sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Ainda sou do tempo... em que usávamos a mala do enxoval

Enquanto esperamos pela concretização da adopção, pouco podemos fazer em prol da futura família, dos nossos futuros filhos. Ou antes, a única coisa que nos sobra é ler, procurar aprender o máximo possível sobre “parentalidade terapêutica” – conceito em voga aplicado à parentalidade na adopção.

Por vezes, ler torna-se muito pesado. Pelo menos para mim que, na verdade, não tenho procurado ler livros “cor-de-rosa” sobre adopção, restando-me literatura bastante pesada, muitas vezes académica e muito densa.

Com os eventos, também pesados, que têm ocorrido por aqui, preciso de uma lufada de ar fresco, de um escape. Preciso de ouvir histórias de sucesso e não esquecer que toda esta dificuldade é em prol da busca de uma outra felicidade. 

Precisava de ter uma mala do enxoval onde guardar a parte azul e cor-de-rosa deste sonho.

 imagem via Notícias do Ribatejo

Desde que decidimos adoptar, o primeiro passo após a entrega da candidatura foi fazer uma pequena transformação cá em casa. Vivemos numa casa velha com 3 quartos e uma casa de banho no andar superior, um dos quartos estava transformado em quarto de vestir, o outro é o nosso e o terceiro é o do Freixo. Desmontámos o quarto de vestir que passou a chamar-se “o quarto dos meninos”. É mais forte do que nós, mesmo sem saber se será uma ou duas crianças e qual o género, está para sempre baptizado como o quarto dos meninos. De momento, contém uma cómoda antiga que era da minha avó paterna – pesada e escura, um roupeiro ikea e um sofá-cama baratucho da moviflor. A cómoda da minha avó tem em cima alguns objectos já destinados aos nossos meninos, que já descrevi um pouco ali e ali. As paredes são amarelo tipo girassol e as janelas de madeira, em guilhotina, porta por dentro e rodapé estão pintados de preto. A nossa casa é muito colorida e este quarto foi idealizado assim, para ser quarto de vestir. Quando nos mudámos para esta casa, há 5 anos, não quisemos ter quartos-fantasma, mesmo sabendo da nossa vontade de ser pais, não quisemos ter ali um quarto à espera a lembrar uma ausência. Portanto, quando chegar a personagem, ou personagens, que venham habitar esse quarto logo lhes perguntaremos sobre as cores e decoração de sua preferência para proceder em conformidade. O facto de ter apenas um quarto reservado com a eventualidade de chegarem duas crianças prende-se com a nossa convicção de que dormir na casa de dois-completos-estranhos há-de ser mais fácil se se partilhar o quarto com um irmão, ou irmã. Depois de instalados, logo nos organizaremos para saber se se desdobra o quarto do Freixo, ou se se fazem outras alterações.
Adiante com pormenores técnicos sobre distribuição familiar por assoalhadas que eu quero mesmo é falar de enxoval.
Portanto, o quarto dos meninos tem esses móveis, dos quais sairá o sofá-cama que passará para o family room. Tenham paciência com o estrangeirismo, mas é isso que eu também sou – estrangeira, devido à minha condição de nascida no Canadá. Acontece que não nos tem sido prático chamar quarto de brincar à divisão que antes era o escritório, escritório esse que agora passou a ser no antigo estúdio, estúdio esse que anulámos por entretanto se ter tornado num depósito de lixo velharias. Não se percam pela casa nem pensem que é um casarão, trata-se apenas de uma casa geminada com um anexo que penso termos aproveitado muito bem, modéstia à parte. E já que falamos de modéstia, digo-vos que a casa, embora se apresente como modesta, é-o muito pouco, chamamos-lhe nossa-senhora-da-eterna-manutenção. Tem quase 70 anos, alvenaria em pedra, janelas originais, ou seja, de madeira e com vidros fininhos e nada eficazes energeticamente, soalho original, enfim, tudo o que possam imaginar que exige manutenção e respectivos gastos constantes, sem falar no pormenor de se sujar muito mais, acumular mais pó e ter  aranhas&comp.ª. Enfim, a verdade é que eu e o Chaparro temos o gosto das casas velhas em bairros velhos e esse charme tem um custo.
Mas eu, há um parágrafo atrás, havia dito que queria falar de enxoval, não é verdade? Já lá chegaremos. Acontece que dei conta de que, aproveitando o facto de não ser uma pessoa muito sucinta nas descrições, achei que para explicar o que tem sido este dificuldade em não fazer um enxoval para os meus futuros filhos tinha de comentar o que já existe à espera deles. Assim, tinha ficado na explicação do estrangeirismo family room, termo que o próprio Chaparro também já utiliza, já lhe chamámos quarto de brincar mas dá-nos demasiada noção da ausência de alguém que ainda não chegou. Trata-se da primeira divisão do anexo, que está colado à casa através de um corredor com telheiro transparente e que se segue à cozinha – a divisão ideal, portanto, para eu estar a cozinhar e ter simultaneamente os miúdos debaixo de olho. (sabe tão bem dizer isto, sonhar com esta ideia: eu estar a cozinhar e ter simultaneamente os miúdos debaixo de olho). O family room tem uma estante com os nossos livros de infância, livros juvenis, livros de história, ciências naturais e geografia, Atlas, revistas da National Geographic e outras, jogos de tabuleiro, alguns brinquedos e instrumentos musicais curiosos - tudo coisas que já nos pertenciam, depois também há uma mesa com 4 cadeiras onde lemos, jogamos, desenhamos e duas poltronas que passarão para a sala dando o lugar para o sofá-cama, o resto do espaço será liberto para haver algum chão onde brincar.

Acontece que há uns meses, numa conversa com a Assistente Social da nossa equipa esta nos “proibiu terminantemente” de continuar a fazer enxoval. Bah. E bah. Fiquei amuada. Mas fui obrigada a reconhecer que compreendi os seus argumentos. Quando percebeu a minha desilusão, lá concedeu: ok, podem ir fazendo uma biblioteca.
A verdade é que continuo a achar que o enxoval que estávamos a fazer era, de certa forma, inócuo para nós. Nunca comprámos roupa de vestir nem qualquer objecto dirigido a uma criança ficcionada. Eram generalidades, fronhas, um peluche, mantinhas, etc. Gosto da ideia da mala do enxoval, de ir lá de vez emquando e tirar tudo para fora sonhando com o que está por vir. Mas uma promessa é uma promessa é uma promessa e, se não conseguíssemos manter esta, penso que isso quereria dizer que estaríamos muito mal na ideia do que é a sinceridade e colaboração com a equipa de adopções.

O que aconteceu: não comprámos sequer um livro durante meses. No passado Sábado, havia um senhor a vender livros em segunda-mão lá na terra dos meus pais e então voltámos à composição da biblioteca para os nossos meninos com este livro por 1€.

Confesso que me custa um bocadito não comprar determinadas coisas, mas esta é a minha missão: controlar-me, pelo bem das minhas representações mentais.


Gostaria muito de saber qual a vossa opinião sobre este assunto.

E aos companheiros de adopção pergunto como fazem, vão fazendo algum tipo de enxoval ou nem sequer pensam nisso? Falaram disso com a vossa equipa de adopções? Hoje, visitava a Heidi e dei conta com mais um dos seus posts sweets for my sweet e pensei em pedir-vos para partilhar connosco as vossas experiências.

Peço aos que já adoptaram se podem partilhar como foi a azáfama de comprar quarto, roupa, brinquedos tudo de uma assentada só. A equipa deu-vos alguma lista?
Entretanto, já temos um pé-de-meia a contar com esses dias, que mais nos soam a loucura consumista do que a enxoval. Foi assim para vós?

Cipreste

imagens


Fazer desaguar emoções

Ontem voltei ao trabalho.
Ao final do dia, não me apeteceu apanhar o autocarro directo para casa e enfiei-me naquele que passa pelo rio. Gosto de passar na baixa de olhos pegados no rio. Não sou propriamente fã dos Ala dos Namorados, mas evoco sempre aquela passagem que diz “São os loucos de Lisboa/ Que nos fazem duvidar/ Que a Terra gira ao contrário/ E os rios nascem no mar”. Um facto sobre mim: preciso de exercitar a desconstrução constantemente.
Ontem sentia-me só. E cansada.
Dos 13 dias úteis de férias que tive (o Chaparro teve 10), passámos 5 em hospitais com familiares e os restantes a procurar transformar medos em esperança. Todos sabemos que um mal nunca vem só. É um facto sobejamente conhecido sobre as tempestades. Após 7 semanas de baixa médica, regressei ao trabalho fresca como uma alface, cheia de energia para trabalhar e boa disposição. Antes de partir para férias, cheguei até a confessar que não sentia necessidade delas. Pum. Toma lá que é para aprenderes. Na primeira semana, passámos logo 3 dias às voltas nos hospitais. Na segunda semana, deixei-vos aqui um postal de “até já”. Chegámos à praia nesse Domingo para regressar de imediato na 3ªfeira para uma nova ronda, não planeada, de hospital. Não voltámos à praia desde então, ficámos por perto uns dos outros. Encontrámos forma de nos distrair e penso que conseguimos deixar tudo mais ou menos controlado.
O Chaparro voltou ao trabalho na 2ªfeira, eu ainda fiquei longe de casa a amanhar algumas pontas soltas. O Chaparro encontrou um postal na caixa do correio para levantar uma carta registada. Regressei a casa na 4ªfeira. O Chaparro esperou por mim para irmos juntos aos CTT levantar a carta que sabíamos trazer a notícia do seu despedimento. É a crise, senhores e senhoras.

É muita coisa. Nem saberia por onde começar ao tentar explicar aquilo que, de certo, compreenderão. Os serões nesta casa têm sido ora silenciosos, ora cheios de planos e ideias para uma nova vida. Eu brinco e evoco o Primeiro-ministro deste país, cujo nome não nomeamos neste blog, e digo que temos de fazer do desemprego uma oportunidade de vida. Digo que talvez seja a hora do Chaparro mudar de vida e procurar fazer algo que o faça mais feliz, mais realizado. Depois ficamos em silêncio e não confessamos os nossos reais pensamentos um ao outro. E volto a evocar outra personalidade inominável neste blog, aquela escritora que se lamentou há tempos na imprensa por ter tido de fazer um “downsizing” no seu estilo de vida. Tento colocar algum humor nesta coisa. Logo eu, pessoa que se tem como muito séria, pessoa que, afinal, nem sequer sabe se é séria ou uma espécie de palhacita, pessoa que agora fica exausta à mais pequena reflexão e que conclui simultaneamente que isto é difícil mas que sabe que não se pode queixar da sua sorte neste mundo tão hostil – sim, vislumbrei as notícias do mundo há dias e claro que fiquei doente. Ai, vidinha medíocre de pessoa ultraformatada (ou será ultralimitada?) por aforismos populares. Escrevo “vidinha medíocre” e recordo esta passagem:

«Sorvendo a borra da sua própria chávena, Sabbath levantou finalmente o olhar do submerso erro crasso que era o seu passado. Por acaso o presente também estava em curso, construído dia e noite como os navio-transporte de tropas em Perth Amboy durante a guerra, o venerável presente que recua até à Antiguidade e prossegue a direito da Renascença até hoje – era a esse presente sempre-a-começar e interminável que Sabbath renunciava. Acha repugnante a sua inexauribilidade. Só por isso devia morrer. E depois, que importa que tenha levado uma vida estúpida? Qualquer pessoa com alguma inteligência sabe que está a levar uma vida estúpida mesmo enquanto está a levá-la. Qualquer pessoa com alguma inteligência compreende que está destinada a levar uma vida estúpida porque não há outra espécie de vida. Não existe nada de pessoal nisso. No entanto, lágrimas infantis marejam os seus olhos quando Mickey Sabbath – sim o Mickey Sabbath, daquele bando selecto de sete mil milhões de idiotas de primeira apanha que constituem a história humana – diz adeus à sua unicidade com um meio entaramelado e profundamente dolorido “Quem liga a mínima?”.»
in Teatro de Sabbath de Philip Roth 
Publicações dom Quixote, Colecção Ficção Universal, 2000

Sinto-me acompanhada de novo. O Sabbath, esse porcalhão, essa personagem mais que improvável no meu rol de amigos, minha alma gémea, faz-me sempre sentir acompanhada. Lembro o título de outro livro: ninguém morre sozinho e aceno a cabeça em assentimento.
Tenho a cachola feita em água e urge procurar fórmulas para o lugar de equilíbrio. Eu sei que vou conseguir. Vamos. This too, shall pass.

E a adopção? Onde fica a adopção no meio disto tudo? Precisamente aí: no meio. A adopção continua a ser o centro das nossas vidas. E também continua a ser algo informe. É um sonho, é o nosso sonho, tentamos dar-lhe forma, falando, lendo e escrevendo, mas só terá forma quando tiver rosto, ou rostos. Tentamos fugir dos sentimentos ambíguos que a adopção vai tomando ao longo desta espera que agora começa a parecer isso mesmo: uma espera. Uma espera cuja data final é absolutamente incerta. E a incerteza, amigos, é um sentimento bastante difícil de gerir nesta fase das nossas vidas. Isto não é uma gravidez. Não estamos grávidos.

Oiço muitas pessoas falar da gravidez na adopção, a gravidez do coração, mas não concordo com a aplicação do termo ao tempo em que esperamos pela proposta da equipa.
Não, nós não estamos grávidos. Nós estamos a tentar engravidar. Quando a equipa de adopções nos diz que temos tudo para ser pais, é como quando o médico diz a um casal que está tudo bem, ele e ela estão aptos a engravidar. Depois, é ir para casa e esperar que num dos meses seguintes apareçam os dois tracinhos vermelhos no teste. No nosso caso, voltámos para casa e esperamos que o telefone toque. É nesse dia que se confirmará a gravidez. Não no dia em que recebemos a certificação.
Uma mulher não está grávida a partir do momento em que decide engravidar (sei do que falo). Uma mulher está grávida a partir do momento em que confirma a gravidez biológica. Aquele filho, aquele alvo do seu amor é real. Existe.
Eu sei que os meus filhos existem, já nasceram, de outra mãe cuja vida infelizmente se enviesou. Estão algures neste país, ainda com os pais, ou há anos numa instituição. À espera. E nós também, à espera.
Mas os meus filhos ainda não estão no meu coração. Porque não lhes conheço o nome, são apenas uma ideia que amo. Não sei se é um ou uma, ou um e uma, ou dois, ou duas. Preciso saber quantos são os fetos. Preciso que alguém me diga que os seus nomes são reais para, então, colocar a mão sobre o ventre, olhar para dentro a sonhar com os seus nomes, repetidamente.
Não, nós não estamos grávidos. A gravidez na adopção é muito curta, a espera pela concepção é que é longa. Como na infertilidade. É a história a repetir-se.
Creio que é também por isso que os momentos iniciais são relatados como sendo de grandes choques, porque na adopção temos muito menos tempo para sonhar com o real, com quem já existe. Porque na adopção temos muito menos tempo para estar grávidos. Fazendo a matemática, do que tenho lido e ouvido, entre receber uma proposta e o nascimento da família, costuma acontecer tudo no espaço de um mês (máximo dos máximos), ou seja, um nono do tempo de uma gravidez biológica. Já a concepção, parece-me ser o dia em que o juiz declara a criança como disponível para adopção.

Eis-nos, assim, neste lugar de certeza de que a gravidez acontecerá, sem saber quando, neste lugar pouco fácil, pedregoso.

Há momentos em que nos saem desabafos como o do Chaparro, num destes Sábados, enquanto eu arrumava as compras feitas no mercado e ele preparava as brasas para grelhar o peixe: já não faz sentido a ausência dos nossos filhos nesta casa. É verdade, não faz sentido. Ainda assim, vamos esperando e tentando que seja serenamente. Olho o quarto deles com mais parcimónia e uso o quarto de brincar como sala de leitura e para compôr puzzles, num exercício de abstracção.
Sinto uma qualquer importância de não fazer a vida girar à volta desta espera, mas é assim que ela gira. Não estamos a encaixar no ditado Quem espera, desespera, mas não vos vou amaciar a verdade, é difícil. Temos convicções mais ou menos secretas de que já fizemos por merecer que a vida nos fosse um pouco mais meiga. Olhamos à volta, fazemos as contas ao sucedido nos últimos anos, entre divórcios e o nosso encontro, entre o reconstruir de uma vida e as diligências médicas e burocráticas para ser pais, sentimo-nos um pouco escrutinados pela vida. Pensamos que, caramba, não somos más pessoas, merecíamos uma chance de viver algo fora da incerteza. E depois, dá-nos um laivo de lucidez e lembramo-nos de que isto não trata de merecimentos nem de justiça, mas de acasos. Voltamos a assentar pés no chão e sentamo-nos à espera.

Nesta espera, sabe bem encontrar empatia como a que encontrei, escrita por uma senhora com quem, acaso dos acasos, me cruzei no meu percurso académico. Nesta espera de sentimentos ambíguos, por vezes, quando encontramos a empatia alheia, por pessoas do mundo da adopção, do outro lado, como a das palavras que se seguem, conseguimos dar nome às nossas emoções e saber reconhecer que são emoções válidas, que a espécie de dor que sentimos não é um erro nosso:

«A incerteza do tempo que levará até ser concretizada a adopção é outro factor causador de stresse. Ao contrário da gravidez, a duração do tempo do processo de adopção é altamente imprevisível. Este tempo de espera, mesmo após a sua candidatura ter sido aprovada, gera ansiedade, confusão, sentimentos de desamparo e muitas vezes depressão, podendo levá-los a questionar-se sobre o seu direito de serem pais.»
Fernanda Salvaterra in A Criança no Processo de Adopção – Realidades, Desafios e Mudanças
Coordenação de Manuel Matias e Mauro Paulino
Prime Books, 2014

Leio por dois motivos: porque gosto de aprender e porque me faz sentir acompanhada.

Ontem, ao sair do trabalho, sentia-me só e cansada. Após entrar no autocarro, tirei o livro para reler o pequeno excerto sublinhado, para me fazer lembrar que não estou só e que não estou em erro. Momentos depois, entrou no autocarro quase vazio um casal muito parecido com os meus pais. Eu ia sentada no lado certo para poder olhar o rio. A mulher desse casal dirigiu-se para se sentar no lado oposto, o homem chamou-a a sentar-se no meu lado, à minha frente, e disse-lhe “para irmos a olhar o rio”. E ela sentou-se junto dele. Ao passar pelo rio, olhámos os três e eu sussurrei que a Terra gira ao contrário e que os rios nascem no mar.

Deixo-vos com este óleo da praia fluvial do Agroal, onde nos fomos refrescar a meio das peripécias destas férias. Pesquisem e visitem, um conselho de quem se adora banhar nas águas frias do Nabão na piscina do Agroal. 
Foto do óleo foi surripiada ali


Cipreste

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

desejar que o dia nos seja limpo

Cada pessoa tem o seu jeito de levar a vida. Eu tenho um jeito que me traz sempre a analisar as coisas que se passam, a reflectir sobre a existência.
Actualmente, as redes sociais estão cheias de memes com citações sobre como levar a vida e confesso que me enjoam um bocado. Acredito, ainda assim, nalguns mantras que outros considerarão ingenuidade e sei que, muitas vezes, o que digo possa ser apelidado por pessoas mais práticas como sendo um discurso de auto-ajuda.
Mas a verdade é que estão sempre a acontecer”-me” coisas que não consigo ignorar, acabando por me ver nesse lugar de dissecar os dias. Reparem, não me estou a queixar da minha sorte, pois considero-me uma pessoa muito sortuda e privilegiada, mas não me lembro de viver sem sobressaltos.
Cada um tem os seus problemas, é bem certo, porém, às vezes, parece-me que há vidas um pouco mais tranquilas do que a minha. Isso, ou talvez seja apenas eu a achar que a vaca da vizinha é mais gorda do que a minha.

Amanhã é um dia bonito nas nossas vidas, porque se dará um marco que é bonito de se celebrar. É uma data especial, mas nem por isso deixou de ser assombrada.
Esta semana tivemos duas más notícias, daquelas que os psicólogos colocam nas listas de tipo “Os 5 eventos marcantes de vida como sendo causas de depressão ou stress”.
Uma delas é ultrapassável, traz angústias mas até pode vir a servir para uma viragem de vida positiva, por agora, constitui um problema a ser resolvido - que vai ser resolvido.
A outra, e as possibilidades que traz dentro, tira-nos o tapete por debaixo dos pés, deixa-nos momentaneamente sem fôlego, faz-nos ter medo, faz-nos sentir as lágrimas sempre prontas a brotar.
É chegada uma nova hora de termos todos muita força, de estarmos atentos e nos apoiarmos uns aos outros, de torcer para que as piores suspeitas não se confirmem.

A ser sincera, digo que gostava que a vida nos desse uma pausa nestes sobressaltos, mas não tenho a quem o pedir pelo que também me vejo sem ninguém para culpar. São acasos da sorte e do azar. E queixar-nos também não terá serventia, não é? E talvez fosse mesmo uma heresia, pois, como disse, sei que somos uns privilegiados.

No meio disto tudo, temos conversas de esperança. Sonhamos com os nossos meninos e confessamos a ânsia da sua chegada aos nossos braços. Vamos compondo o enxoval do sobrinho que aí vem e já o imaginamos a adormecer ao nosso colo.
via post secret
Somos uns sortudos, não é? Temo-nos uns aos outros e sonhos de embalar.

E depois, mesmo sem acreditar num Deus, mas acreditando na energia do bem-querer, podemos rezar e desejar dias limpos uns aos outros, que sempre traz alguma inspiração aos nossos sorrisos.

Saúdinha!
Cipreste

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

mudar de vida

O meu pai, doente oncológico há 13 anos, portador de doenças diferentes entre si e muito graves, tem-nos ensinado as maiores (as mais básicas) lições de vida. Há uns 3 anos, disse-me «Olha que a vida são mesmo só 2 dias, eu pensava que eram 3, mas são só 2.». A minha mãe confirmou e disse-me das vezes em que se chateou e se preocupou em vão com coisas, afinal, insignificantes e de como se arrependia das energias que gastou nesses eventos.

Acho bonito cumprimentar os outros com um “saudinha!”. 
~

Haja saúde.

Eu sei: há dias muito maus nesta passagem. Um dia, por exemplo, quis morrer, tive uma dor tão negra dentro do meu peito que me achei indigna de viver. Sobrevivi à custa de poupar um desgosto aos meus pais.
Hoje, o dia começou como os outros. Ontem à noite, quis rever o American Beauty e assim fiz. Fui para a cama inspirada pelo filme, como das outras 4 ou 5 vezes em que o vi.
~
Há momentos que nos parecem ser guiados por aquilo a que, eu – ateia, agnóstica ou lá como me queiram apelidar, chamo de anjo da guarda.
Hoje, o dia começou como os outros, com o lusco-fusco veio uma mudança profunda nas nossas vidas.
Sentámo-nos, trocámos olhares, conversámos e soubemos que isto, afinal, há-de ser uma insignificância.
O meu pai continua a levar os dias de bem com a vida, todos os outros vão bem de saúde, nós também. E nenhum de nós quer morrer.
Vamos ficar bem.
Nós estamos bem e é assim que seguiremos pela estrada renovada que ajudaremos a abrir. Haja saúde. E se a não houver, cá estaremos - uns para os outros.

Saúdinha!
Cipreste

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Não é outra forma de discriminar pela cor da pele?

O sonhar-se com uma família colorida parece-me ser uma motivação na adopção, no mínimo, fútil.

Um filho escolhe-se pela cor da pele? Desejar-se especificamente um filho com cor de pele diferente da nossa não será o equivalente a dizer-se que se quer um filho com a cor de pele exacta à nossa? Não é outra forma de discriminar pela cor da pele?

Custa-me aperceber que algumas pessoas não estejam disponíveis para receber uma criança que tenha um aspecto físico diferente do seu, mas consigo compreender que essas pessoas tenham limitações familiares ou sociais que as levam a tal opção. Reconheço-lhes o acto de responsabilidade ao assumir que não se sentem preparadas para tal e, apesar de não deixar de ser uma forma de discriminação, não me passa pela cabeça julgar que, em todos os casos, o seja por racismo.
Por outro lado, uma pessoa que se candidata à adopção tendo em vista receber, especificamente, uma criança fisicamente diferente de si, parece-me estar equivocada quanto ao cerne do acto de adoptar, estando mais a pensar no lado estético da sua família.

Adoptar crianças com aspecto físico que indique claramente que as suas origens são diferentes das dos pais faz acrescer ao facto “ter-se sido adoptado” questões de discriminação, ou seja, não é propriamente uma festa colorida. Atenção que não digo, com isto, que as crianças devem ser adoptadas por pessoas com o mesmo aspecto físico com o seu. Digo apenas que há assuntos que me parecem carecer de um pouco de mais parcimónia.
Enfim, talvez seja só eu que hoje já dei de caras com dois lugares onde as pessoas apregoavam o sonho da família colorida e dei por mim um bocado indignada. Caramba, uma família é uma família independentemente dos membros que a compoem, uma família acontece, uma família não é um ramalhete para compor a gosto conforme uma montra. Pouco mais sei dizer sobre isto sem entrar por caminhos ajuizadores e não quero isso.

Cipreste

#GIVEHOPE - Dia Mundial Contra o Tráfico de Pessoas

 

das coisas que eles dizem... às nossas reacções

Isto não trata de controlar o nosso discurso grão-a-grão, nem de invalidar o facto de que toda a gente já respondeu a desafios sem parar para respirar e pensar no que pode estar por detrás do acto provocatório. Isto trata de encurtar caminhos, de evitar enrolos já de si suficientemente complexos.


Surripiei o seguinte quadro aos Padrinhos Civis:


O que eles dizem
O que eles querem dizer
O que nós respondemos
O que nós devíamos responder

“Não tenho de lavar os dentes. Não és minha mãe!”
“És a minha mãe?”
“Aqui fazes o que eu mando!”
Eu sou tua mãe/responsável por ti, amo-te muito e quero tudo de bom para ti. Quero que tenhas uns dentes branquinhos e não sofras com dentes estragados”

“Não faço, porque na minha instituição não fazíamos assim!”
“Ainda não percebi se devo continuar a identificar-me com a minha instituição ou se já pertenço aqui”
“Pois, mas aqui é assim e ponto final!”
“Compreendo que fazias assim na instituição. Na nossa família fazemos de outra maneira e tu és da nossa família.”

“Não quero estar aqui!“
“Vais abandonar-me como toda a gente fez antes?”
“E nós ralados!”
“Nós queremos que tu estejas aqui. Esta família é a tua família para sempre, nunca nos vamos perder uns aos outros.”

“Vou fugir!”
“Vais deixar-me fugir? Parece que não me amas…”
“Porta da rua, serventia da casa!”
“Podemos zangar-nos, mas somos uma família para sempre. Amo-te muito e nunca te deixaria partir.”

“Vou dizer ao juiz que não quero estar aqui!”
“Gostas de mim o suficiente mesmo que eu me tenha portado mal ou vais dizer ao juiz que já não me queres?”
“Então vai! Quero lá saber, deves pensar que me ralo muito com isso!”
“Somos uma família para sempre. Mesmo quando te portas mal, amamos-te. Isso não significa que poderás continuar a portar-te mal, mas que gostamos de ti em todas as situações."


Cipreste

terça-feira, 29 de julho de 2014

é isto

«I know that life holds no guarantees, no matter how pure one's intentions, but I think this is going to be good.»

Dito pela Mary Bishop, com quem tenho aprendido tanto sobre adopção, sobre a procura de um caminho honesto.

Bom dia!

Cipreste

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Porque quero adoptar?

A primeira parte da resposta é, simplesmente, que desejo ser mãe, que sinto que tenho amor para dar a uma criança - a um filho. A segunda parte da resposta é que, apesar de ter sido presenteada com a infertilidade, a adopção sempre me fez muito sentido, mesmo antes de saber qual o rumo da minha história. E, depois, tenho muita curiosidade e esperança de um dia dizer qualquer coisa como «É inexplicável ter tanto trabalho, sofrer, chorar às vezes, e ser mais feliz.». 
Sou feliz, gosto da minha vida. Confesso que o processo de adopção me assusta um bocado - principalmente porque vamos adoptar crianças mais velhas e, no limite dos meus medos, receio que nunca me venham a identificar como sua mãe.

Ainda assim, estou disposta a arriscar. Por agora, as doses de curiosidade e de medo estão empatadas. Não obstante a perda da "vida livre", de deixar de estar em "primeiro lugar" e de ter de enfrentar as inúmeras responsabilidades e dificuldades que a maternidade acarreta,  sempre suspeitei que me levará a lugares de felicidade que desconheço.




Cipreste

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Da vida para os livros e de volta para a vida

Consigo ouvir no silêncio de algumas pessoas uma certa dúvida sobre a pertinência do meu empenho em consumir a literatura possível sobre o tema da adopção. Por vezes, quando me perguntam pelo processo, respondo rapidamente que estamos em espera e sigo para partilhar as últimas leituras e consequentes descobertas. Não me vou perder a tentar explicar de onde vêm alguns dos silêncios. Acontece que basta um bom parágrafo para eu sentir que todas as leituras têm valido a pena. Não receio perder a genuinidade por me debruçar sobre teorias. Não receio tornar-me numa mãe que tenta aplicar modelos nos seus filhos. Porque eu sei que isso não me vai acontecer. Nisto, sou muito segura de mim: sei que sou autêntica, que ajo do coração. E confio muito nos meus instintos (não confundir com capacidades preditivas).


Somos feitos das várias experiências a que nos expomos, onde se inclui também a leitura e o estudo.  Os livros têm-me ajudado a:
1. Compreender comportamentos que eu sabia existirem, mas cuja compreensão das conjunturas eu não alcançava
2. Identificar situações exclusivas na adopção que eu desconhecia por completo
3. Conhecer as estratégias preconizadas e utilizadas por outras famílias
4. Finalmente, poder, um dia destes, saber identificar melhor determinados comportamentos que demasiado frequentemente são interpretados erradamente por negligenciar o contexto “adopção”.

Tudo isto, para poder vir a ajudar os meus filhos em eventuais dificuldades que não quero ver enrodilhadas em intervenções profissionais desajustadas. Ponto.
O amor, fiquem descansados os silêncios, será espontâneo e não letrado.
E sou eternamente grata a qualquer pessoa que esteja disponível para pensar e falar destes assuntos comigo.

Vejamos o seguinte que parece óbvio, mas na prática não acontece naturalmente a todas as pessoas:

«If the adoptees’ behaviours were seen as attempts to avoid pain, rather than deliberate provocation of the parents, the parents might be able to identify the signs or manifestations of that trauma and help their child integrate it. »

Esta é a última linha após duas páginas donde sublinhei o seguinte:

«Traumatic memories, in the form of emotional or bodily sensations, keep intruding into consciousness. This often causes the adoptee to appear irritable, aggressive, impulsive, and anti-social.
In the case of constriction or numbing, the adoptee is in another state of consciousness, where she can’t be hurt by painful memories. This state is characterized by emotional detachment, indifference, complacency, and passivity. (…)
Adoptees vacillate between intrusion an constriction.»

«This ambivalence is the source of great confusion and enigmatic behavior.
Not understanding the unconscious source of this behavior, parents think that their children should be able to change it at will. (…) in talking to adult adoptees who acted out as children or adolescents, they, of course, don’t understand it any more than their parents do. Michael told me, ‘I put my parents through hell, and I don’t know why. They were good parents (…)’. The idea that he was reacting to a trauma that he didn’t even remember had never occurred to him. He just thought he was a bad kid.»

Vamos a ver uma coisa, tudo se resume a esta frase:

«(…) mothers are not supposed to leave their babies. God should not let it happen. No rationalization changes that basic knowing

Se pensarmos nisto, se nos lembrarmos de que até nós, adultos, por vezes não compreendemos nem gerimos da melhor forma episódios de afastamento (pensem no caso de alguma amizade que tenha acabado, por exemplo), como é que uma criança conseguirá enfrentar dores tão intensas e geri-las racionalmente? Como é que uma criança, um ser emocionalmente em construção, poderá compreender o afastamento do ser que o criou, com quem, no mínimo, tem uma relação biológica?

As leituras são, na minha opinião, uma obrigação minha. Não as vejo como um instrumento para prever o que me vai acontecer. Eu não sei qual vai ser a nossa história e ela não está certamente escrita num livro. Apenas, acredito que entender os comportamentos de uma criança que passe por uma separação (no mínimo, pois nem sequer estou a considerar outras violências) acontecerá de forma mais fluída após conhecer algumas histórias e teorias. Voltamos à frase com que comecei as citações:

«If the adoptees’ behaviours were seen as attempts to avoid pain, rather than deliberate provocation of the parents, the parents might be able to identify the signs or manifestations of that trauma and help their child integrate it. »

Citações de The Primal Wound - Understanding the Adopted Child de Nancy Verrier (pp.58 e 59)

Partir desta premissa não quer dizer que venha a ser uma mãe permissiva e que interprete má-criação como trauma, pelo contrário, penso que ajudará a não confundir dor com má-criação – um dos mais infelizes mal entendidos que acontecem às crianças adoptadas.

Uma nota pessoal: das expressões que mais retenho das leituras é "ambivalência", tenho reflectido muito sobre isto, acho que é um caminho para compreender muitas coisas na/da pessoa adoptada

Cipreste

(e este é português!)

Acabei de saber deste livro através do fórum da APF. Liguei e, surpresa das surpresas, a minha livraria tem lá o livro,  o que é uma novidade: não ter de encomendar um livro sobre adopção e recebê-lo pelo correio*. Deixei-o reservado. E, ainda sem conhecer o contéudo, deixo já a sugestão numa de passa-a-outro-e-não-ao-mesmo e também pelo contentamento deste ser da realidade portuguesa, uma raridade na bibliografia que tenho encontrado.


* para mais, o preço na livraria está igual ao do site ;)

Cipreste

repitam comigo: you is smart, you is kind, you is important

Ando bastante ocupada, mas tenho muitos posts escritos na minha cabeça, de temas muito variados que quero partilhar convosco e cuja opinião quero saber.
Ainda hoje venho aqui dizer duas ou três coisas.

Entretanto, não te esqueças que:

do filme The Help/As Serviçais

Um bom dia para vós :)
Cipreste

sexta-feira, 18 de julho de 2014

não vale a pena tentar ser criativa no léxico, a palavra é: ironia

Conforme as tabelas normativas da vida civilizada, tenho excesso de peso. Ou seja, eu não devia ser como sou, ou qualquer coisa assim. Depois da cirurgia, o meu ventre continua como que dilatado e assumiu uma forma de barriga de grávida. Estive 7 semanas recolhida, consequentemente protegida, em casa.
Regressei ao trabalho 2ª-feira e já tardava o que hoje, finalmente, ouvi de uma cliente: "essa barriguinha é aquilo que eu estou a pensar?" (seguido de um sorriso rasgado).

Vai ao encontro do comentário que deixei neste post da Mãe Sabichona.

adenda a este post: o cliente seguinte pergunta como estou, faz sentido a pergunta uma vez que sabe que estive ausente, alguém lhe disse que eu estivera "de atestado", e remata com "esteve de licença de maternidade?" :/


Cipreste

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Regresso

Depois do corpo ferido, o corpo renovado. Com a alma esclarecida.

Sermos sujeitos a uma cirurgia que nos amputa pode, e deve, servir para uma renovação do nosso eu. Sou a mesma Cipreste, aquela que quer sempre ser melhor e tirar o melhor partido desta passagem pela vida. Sou uma Cipreste no caminho da conciliação.

Sofri dores desde que fui menstruada. Conheci os sentimentos da infertilidade, da impossibilidade de realizar um sonho. Conheci, por momentos, a felicidade da gravidez para, de seguida, saber o que é a perda da esperança. Outras perdas se apresentaram. Tudo isto pode ser vivido de forma dramática, mas chega o dia em que nos cabe a decisão: Carpe Diem.

Tive de me recolher junto dos que se juntaram a mim.
Nestas horas, o crivo acciona e mostra-nos o que é real - a amizade revela-se nas horas difíceis.

Nunca tinha sentido a real vulnerabilidade física, nem tinha percebido que seria necessário ter alguém a meu lado a cuidar de mim. Fiquei em espanto quando percebi que dependia do bem-querer dos que me querem bem. Tive quem cuidasse de mim. Tive o cuidado e o carinho incondicionais da minha sogra, da minha mãe e do meu pai. Ajudaram-me a tomar banho e a vestir, a sentar, deitar e levantar. Descascaram-me maçãs, trouxeram-me flores. Limparam-me lágrimas e perguntaram-me amiúde “tens dores?”. Mas eu não tinha. Eu não tive dores. E chorei menos de meia-dúzia de vezes. Na verdade, passei este tempo sempre bem disposta, nem sequer estive irritável ;) vá lá que tenha tido um ou dois momentos, mas, de resto, a disposição tem sido das melhores e a superar (para melhor) o que pensei que estes dias viessem a ser.

E há a novidade da vida devagar, não me lembro de ter vivido alguma vez dias assim, de forma lenta e calma. Quero mesmo tirar proveito desta aprendizagem.

~ ~ ~

E o meu amor...

O meu amor pôs-me creme nas cicatrizes e disse, pesaroso, “cortaram a minha menina”. Depois, conformou-se e explicou “mas tinha de ser, para não teres mais dores”.

~ ~ ~

A cirurgia foi mais extensa do que planeado. Era para ter sido por laparoscopia (os “furinhos”) e começou como tal – 3 furinhos, mas o meu útero era enorme e tiveram de reverter para laparotomia (incisão no abdómen). Tiraram tudo e “limparam” muitas aderências. Isto fez com que tudo demorasse mais tempo e exigisse outros cuidados. 29 agrafos, contou-me a médica quando acabou de os tirar.

Estive 3 semanas em modo zombie, não li, não me liguei à net, nem sequer liguei o computador. Raramente atendia chamadas.
Senti a fragilidade do corpo e do cérebro.
Fui retomando algumas actividades lentamente. Respondi a mensagens, comecei a atender os telefonemas todos e a ir à net.
Para a semana, regresso ao trabalho. Confesso que já tenho saudades, mas senti e percebi a importância de não me acelerar nesse retorno.

~ ~ ~

Entretanto, li mais um livro sobre adopção e estou a meio de outro. Tivemos a visita domiciliária e aguardamos o certificado.
Estamos em modo de espera.
E regresso aqui.

Hoje de manhã, em chat com uma amiga de infância, esta voltou a certificar-me “I know that you will be a good mom”. Respondi-lhe com a mensagem deste meme que vos deixo. Ela, que é mãe fantástica de duas crianças fantásticas, confirmou e rimos.

Olá :)

Cipreste

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Remendos

A amputação, não tem solução, nem remedeio, nem um pano quente. É uma amputação.
Tem de se viver com ela, a amputação, uma dor que sempre persiste.
Não imagino o que seja.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

this too, shall pass

Olá,

Tenho andado por aí. Muita reflexão. Muito trabalho para ver se me estafo e caio redonda na cama, sem insónias. Não tenho tido muita capacidade para falar. Quem diz de falar, também diz de escrever.
Esta canção deixa-me bem disposta.

Até ,
Cipreste

terça-feira, 13 de maio de 2014

Canções tristes

I
Maldades googlianas

Pronto, já tenho data de internamento para a cirurgia. No meu jeito de navegadora inveterada, só porque sim, digitei “hospital packing” no Google e cliquei em Images. (sim, tenho por hábito pesquisar em inglês caso não esteja à procura de receitas de caldo verde) Pesquisem e vejam que “bonitos” resultados obtêm.
Bah. Não precisava de ser lembrada que vou ser internada numa maternidade não para trazer um filho em braços para casa mas para deixar os órgãos que tantos dissabores que têm dado desde há 26 anos, sendo o maior, precisamente, o impeditivo de gerar vida.
Preciso mesmo de ir ali chorar um bocadinho.

Na 6ª-feira, comecei a escrever um texto sobre a necessidade de chorar, um texto que não acabei, nem chorei como era o meu plano. Ao invés disso, fui sair com o Chaparro e dois amigos e seguiu-se um fim-de-semana de jardinagem, algo que é sempre muito terapêutico para mim.
De seguida, fica o texto inacabado.

II
Tristesse

Trago uma tristeza dentro de mim desde pequenina. Embora não seja francófona, faz-me sentido chamar-lhe tristesse.

Se partirmos de uma postura psicanalista-de-trazer-por-casa, podemos procurar identificar algum acontecimento de vida que seja responsável por esta característica. Se partirmos de uma postura geneticista-de-trazer-por-casa, podemos cabalmente afirmar que haverá um gene qualquer que é responsável por esta característica.
Não sei o que poderá ser identificado na minha meninice como responsável por esta tristesse. Radicais das filosofias New Age provavelmente diriam que, para começar, eu nem sequer queria nascer, pois tive de ser “arrancada a ferros” e chorei que me desunhei até aos 9 meses levando a minha mãe à exaustão, pelo que a minha tristesse já virá de vidas anteriores.
Por outro lado, se falarmos na genética, e partindo do princípio de que não sou adoptada, nunca esquecerei o dia em que a minha mãe me disse que eu sou tal-qual o meu avô, pai dela, também conhecido como “avô dos pães”, por ser padeiro. Quando perguntei à minha mãe porque acha que sou parecida com o avô dos pães, ela simplesmente respondeu “Porque ele também tinha uma tristeza.”. Nunca mais falámos disto, como se proferir que o seu pai tinha uma tristeza fora como que uma traição. Mas nunca o vou esquecer, por ser para mim uma honra ser parecida com o avô dos pães.

~ ~ ~

Ouvi toda a vida que sou parecida com a avó dos pães e isso constituiu sempre uma dificuldade para mim. Eu amava a minha avó mas, se for para sermos honestos, temos de admitir que ela tinha um feitio difícil, muito difícil. E eu não queria ser comparada com uma pessoa difícil. Ninguém quer ser uma pessoa difícil. Antes triste do que difícil. Até hoje, tenho esta insegurança que me traz a auto-estima e a auto-confiança em corrupio. Por vezes, dou por mim a pensar se terei sido difícil com determinada pessoa, ou em determinada situação. Isto também pode tornar-se num pau-de-dois-bicos, pois uma pessoa menos honesta com os seus sentimentos pode usar isto facilmente contra mim. Basta que alguém, para não assumir a sua falha, me acuse de estar a ser difícil e deixar-me de quatro, ficando ali uma situação mal resolvida mas declarada como finda.

Fui aprendendo a juntar bocadinhos bons para procurar neutralizar a minha parte “difícil”, um lado que creio estar muito no rigor com que assumo as coisas e a minha frontalidade terrível. Vou buscar outros bocadinhos, os bons, à avó dos pães que também misturo com bocadinhos bons dos outros avós, e assim levo os meus dias a procurar ser uma pessoa melhor.

~ ~ ~

Acredito nisto: procura ser uma pessoa melhor a cada dia.

Ser uma pessoa melhor é, para mim, ser uma pessoa que leva a sua vida, com as suas pessoas e no desenvolvimento dos seus interesses, numa ética de vida que procura o bem-estar sem consequente prejuízo de outros.

Acontece que, por mais que façamos, há sempre falhas na circunstância do bem-estar. Essas falhas podem ser do exterior, como o exemplo dos acontecimentos de vida, ou do interior, como o exemplo da predisposição genética.
E eu tenho andado tão periclitante nesta coisa do bem-estar, quer espiritual, quer físico.

É de propósito que digo espiritual e não emocional e não vejo sentido em explicar essa opção.

Temos vivido uns anos muito intensos cá para estes lados da minha família. É sempre tudo tão grande, é sempre tudo tão de vida ou de morte. Há sempre tantos eventos, tantas reflexões, tantas decisões, tantas alegrias e tantos medos.
Isto são coisas espirituais e merecem a devida parcimónia. Importa encontrarmos o lugar para o seu crescimento. Importa encontrar o lado da vida que proporcione a sua aceitação.

~ ~ ~

Na verdade, eu não sei se o meu avô dos pães trazia uma tristeza dentro de si, mas a observação da minha mãe fez sentido. Trago uma tristesse dentro de mim, desde pequenina. Porém, nada do que tenho sentido tem a ver com essa tristesse, o que tenho sentido tem a ver com desalento, com a procura de me adaptar às realidades duras da vida. O que tenho sentido tem a ver com doença, minha e dos meus. O que tenho sentido tem a ver com medo e com impotência. O que tenho sentido tem nome e não é de cá dentro, vem de fora, sem dó nem piedade.
É tristeza, não é a minha tristesse.
E é-me muito importante reconhecer esta diferença e actuar.

Tenho procurado dar o lugar devido à tristeza sem me afligir imediatamente em tarefas vãs a procurar enxotá-la dos meus dias. Ela tem estado aí. Os motivos para a sua existência são reais. Já ouviram falar deles por aqui.
A tristeza tem-me rondado, fruto deste sofrimento e deste medo. Hoje de manhã, percebendo que estava a tentar disfarçá-la com as dores físicas que exigiram analgesia, pensei: se não tiveres forças para dar um giro ao final da tarde, vais para casa deitar este corpo dorido no sofá e vais ouvir as canções mais tristes que conheces e vais chorar.

Há que encontrar um lugar para tudo, nuns dias dá para ir beber uns finos e rir de baboseiras, noutros dias ouvem-se canções tristes.
Contando com o dia seguinte.
Contando que teremos forças para nos desenrolarmos do próprio corpo, dos dramas próprios, e dar lugar a toadas mais alegres.


III
Medo & raiva

Ontem, com a carta da convocatória na mão, apeteceu-me iniciar um sprint e fugir, mas eu sei que tenho pouquíssima resistência e que antes de chegar ao fim da minha rua já estaria com os bofes de fora, encostada a um muro, a arfar defraudada com a minha própria raiva.
Não sei que pensar disto tudo. 
Não tenho medo de cateteres e agulhas e o diabo a sete, mas tenho medo. Tenho medo que o estadiamento da minha endometriose obrigue à intervenção noutros órgãos. Tenho medo da vida com terapêutica hormonal de substituição. Receio que a histerectomia total não compense em qualidade de vida – que é, afinal, o meu maior motivo para me sujeitar a tão grande mutilação.

Repara, Cipreste: vais permitir que te amputem.

Não estou a, nem vou, dramatizar. Mas as coisas são o que são e uma histerectomia total é uma amputação.

IV
Bondade

Não sei o que pensar e preciso de me preparar: organizar a casa, dar conta de dois ou três recados, organizar a minha vida profissional, fazer a mala e chorar. 
Tenho de fazer isso. As lágrimas andam por aqui a cirandar e não saem, mas eu sei que têm de sair. Preciso de chorar o meu corpo para que depois se possa renovar. Não sei se isto é certo ou errado, nem sequer sei se há um certo e um errado para estas coisas. 
O que sei - o que sinto, é que agora é hora de ouvir canções tristes.
Para depois me preparar para entregar o meu corpo nas mãos de estranhos e contar com a sua bondade.



Deixo-vos com esta imagem por vários motivos, um deles é que sei que me esqueci disto no trato a uma pessoa a semana passada. Entretanto, já me retractei com a pessoa, mas fico sempre um pouco desiludida comigo quando deixo que algo me tolha a visão. 
O conceito de neutralização - de que passei a tomar mais consciência desde uma das formações da adopção, parece-me ser um bom passo para conseguirmos lembrar desta máxima: sermos bondosos uns com os outros, pois estamos todos a travar batalhas.

Desculpem o estilo soturno dos últimos dias,
I'm gonna be alright ;) eu sei que sim

Cipreste