sensibilizar para uma doença comum mas incapacitante e negligenciada. De certeza que fizeste a diferença na vida de muitas pessoas ao apresentar-lhes a palavra endometriose.

Fazes a diferença bonita, todos os dias, na minha vida.
Perdoa-me o tom dramático, mas tenho de te dizer que se morresse hoje iria feliz e realizada.

Bem-dito sejas, tu, Chaparro, meu amor tão grande.

do filme Up (2009)

Cipreste

domingo, 9 de março de 2014

Um pedido de ajuda

Boa noite,

Hoje trago-vos agora um assunto um bocadinho diferente, é um pedido de ajuda

Na próxima 5ªfeira queríamos conseguir entregar esta petição na Assembleia da República, mas ainda não chegámos às 4000

A todos pedimos que divulguem, aos que não assinaram ainda pf assinem

Ficarão com gratidão das mulheres portuguesas com endometriose por não ignorarem este pedido***

Para conhecerem um pouco mais sobre endometriose:

sexta-feira, 7 de março de 2014

Estofo

Às vezes receio andar enganada e afinal não ter o estofo emocional necessário para ser mãe. Se, por um lado, sou uma durona exigente comigo e com os outros, por vezes até com o pé na rigidez, por outro lado, sei que sou um coração de manteiga. E desde que sei que hei-de ser mãe a coisa piorou *muito*. Não posso ler ou ver uma notícia que implique sofrimento de crianças que fico logo de lágrimas nos olhos. Mas nem sempre as minhas lágrimas têm motivos tão nobres. Reparem: quando, há uns anos, fiz uma sessão rara de cinema com as amigas em que fomos ver o filme da série “O Sexo e a Cidade”, uma amiga deu por mim a chorar. Elas gozam comigo até hoje por causa desse episódio. Caramba, aquela cena da Carrie de vestido de noiva tão-lindo-tão-lindo a deixar cair o telefone quando o Big lhe diz que não é capaz de ir para a frente com o casamento, e ela quase a desfalecer, deita qualquer um abaixo. Não deita?

Sei que, por vezes, tenho a sensibilidade  à flor da pele. E acreditem que não é fácil no exercício da minha profissão. Felizmente, nunca me trouxe dissabores.

Toco neste assunto porque há bocado falei com a minha mãezinha querida ao telefone. [É tão mãezinha querida, a minha mãe, se vissem o amor com que cuida daqueles que ama. Um dia destes falo dela.] Sobre o telefonema, enfim, aproveitei um intervalo para saber como estão todos e ter um update sobre como o meu pai  se está a dar com o novo tratamento. É verdade que ele é muito forte e tem um excelente estado geral, mas cada efeito secundário que tem tido é como se nos espetassem agulhas no corpo. Dói saber que o nosso pai tem cancro e que ainda por cima tem de sofrer para suportar os tratamentos. Dói muito. 
Eis que a minha mãe relata um episódio de indigestão por causa de tomate verde que deu numa noite mal dormida, náuseas, vómitos e tremores. E porque achamos que já chega o currículo de 13 anos de cancro(s), pensamos que o nosso pai deveria ter um cartão à laia do do monopólio “Você está livre da prisão” e nunca deveria ser incomodado com outras maleitas. 
 À medida que a minha mãe vai contando os dissabores da indigestão, sinto as lágrimas a brotarem e uma pedrinha na alma. Fico triste como a noite, como dizia a minha avó. Não queria que estas coisas lhe acontecessem. Não é justo. E, embora saibamos que estas coisas não tratam de justiça e são arbitrárias, sentimos um certo alento por nos manifestarmos: não é justo. Também sei que o meu estado de fragilidade não ajuda a lidar com estas coisas. (ando bem melhor e activa, fiquem sabendo :) e hoje até acordei animada) 
A minha voz entaramela e tento disfarçar para que a minha mãe não perceba e, enfim, consigo que o telefonema chegue ao fim para deixar cair uma ou duas lágrimas. 
E, de seguida, pensar que sou uma fracota e questionar-me sobre como há-de ser quando um filho tiver uma dor de barriga ou esfolar um joelho. Oh, céus, fico logo com engulhos na barriga.

Estar sempre a pensar os assuntos é cansativo, mas faz parte do meu modo de ser e, como já disse, acho que é mesmo uma obrigação de um candidato à adopção. E se um assunto se nos atravessa a mente devemos aproveitar o exercício. Eu faço-o. E porque sou uma pessoa comum e saudável, umas vezes faço-o bem e pertinentemente e, outras vezes faço-o mal e impertinentemente. E continuo a fazê-o porque tenho de saber aquilo para o que estou preparada. Embora nunca saibamos para o que estamos preparados. Chamemos-lhe, então, reconhecer o nosso potencial -  o estofo.

Imagino que me digam que pensar que vou ficar muito limitada para o que for, incluindo a actividade profissional, nos dias em que um filho tiver uma dor de barriga ou esfolar um joelho (oh, céus!) é um receio normal, transversal a todas as mães e pais e que depois tudo fluirá. Mas eu juro que tenho algumas dúvidas sobre a minha capacidade para não ficar derreada. A questão é que este não é um daqueles limites que me fazem achar que não deva prosseguir com o processo de adopção. Há aquela parte de mim que diz que se os outros conseguem eu também hei-de conseguir. Venham daí as dores de barriga e os joelhos esfolados.
Oh, céus.

Cipreste

quinta-feira, 6 de março de 2014

let go of the answers to the questions and make peace with the mystery, then start over*

* Mary Bishop no Finding Magnolia, donde trouxe este poema (desculpem não vos trazer a tradução em português):





How surely gravity's law,
strong as an ocean current,
takes hold of even the smallest thing
and pulls it toward the heart of the world.

Each thing--
each stone, blossom, child--
is held in place.
Only we, in our arrogance,
push out beyond what we each belong to
for some empty freedom.

If we surrendered
to earth's wisdom
we could rise up rooted, like trees.

Instead we entangle ourselves
in knots of our own making
and struggle, lonely and confused.

So, like children, we begin again
to learn from the things,
because they are in God's heart;
they have never left him.

This is what the things can teach us:
to fall,
patiently to trust our heaviness.
Even a bird has to do that
before he can fly.

Rainer Maria Rilke, Rilke's Book of Hours


Cipreste

quarta-feira, 5 de março de 2014

uma música a ser usada à laia de lullaby retro

Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma*

Desci as escadas para almoçar e assim que sentei à mesa as lágrimas caíram copiosamente. O meu nível de frustração naquele momento estava muito elevado. Tinha acabado de passar por um momento de dor física horrorosa e esperava poder sentar-me sossegada com o Chaparro e o Freixo - que veio passar as mini-férias de Carnaval à sua segunda casa. Só queria um almoço em família, com o Chaparro a dizer disparates e eu e o Freixo a unir forças em desaprovação jocosa do seu comportamento, para que todos sentíssemos aquele calorzinho que se sente por dentro quando sabemos que estamos todos ali, que o mundo todo está naquela sala de jantar. E que nos pertencemos e que podemos contar uns com os outros daqui até ao céu. Mas caí em lágrimas. Um farrapo. E fiz do nosso almoço uma coisa preocupada e desalentada.
Já deitada no sofá, não me contive e pedi desculpas ao Freixo pelo almoço logrado e este, um querido, como sempre, disse-me que eu não tinha nada que pedir desculpas.

Não queria que este Carnaval tivesse sido em torno das minhas dores, mas não havia nada a fazer, elas ali estavam e o Chaparro deixou bem claro que íamos passar aqueles dias assim: em família.
Não vale a pena entrar em pormenores sobre o que aconteceu: uma desregulação que teve de ser regulada por “tentativa-erro” com medicação. Toda a violência física deste vaivém de hemorragias e dores levou-me a um estado de labilidade emocional que me assustou. E nessas alturas não há nada como nos deixarmos à mercê da protecção da família e dos amigos íntimos porque o resto da humanidade apresenta-se-nos muito hostil nessas horas.

Hoje voltei ao trabalho e pude fazê-lo devagarinho, o que me soube bem. Fiz daquelas coisas que nos deixam o sentimento de missão cumprida para o dia. Foi gratificante. É assim em muitos dias da minha lida e ainda bem que o foi hoje. Acrescente-se-lhe o calor e o cuidado com que me receberam de volta (só estive 6 dias ausente!). Foi tudo muito conciliador.
Porém, nem por isso senti menos vontade de vir para casa descansar. Embora as considere insignificantes, as dores ainda andam por aqui e tanta imensidão de existência humana com que lidei hoje deixou-me muito cansada.

E eis que chego ao tema cansaço.
Eu sei. Eu sei o que se passa. Não vou tentar fingir. Nem fugir.
Não foram apenas as perdas de sangue e uma eventual anemia (que não chegámos a avaliar) nem só o cansaço disso tudo que me trouxe a este estado de fragilidade.

Sou demasiado consciente dos meus processos para virar a cara para o lado, no entanto, às vezes demoro um bocadinho a formar uma linha de pensamento sobre o que se está a passar comigo. Agora reconheço o que se passa e tenho de me organizar para aceitar as feridas que estão em mim. E quando falamos de feridas, falamos de friabilidade e neste momento tenho de ter cuidado ao lamber as minhas pois não as quero em carne mas antes a sua cicatrização. E eu sou daquelas pessoas que aceita que as cicatrizes devem ser acarinhadas e servir para que nos lembremos - sempre. Não acredito que haja uma solução para se ir da ferida à pele intacta. [receio ter-vos proporcionado mais um momento de metáfora barata(?)]

Posto isto, tive de dar a mão à palmatória e adiar uma série de compromissos. Consegui reformular todos, felizmente. Custou-me especialmente um compromisso profissional que implica com a vida de uma pessoa especial, mas também sei que quando o retomar será comigo mais completa para assumir as competências que me são devidas.

E depois há outra coisa, só para tentar complicar decisões sensatas: sabem aquelas pessoas que não sabem parar? Pois, eu sou daquelas que ficam a remoer e a pensar que é um exagero, que afinal conseguiria dar vazão aos compromissos todos e tal. Mas felizmente tive um momento de lucidez quando assumi que não. E hoje senti que o esforço de ir trabalhar com tudo de mais mundano que implica - desde o acordar bem cedo, arranjar-me, ter energia para empatizar com pessoas cheias (cheias) de problemas, é o esforço que posso fazer.  Adiante.

Ao lusco-fusco, só quero cair nos braços do meu querido Chaparro e fazer tudo o resto o mais devagar possível. Sem grandes planos, segurando as pontas àquilo que não vale a pena abandonar, procurar olhar para as coisas vendo-lhes a beleza possível sem fazer um drama de cada vez que me der para o choro. 

É um grande rol que enfrento neste momento. O luto pelo sonho de gerar um filho. O luto do que implica uma histerectomia radical, aos 40, como descerrar de uma história de infertilidade. A luta do meu pai. A luta pela minha saúde, pois a cirurgia que aí vem ainda me pode trazer dissabores assim como não me garante a cura da endometriose, e a vida com a medicação e efeitos secundários de uma histerectomia radical.

Para já, o que se passa comigo é isso - a vida, e a minha é tão cheia de coisas boas que me parece que as más acabam por ser na mesma proporção advindo daí esta intensidade de mágoa.

Para já, batalharei com uma das minhas armas mais fortes: o amor pelo qual estou rodeada. Donde tenho de salientar a incondicionalidade e o orgulho com que o Chaparro se apresenta lado-a-lado comigo.
Sou uma felizarda.

Cipreste


Fulfillment, Gustav Klimt



* Miguel Esteves Cardoso via Citador

domingo, 2 de março de 2014

aviso à navegação


o blog tem estado a ser actualizado porque os posts já estavam agendados previamente, entretanto já vi que há comentários em posts mais antigos, é uma honra ser lida "no arquivo" :)
não estou a ignorar os comentários, quero apenas sentir-me melhor para responder a cada um
acontece que isto não vai lá só com boa vontade e depois de 3ªfeira piorei muito e tive de pôr baixa. Ainda não estou boa, mas há-de chegar o dia ;)

Cipreste

Para sempre

«Everyday, more of who they are unfolds and unfurls, and it feels like a miracle that we get to be here and see it. (…)We are different people for being their parents. I think they are different people for being our children. We are shaping each other, day by day, into the family that all four of us are becoming, the family that I now can’t imagine being any other way. I know now that Laura really was right, all those years ago – you really do love your real babies, always, no matter what.»

p.205


Claudia Chapman in Hypothetical Future Baby - An Unsentimental Adoption Memoir


autora do blog my fascinating life

* * *

Periodicamente, tentaremos partilhar livros que vamos lendo. Acaba hoje esta semana de excertos diários do "nosso primeiro livro sobre adopção".


6ª-feira -Uma mãe normal, uma boa mãe
Sábado - Sobre vinculação e neuro-fisiologia (levantar a ponta do véu)

Cipreste

sábado, 1 de março de 2014

Sobre vinculação e neuro-fisiologia (levantar a ponta do véu)

«When we had just met, they didn’t expect anything of me. Now they expect everything. It’s utterly exhausting. It’s endlessly frustrating. It’s infinitely gratifying.
Yes, gratifying. I find myself thinking: I did that! I made you trust me, with my manipulative mothering ways! and then I want to do a little victory dance around the living room. And okay, sometimes I close the curtains and succumb. I’m not ashamed at all of feeling thrilled about this. It’s not about making us feel like a real family, and it’s not just about warm fuzzy feelings. Secure attachment is about brain chemistry, and parental responsibilities don’t get much bigger than keeping your child’s neurochemistry somewhere within the normal range. A securely attached child sees the world as an essentially safe place, and starting life without that makes everything – everything – harder.»

p.191/192


Claudia Chapman in Hypothetical Future Baby - An Unsentimental Adoption Memoir


autora do blog my fascinating life

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Periodicamente, tentaremos partilhar livros que vamos lendo. Começamos com esta semana de excertos diários do "nosso primeiro livro sobre adopção".


6ª-feira -Uma mãe normal, uma boa mãe


Cipreste

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Uma mãe normal, uma boa mãe

«I knew I would be hard. I knew. I knew. I knew. But I didn’t know it would be like this. There are no words to describe how bad I’m coping. This is all so much more impossible than I expected. What is wrong with me, with us? (…)
“I wanted to be a different sort of person, “ I say. “It was so important to me to be a good mother. I’ve only had these babies for a week, and I feel like they have sucked my soul. I’m already a terrible mother. How can I have let the rot set in so quickly? Shouldn’t there have been a honeymoon period?”
Mum disagrees with me, gently, and tells me that I’m not a terrible mother. I appreciate the effort, but I know she’s lying; that’s what a good mother would do in this situation.
“I am,” I say. “I know it. I’ve got these two tiny babies, and they are so vulnerable, but they are so needy and I just can’t handle it. I resent them already. I know they need all of me but I don’t want to give it to them. They cry, and when I hear it my heart sinks. I don’t want to feed them again.”
“No,” she says “that doesn’t make you a bad mother. That makes you a normal mother. What makes you a good mother is that you don’t want to do it but you do it anyway.”»

p.141/142


Claudia Chapman in Hypothetical Future Baby - An Unsentimental Adoption Memoir


autora do blog my fascinating life

* * *

Periodicamente, tentaremos partilhar livros que vamos lendo. Começamos com esta semana de excertos diários do "nosso primeiro livro sobre adopção".

2ª-feira - A ideia de um filho
3ª-feira - Fazer *algo*
4ª-feira - Cansaço, a miscelânea de emoções
5ª-feira -Toda as adopções começam com uma história de perda

Cipreste

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Todas as adopções começam com uma história de perda

«We ask for information about the children’s past, how they have found themselves here, why it is that they are likely to grow up in England with two white strangers. Desta tells us their history and I connect this heart-breaking story with the two tiny infants sleeping downstairs, I don’t know how to bear it. All adoption starts with loss is something I have known ever since we started on this path, but the abstract idea of loss feels a lot less horrifying than the real personal story that will put these children in my arms.»

p.114


Claudia Chapman in Hypothetical Future Baby - An Unsentimental Adoption Memoir


autora do blog my fascinating life

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Periodicamente, tentaremos partilhar livros que vamos lendo. Começamos com esta semana de excertos diários do "nosso primeiro livro sobre adopção".

2ª-feira - A ideia de um filho
3ª-feira - Fazer *algo*
4ª-feira - Cansaço, a miscelânea de emoções


Cipreste

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Cansaço, a miscelânea de emoções


«I’m sick of crying, and I’m sick of trying to hold in the tears. I’m sick of whining about it. I’m sick of doubting myself, and wondering if I can ever be a good parent to an adopted child when the adoption process makes me so unbearably angry. You make me question myself and my choices and lose all my self-control.»
p.77


Claudia Chapman in Hypothetical Future Baby - An Unsentimental Adoption Memoir


autora do blog my fascinating life

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Periodicamente, tentaremos partilhar livros que vamos lendo. Começamos com esta semana de excertos diários do "nosso primeiro livro sobre adopção".

2ª-feira - A ideia de um filho
3ª-feira - Fazer *algo*


Cipreste

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

And sometimes we think we are not ok but really we are

Queria conseguir dizer do impacto que isto tem tido na minha vida, mas não sei se consigo. De cada vez que começo a teclar sobre esta moléstia, começo a chorar e não consigo avançar. Apago tudo e vou fazer outra coisa qualquer. Geralmente essa coisa qualquer é comer chocolate. Embora saibamos que a nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer, um chocolate é um chocolate é um chocolate. Mimo, precisamos de mimo e de compreensão. E eu tenho isso. Tudo. E nem assim posso considerar que lido bem com isto. E daí, o que será lidar bem com isto? Um chorrilho de lugares comuns construídos na base da culpa judaico-cristã, é o que vos digo.

Cenário: passar-se mal todos os meses desde os 14 anos (menarca aos 13), muitos dos meses tendo de recorrer ao hospital para controlo da dor, sofrer hemorragias imensas, ter anemia, chegar à estação em que se planeia engravidar e os meses e os anos passam, sem filhos, mas com dores. Queixa-se de não ter filhos e ainda por cima ter dores e ter de ouvir a besta o diplomado em medicina a dizer “Não sei porque se está a queixar, 70% das mulheres férteis queixam-se de dores menstruais.”. Onde diabo terá aquele energúmeno diplomado em medicina ido buscar aquela estatística?

Após o 4º médico e mais 12 anos, alguém propõe um diagnóstico pela primeira vez: ENDOMETRIOSE.

Então, isto tem nome? E não é normal, é uma doença? Não é um tanto ou quanto exagero chamar-lhe doença? Agora que me habituei a dizer que é normal. Afinal, são só dores e hemorragias incapacitantes e causa de infertilidade.

Começam agora a ver onde encaixa o chorrilho de lugares comuns construídos na base da culpa judaico-cristã?

Fomos convencidas durante anos de que as nossas condições são nada mais do que a paga por sermos mulheres. No meu caso, mais de metade da minha vida tem sido marcada pela endometriose. Façam contas, sou uma quarentona (enxuta!) e comecei nestas andanças aos 14. A primeira vez que acordei com dores não fazia a mínima ideia do que se passava comigo. Tenho tão presente essa madrugada, a minha confusão sobre o que sentia, decidir se deveria acordar os meus pais, a ida ao hospital e o alívio após a medicação. E nunca mais parou. Quer dizer, intervalou há cerca de 15 anos após uma intervenção cirúrgica por laparoscopia, mas voltou passados uns anos.

Gostava de dizer com toda a certeza que eu não sou endometriose nem a endometriose toma conta da minha vida. Mas receio não o conseguir dizer sendo totalmente honesta. A minha biografia está muito habitada por esta maldita. Tive um casamento anterior que foi muito marcado para o final devido à questão “filhos” e esta questão não pode ser separada da questão endometriose. As dores já me inibiram demasiadas vezes de socializar e de trabalhar. Após os últimos tratamentos, à procura de uma gravidez, piorou exponencialmente e agora as minhas dores não se resumem ao período menstrual. Agora não há regra, é quando lhe apetece, e onde lhe apetece. E com a intensidade que lhe apetece. E isto cansa.
E isto cansa tanto.

Já não se trata de brincar com o Síndrome Pré-menstrual, é um ciclo non-stop. Não sei com o que posso contar. Passo umas semanas sem dores, passo as semanas seguintes com dores. Faço pílula contínua mas tenho hemorragias na mesma. Vou na terceira semana. Com hemorragias e com dores. E isto cansa.

E dou por mim a calçar as sapatilhas hoje de manhã para ir para o trabalho enquanto faço contas a quantas horas faltam para regressar a casa e deitar o corpo. E dou comigo em lágrimas e a afligir o Chaparro e a pensar que merda quero sentir-me melhor, com mais força. Sem dores e com mais força. A minha cabeça está activa e não pára, quero que o meu corpo corresponda, mas ele responde-me que estou cansada e que só o quero deitar. E tudo fica tão difícil e sinto-me a perder o chão e já sei que me vão perguntar o que tenho e só me vai apetecer fugir.

E isto cansa tanto.

Porque tem o resto da vida toda à volta.
A espera pela convocatória para a cirurgia. Já vos disse que o veredico de 3 médicos para o meu pecado de endometriose foi a histerectomia radical?
A nova etapa do meu pai. Mais um tratamento, paliativo e não curativo, já sabemos senhor doutor, mas não queremos saber e repudiamos isso tudo, isso tudo, isso tudo. O meu pai está bem, muito obrigada. O meu pai está bem.
E o resto da vida toda à nossa volta.
E o nosso amigo que emigrou com uma situação incerta e dizermos uns aos outros que vai correr tudo bem. Que preocupação.
E a nossa casa a ser feliz em preparação para o nosso filho ou a nossa filha ou os nossos filhos ou as nossas filhas, para a equipa de adopções aprovar. Para a equipa de adopções aprovar. Porém a equipa nunca mais chega, porque as equipas de adopções também têm baixas no pessoal, mas nós temos tanta dificuldade em compreender como é que um processo de adopção pode ser adiado ou atrasado ou lá o que é por falta de pessoal. E não compreendemos e ficamos com medo que o nosso filho ou a nossa filha ou os nossos filhos ou as nossas filhas estejam já à nossa espera e nós que nunca mais chegamos.
E nós que nunca mais chegamos.

E o resto da vida toda à nossa volta.

E ter energia para aplicar técnicas no nosso trabalho e conseguir ter uma palavra amiga para os clientes.

E querer chegar a casa e deitar o corpo. Vemos um filme num dia e choramos. Vemos outro filme noutro dia e já sabíamos que íamos chorar. E choramos uma vez mais.

cena final do filme Monster's Ball,
em que se come gelado de chocolate  :)
e ouvimos We're gonna be alright
E chega o dia em que dizemos não. Não. Dizemos não à forma como estas dores e estas feridas estão a tomar conta de nós. E arranjamos forças e vamos a pé para casa.  E pensamos eu não sou endometriose nem a endometriose toma conta da minha vida. Fazemos os cerca de 4 km a pé e recebemos o vento no rosto e lembramo-nos que temos o fogo dentro de nós*. E sentmo-lo - ao fogo, e pensamos: we’re gonna be alright.


E depois dizemo-lo em voz alta no meio da rua e não importa quem passa. We’re gonna be alright.
Assim que entramos em casa, cai uma tromba de água e sorrimos e repetimos as palavras da nossa querida amiga: And sometimes we think we are not ok but really we are.



* referência a A Estrada de Cormac McCarthy
Cipreste

fazer *algo*


«I’m realizing more and more that adopting really, really isn’t a replacement for doing things the normal way. It’s great, but it’s not a replacement. I feel intense joy about the family that we are going to have, but I still find myself mourning the losses of what we won’t have, too, that we won’t be, what I can’t do. I expect our child will feel the same. However joyful our lives are together, he should never have had to feel the loss of one set of parents before gaining a second. (…)
Also, I want to be doing something for this child, and I cannot. I think about people telling me that this wait is like a pregnancy wait and I know in every bone of my body that they are wrong. I know that being pregnant is difficult. But those difficulties are not these difficulties.»

p.49


Claudia Chapman in Hypothetical Future Baby - An Unsentimental Adoption Memoir


autora do blog my fascinating life

* * *

Periodicamente, tentaremos partilhar livros que vamos lendo. Começamos com esta semana de excertos diários do "nosso primeiro livro sobre adopção".

2ª-feira - A ideia de um filho

Cipreste

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

a ideia de um filho


«“I don’t know that I can do this, Laura”, I say “Most babies I would conceive wouldn’t even survive. How could I get pregnant, knowing that my baby would probably never make it out alive?” I'm getting shrill. “And if it does survive, and it has serious special needs, how can I know for sure I would love it?” Shriller. “And what about Jay? Would this destroy our marriage? And how can I even be having these thoughts?” At this point, only dogs can hear me.
She says to me: “The problem is that you’re not thinking about an actual child, you’re just thinking about the idea of a child.”
“My hypothetical future baby,” I agree.»
p.17


Claudia Chapman in Hypothetical Future Baby - An Unsentimental Adoption Memoir


autora do blog my fascinating life

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Cipreste

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Raízes

Vocação para a poesia - sonhemos portanto.
Uma criança tem pouco a ver com poesia.
É a – única - coisa que a transcende. E também à realidade, aos dias seguidos, às consequências de algo – é vida.
A poesia pode ter a ver com a criança.
Uma árvore pode ter a ver com a criança enquanto poema. Não queremos que seja um tronco liso, transformado num toro, muito menos em pranchas ou tábuas. Queremos que tenha ramos e muitos deles serão tortos. E raízes. Muitas e fortes raízes. As raízes são mais importantes que os ramos, que as folhas, as flores, os frutos, mas deve ter isso tudo. Se não tiver, e os ramos forem menos vistosos, tem ou pode – deve - ter ninhos e buracos onde se acomodam outros seres.

 As crianças têm de comer, e os poetas também.

Chaparro

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

E tu, porque é que não adoptas?

Eu podia devolver a pergunta às pessoas, mas não o faço. Porque não devo. Porque isso não se faz. Esta é uma pergunta que só pode ser feita pelos amigos íntimos ou família chegada e muito raramente estes dão um passo à frente para fazer a pergunta, porque sabem que é uma pergunta que não se faz. É simplesmente errado perguntar a alguém porque-é-que-não-adopta. Vou mesmo dizer-vos que é uma pergunta de calibre filha-da-p*tice porque, para além de ser altamente indiscreta, tem lá dentro várias rasteiras emocionais, não se entra pela vida das pessoas adentro, assim, sem licença. Vou repetir: não se pergunta às pessoas porque-é-que-não-adoptam.
Uff.
E argh.

Já há algum tempo que era poupada a isto e no mesmo dia levo com a pergunta duas vezes.

Momento nº1, no bar com uma colega de trabalho.
Eu, inadvertidamente: não me apetece comer, nem o chá me apetece.
Ela: hmmm, se calhar está grávida…
(és tão burra, Cipreste, tinhas obrigação de saber que não tens o direito de desabafar uma indisposição sem ser abalroada pela suspeita de gravidez)
Eu: não, não estou.
Ela: oh, não sabe, pode estar. Não lhe apetece comer, pediu um chá mas nem esse lhe apetece, pode bem estar grávida.
(por favor, caia aqui um raio imediatamente; por favor, existe, deus, e castiga este ser)
Eu: Acredite, não estou grávida.
Ela: oh, mas não quer ter filhos?
(a sério deus, por favor, existe, e vem castigar esta ovelha que fala ao meu lado, juro que vou à missa)
Eu: Não posso.
(és mais burra do que eu pensava, Cipreste, abriste caminho para a pergunta, agora amanha-te)
Ela: oh, e porque é que não adopta?
(diabo, estás aí?)
Eu: logo veremos.
Mas ela insiste: a sério, porque é que não adopta, é tão giro!
Eu: logo veremos.

Momento nº2, ao almoço, sentada junto a duas colegas. Fazem juízos de valor conversam sobre outra colega que está grávida, mas tem uma menina de 2 anos que ainda dorme com o casal. O horror. Colega 1 não tem filhos e inclusive fez 3 fertilizações InVitro. Colega 2 tem uma menina de 2anitos e meio, que já dorme no seu quarto desde a idade em que as crianças devem dormir nos seus quartos. Claro. Eu estou calada, vou acenando com a cabeça quando me interpelam com o olhar.
Continua a superioridade moral e eu não me tenho: Bom, cada família encontrará a solução para si e desde que funcione é o que mais importa. Compreendo as teorias do que é mais preconizado como correcto, mas não sei nem posso dizer como faria se tivesse filhos.
(woohooo, Cipreste, boa! Estiveste tão bem sem abrir a boca até agora, mas tiveste de te enterrar mesmo quando a conversa podia acabar. Bem lançado, Cipreste, estás a ficar cada vez mais esperta)
Colega 2, que saberá da minha história de infertilidade: Porque é que não adopta, Cipreste?
(assim, a frio, sem mais nem menos, levo logo com esta xaropada)
Eu: porque não.
Colega 2: mas porque não, é uma boa solução.
(solução!, será o nome do meio dos meus filhos, é mesmo assim que encaro os meus futuros filhos. not.)
Eu: logo se verá.
E a Colega 1 caladinha que nem um rato. Ah, pois, porque é que ela nunca adoptou, hein? 

Não sei se vos consigo transmitir o desgaste que estas ofertas espontâneas de galhardetes com soluções existenciais provocam. É tão, mas tão intenso e cansativo e… errado. Isto não se faz.
E não me venham falar de boas intenções nem dizer que qualquer mágoa que a pergunta provoque é inadvertida.

Um dia destes, hei-de escrever alguns dos meus pensamentos sobre o processo de decisão para adoptar. Isso são outros quinhentos.

Para já, fica a velha questão: porque é que as pessoas fazem estas perguntas sem parar para pensar na pessoa que têm à frente, medir o nível de intimidade* e pertinência das suas perguntas/sugestões/intervenções? 
(por favor, não me digam que é só porque não conseguem controlar o impulso de dizer tudo o que lhes vem à mente)

* é importante que não se confunda uma certa abertura para se falar de processos de doença e infertilidade com abertura para se fazer mesa redonda de reflexões e decisões tão gigantes e íntimos como a adopção, por exemplo. Quando alguém nos abre uma porta da sua vida não quer dizer que nos tenha convidado a entrar em todas as divisões e acreditem que nestes assuntos infertilidade/adopção cada um tem a sua divisão bem marcada e independente da outra. Qualquer engenheiro da vida sabe isso.
[O momento de metáfora barata que acabaram de ler acima foi totalmente grátis.] You’re welcome. Perdoem-me, este assunto deixa-me com o pezinho no sarcasmo :/

Só mais uma coisa: eu gosto mesmo é da pergunta em Inglês, pelo toquezinho do just. É maravilhoso: why don't you just adopt? Sigam o link e poderão ver que não é só a mim que incomoda e invade.


Bom dia :)



Cipreste

da boca dos outros

Este texto é demasiado bom para não o lerem. 
A sério, marquem-no, façam um auto-reencaminhamento por email, registam nas vossas agendas, aproveitem durante uma pausa para o chá, etc., mas prometam-me que não vão deixar de o ler. 
É muito bom. Eu (ainda) não sou mãe e já o sinto plenamente. 
Mesmo considerando as diferenças entre o que penso que uma mãe adoptiva deve procurar saber, em comparação à “maternidade biológica”, é assim que penso e sinto as coisas da parentalidade. 
Tão real, tão palpável, tão de carne e osso e coração. 
Estou muito contente de ter ido parar ao blog da Menina :) 

Ide ide, ide lá ler o texto sobre o tipo de mãe que se é.

Cipreste

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Wishlist

Quanto a lancheiras, cara cipreste estamos conversados:
Estas são muito giras e arrumam-se bem e o termo para as bebidas é o mais porreiro de todos.
Penso que não oferece dúvidas :)


Chaparro

(compras racionais) e (será que estou a projectar blábláblá?)

Ontem encomendámos 2 livros pela net. Não temos muito hábito de fazer compras online, gostamos de ir à fonte, dar os bons dias a quem está atrás do balcão, palpar e cheirar as coisas antes de as comprar, beber um café pelo caminho, fazer o caminho de mãos dadas, enfim, gostamos de coisas de carne e osso. Não quer dizer que por vezes não recorramos ao clique. O que dita essas compras é geralmente o facto de não ter o produto acessível na nossa cidade ou por ter um preço que lamentavelmente nos faz abdicar dos bons dias a quem está atrás do balcão, etc. etc.
Temos lido bastante sobre adopção, sempre a partir de material disponível na net (blogs, artigos, teses), só tínhamos comprado um livro até agora. E foi uma bela compra, ambos o lemos (nota mental: a ver se deixo aqui uns excertos, um dia destes). Agora aguardamos A Aventura da Adopção de John R. Thompson e Karen J. Foli e Este Meu Filho que Eu Não Tive, A adopção e os seus problemas de João Seabra Diniz. Não são os que estavam no topo da lista mas algumas circunstâncias levaram a que cheguem primeiro. Vamos ver o que nos dizem.

Entretanto, e ainda sobre compras e mais especificamente sobre compras na net, tenho de confessar que ultimamente ando com mais dificuldade em controlar os meus cliques, mais do que alguma vez tive com o controlo do hábito do tabaco, por exemplo (e para verem o quão intenso isto é). Fica-me estranhamente difícil não comprar certas e determinadas coisas. Digo estranhamente porque nem por isso me considero uma pessoa que compra por impulso (na verdade, nem sequer sei se sou forreta, mas acho que não sou). 

Acontece que ao pesquisar a imagem de um brinquedo para o último post sobre o enxoval dei de caras com todo um mundo revivalista que me dá uns calores de felicidade no peito deixando-me sozinha e impotente com os tais impulsos para clicar no botão “comprar”.

Deixo-vos dois exemplos de coisas que os meus filhos têm-de-ter porque, convenhamos, os meus filhos têm-de-ter isto:




e esta lancheira, é absolutamente imprescindível ter uma lancheira do Curious George!

eu gostava tanto (mas tanto!) das histórias deste maluco que até deu azo a crítica da minha educadora de infância que me acusou de não ser original e escolher sempre o mesmo livro (bof!)

Percebem agora o drama de uma pobre futura mãe assalariada que tem acesso à net no trabalho e que ao invés de ir ao bar tomar um café fica a seguir link-após-link e a suspirar e a lembrar-se de quão feliz foi na sua infância?
Afinal, criar não é (também) proporcionar momentos felizes aos nossos filhos? Se estes objectos/personagens nos trouxeram tanta felicidade nas nossas infâncias, não fazemos mais do que a nossa obrigação ao transmiti-los aos nossos filhos.
Parece-me que sim, mas isso também pode ser só o impulso para clicar no botão “comprar” a falar.

Cipreste


p.s. só mais uma coisinha: será que conseguem imaginar o quanto me tive de conter para não deixar um post quilométrico e resumir-me a apenas dois (2!) objectos de desejo? Por exemplo, não postei esta sacola que qualquer mãe deve ter para transportar lanchinhos para os filhos.