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sábado, 12 de abril de 2014
sexta-feira, 11 de abril de 2014
cenas dos próximos episódios (e um esclarecimento)
Que é como quem anuncia os posts que estão no forno:
~ Exercícios do futuro hipotético - coisas do contacto com a equipa de adopções
~ Crescer - e educar, nesta era online
~ ~ ~
Cipreste
~ Exercícios do futuro hipotético - coisas do contacto com a equipa de adopções
~ Crescer - e educar, nesta era online
~ ~ ~
E o esclarecimento:
No texto de ontem, sobre ter-me caracterizado como uma daquelas que sempre quis ser mãe desde pequenina, quero dizer que, entre aquelas que sempre quiseram ser mãe e aquelas que só se lembraram disso quando sentiram o tic-tac biológico, a minha opinião é simples e directa: a única diferença estará na quantidade de anos que se passa a sonhar com as coisas, de resto, os sonhos e as desilusões serão sentidos da mesma forma.
~ ~ ~
Amanhã, os meus pais comemoram as bodas de ouro, não sei se venho aqui deixar umas palavras ou se só volto depois dos festejos em família. O Freixo vem aí para completar o ramalhete. Vai ser bonito.
Ficam já os desejos de que tenham um fim-de-semana maravilhoso.
Bom dia :)
Cipreste
quinta-feira, 10 de abril de 2014
Sonhar, uma constante da vida*
Sonho com a maternidade desde pequenina. Percorri o Anita Mamã vezes sem conta, sei-o de cor. Comecei por sonhar com bordado inglês e colónia de bebé e sapatinhos Chicco e fraldas e biberões. Sonhei com papas e sestas consoladas e histórias da noite. Sonhei que cuidaria de uma família – da minha família, que cuidaria de preparar cada um para o mundo lá fora. Sonhei com dois mundos, o de fora e o de dentro.
Sonhei com cheirinho a bebé e cedo comecei a cirandar as vizinhas que tinham bebés. E passei a ser uma espécie de ajuda para ficar a ver o bebé “enquanto vou só ali à loja”. Assim que as minhas mãos atingiram o tamanho suficiente, confiaram-me mudas de fraldas e rapidamente passei a poder dar as papas também. Tudo - tudo - me encantava. Estes bebés, por vezes irmãs e irmãos dos meus amigos, esticavam os braços para mim como segunda pessoa de eleição após as suas mães. Volta e meia, eu andava rodeada de bebés e infantes (e de cães, mas isso é uma história para contar noutro dia). No meio disto, sonhava com a minha hora. Quando eu for mãe. Ponto final. Sem reticências.
Vieram os sobrinhos e uma nova dimensão da vivência do amor às crianças. E passei a cuidar com outra responsabilidade. Por esta altura, sonhar com a maternidade era muito mais do que a Anita Mamã. Eu já tinha passado pelas noites de choro da minha menina, pelas suas dorzinhas na perna aos dois anos (que nenhum médico conseguia resolver, uma angústia), pela traquinice do mais novo, pelas birritas dos dois, pela surpresa da alegria que se sente só de se pensar naqueles dois seres. O sonho de ser mãe era algo mais. Crescera comigo. Eu era casada com o tio deles e sonhava com o dia em que lhes daria primos e os veria todos juntos a brincar.
Entretanto, a infertilidade foi admitida. Fui operada, fiz uma gravidez e sofri um aborto espontâneo. Pelo meio, houve a possibilidade de adopção que não foi concretizada (um dia destes vou falar – muito – disto). E veio o divórcio.
A vida deu uma reviravolta e eu nunca dei primos à Princesa e ao Gostarzinho. Cresceram sem brincar com os primos e isso ficou-me sempre como uma mágoa. Sonhei tanto com os primos todos juntos. E é disso que quero dizer - que sonhamos. Que é impossível não sonhar.
Depois vi-me sozinha numa cidade sem qualquer raiz, qualquer amizade, apenas trabalho. Hoje parece-me que os anos entre essa solidão e o encontro com o Chaparro foram muito mais rápidos do que, de facto, foram. Nesse tempo, o sonho de ser mãe deixou de fazer sentido. Nunca tive o impulso de construir uma família sem um companheiro. Agora, já penso que talvez nesta idade considerasse ser mãe solteira, acaso não estivesse numa relação, mas na altura nunca me passou pela cabeça. Assim, o sonho de ser mãe adormeceu durante alguns anos.
A nossa relação aconteceu muito rapidamente. Logo percebemos que estávamos para ficar e, com isso, planeámos, também logo, a vida a dois. E dei por mim a olhar para ele e a pensar “quero ter filhos com ele, quero que seja o pai dos meus filhos”. E o sentimento foi recíproco, falámos desde cedo em filhos. No entanto, eu trazia uma ferida ainda aberta do meu passado – tanto da infertilidade e da perda, como da adopção não concretizada. E percebi a força que o medo pode ter sobre nós, uma força monstruosa.
Para que saibam o quanto resisti a recomeçar nas consultas, digo-vos que marcámos uma consulta em 2010 (4 anos após o início da relação), no privado, para obter um diagnóstico, mas tivemos de desmarcar por motivos de saúde familiar e só voltámos a remarcar em 2011, e não estou a falar da distância Dezembro-Janeiro, mas de 11 meses.
Recomeçado o vai-vem das consultas de infertilidade, vi-me no meio de picas, medo, ecografias, ansiedade, exames dolorosos, desilusões, a mágoa de não atingir um sonho. Cada insucesso na infertilidade foi como uma derrota que me deitou abaixo naquilo que me deveria ser de direito, por natureza e não por decretos inventados pela humanidade. Aqueles momentos nas salas de espera, aquele lugar prévio a nos dizerem se havia folículos, se haveria lugar a punção, se houve óvulos, se houve fecundação, se haveria transferência, eram esperas de um desgaste horroroso. E eu perdi a luta. A cada falha, era eu que não prestava, era eu dilacerada por dentro. Era o meu sonho destruído, passo a passo.
Chegou o dia em que conseguimos dois embriões e eu lutei com todas as minhas forças para fingir, para mim e para os outros, que estava lidar bem com o facto da bióloga me dizer que os meus meninos não estavam a evoluir. Ao fim de dois dias, recebi a notícia – os nossos embriões eram inviáveis. Inviáveis, os meus filhos eram inviáveis e nunca chegariam a entrar no meu útero (também inviável, já agora…). Foram os cortes derradeiros na minha alma. Ajudei a fazer os golpes, em modo de automutilação, fingindo que estava a lidar bem com aquilo tudo. A dor foi tão grande que não consegui encará-la de frente. E acreditem que se há coisa que sou é corajosa, mas as pernas falharam-me e não consegui olhar a minha dor de frente.
Fingi que me prepararia para novo tratamento.
Chorei pouco na altura. Ando a chorar agora, aos bocadinhos. Já percebi que funciono assim, fiz o mesmo quando sofri o aborto, não chorei no momento e depois fiz o luto ao relanti. Penso que esta forma de estar nas coisas protege-me, por um lado, de não cair numa cama a chorar durante semanas seguidas, mas, por outro lado, traz-me num sofrimento mais arrastado.
Há dias, numa sala privada online em que participo, uma companheira de luta deixou-nos esta mensagem:
«O sonho acabou...
Fiz um tratamento de infertilidade, o beta na sexta deu positivo, hoje repeti e o valor baixou, estou mal...a minha revolta é muito grande, tantos sacrifícios e o final é o mais devastador!
Nunca deixem de acreditar, mas hoje não estou nos dias para ter estes pensamentos, são anos de muita batalha!
Um beijinho a todas»
O sonho acabou, reticências. Há tanta coisa dentro destas reticências. Reparem que não me arrogo falar em nome da mulher que recebeu a notícia brutal. Não falo em nome de mais ninguém, senão de mim. Sei apenas que há coisas da dor que têm nome e reconheço-as amiúde em companheiras de confidência. Esta mensagem foi apenas um mote para me tocar a ferida e humedecer os olhos em nome de uma estranha.
Falo do que é em mim este sonho de ser mãe. Falo do que é o corpo todo abrasado em nome de um sonho. Falo das reticências que abomino na escrita literária, mas que não sei como contornar quando falo do meu sonho de ser mãe.
Definitivamente, ainda tenho lágrimas para chorar. Ainda não consigo ler relatos destes sem sentir tudo cá dentro, cada momento, o telefonema... os seus embriões não resistiram. Sem reticências, não eram viáveis, ponto final.
Passados cerca de 2 meses, acordei num bonito Sábado de manhã e senti no meu coração que podia partir para a adopção. O Freixo estava cá, chamei o Chaparro ao quarto, que já se tinha levantado, e falámos em sussurro para não fazer barulho. Disse-lhe que entendia que uma nova fertilização InVitro seria mal sucedida porque a minha endometriose claramente tinha piorado. Perguntei-lhe o que sentia em relação à adopção dizendo-lhe que me sentia cheia de amor para dar e de força para enfrentar (novamente) um processo de adopção.
E o Chaparro sorriu com o seu sorriso maravilhoso e disse-me que só estava à espera de encerrarmos o capítulo dos tratamentos para ter “a conversa da adopção” comigo.
Reparem nesta ideia: ele, o meu amor, só estava à espera que eu me preparasse.
É possível ser mais afortunada do que isto?
É esta a história da minha vida. É este o rumo do meu sonho de ser mãe, do meu sonho de ter filhos. Tenho uma ferida cá dentro, mas também tenho esperança. Escolhi o caminho da adopção e entretanto percebi que a adopção não é, de facto, uma alternativa à forma biológica da maternidade. São mundos paralelos. Mas o meu sonho é o mesmo: ter filhos.
Cipreste
* evocando António Gedeão in Pedra Filosofal
quarta-feira, 9 de abril de 2014
Apresentando a nossa família: as crianças
Hoje vou mostrar-vos um pouco mais de nós.
Tenho andado a escrever um texto sobre o sonho de ser mãe e, lá pelo meio, deu-me para começar a falar dos meus meninos e das minhas meninas, pelo que resolvi que era altura de vos apresentar a família. Não vou entrar em pormenores sobre as personalidades de cada um, mas apenas referir as suas chegadas à minha vida.
Começando pela pequena mais velha, conhecida por A princesa, com… 22 anitos. A minha menina pequenina, portanto. A gravidez, não tendo sido propriamente planeada, foi vivida pelos os pais com alguma parcimónia no início. Mas eu não estive com meias medidas e, nem pensei se era cedo ou não, ofereci-lhes uma blusa de bordado da Madeira, sem saber que era a primeira prenda. Disseram-me que ficaram tão enternecidos com o meu gesto que gostavam que eu aceitasse ser madrinha do bebé. E eu aceitei, lisonjeada. Esta menina é um dos grandes amores da minha vida. Só de o escrever sinto o peito cheio de alegria. É a minha menina mais velha. Dois anos e meio depois da sua chegada, nasceu o mano – o meu Gostarzinho, e assim me vi como A Madrinha das duas crianças mais doces, com tanto amor e tanta alegria a invadir-me a vida.
Depois, vieram as meninas da minha irmã. Mais uma emoção sem igual. Nem a consigo descrever. Os nomes que lhes dei: Líti, a mais velha, com 10 anos, e Noqui, a mais nova, com 8 anos.
Vivo a cerca de 100km da minha família, os meus pais e a minha irmã vivem lado-a-lado. E suspeito que a minha irmã criou uma espécie de culto da tia Cipreste lá em casa. A forma entusiasta com que sou sempre recebida por elas e a desilusão que mostram sempre que é hora de vir embora deixam-me com um sentimento de reconhecimento que hei-de agradecer sempre à minha irmã. É muita generosidade. Há coisas da vida que ficam para ser faladas “quando a tia Cipreste vier cá a casa” e isso dá-nos um lugar muito especial, só nosso. Se acaso uma delas resolve desconfiar de alguma coisa que lhe digo e lhe pergunto “alguma vez te menti?” e me responde “não, tia, nunca me mentiste” sinto a verdade e o tamanho que a nossa relação tem.
Dos meus sobrinhos mais velhos, acabei por ser um pouco uma mãe, porque foi assim que a vida se proporcionou. Nunca esquecerei o dia em que a minha cunhada me reconheceu: tu também és mãe deles, és a sua segunda mãe. Quanta generosidade.
Das minhas sobrinhas mais novas fui sempre a tia, a viver longe e a tentar recompor a minha vida e a aproveitar cada minuto juntas, deixando as responsabilidades para os pais.
Depois chegou o Chaparro e foi logo adoptado como tio por todos eles.
Com a chegada do Chaparro, veio também o Freixo (tinha 7 anitos, hoje está com 15 anos) e um turbilhão de emoções. Primeiro, pensar que talvez não o devesse sequer conhecer porque muito provavelmente não levaria a relação adiante pelo que seria emocionalmente muito mais seguro para toda a gente que não nos conhecêssemos. O tempo passou e acabámos por nos conhecer. E eu com aqueles mitos todos de que os putos odeiam as namoradas do pai mas o diacho do puto foi simpático e muito receptivo. Resumindo: conquistou-me. Perguntou logo ao pai se eu seria a sua madrasta, mas fez questão de frisar que não gostava do termo, muito provavelmente à causa dos contos dos irmãos Grimm. O tempo passou e os afectos começaram a ocupar o seu lugar. E eu sempre muito consciente, sempre com os travões accionados a repetir: não sou a mãe dele, ele tem mãe.
Não quero dizer que tenha sido difícil construir a minha relação com o Freixo, porque não o foi, ele é muito afável e uma pessoa que gosta da família, e já era assim em garoto. Sempre me incluiu na família. Um dia, disse ao pai que gostava de ter mais irmãos (tem dois, mais novos, do lado da mãe) que fossem “filhos da Cipreste”. Querem mais generosidade do que isto?
Enfim, temos a nossa relação, temos as nossas cenas que são só nossas, a nossa cumplicidade. E é muito bom quando estamos os três juntos e a receptividade dele face ao nosso casamento, depois aos tratamentos e agora face à adopção é das coisas melhores para nós, faz de nós três uma família (mais o gato, vá).
Temos mais dois sobrinhos: os manos do Freixo. São o T., com 9 anos e o D., com 5 anos. O mais pequeno, como nunca passa muito tempo connosco é um tímido, ainda se esconde muito de nós. Já o T., posso dizer que tem uma relação connosco. Há 2 anos passou duas semanas em nossa casa, nas férias de Verão. E foi muito bonito. Tanto pelo gesto do Freixo querer trazer o irmão, bem mais novo, como pela forma como se mostrou sentir em casa. Dá os abraços mais gostosos do mundo.
E agora a família vai aumentar porque vamos ser tios de novo, por vias da mana Chaparra.
Há dias, alguém, dizia ao Chaparro que finalmente ia saber o que é ser tio e ele respondeu, muito pronto, que já é tio (pelo meu lado da família). E eu senti o coração quentinho.
E agora só uma curiosidade: Se fizerem contas, perceberão que neste grupo de 8 crianças*, metade são “de sangue” e outra metade não são. Penso que isto diz algo sobre de onde não vem o amor.
Cipreste
* ok, ok, a Princesa, o Gostarzinho e o Freixo já não são crianças, mas contam na mesma; e já estou a contar com o/a sobrinho/a que vem aí
terça-feira, 8 de abril de 2014
isto anda (mesmo) tudo ligado
ao concentrar-me em questões históricas e factuais sobre a adopção, estou sempre a evocar isto:
um dia destes tento arrumar estas ideias e vir cá explicar-me
Despicable me
Ontem vi Gru, o mal disposto, pela primeira vez. Era só para dizer isso. Bom dia.
Cipreste
Nota mental: criar uma coluna no rodapé do blog com filmes que façam alusão à adopção.
Cipreste
Nota mental: criar uma coluna no rodapé do blog com filmes que façam alusão à adopção.
segunda-feira, 7 de abril de 2014
da protecção das crianças nesta era online
Ontem sonhei com uma menina que não conheço. Quer dizer, conheço, mas não conheço. Trata-se de uma menina cuja história acompanho online há 2 anos.
Visito amiúde uma mão-cheia de blogs sobre parentalidade e adopção, a maior parte anglófonos, há cerca de 3/4 anos. Antes mesmo de decidirmos pelo caminho da adopção. Digamos que antes de nos admitirmos, de nos assumirmos um ao outro, com vontade de embarcar na adopção. Dentre estes blogs, vou acompanhando a história desta menina e a da sua irmã (mais velha) - cuja história foi uma das primeiras que comecei a acompanhar.
Creio que o Chaparro não visita o blog, mas reconhece os nomes das meninas e as suas histórias, quando o informo de alguma novidade nunca pergunta “quem?!”, antes diz “oh, que bom” ou “que giro”.
Portanto, e pensando nisso agora, é como se estivéssemos a falar das filhotas de algum vizinho ou de amigos distantes. Acontece que não é disso que se trata, pois a relação não é bilateral. Nós sabemos quem é aquela família. Ou, no mínimo, conhecemos-lhes os rostos, para não falar de muitas coisas dos seus percursos de vida. Estão lá as imagens para vermos: blog, instagram, flickr, facebook, twitter, etc. E diga-se que são uma família bonita de se ver. E, repare-se que não se trata só de ver, trata-se de se associar a imagem ao que se sabe. Acompanhámos cada passo de cada cirurgia da mais nova. Sabíamos onde é que ela estava internada. Sabemos onde fazem as suas compras, onde gostam de ir tomar café. Sabemos datas, por ex, quando fazem anos.
É muita informação sobre uma família que, de mim, o máximo que poderá deter será o IP.
Esta era online traz-me sempre em reflexão. Nada é linear e nada compreendo à primeira. Quando penso que compreendi uma camada da existência online, percebo que há mais algumas que não estão tão visíveis, e volto quase à estaca zero nas conclusões a que havia chegado.
Sou do meu tempo, sou deste tempo. Não estaria aqui a comunicar convosco se não o fosse. Nunca andei no MIRC nem no IRC. Leio e detenho blogs desde cerca de 2003. Usei fóruns. Tenho uma conta pessoal no facebook com algumas páginas associadas. Agora que falamos nisso, nunca me ocorreu abrir uma página para este blog (será necessário ou útil?). Não twitto, porque não lhe acho graça. Enfim, sou do meu tempo. Porém vou sendo-o devagarinho. Talvez tenha sido das últimas entre os meus amigos a criar conta no facebook. Há fotos minhas com o rosto perfeitamente identificado, porque alguns amigos começaram a afixá-las (sem me perguntar, já agora) e dum ou outro evento duma coisa a que estou ligada e da qual ficaria difícil controlar a publicação de imagens, no caso de eu eventualmente fazer questão de não aparecer (mas chega a pouquíssima gente). Raramente uso uma foto do meu rosto no perfil e quando uso é sempre um pouco desfocada. Nunca partilho fotos de cenas domésticas com a identificação explícita das pessoas, e zelo sempre com mais cuidado pela identificação de pessoas que sei não estarem confortáveis com os fenómenos do online (nomeadamente duas grandes amigas).
Disclaimer: esta é a minha forma de estar online, não é melhor nem pior do que as outras (bom, e daí, outro assunto, acho que sim, que há pessoas que sabem melhor do que outras sobre como estar online), esta é a que me é natural e confortável.
Disclaimer: esta é a minha forma de estar online, não é melhor nem pior do que as outras (bom, e daí, outro assunto, acho que sim, que há pessoas que sabem melhor do que outras sobre como estar online), esta é a que me é natural e confortável.
Este assunto dá muito pano para mangas. E eu agora podia falar de educação e etiqueta online. Podia falar da liberdade a que algumas pessoas se dão publicando fotografias de terceiros sem se "importunarem" lembrarem de pedir autorização. Podia falar das relações online, nomeadamente de uma das coisas que mais abomino – os recados, vulgo indirectas, online. A falta de carácter que se vê a olhos nus de quem prefere deixar recados a resolver as suas questões olhos nos olhos é, para mim, das revelações mais óbvias da pobreza de espírito das pessoas. E nós a ver tudo e a pessoa a pensar que está a fazer um figurão: triste.
Adiante que eu dizia que isto dá pano para mangas mas o que me traz hoje aqui é a identificação de pessoas, especificamente de crianças e, mais especificamente ainda, a identificação de crianças adoptadas.
Sinceramente, se alguém me viesse dizer que sonhou com um filho meu, filho que não conhece para além das fotos e histórias do blog, acho que o meu primeiro impulso seria apagar o blog. Estou a exagerar ou isto arrepia um bocado? Ou devo simplesmente encarar estas meninas como vedetas, pessoas cujos rostos e histórias são públicos?
Reparem, o meu sonho foi muito inocente. Ainda assim, acordei com a sensação de ter sonhado algo que não devia.
Bom, talvez eu seja uma grande pudica e eram evitadas estas linhas todas de parlapié. Não sei, mas hei-de solucionar esta sensação estranha de ter sonhado que passeava a menina.
Para já, isto só veio confirmar a minha ideia de que pouco provavelmente divulgarei de forma explícita a imagem dos meus futuros filhos.
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| esta imagem é-me tão ternurenta, vi-a ali e ficou-me cá dentro :) |
Poucas pessoas dos meus relacionamentos têm conhecimento deste blog, talvez meia-dúzia e, dessas, são poucas as que me dizem que o visitam. Não o escondo dos meus amigos, apenas não creio que muitos deles tivessem interesse em lê-lo. Das pessoas que não me conhecem, acho que consigo preservar a nossa identidade. Até porque não somos pessoas públicas. Estou, portanto, convencida de que se tiram poucos nabos desta púcara. Ou antes, pelas partilhas de pensamentos que faço, conhecem-me mais a alma do que o rosto, o nome, a minha profissão ou onde vivo.
É bem certo que eu própria vou olhando as fotos dos meninos dos outros, mas não deixo de ler ou visitar blogs cujas imagens dos envolvidos estão protegidas. É também certo que pode chegar aqui alguém e reconhecer-me, nesse caso, sou grata pela vossa discrição ;)
Algumas notas para finalizar:
- discutir as motivações de algumas pessoas para se exporem, e às suas famílias, nos blogs e quejandos, sugerindo interesses de audiência associados a patrocínios são outros quinhentos e eu nem sequer vou por aí;
- há milhões de imagens de crianças online, bem sei, para publicidade, informação, sensibilização, etc., mas não é o mesmo que estar a imagem associada a relatos de vida;
- mesmo para famílias sem associação a adopção ou outras questões que incutam mais protecção, aqueles que crêem ser inócuo associar a imagem dos seus filhos a relatos engraçados das suas tropleias, podem sempre estar a dar informações, aos seus coleguinhas de escola por exemplo, que não têm a certeza de ser informação a ser usada de forma inocente.
- deixando de lado teorias da conspiração, podem perguntar-me o que é que penso que pode acontecer de mal por divulgar a imagem de crianças - sei lá, um completo estranho sonhar com os vossos filhos não vos parece suficientemente estranho e justificação para nos sentarmos a pensar e a falar disto?
- Don't get me wrong. Tenho tirado muito partido da dimensão online do mundo da parentalidade e da adopção. E gosto muito. E faz-me bem. Estou só a falar de cuidados que acho que não devemos descurar.
- Etc., etc. Eu disse: pano para mangas.
Bom dia e desejos de que tenham uma semana bonita,
Cipreste
domingo, 6 de abril de 2014
Merecer ser amado, cuidado, acarinhado
Não resisti a fazer uma tradução-livre do "texto":
Por vezes, alguém magoa-nos tanto que deixa de doer de todo. Até que algo no faz sentir de novo. E depois volta tudo, cada palavra. Cada dor. Cada momento.
Como é que poderás alguma vez perceber de onde venho? Mesmo que perguntes. Mesmo que oiças. Não estás aqui, nem viste, nem sentiste. Tu não te lembras da minha história. Não caminhaste no meu trilho. Não viste o que eu vi.
O meu passado define-me. Isto é o que eu sou. Eu sou: invisível, sem voz, indesejada. Isto é o que eu sou, se é que sou algo.
Parece que a mesma coisa que me manteve foi a mesma que me levou abaixo. O mundo virou-se do avesso e a ordem desapareceu. Nada foi como deveria ser e uma tristeza dura preencheu-me a alma.
De forma cada vez mais profunda, afundei em mim mesma. E nada me conseguia fazer ressurgir. Encarcerada na miséria da minha vida. Perdida na dor da minha alma. Incapaz de ver a luz. Incapaz de ver a alvorada, de sentir, de ter esperança, de sonhar.
E assim os dias escuros continuavam a chegar, e as noites negros da minha alma não paravam. Parecia que era sempre de noite com pesadelos, e que nunca era de manhã. E talvez nos questionemos “porquê?”, mas na maior parte do tempo tentamos nem pensar nisso e tentamos escapar e sobreviver. E tudo o resto fica tão insignificante, a única coisa que desejamos é recuperar o que tínhamos. Como desejar que pudéssemos ver a nossa mãe a sorrir de novo. E ouvi-la a cantar aquela canção preferida que sempre nos acalmou. Ou, se não podemos recuperar a nossa mãe que, pelo menos, pudéssemos tomar conta do nosso irmão bebé. Porque sabemos que ele precisa de nós e que vai ter medo e sentir-se sozinho. E quem é que lhe vai agarrar a mão e segredar-lhe que vai correr tudo bem? E quem o há-de segredar a mim?
Sei que sou desamparada, dependente, desesperada. Mas o que acontece quando aqueles de quem precisávamos são os que mais ameaçam a nossa própria existência? Já ouvi muitas promessas, e todas soam ao mesmo. Se eu tentar o suficientemente, mais tarde ou mais cedo, todas as promessas provam ser vãs.
O sol nasce toas as manhãs, mas saberemos onde? Em cada lugar, é num sítio diferente. É difícil encontrar o norte quando continuamos a mudar, mas acabamos por encontra-lo. Ao menos isso. Habituei-me a depender disso. E devagarinho, devagarinho, as estações mudaram. E parecia que, desta vez, talvez o tapete não seria puxado por debaixo dos meus pés, de novo. Pés a salvo, raízes a começar a crescer, pequenos pedaços de esperança para mim. Devagarinho a tentar confiar nesta vida nova.
Desejo que alguém me diga que vai correr tudo bem. Que um dia, talvez, me sinta normal. E que não me sinta sempre sozinha. Que tenha uma mãe que me abrace e que seja forte por mim. Porque, talvez, eu não consiga fazer tudo sozinha.
Este é o meu passado. A minha história não é culpa minha, não é por minha causa. E não tem de ser o que define o meu futuro. Eu sou amável, eu mereço cuidado. E um vislumbre de luz faz toda a diferença.
Os vislumbres de luz dão-me esperança de que um dia o meu Verão chegue.
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“It would be impossible to fully understand the life and emotions of a child going through the foster care system, but this short narrative film portrays that saga in a poetic light, with brushes of fear, anger, sadness, and a tiny bit of hope.” - Santa Barbara Independent via
Cipreste
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Nota pessoal: O vídeo foi realizado para sensibilização sobre famílias de acolhimento, mas o que me interessa mesmo nele é a forma eficaz como nos deixa perceber o universo da criança que vive traumas, é retirada à família e entregue a estranhos. Nada mais consigo dizer, estou demasiado comovida.
Cipreste
sábado, 5 de abril de 2014
quinta-feira, 3 de abril de 2014
Sugestão do dia
Hoje comprei este livro para o filhote de uma amiga. Tenho um exemplar há cerca de 15 anos, oferecido pela minha melhor amiga. Passei a comprá-lo, de vez em quando, para adultos e crianças, indiscriminadamente. Já passavam alguns anos desde a última vez que o comprara para alguém. Emocionei-me quando o abri de novo. É bonito. Pronto. Era isso.
Deixei mais dois encomendados - para uma adulta e para um crianço.
Achei que devia partilhar este segredo convosco. Estará certamente disponível na vossa livraria.
De nada. :)
Cipreste
quarta-feira, 2 de abril de 2014
parole parole parole - parte II
Disclaimer: não me levem a mal o eventual tom abespinhado neste post. Reservo-me o direito. Ainda assim, podem reclamar se não gostarem. Ouvirei cada reclamação com a atenção devida :)
É outra coisa que corremos o risco de ouvir quando falamos com algumas pessoas sobre o processo de adopção.
Para começar, digam-me por favor: alguém tem a veleidade de saber em que se vai meter antes de se meter em seja o que for? Será que não é do senso comum que ninguém sabe, de facto, em que se vai meter antes de se meter nelas?
Aborrece-me um bocado esta pose. Sim, é uma pose. Como se eu fora uma inconsciente e a pessoa do outro lado do discurso esteja a ver a realidade muito além daquilo que eu possa alcançar e que me resta confiar no seu aviso: Que eu veja lá bem no que é que me estou a meter. E pronto, oiço isto e depois o quê? Faço provas da minha idoneidade, atestando o meu (impossível) conhecimento total e esgotado sobre aquilo em que me vou meter? Ou desisto porque, oh, não tinha pensado nisso, muito obrigada pelo laivo de clarividência?
Ouvi isto há dias, de uma pessoa sem filhos. Também este Verão tive uma conversa surreal, com outra pessoa, à volta deste aviso.
Sinceramente, não compreendo.
Sabem, é que de boas intenções está o inferno cheio e isto ofende. É bem certo que sou uma pessoa muito séria e muito cheia de mim e que levo as palavras das outras pessoas como se elas também quisessem dizer aquilo que realmente dizem. Eu sei. Duh para mim.
A conversa do passado Verão foi tão estranha que a pessoa, mãe de uma menina pré-adolescente, quase admitiu que estava arrependida de ter tido a filha. Wow. Falávamos de tratamentos de fertilidade e de adopção e a questão era se tínhamos mesmo pensado nas coisas a sério. O remate da pergunta era uma exclamação: tu não sabes o que é, como é, ser mãe. Tcharan. Eu-não-sei-o-que-é-ser-mãe. [Momento Prémio Sensibilidade do Ano com o patrocínio das evidências presentes na minha vida desde 1997]
Passa pela cabeça de alguém que me conheça que eu nunca me tenha aventurado nas questões do que poderá ser ter um filho? A sério, não percebo. Há pessoas que dizem coisas só para dizer coisas, não é? Sujeitei-me a cirurgia e tratamentos, passei por gravidez e aborto, embarco na adopção, mas nunca me ocorreu pensar em divagar no que poderá ser isso de se ser mãe, isso de ter um filho à minha responsabilidade. Hum? Depois disto tudo, é óbvio que a clarividência está do lado de quem está saturado de viver o peso das responsabilidades de se ser pai (ou mãe) e que embora ame o seu filho não o deseja para mim.
Não consigo perceber, alguém por favor me explique o que leva alguém a fazer este aviso. É que, reparem, serei tão volúvel que, após o aviso, comece a pensar que afinal as “compensações” de que alguns falam sejam uma treta, a grande mentira? Afinal, não vale a pena “ficar para segundo plano” e “abdicar de toda a minha liberdade”? Ah, ok, então parem as rotativas que eu já não quero nada disto, foi apenas um equívoco. Talvez seja bom parar mesmo. Ocorre-me agora que talvez me consideram incapaz da maternidade, até a que não tem filhos. Afinal, será que o Universo tem tentado falar comigo, com o meu percurso de vida, para me dizer “Cipreste, desiste, tu não nasceste para ser mãe, tu não estás talhada para isto”?
E agora, paramos?
Não, não paramos.
Ninguém é bom juiz em causa própria, bem sei, mas não admito este tipo de discurso a ninguém. Ainda sou uma pessoa imputável, e não o sou mais nem menos do que qualquer uma das pessoas que proferiram estes avisos. Não tenho medo de correr o risco de ser (mais) feliz. Tenho um ego de tamanho q.b. pelo que confio no meu discernimento. Não me avisem das coisas óbvias do futuro como das abdicações inerentes à maternidade, por exemplo, antes ofereçam o vosso apoio. Isso, ou afastem as energias negativas que nós precisamos é de apoio. Todos sabemos que nunca estamos a ver o quadro todo antes de estarmos lá dentro. Mas certas evidências em nada ajudam, só trazem de fora uma mensagem de falta de confiança em nós.
Já agora, e para que não restem dúvidas, não encaramos a adopção como ir buscar um cão ao canil municipal. E até conseguimos compreender que adoptar um animal já envolve algum nível de responsabilidade. Não é à toa que sobrevive um gato cá em casa há 10 anos.Eu-não-sei-o-que-é-ser-mãe, pois não, não sei, obrigada. Mas hei-de saber e espero que seja, em primeiro plano, uma dádiva bonita e não um peso.
Eu hei-de ser capaz, o Chaparro há-de ser capaz. Nós seremos capazes.
Não sabemos no que nos estamos a meter, mas seremos capaz de o fazer o melhor que nos seja possível fazer: com amor e boa vontade.
Deixo uma proposta: ‘bora ser felizes com os sonhos uns dos outros?
Cipreste
parole parole parole - parte I
Daquilo que dizemos uns aos outros.
Nunca me não habituei a esta ideia de que algumas pessoas, por vezes, não queriam bem dizer aquilo que disseram nem queriam bem ter feito aquilo que fizeram. Baralho-me e levo as coisas a peito, partindo do princípio equivocado de que somos todos pessoas francas. Sim, estou a entrar pelas generalidades sobre aquilo que dizemos uns aos outros. Já explico melhor.
Há dias, líamos antes de dormir, ou antes eu lia já no sofá e o Chaparro, invejoso, foi buscar a sua leitura também. Digo invejoso porque eu lia o Adoption Reunion in the Social Media Age: An Anthology, de Laura Dennis e ele foi buscar o “seu” A Aventura da Adopção, de John R. Thompson e Karen J. Foli. Há duas semanas que não pegávamos no assunto adopção por andarmos entretidos com outras coisas, também boas. Confesso que já tinha saudades de me afundar nestes meandros. Acho que tenho aprendido muito sobre a vida e sobre as pessoas com esta história de me querer documentar sobre a adopção.
Só um à parte: por favor, não confundam, pois ando um bocadinho cansada de ser mal interpretada - eu disse “aprender muito” não disse “saber muito”, ok?
Avante.
Gosto de pessoas que não adiantam muitas palavras sobre os assuntos mas que, quando as adiantam, fazem-no de forma certeira. Eu sou daquelas pessoas que usam muitas palavras (creio que já repararam nisso) e o Chaparro é daquelas pessoas que não precisa de muitas palavras para dizer “as verdades”. Sobre o tema deste post: aquilo que dizemos uns aos outros, ontem recebi uma carta linda do Chaparro, que tem estado fora em trabalho. E foi assim que ele validou sentimentos que me têm minado os dias.
Às vezes, inventamos na nossa cabeça dimensões para as relações que estas não têm, de facto. Acontece que vivenciei há pouco tempo um quid pro quo que serviu para me abrir os olhos sobre a autenticidade de determinadas coisas. Não sou pessoa de me contentar com coisas mornas e tenho-me concentrado em tentar perceber a razão das minhas atitudes e das das outras pessoas. Demoro-me, não sou assim uma daquelas pessoas fixes que arrumam assuntos num piscar de olhos e toca a andar de bicicleta que isto é tudo muito divertido e nós somos todos muito cool e não temos paciência para remoer (n)as coisas. Não sou adepta do toca-e-foge, vejo algum sentido em procurar perceber porque é que alguém me diz uma coisa num dia e as desdiz completamente no dia seguinte como se nunca as tivesse proferido. Mas as palavras já estão cá dentro e, se a pessoa não está disponível para conversar comigo e fazer-me entender o seu lado, fico sozinha a tentar solucionar o puzzle. Fico a mastigar tudo bem devagarinho para que no fim sobre uma digestão sem refluxos malucos. E consigo sempre que o que me sobre seja verdadeiro. Há, porém, várias contas que acabo por ter de pagar no final destes desacertos. Lamento, por exemplo, ver-me resumida àquela aborreceu toda a gente e que não os deixou gozar o momento. Quando o que eu desejava era ver solvida uma tensão. Decepcionamo-nos e os afectos até queriam contrariar essas desilusões, no entanto, no fim damos por nós a admitir, como canta o Sérgio Godinho, que mais vale um bom desengano do que andar enganado sempre. Mas não deixa de ser triste. E depois, nesta era online vê-se tudo tão a céu aberto, vêem-se poses que acabam por provar que ninguém enterrou coisa nenhuma mas, afinal, concentrou as energias bem longe dos afectos e da vontade de lavar o que ficou sujo.
Hei-de lutar para sempre contra a tentativa de provar que as pessoas são todas assim, porque eu (pessoa com outros defeitos) não sou assim e não estou sozinha.
Estas coisas só vêm confirmar a minha sensibilidade sobre como devo encaminhar as minhas relações e a vontade que tenho de contrariar invariavelmente todas as tentativas de se falar dos ausentes e, pior, como tenho visto mais vezes do que desejaria - o julgamento de quem não está presente para se defender. E digo mais: sinceramente, não estou certa deste tipo de comportamentos estar muito longe da origem do bullying. É assustador quão hostil se pode tornar uma agremiação quando contrariada.
Eis a miscelânea com que tenho labutado cá dentro.
No fim, com uma carta linda de morrer, cheia de bem-querer e de gostar de compreender e de não recear falar as coisas, o Chaparro validou-me os sentimentos e propôs-me caminhar no sentido da conciliação com o facto de que fiz o que podia fazer, fui franca, independentemente do resultado a que me levou. Mas que agora é hora de aceitar que nem toda a gente quer levar as coisas ao mesmo porto.
Que as noções de bondade e do cuidar do outro, por vezes, são conformes aos egos. Nem sempre se consegue conciliar as verdades das várias consciências, facto que se incompatibiliza com a noção de genuinidade necessária às relações.
Essa carta rematava o raciocínio com esta citação do livro A Aventura da Adopção:
«nós controlamos as nossas acções e somos responsáveis pela forma como agirmos perante as nossas emoções.(...) Ao aceitarmos a nossa incapacidade de controlar, podemos libertar a energia que tem sido empregue a tentar mudar o imutável. Não estamos a advogar a passividade, mas antes uma assertividade apropriada e a abdicação daqueles acontecimentos improdutivos que nos custam tempo e energia.»
E foi assim que consegui pôr o ponto final no que me tem consumido emoções e tentativas de neutralizar as beliscadelas dos últimos tempos. Resta-me lamentar e fazer o luto de algo que eu pensava existir e fazer-me rodear daqueles que correspondem no bem-querer comigo. Tudo para não perder a fé em mim e nos outros, continuar a lembrar que todos carregam as suas histórias e dificuldades. Continuar a cuidar, como sempre cuidei. E preparar-me para a minha cirurgia e para a entrevista com a psicóloga* e para o 50º aniversário de casamento dos meus queridos pais.
Andar em frente, de consciência limpa, dar-me bem com a minha almofada e afirmar: Se os meus pais conseguiram, eu também hei-de conseguir.
Um bom dia para vós. Já tinha saudades.
Cipreste
* “finalmente!” marcada: a nossa equipa das adopções ficou sem psicóloga há uns meses e no dia em que teremos a entrevista com a psicóloga já distarão 7 meses do início do nosso processo, portanto 1 mês além da data legal para termos o certificado que ainda não temos, faltará ainda a visita domiciliária e a aprovação do casal Cipreste&Chaparro como candidatos competentes à adopção :)
quarta-feira, 19 de março de 2014
afinal
segunda-feira, 17 de março de 2014
Caras visitas
Esta semana estarei em modo off-blog, por motivos muito fixes.
Não fosse este um blog anónimo e dir-vos-ia de que se trata, mas a verdade é que aquilo em que vou estar metida tem (um bocadinho) de visibilidade pública e eu preciso de manter o anonimato nesta casa.
~ ~ ~
A propósito de anonimato - nunca abordei o assunto explicitamente aqui, podem ir lendo alguns dos motivos para esta opção ali, no Mãe Adoptiva*. Pensamos que é sensato começar o nosso caminho na adopção assumindo atitudes preventivas como as que a mãe adoptiva indica. Assim, sobre a(s) criança(s), nunca deveremos referir publicamente:
~ com exactidão o aspecto físico
~ nomes de pessoas associadas à vida antiga
~ o último apelido verdadeiro antigo
~ a idade verdadeira
~ e evitar passear em zonas próximas da vida anterior
É óbvio que há situações de adopção mais delicadas do que outras, exigindo diferentes níveis de cuidados. E, até, quem sabe se não acabamos numa situação de adopção aberta, sendo desnecessária esta protecção. Um dia, estas medidas poderão vir a mostrar-se impertinentes, mas acreditamos no ditado mais vale prevenir do que remediar e em tratando-se de filhos a coisa toma dimensões grandotas. Por isso mesmo, embora sendo comuns mortais, começamos por zelar pela própria identidade, prosseguindo com a mesma atitude quando, um dia destes (digo assim para parecer que a espera vai ser curta), tivermos o nosso filho.. ou filha... ou filhos... ou filhas :)
O futuro logo dirá se foi exagero ou não.
Deixo-vos com este assunto que já dá muito em que pensar. Até Domingo ou 2ª-feira, fiquem bem e espero que se divirtam tanto quanto eu espero divertir-me esta semana.
Cipreste
* um blog que parou no tempo sem propriamente um aviso (nem ali). Não ficam sempre com uma certa preocupação quando determinado blogger desaparece sem aviso? Pois, eu também :/
p.s. sim, sinto as minhas energias renovadas a cada dia, já lá vão aqueles dias em que me senti num buraco de dor sem fim ;)
sexta-feira, 14 de março de 2014
Uma espécie de carta aberta ao Chaparro
Que dias.
Dias cheios de tudo. Sinto que deixei de ter noção do tempo.
Ontem, no regresso de Lisboa, o Chaparro dizia-me que se sentia realizado, que tinha sensação de missão cumprida. Naquele momento, tudo se revolveu dentro de mim e fiquei sem voz por uns segundos. Queria dizer-lhe o mundo todo e não conseguia. Sentia as ideias na minha cabeça, mas não conseguia fazer delas um discurso. Após alguns segundos de silêncio consegui confessar-lhe pensamentos muito maus que tive há duas semanas. Já na altura eu sabia que eram pensamentos maus e que, ao confessá-los, iria levar com uma rodada de “sua parva!”. Por momentos, senti um poucochinho daquilo que penso devem sentir pessoas que ficam fisicamente dependentes de terceiros e resolvem acabar as suas relações amorosas para não “prenderem” a vida dos seus companheiros.
Por vezes, a carga de se viver com determinadas condições é tão desmedida que se perde o Norte e damos por nós a ter pensamentos que jamais pensámos vir a ter. Subitamente essa noção de se ser um peso na vida de alguém está dentro da nossa pele e, inibidos de qualquer clarividência, o que nos surge é a vontade de libertar o nosso objecto de amor de tal encargo.
E podem chamar-me parva à vontade, mas foi o que eu senti. Que viver a meu lado acarreta demasiada empreitada, que a vida poderia ser muito mais simples longe de mim. Que provoco instabilidade a qualquer um que se proponha viver os dias a meu lado. Que nunca se sabe com o que se pode contar, porque num dia estou activa e faço imensas coisas e até mobilizo gente para coisas giras mas no dia seguinte posso estar prostrada no sofá. Acreditem que cheguei a questionar-me se não seria bipolar. Eu sei que é uma leviandade imaginar psicopatologias, mas juro que o pensei.
As voltas que temos dado para construir uma família - consultas e tratamentos de fertilidade, as voltas e pesquisas e estudos para uma adopção consciente, são tudo manobras que tiram muito dos dias a outros tantos projectos em que estamos metidos, e que seriam suficientes por si só para preencher a vida. São coisas maravilhosas que nos realizam e chegam a muita gente, e não tem nada a ver com filhos nem família nem saúde. Mas deu-nos para desejar filhos, e ao Chaparro calhou uma mulher que não é super-fixe-e-bué-fértil e que ainda-por-cima anda sempre a queixar-se de dores-aqui-e-acolá.
E foi assim que, de baixa médica em casa, dei por mim a pensar que o Chaparro estaria a desperdiçar a sua vida e criatividade ao meu lado e que provavelmente estaria muito melhor sem mim. Porém não tive coragem de lho confessar na altura, porque ele nunca se zangou comigo nestes quase 8 anos em que estamos juntos, mas não imagino que fosse ser muito agradável vê-lo zangado. E uma pessoa minimamente consciente quando tem pensamentos destes sabe que são proibidos e sabe dos argumentos que possam ser arremessados contra os mesmos. Pelo que me sobrou uma tarde de auto-comiseração em modo Madalena arrependida, no sofá, com (muitos) lenços de papel.
Portanto, ontem fiquei sem voz quando o Chaparro me disse sentir-se muito conciliado com a sua vida. Quer dizer… ele passou as últimas semanas a alimentar-me e a cuidar da casa e a assumir o meu papel nos nossos outros compromissos, faltou ao trabalho e foi para Lisboa acompanhar-me na marcha com o telefone a tocar cons-tan-te-men-te, rodear-se de mulheres como eu (não lhe bastasse uma!) e… e, nada! Sim! Faz todo o sentido, Chaparro! Sim, a nossa vida é completa mesmo com todos estes problemas e preocupações.
Podia ser sem dor, pois muito bem, mas é a nossa vida. E é uma vida partilhada. Linda.
Nunca (nunca) me mostraste a mínima dúvida ou impaciência sobre os meus relatos de dor. Saberás o quão gratificante é ter alguém que acredita em nós e que não nos apelida de histéricas inconformadas na sua condição de mulher? Oh céus. És uma dádiva tão maravilhosa. Dentre tantas coisas magníficas que és, és a negação da solidão.
E deves sentir orgulho em quem és.
Viste bem a quantidade de homens que (não) conseguiram estar lá ontem? Não é fácil (nem barato) faltar ao trabalho assim a meio da semana. Mas tu lá conseguiste estar ao meu lado. E entregaste panfletos pelas ruas de Lisboa a dezenas de pessoas. Chegaste-te às pessoas para as sensibilizar para uma doença comum mas incapacitante e negligenciada. De certeza que fizeste a diferença na vida de muitas pessoas ao apresentar-lhes a palavra endometriose.
Fazes a diferença bonita, todos os dias, na minha vida.
Perdoa-me o tom dramático, mas tenho de te dizer que se morresse hoje iria feliz e realizada.
Perdoa-me o tom dramático, mas tenho de te dizer que se morresse hoje iria feliz e realizada.
Bem-dito sejas, tu, Chaparro, meu amor tão grande.
![]() |
| do filme Up (2009) |
Cipreste
domingo, 9 de março de 2014
Um pedido de ajuda
Boa noite,
Hoje trago-vos agora um assunto um bocadinho diferente, é um pedido de ajuda
Na próxima 5ªfeira queríamos conseguir entregar esta petição na Assembleia da República, mas ainda não chegámos às 4000
A todos pedimos que divulguem, aos que não assinaram ainda pf assinem
Ficarão com gratidão das mulheres portuguesas com endometriose por não ignorarem este pedido***
Hoje trago-vos agora um assunto um bocadinho diferente, é um pedido de ajuda
Na próxima 5ªfeira queríamos conseguir entregar esta petição na Assembleia da República, mas ainda não chegámos às 4000
A todos pedimos que divulguem, aos que não assinaram ainda pf assinem
Ficarão com gratidão das mulheres portuguesas com endometriose por não ignorarem este pedido***
Para conhecerem um pouco mais sobre endometriose:
sexta-feira, 7 de março de 2014
Estofo
Às vezes receio andar enganada e afinal não ter o estofo emocional necessário para ser mãe. Se, por um lado, sou uma durona exigente comigo e com os outros, por vezes até com o pé na rigidez, por outro lado, sei que sou um coração de manteiga. E desde que sei que hei-de ser mãe a coisa piorou *muito*. Não posso ler ou ver uma notícia que implique sofrimento de crianças que fico logo de lágrimas nos olhos. Mas nem sempre as minhas lágrimas têm motivos tão nobres. Reparem: quando, há uns anos, fiz uma sessão rara de cinema com as amigas em que fomos ver o filme da série “O Sexo e a Cidade”, uma amiga deu por mim a chorar. Elas gozam comigo até hoje por causa desse episódio. Caramba, aquela cena da Carrie de vestido de noiva tão-lindo-tão-lindo a deixar cair o telefone quando o Big lhe diz que não é capaz de ir para a frente com o casamento, e ela quase a desfalecer, deita qualquer um abaixo. Não deita?
Sei que, por vezes, tenho a sensibilidade à flor da pele. E acreditem que não é fácil no exercício da minha profissão. Felizmente, nunca me trouxe dissabores.
Toco neste assunto porque há bocado falei com a minha mãezinha querida ao telefone. [É tão mãezinha querida, a minha mãe, se vissem o amor com que cuida daqueles que ama. Um dia destes falo dela.] Sobre o telefonema, enfim, aproveitei um intervalo para saber como estão todos e ter um update sobre como o meu pai se está a dar com o novo tratamento. É verdade que ele é muito forte e tem um excelente estado geral, mas cada efeito secundário que tem tido é como se nos espetassem agulhas no corpo. Dói saber que o nosso pai tem cancro e que ainda por cima tem de sofrer para suportar os tratamentos. Dói muito.
Eis que a minha mãe relata um episódio de indigestão por causa de tomate verde que deu numa noite mal dormida, náuseas, vómitos e tremores. E porque achamos que já chega o currículo de 13 anos de cancro(s), pensamos que o nosso pai deveria ter um cartão à laia do do monopólio “Você está livre da prisão” e nunca deveria ser incomodado com outras maleitas.
À medida que a minha mãe vai contando os dissabores da indigestão, sinto as lágrimas a brotarem e uma pedrinha na alma. Fico triste como a noite, como dizia a minha avó. Não queria que estas coisas lhe acontecessem. Não é justo. E, embora saibamos que estas coisas não tratam de justiça e são arbitrárias, sentimos um certo alento por nos manifestarmos: não é justo. Também sei que o meu estado de fragilidade não ajuda a lidar com estas coisas. (ando bem melhor e activa, fiquem sabendo :) e hoje até acordei animada)
A minha voz entaramela e tento disfarçar para que a minha mãe não perceba e, enfim, consigo que o telefonema chegue ao fim para deixar cair uma ou duas lágrimas.
E, de seguida, pensar que sou uma fracota e questionar-me sobre como há-de ser quando um filho tiver uma dor de barriga ou esfolar um joelho. Oh, céus, fico logo com engulhos na barriga.
Estar sempre a pensar os assuntos é cansativo, mas faz parte do meu modo de ser e, como já disse, acho que é mesmo uma obrigação de um candidato à adopção. E se um assunto se nos atravessa a mente devemos aproveitar o exercício. Eu faço-o. E porque sou uma pessoa comum e saudável, umas vezes faço-o bem e pertinentemente e, outras vezes faço-o mal e impertinentemente. E continuo a fazê-o porque tenho de saber aquilo para o que estou preparada. Embora nunca saibamos para o que estamos preparados. Chamemos-lhe, então, reconhecer o nosso potencial - o estofo.
Imagino que me digam que pensar que vou ficar muito limitada para o que for, incluindo a actividade profissional, nos dias em que um filho tiver uma dor de barriga ou esfolar um joelho (oh, céus!) é um receio normal, transversal a todas as mães e pais e que depois tudo fluirá. Mas eu juro que tenho algumas dúvidas sobre a minha capacidade para não ficar derreada. A questão é que este não é um daqueles limites que me fazem achar que não deva prosseguir com o processo de adopção. Há aquela parte de mim que diz que se os outros conseguem eu também hei-de conseguir. Venham daí as dores de barriga e os joelhos esfolados.
Oh, céus.
Cipreste
Cipreste
quinta-feira, 6 de março de 2014
let go of the answers to the questions and make peace with the mystery, then start over*
* Mary Bishop no Finding Magnolia, donde trouxe este poema (desculpem não vos trazer a tradução em português):
How surely gravity's law,
strong as an ocean current,
takes hold of even the smallest thing
and pulls it toward the heart of the world.
Each thing--
each stone, blossom, child--
is held in place.
Only we, in our arrogance,
push out beyond what we each belong to
for some empty freedom.
If we surrendered
to earth's wisdom
we could rise up rooted, like trees.
Instead we entangle ourselves
in knots of our own making
and struggle, lonely and confused.
So, like children, we begin again
to learn from the things,
because they are in God's heart;
they have never left him.
This is what the things can teach us:
to fall,
patiently to trust our heaviness.
Even a bird has to do that
before he can fly.
Rainer Maria Rilke, Rilke's Book of Hours
Cipreste
How surely gravity's law,
strong as an ocean current,
takes hold of even the smallest thing
and pulls it toward the heart of the world.
Each thing--
each stone, blossom, child--
is held in place.
Only we, in our arrogance,
push out beyond what we each belong to
for some empty freedom.
If we surrendered
to earth's wisdom
we could rise up rooted, like trees.
Instead we entangle ourselves
in knots of our own making
and struggle, lonely and confused.
So, like children, we begin again
to learn from the things,
because they are in God's heart;
they have never left him.
This is what the things can teach us:
to fall,
patiently to trust our heaviness.
Even a bird has to do that
before he can fly.
Rainer Maria Rilke, Rilke's Book of Hours
Cipreste
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