terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

fazer *algo*


«I’m realizing more and more that adopting really, really isn’t a replacement for doing things the normal way. It’s great, but it’s not a replacement. I feel intense joy about the family that we are going to have, but I still find myself mourning the losses of what we won’t have, too, that we won’t be, what I can’t do. I expect our child will feel the same. However joyful our lives are together, he should never have had to feel the loss of one set of parents before gaining a second. (…)
Also, I want to be doing something for this child, and I cannot. I think about people telling me that this wait is like a pregnancy wait and I know in every bone of my body that they are wrong. I know that being pregnant is difficult. But those difficulties are not these difficulties.»

p.49


Claudia Chapman in Hypothetical Future Baby - An Unsentimental Adoption Memoir


autora do blog my fascinating life

* * *

Periodicamente, tentaremos partilhar livros que vamos lendo. Começamos com esta semana de excertos diários do "nosso primeiro livro sobre adopção".

2ª-feira - A ideia de um filho

Cipreste

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

a ideia de um filho


«“I don’t know that I can do this, Laura”, I say “Most babies I would conceive wouldn’t even survive. How could I get pregnant, knowing that my baby would probably never make it out alive?” I'm getting shrill. “And if it does survive, and it has serious special needs, how can I know for sure I would love it?” Shriller. “And what about Jay? Would this destroy our marriage? And how can I even be having these thoughts?” At this point, only dogs can hear me.
She says to me: “The problem is that you’re not thinking about an actual child, you’re just thinking about the idea of a child.”
“My hypothetical future baby,” I agree.»
p.17


Claudia Chapman in Hypothetical Future Baby - An Unsentimental Adoption Memoir


autora do blog my fascinating life

* * *

Periodicamente, tentaremos partilhar livros que vamos lendo. Começamos com uma semana de excertos diários do "nosso primeiro livro sobre adopção".

Cipreste

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Raízes

Vocação para a poesia - sonhemos portanto.
Uma criança tem pouco a ver com poesia.
É a – única - coisa que a transcende. E também à realidade, aos dias seguidos, às consequências de algo – é vida.
A poesia pode ter a ver com a criança.
Uma árvore pode ter a ver com a criança enquanto poema. Não queremos que seja um tronco liso, transformado num toro, muito menos em pranchas ou tábuas. Queremos que tenha ramos e muitos deles serão tortos. E raízes. Muitas e fortes raízes. As raízes são mais importantes que os ramos, que as folhas, as flores, os frutos, mas deve ter isso tudo. Se não tiver, e os ramos forem menos vistosos, tem ou pode – deve - ter ninhos e buracos onde se acomodam outros seres.

 As crianças têm de comer, e os poetas também.

Chaparro

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

E tu, porque é que não adoptas?

Eu podia devolver a pergunta às pessoas, mas não o faço. Porque não devo. Porque isso não se faz. Esta é uma pergunta que só pode ser feita pelos amigos íntimos ou família chegada e muito raramente estes dão um passo à frente para fazer a pergunta, porque sabem que é uma pergunta que não se faz. É simplesmente errado perguntar a alguém porque-é-que-não-adopta. Vou mesmo dizer-vos que é uma pergunta de calibre filha-da-p*tice porque, para além de ser altamente indiscreta, tem lá dentro várias rasteiras emocionais, não se entra pela vida das pessoas adentro, assim, sem licença. Vou repetir: não se pergunta às pessoas porque-é-que-não-adoptam.
Uff.
E argh.

Já há algum tempo que era poupada a isto e no mesmo dia levo com a pergunta duas vezes.

Momento nº1, no bar com uma colega de trabalho.
Eu, inadvertidamente: não me apetece comer, nem o chá me apetece.
Ela: hmmm, se calhar está grávida…
(és tão burra, Cipreste, tinhas obrigação de saber que não tens o direito de desabafar uma indisposição sem ser abalroada pela suspeita de gravidez)
Eu: não, não estou.
Ela: oh, não sabe, pode estar. Não lhe apetece comer, pediu um chá mas nem esse lhe apetece, pode bem estar grávida.
(por favor, caia aqui um raio imediatamente; por favor, existe, deus, e castiga este ser)
Eu: Acredite, não estou grávida.
Ela: oh, mas não quer ter filhos?
(a sério deus, por favor, existe, e vem castigar esta ovelha que fala ao meu lado, juro que vou à missa)
Eu: Não posso.
(és mais burra do que eu pensava, Cipreste, abriste caminho para a pergunta, agora amanha-te)
Ela: oh, e porque é que não adopta?
(diabo, estás aí?)
Eu: logo veremos.
Mas ela insiste: a sério, porque é que não adopta, é tão giro!
Eu: logo veremos.

Momento nº2, ao almoço, sentada junto a duas colegas. Fazem juízos de valor conversam sobre outra colega que está grávida, mas tem uma menina de 2 anos que ainda dorme com o casal. O horror. Colega 1 não tem filhos e inclusive fez 3 fertilizações InVitro. Colega 2 tem uma menina de 2anitos e meio, que já dorme no seu quarto desde a idade em que as crianças devem dormir nos seus quartos. Claro. Eu estou calada, vou acenando com a cabeça quando me interpelam com o olhar.
Continua a superioridade moral e eu não me tenho: Bom, cada família encontrará a solução para si e desde que funcione é o que mais importa. Compreendo as teorias do que é mais preconizado como correcto, mas não sei nem posso dizer como faria se tivesse filhos.
(woohooo, Cipreste, boa! Estiveste tão bem sem abrir a boca até agora, mas tiveste de te enterrar mesmo quando a conversa podia acabar. Bem lançado, Cipreste, estás a ficar cada vez mais esperta)
Colega 2, que saberá da minha história de infertilidade: Porque é que não adopta, Cipreste?
(assim, a frio, sem mais nem menos, levo logo com esta xaropada)
Eu: porque não.
Colega 2: mas porque não, é uma boa solução.
(solução!, será o nome do meio dos meus filhos, é mesmo assim que encaro os meus futuros filhos. not.)
Eu: logo se verá.
E a Colega 1 caladinha que nem um rato. Ah, pois, porque é que ela nunca adoptou, hein? 

Não sei se vos consigo transmitir o desgaste que estas ofertas espontâneas de galhardetes com soluções existenciais provocam. É tão, mas tão intenso e cansativo e… errado. Isto não se faz.
E não me venham falar de boas intenções nem dizer que qualquer mágoa que a pergunta provoque é inadvertida.

Um dia destes, hei-de escrever alguns dos meus pensamentos sobre o processo de decisão para adoptar. Isso são outros quinhentos.

Para já, fica a velha questão: porque é que as pessoas fazem estas perguntas sem parar para pensar na pessoa que têm à frente, medir o nível de intimidade* e pertinência das suas perguntas/sugestões/intervenções? 
(por favor, não me digam que é só porque não conseguem controlar o impulso de dizer tudo o que lhes vem à mente)

* é importante que não se confunda uma certa abertura para se falar de processos de doença e infertilidade com abertura para se fazer mesa redonda de reflexões e decisões tão gigantes e íntimos como a adopção, por exemplo. Quando alguém nos abre uma porta da sua vida não quer dizer que nos tenha convidado a entrar em todas as divisões e acreditem que nestes assuntos infertilidade/adopção cada um tem a sua divisão bem marcada e independente da outra. Qualquer engenheiro da vida sabe isso.
[O momento de metáfora barata que acabaram de ler acima foi totalmente grátis.] You’re welcome. Perdoem-me, este assunto deixa-me com o pezinho no sarcasmo :/

Só mais uma coisa: eu gosto mesmo é da pergunta em Inglês, pelo toquezinho do just. É maravilhoso: why don't you just adopt? Sigam o link e poderão ver que não é só a mim que incomoda e invade.


Bom dia :)



Cipreste

da boca dos outros

Este texto é demasiado bom para não o lerem. 
A sério, marquem-no, façam um auto-reencaminhamento por email, registam nas vossas agendas, aproveitem durante uma pausa para o chá, etc., mas prometam-me que não vão deixar de o ler. 
É muito bom. Eu (ainda) não sou mãe e já o sinto plenamente. 
Mesmo considerando as diferenças entre o que penso que uma mãe adoptiva deve procurar saber, em comparação à “maternidade biológica”, é assim que penso e sinto as coisas da parentalidade. 
Tão real, tão palpável, tão de carne e osso e coração. 
Estou muito contente de ter ido parar ao blog da Menina :) 

Ide ide, ide lá ler o texto sobre o tipo de mãe que se é.

Cipreste

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Wishlist

Quanto a lancheiras, cara cipreste estamos conversados:
Estas são muito giras e arrumam-se bem e o termo para as bebidas é o mais porreiro de todos.
Penso que não oferece dúvidas :)


Chaparro

(compras racionais) e (será que estou a projectar blábláblá?)

Ontem encomendámos 2 livros pela net. Não temos muito hábito de fazer compras online, gostamos de ir à fonte, dar os bons dias a quem está atrás do balcão, palpar e cheirar as coisas antes de as comprar, beber um café pelo caminho, fazer o caminho de mãos dadas, enfim, gostamos de coisas de carne e osso. Não quer dizer que por vezes não recorramos ao clique. O que dita essas compras é geralmente o facto de não ter o produto acessível na nossa cidade ou por ter um preço que lamentavelmente nos faz abdicar dos bons dias a quem está atrás do balcão, etc. etc.
Temos lido bastante sobre adopção, sempre a partir de material disponível na net (blogs, artigos, teses), só tínhamos comprado um livro até agora. E foi uma bela compra, ambos o lemos (nota mental: a ver se deixo aqui uns excertos, um dia destes). Agora aguardamos A Aventura da Adopção de John R. Thompson e Karen J. Foli e Este Meu Filho que Eu Não Tive, A adopção e os seus problemas de João Seabra Diniz. Não são os que estavam no topo da lista mas algumas circunstâncias levaram a que cheguem primeiro. Vamos ver o que nos dizem.

Entretanto, e ainda sobre compras e mais especificamente sobre compras na net, tenho de confessar que ultimamente ando com mais dificuldade em controlar os meus cliques, mais do que alguma vez tive com o controlo do hábito do tabaco, por exemplo (e para verem o quão intenso isto é). Fica-me estranhamente difícil não comprar certas e determinadas coisas. Digo estranhamente porque nem por isso me considero uma pessoa que compra por impulso (na verdade, nem sequer sei se sou forreta, mas acho que não sou). 

Acontece que ao pesquisar a imagem de um brinquedo para o último post sobre o enxoval dei de caras com todo um mundo revivalista que me dá uns calores de felicidade no peito deixando-me sozinha e impotente com os tais impulsos para clicar no botão “comprar”.

Deixo-vos dois exemplos de coisas que os meus filhos têm-de-ter porque, convenhamos, os meus filhos têm-de-ter isto:




e esta lancheira, é absolutamente imprescindível ter uma lancheira do Curious George!

eu gostava tanto (mas tanto!) das histórias deste maluco que até deu azo a crítica da minha educadora de infância que me acusou de não ser original e escolher sempre o mesmo livro (bof!)

Percebem agora o drama de uma pobre futura mãe assalariada que tem acesso à net no trabalho e que ao invés de ir ao bar tomar um café fica a seguir link-após-link e a suspirar e a lembrar-se de quão feliz foi na sua infância?
Afinal, criar não é (também) proporcionar momentos felizes aos nossos filhos? Se estes objectos/personagens nos trouxeram tanta felicidade nas nossas infâncias, não fazemos mais do que a nossa obrigação ao transmiti-los aos nossos filhos.
Parece-me que sim, mas isso também pode ser só o impulso para clicar no botão “comprar” a falar.

Cipreste


p.s. só mais uma coisinha: será que conseguem imaginar o quanto me tive de conter para não deixar um post quilométrico e resumir-me a apenas dois (2!) objectos de desejo? Por exemplo, não postei esta sacola que qualquer mãe deve ter para transportar lanchinhos para os filhos.

pronto, já temos conta na limetree

afinal, esta é uma família de árvores :)


https://limetr.ee/br
LIMETREE, Construa uma bela história da sua família

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Adopção: as sessões de formação - sem mistério


Algumas pessoas podem pensar que é fazer formação para aprender a ser pais, mas na verdade não é isso. Quer dizer, é, mas não é. Entre outras coisas, para mim, é aprender sobre como procurar minimizar os danos da vida ou, pelo menos, aprender a não piorar coisas que já são por demais difíceis.
Façamos uma pausa no espírito crítico que está à flor das nossas convicções e deixemo-nos enredar pelas conjunturas  habituais que levam à paternidade: biologia ou adopção.

Com um filho biológico, que surge de uma gravidez desejada e planeada em que há tempo para ver o corpo da mulher a mudar enquanto se faz o enxoval, penso que não há propriamente dúvidas sobre a origem do amor e a sua devida reciprocidade. A criança nasce e tem o amor e protecção dos pais como garantidos. Os pais têm dúvidas, naturalmente, mas isto é a vida e tudo irá fluir, no mínimo, podem mimetizar o que fizeram os seus pais e outros amigos e família que à sua volta também têm filhos. Mais ou menos, têm tudo para que a coisa corra “normalmente”, dedicando-se à puericultura sem necessidade de preocupações e diligências no que concerne a psicologia, a sociologia e até a antropologia.

Com um filho adoptado, e em consciência, não me parece que as coisas possam ser levadas de forma tão “natural”. Não digo que tenhamos de controlar tudo à nossa volta, de todo. Mas acho que será negligência da nossa parte, enquanto pais adoptivos, tentar fingir que é tudo igual, que se educam os filhos adoptados da mesma forma que se educam os filhos biológicos, que é deixar as coisas andar que tudo logo se compõe. Provavelmente num mundo ideal isso aconteceria, mas na proporção inversa do que se possa imaginar num primeiro instante.

Acontece que eu gosto da ideia de mimetizar a família e amigos, dá-me uma sensação confortável de aldeia, de comunidade, de protecção, de haver um espaço legítimo para a tentativa-erro. E, para solidificar e rematar essa prática, fazer como dizia o Professor João dos Santos: educar é fazer falhar a educação que nos deram. 
Eu quero fazer isso, é assim que vou tentar estar na educação do(s) meu(s) filho(s). 
Porém, não me safo de um processo de retaguarda a que os pais biológicos são, na sua grande maioria, poupados. Na adopção há um passado, no mínimo negligente, a ter em conta e muito provavelmente o(s) meu(s) filho(s) trarão memórias que nós teremos de ajudar a neutralizar para que possam retomar as suas meninices em segurança e com alegria.

Devo ler e receber formação e reflectir e discutir os assuntos que me são apresentados com o meu marido e com a equipa de adopções e com outros casais e com outros candidatos à adopção e com a família e com os futuros profissionais que venham a acompanhar o(s) meu(s) filho(s). Já tenho provas dadas disso, dessa necessidadade, pois já analisei situações que tenho a certeza de que eu não enfrentaria da forma mais eficaz do ponto de vista dos afectos se não tivesse lido e recebido formação e reflectido e discutido esses assuntos.

Durante os anos de infertilidade, antes de cada tratamento parei para reflectir sobre a vida, se fazia sentido ter um filho, tentar consciencializar-me para as grandes mudanças na minha vida com a vinda de um filho, etc. Agora, para a adopção, não só ponderei estas questões como se lhe acrescentaram mais algumas e uma das mais importantes é esta: a que necessidades é que eu acho que tenho capacidades para responder?

Isto é algo que tenho aprendido com a equipa de adopções, é a fazer estas reflexões que nos ensinam nas sessões de formação. Não pensem em vir de lá com respostas, vêm com mais perguntas, mas estas são as perguntas que nos ajudam a saber a cada passo mais e melhor aquilo para o que achamos que estamos preparados.
Tudo em prol de uma adopção de sucesso que é dar uma família a uma criança em que ela se sinta  amada e segura, em que saiba que aqueles pais estão ali para o que der e vier, para sempre, e que cada um tem o seu papel e o das crianças é esse… ser criança, com todos os direitos que lhe são devidos. Acrescentando-lhe mais alguns, de preferência.

E querem saber uma coisa? Tudo isto está a acontecer de forma natural na minha cabeça, a encaixar, a fazer sentido que assim seja, estou a sentir isto de forma muito intensa e a sentir a forma humanizada com que nos estão a abordar. A palavra que me surge desta construção é fraternidade, e mesmo adivinhando grandes desafios e dificuldades estou a gostar muito de estar neste sítio, lado-a-lado com o meu amor e com a minha família e amigos que estão todos a viver uma gravidez muito desejada.

Ah! Retenham estas expressões pois suspeito que as vamos usar muito por aqui: neutralizar e necessidades versus capacidades.

Cipreste



Unicef + Pedro Strecht

clicar para aumentar
Todas as crianças com mais de cinco anos têm direito a desabafar.

Todas as crianças até aos onze ou doze anos têm direito a andar grátis no Carrocel quando estão de férias.

Todas as crianças que andam na Escola têm direito a serem alegres, terem amigos e a brincarem com os outros.

Todas as crianças têm direito a ter uma Professora que não grite com elas.

Todas as crianças têm direito a ver o mar verdadeiro, especialmente em dia de maré vazia.

Todas as crianças têm direito a, pelo menos uma vez na vida, escolher um chocolate que lhes apeteça.

Todas as crianças têm direito a terem orgulho na sua existência.

Todas as crianças têm direito a pensar e a sentir como lhes manda o coração, até serem velhas, aí com uns vinte anos.

Todas as crianças têm direito a terem em casa o Pai e a Mãe, os irmãos, se houver, e comida. Se o Pai e Mãe não conseguirem viver juntos têm direito a que cada um deles respeite o outro.

Todas as crianças têm direito a deitarem-se no chão para ver as nuvens passar, imaginando formas de todos os bichos do Mundo combinadas com as coisas que quiserem (por exemplo, um cão a andar de patins ou uma girafa de orelhas compridas).

Todas as crianças têm direito a começarem uma colecção não interessa de quê.

Todas as crianças têm direito a chupar o dedo indicador que espetaram num bolo acabado de fazer ou então lamber a colher com que raparam a taça em que ele foi feito.

Todas as crianças têm direito a tentarem manter-se acordadas até tarde numa noite de Verão, na esperança de verem uma estrela cadente e pedirem três desejos (a justiça devia fazer acontecer sempre pelo menos um).

Todas as crianças têm direito a escrever ou a falar uma linguagem inventada por elas (ou que julgam inventada por elas), como por exemplo a «linguagem dos pês»: «apalinpingupuapagempem dospos pêspês».

Todas as crianças têm direito a imaginar o que vão querer fazer quando forem grandes (habitualmente coisas extravagantes) e a perguntar aos adultos «o que queres ser quando fores pequenino?».

Todas as crianças têm direito a dormir numa cama sua, sentindo o cheiro da roupa lavada, e a terem um espaço próprio na casa, pelo menos a partir do ano de idade.

Todas as crianças têm direito a passear na rua tentando pisar apenas o empedrado branco (ou só o preto); em opção, têm direito a fazer uma viagem contando quantos carros vermelhos passam na faixa contrária.

Todas as crianças meninos têm direito a, pelo menos uma vez na vida, perguntar a uma menina «queres ser a minha namorada?» e todas as meninas têm direito a, pelo menos uma vez na vida, responder, «sim, quero».

Todas as crianças têm direito a ouvir um adulto contar pelo menos uma destas histórias: Peter Pan, o Principezinho ou o Príncipe Feliz.

Todas as crianças têm direito a ter alegria suficiente para imaginar coisas boas antes de dormirem e depois, a sonhar com elas.

Todas as crianças têm direito a ter um boneco de peluche preferido, especialmente quando velho, já lavado e mesmo com um olho a menos.

Todas as crianças (especialmente se já adolescentes) têm direito a usar os ténis preferidos, mesmo que rotos e com cheiro tóxico.

Todas as crianças têm direito a poder tomar banho sozinhas e a experimentar mergulhar na banheira contando o tempo que aguentam sem respirar.

Todas as crianças têm direito a jogar aos polícias e ladrões, preferindo inevitavelmente serem ladrões.

Todas as crianças têm direito a ter um colo onde se possam sentar, enroscar como numa concha e receber mimos.

Todas as crianças têm direito a nascer iguais em direitos.

Todas as crianças têm direito a conhecer o sítio onde nasceram e a visitá-lo livremente.

Todas as crianças têm direito a não ficarem sozinhas a chorar.

Todas as crianças têm direito a viver num País que tenha um Ministério da Infância e Juventude, que olhe verdadeiramente pelo crescimento afectivo e bem-estar interior (sem preconceitos adultocêntricos ou hipocrisias com ares de cromo abrilhantado).

Todas as crianças têm direito a acreditar que têm um adulto que olha por elas e as ama sem condição prévia (nem que seja Nosso Senhor).

Todas as crianças têm direito a viver felizes e a ter paz nos seus pensamentos e sentimentos.

Pedro Strecht via maus tratos na infância

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O enxoval

Já avançou mais um pouco, o enxoval. E a casa. Temos feito algumas mudanças: já tirámos as tralhas que estavam no futuro quarto da(s) criança(s) e mudámos o escritório para a divisão imediatamente ao lado, divisão essa que na verdade nunca tinha sido usada (era para ser um estúdio e acabou por ser um albergue de lixo espólio artístico que entretanto foi devidamente distribuído no ecoponto) ficando, assim, o antigo escritório transformado em... quarto de brincar! Yay!
Prefiro chamar-lhe "quarto de brincar" ao invés de "quarto dos brinquedos" porque me dá mais a sensação de acção :)
No quarto de dormir já vivem: alguns dos meus antigos peluches; uma boneca de trapos tipicamente canadiana - A Raggedy Ann; o mocho que a tia Ana fez; um Panda que comprámos - o primeiro brinquedo comprado pelo pai e pela mãe :) ; a Family Tree House, era minha e está em óptimo estado, pedi à minha mãe (a avó B) que a lavasse e ela assim o fez em modo ritual; e três quadros, um pintado pela minha sobrinha S (a prima S, portanto), outro que me foi oferecido pela minha avó materna e outro que me foi oferecido pela minha mãe, tinha ambos há muitos anos e só faz sentido estarem no quarto da(s) criança(s).
Entretanto, o Chaparro apareceu um dia com este livro em casa :) (um daqueles momentos tão cheios de ternura em que olhas para o teu companheiro de vida e pensas "oh céus, I Love this guy so much!").

Portanto, o enxoval, ou cesto da esperança, está a ganhar forma e nós gostamos de ir vendo a casa a ser habitada de futuro.

Também começámos a olhar para as camas nas lojas de móveis, mas essa compra ficará para quando soubermos quem serão os nossos filhos e algo mais sobre eles, para fazer uma compra mais personalizada de algo tão íntimo como o é uma cama. 

Há outras coisas que fazemos questão de adquirir em avanço porque achamos que serão apreciadas. E depois há os caprichos... eu queria tanto ter uma Sophie, the Giraffe Teether. Imagino que me vão chegar filhos com a dentição de leite já completa, mas um capricho é um capricho é um capricho. O problema é que este é um bocado* caro.

Cipreste


* bocado é eufemismo, eu sei

e um link

«Criancas a torto e a direitos é um espaço digital do Instituto de Apoio à Criança.

Sublinhando desde já que todos os nossos holofotes incidem sobre a Criança enquanto sujeito de Direitos, definimos os seguintes objectivos para este espaço:

Partilhar informações sobre eventos nacionais e internacionais, projectos, novas publicações e formação, disponíveis a nível nacional e internacional;
Disponibilizar materiais teóricos, metodológicos, científicos e pedagógicos relevantes e de referência sobre a Criança;
Divulgar de modo ágil, simples e célere as novidades, as acções e os conteúdos dos diversos sectores e serviços do IAC;
Dinamizar um espaço institucional complementar ao site do IAC e facilitador da comunicação bilateral instituição-comunidade.
Este blogue é coordenado e moderado por uma equipa do sector do IAC intitulado Centro de Estudos, Documentação e Informação sobre a Criança – CEDI (José Brito Soares, Ana Tarouca e Pedro Pires), contando com a participação de vários outros colaboradores do IAC.»

Adopção em Portugal - o bê-à-bá

Começar pelo Guia Prático da Adopção do Instituto de Segurança Social.

E um cheirinho do que são as sessões de formação. Um dia destes falo disto.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

A vida é chorar e rir a vida inteira*

Tenho muito para vos dizer, muitos assuntos sobre os quais quero falar. Uns mais imediatos, outros mais generalistas. Mas os dias têm andado tão a vida é chorar e rir a vida inteira que me sinto francamente avassalada. Eu chego lá, eu sei que chego a um patamar mais funcional de novo, agora é preciso chorar e rir, tudo ao mesmo tempo e afincadamente, para depois continuar a chorar e a rir o resto da vida, da vida inteira.
Imagino que vos pareça incompreensível este recado, mas é o melhor que consigo neste momento.
Hoje é dia dos namorados - St. Valentine's Day, e não vou ser uma hater, vou ser canadiana de tipo "dia Hallmark" e dedicar isto ao meu amor, o meu querido (querido!) Chaparro. Não poderia imaginar amor maior na minha vida. Não poderia imaginar sentimento maior de paixão  e conforto, tudo ao mesmo tempo, de verdade, de uma verdade incondicional. Obrigada, meu amor.

Will you be my Valentine, Chaparro? 

Da tua,
Cipreste

Isto, com as devidas adaptações ;-)


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

da boca dos outros

«Children are the most wonderful, awful, selfish, giving, kind, cruel creatures in the world.

(...)

Parenthood is not the soft option or the safe option – it is the extreme option. For those who just want to be content, they should stay childless. For those who want both heaven and hell, children are the solution – as well as the problem.»

Tim Lott - The Guardian

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

welcome bienvenido bienvenue willkommen

Olá :)

Aqui encontrarão uma miscelânea cujo tema central será quase sempre a parentalidade. Eventualmente dir-se-ão coisas mais íntimas e outras mais generalistas. Ao experimentar a sensação do desconhecido nos meandros da infertilidade e da adopção, fomos sentindo necessidade de contactar com outras realidades. Entretanto, começámos este blog em modo privado (só a dois), devagarinho fomos convidando amigos a lê-lo e agora sentimo-nos preparados para a abertura ao público. Pensámos que talvez a partilha que sentimos chegar até nós através de outros blogs seja também aqui encontrada por outras pessoas. 

 Sejam bem vindos e que o vosso dia seja, de facto, limpo. 

Cipreste,digamos que é a futura mãe 
Chaparro, já é pai, do Freixo 
Freixo, um adolescente cheio de Swag
Sonhamos, todos os dias. Ansiamos por acordar, todos os dias. É isso. E o que lemos e procuramos, não nos dirá a parte ínfima, do que vai ser. Um dia vamos acordar e vai ser o dia.

E outros dias se seguirão. Não será o começo de nada, mas a continuação.


Chaparro

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

O enxoval.

Percebo que a minha vida tem sido muito feita de enxovais que não chegam a ir com a noiva. Nesta óbvia distorção do ditado popular, o que eu quero dizer é que, não obstante ter alcançado muitos objectivos nos últimos anos, outros houve que ficaram pelo caminho. Por exemplo, em 2011, preparámo-nos para zarpar até às Áfricas mas acabámos por ficar. No fim, constatamos que foi muito bom não ter ido, muita coisa aconteceu que poderia ter sido mais “fatal” se não estivéssemos cá. Entretanto, falámos e lemos muito sobre a vida de emigrante em Angola, ou Moçambique ou Cabo Verde. Serviu para a nossa cultura geral, pronto. 
2012 e 2013 foram anos com grandes sonhos de gravidez e cheirinho a bebé. Também lemos muito e iniciei-me na realidade dos grupos de entre-ajuda. Escrevi um pouco, não tanto quanto pensei fazer ou, pelo menos, quanto escrevi “mentalmente”. Embora fosse muito claro para nós que as probabilidades de uma gravidez eram baixas, e porque houve equipas dispostas a sujeitar-nos a tratamentos (isto são outros quinhentos) deixamo-nos sonhar. Decidimos que não íamos ficar presos ao grande número que indicava que não iríamos alcançar o sonho e voámos por momentos. Vestimo-nos de espírito positivo. Muito se falou aqui em casa de cheirinho a bebé, de enxoval, de nomes, da probabilidade de fazer uma gravidez gemelar, etc. Sonhámos. 

A verdade é que na gestação dos sonhos acabamos por falar muito de futuro. E, sinceramente, não me interessam as máximas que sugerem que é uma perda de tempo pensar no futuro. Ele existe enquanto preparação do nosso presente, portanto, não vale a pena negá-lo. E, neste momento, o nosso grande futuro é a adopção, não há lugar a dúvidas quanto a isso. Entre a incerteza que é hoje inerente a um casal em que ambos são empregados com vínculos sem termo, nem assim conseguimos viver descansados quanto à capacidade para manter uma casa que foi comprada dentro das regras de esforço das famílias, entre a incerteza quanto à saúde dos nossos entre-queridos (e a nossa, já agora…), o bem estar do Freixo, etc., entre todas estas preocupações e vivências paira a adopção como o maior tema das nossas vidas.
Já provocámos algumas mudanças na nossa casa a contar com a adopção, mesmo compreendendo que pode ainda passar muito tempo até que esta aconteça. A parte prática do meu ser resolveu que mais vale perder tempo com determinadas alterações agora do que no momento em que subitamente nos surge uma proposta e, num instante, temos a(s) criança(s) em casa. E isto faz sonhar. E falamos muito. E verbalizamos situações hipotéticas do dia-a-dia. Sonhamos. Como não fazê-lo?

Por vezes, a parte mais magoada de mim diz-me: pára com isso. E converso comigo sobre todos os sonhos de ser mãe que já passaram por mim desde 1997 e, no limite, penso que nada disto se vai concretizar porque… nada disto se vai concretizar para mim, porque me está destinado não ser mãe. E depois choro. E depois trago-me de novo à razão e explico-me que também tenho uma palavra a dizer em relação ao meu destino. E volto a acreditar e desculpabilizo-me por querer fazer um enxoval.

A verdade é que há muito passado neste sonho e, por vezes, é preciso fazer um grande exercício para não deixar que as derrotas residam no presente (e que tomem conta dele). E assim se cumpre a luta do bem-querer. É preciso que não nos esqueçamos, e mesmo quando nos distraímos é preciso regressar depressa ao presente e às pessoas que junto connosco estão a construir os dias.

O tempo é um grande fantasma, mas não vejo como não viver com ele porque, por um lado, há coisas que nunca quero esquecer e, por outro, nada faz mais sentido do que sonhar com os meus filhos e fazer-lhes o enxoval.

Já temos:

- 2 fronhas bordadas a dizer “good night” - sim, também vamos ser anglófonos

- as 2 mantas-mais-fofinhas-do-mundo - são as prendas do Natal 2013 do pai e da mãe

- um mocho - feito pela tia Ana que o deu à mãe mas que a mãe já pôs no nosso quarto

- e hoje a mãe vai comprar duas molduras iguais às dos avós e das tias, uma cá para casa e outra para o Freixo - para pôr a nossa primeira fotografia


Cipreste

da boca dos outros


  My little one swings about with his emotions and behaviors.  I remember with my older son went through these times when he was unruly and slept poorly and then a week or so later he would burst forth with a new skill or more words in his sentences.  It was then I knew how hard a little brain works, perhaps practicing how to make sentences, and how it all at once stimulates and exhausts a little person.  When I think of Andu and count off the months he has in our home, fifteen, I can't help but notice how much heavier his load is than a child who is born into a family and is with them from birth.  While he is plotting about how to make sentences and let others know his mind through his voice, he is also learning trust and attachment and love.  This is a challenge for anyone of any age.  Little kids are so vulnerable.  They literally have no choice but to depend on others.

Last week was difficult.  Lots of foghorn-crying, acting out, hitting, and rascally attention-seeking behavior.  I would look on in amazement at the child who had come so far act not at all like himself, pushing me away.  The saddest thing happened, too.  I was holding him, his face to mine, struggling to get some article of clothing on, and he slapped me hard, really hard, on the face.  It was so hard that I was shocked into silence and must have been wide-eyed when our eyes met.  He hadn't really been mad at me, but that hitting had become so much a part of his behavior, that he just did it.  He hadn't even been looking at me when it happened.  But, he knew its effect, I could see that in his eyes.  He looked terribly sad, almost in tears.  His eyes were pleading.  And I said, there's no hitting, followed quickly by, you're okay.

Now the past few days he is so little suddenly.  All that brashness, that behavior that invites you to be annoyed and withholding of praise, is gone.  In place of the hellcat is a baby, so little.  He is a shadow, never more than a few feet from me.  He is cuddly and insists on holding hands.  He just gets so "little."

I don't know the secret to parenting.  I don't know what to do so much of the time.  So I just stay present.  The days are long, but the years are short.  Have to just stick with the little ones, be present, stick close.

Posted by Christine @Mother Paradox

sábado, 21 de dezembro de 2013

"Acreditar é a grande lição", disse-me um dia o meu amor

Coisas do dia-a-dia: «- O Sr. Dr. deixa o meu marido ir passar 3 dias a casa pelo Natal. Ele ficou muito feliz, disse-me “Pronto, vou a casa pela última vez e depois venho aqui acabar os meus dias”. Sabe, fomos muito felizes durante 42 anos e nunca quisemos que nos escondessem nada. Então, eu disse-lhe “-Vês, amor, ainda voltamos a dormir juntos. Nós dois.”.»

20 de Dezembro - continuar a acreditar, contigo


Cipreste

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

da boca dos outros (listas!)

An Adoptee’s Perspective: 10 Things Adoptive Parents Should Know

1. Adoption is not possible without loss. Losing one’s birth parents is the most traumatic form of loss a child can experience. That loss will always be a part of me. It will shape who I am and will have an effect on my relationships—especially my relationship with you.

2. Love isn’t enough in adoption, but it certainly makes a difference. Tell me every day that I am loved—especially on the days when I am not particularly lovable.

3. Show me—through your words and your actions—that you are willing to weather any storm with me. I have a difficult time trusting people, due to the losses I have experienced in my life. Show me that I can trust you. Keep your word. I need to know that you are a safe person in my life, and that you will be there when I need you and when I don’t need you.

4. I will always worry that you will abandon me, no matter how often you tell me or show me otherwise. The mindset that “people who love me will leave me” has been instilled in me and will forever be a part of me. I may push you away to protect myself from the pain of loss. No matter what I say or do to push you away, I need you to fight like crazy to show me that you aren’t going anywhere and will never give up on me.

5. Even though society says it is PC to be color-blind, I need you to know that race matters. My race will always be a part of me, and society will always see me by the color of my skin (no matter how hard they try to convince me otherwise). I need you to help me learn about my race and culture of origin, because it’s important to me. Members of my race and culture of origin may reject me because I’m not “black enough” or “Asian enough”, but if you help arm me with pride in who I am and the tools to cope, it will be okay. I don’t look like you, but you are my parent and I need you to tell me—through your words and your actions—that it’s okay to be different. I have experienced many losses in my life. Please don’t allow the losses of my race and culture of origin to be among them.

6. I need you to be my advocate. There will be people in our family, our school, our church, our community, our medical clinic, etc. who don’t understand adoption and my special needs. I need you to help educate them about adoption and special needs, and I need to know that you have my back. Ask me questions in front of them to show them that my voice matters.

7. At some point during our adoption journey, I may ask about or want to search for my birth family. You may tell me that being blood related doesn’t matter, but not having that kind of connection to someone has left a void in my life. You will always be my family and you will always be my parent. If I ask about or search for my birth family, it doesn’t mean I love you any less. I need you to know that living my life without knowledge of my birth family has been like working on a puzzle with missing pieces. Knowing about my birth family may help me feel more complete.

8. Please don’t expect me to be grateful for having been adopted. I endured a tremendous loss before becoming a part of your family. I don’t want to live with the message that “you saved me and I should be grateful” hanging over my head. Adoption is about forming forever families—it shouldn’t be about “saving” children.

9. Don’t be afraid to ask for help. I may need help in coping with the losses I have experienced and other issues related to adoption. It’s okay and completely normal. If the adoption journey becomes overwhelming for you, it’s important for you to seek help, as well. Join support groups and meet other families who have adopted. This may require you to go out of your comfort zone, but it will be worth it. Make the time and effort to search for and be in the company of parents and children/youth who understand adoption and understand the issues. These opportunities will help normalize and validate what we are going through.

10. Adoption is different for everyone. Please don’t compare me to other adoptees. Rather, listen to their experiences and develop ways in which you can better support me and my needs. Please respect me as an individual and honor my adoption journey as my own. I need you to always keep an open mind and an open heart with regard to adoption. Our adoption journey will never end, and no matter how bumpy the road may be and regardless of where it may lead, the fact that we traveled this road together, will make all the difference.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Ir aos livros ou não ir aos livros? Eis a questão.

Quando sonhava ser mãe biológica tinha como plano não ler livros de puericultura, pedagogia e o diabo a sete. Embora reconheça que sou profissionalmente formatada para a pedagogia, sempre achei que a educação deve ser uma coisa natural, algo que acontece e não precisa de teorias. Esta convicção nunca se baseou numa negação dos saberes da pedagogia, mas antes baseava-se numa postura que assume que, com ou sem livros, serão sempre cometidos erros. Sabemos que todos temos convicções e certezas que caem que nem castelos de cartas quando chegamos à parentalidade. É óbvio que eu, ainda sem ter chegado lá, achava que as minhas são inabaláveis e que não vou engolir as minhas palavras. Somos assim e algo me diz que é saudável – tanto o facto de termos convicções (para disfarçar dúvidas e incertezas) quanto a realidade de ter de as deitar pelo chão na hora certa (para reforçar convicções e certezas).

Portanto, eu dizia que quando sonhava ser mãe biológica tinha como plano não ler livros que me guiassem nesse caminho. Fiz o mesmo durante os tratamentos de fertilidade, quis saber apenas o essencial. Ainda não sei se esta postura é a mais saudável, mas suspeito que pelo menos é saudável porque se situa algures no meio-termo entre “esgotar a informação” e o “não querer saber”.

Agora com a adopção a coisa pia mais fininho. Ui. É um ver-se-te-avias de leituras. Leio de tudo, do bom e do mau. E vídeos! Há dias fui apanhar-me frente ao youtube a ver vídeos atrás de vídeos, sem qualquer tipo de lógica no clique seguinte. Já percebi que há conceitos que me são simpáticos como o therapeutic parenting e que há outros que considero puras aberrações como o attatchment therapy (brrr).
É um bocadinho cansativo querer “saber tudo”, mas não encontro outra forma de estar na adopção. Até começar a ler, não me era espontâneo nem automático compreender certos meandros do medo e da insegurança de uma criança adoptada, nem afianço que teria reacções pedagógicas como as recomendadas nestas situações. Pelo que só posso considerar que ler sobre o tema tem sido muito positivo para mim e, assim o espero, para o(s) meu(s) futuro(s) filho(s).

Uma das coisas que mais me faz sentir solidária com os pais adoptivos que tenho lido é mesmo isto: as escolhas conscientes nas reacções pedagógicas e o peso social que podem assumir. E é com isto que (mais) sinto que (mais) aprendo. Ou seja, há decisões que os pais adoptivos têm de tomar perante certas situações de conflito que por vezes são o oposto do preconizado (e aceite) socialmente, logo, muitas vezes criticado por família e amigos. Muitas vezes injustamente apelidado de paternalista e condescendente e os pais diminuídos a pais que permitem tudo só porque o filho é adoptado. E isto, curiosamente quando se trata do contrário: a reacção dos pais é muito reflectida e baseada no bem-estar do seu filho. 

Um exemplo: Suponhamos uma birra num lugar público.  Habitualmente, os pais biológicos sabem que os seus filhos sabem que o seu amor é incondicional e que os pais estarão ali para os proteger contra tudo e contra todos. Aquela coisa de que as crianças só têm coragem de dizer “não gosto de ti” às pessoas com quem estão emocionalmente seguras.
Portanto, durante a tal birra no lugar público, é mais ou menos consensual nos meios em que me movo o método “isso já te passa/ quem é este menino tão mal educado/ ficas aí? eu vou embora”.

O mesmo não acontece com as crianças adoptadas, e não estamos a falar apenas dos primeiros tempos “até à adaptação” (eu sei, são muitas aspas e parêntesis, tenham paciência). Do que tenho lido, quando sensíveis para certos processos das crianças, os pais adoptivos não reagem da forma descrita acima a uma birra dos filhos num lugar publico. Porquê? Porque geralmente os motivos por detrás da birra, embora em ambos seja basicamente a frustração, esta não tem origem nas mesmas causas e a forma como os pais reagem pode ajudar a superar esse momento ou a exacerbá-lo e até a introduzir novo um mau-estar na criança.

Continuando com o exemplo, quando uma criança adoptada faz uma birra a sua frustração pode estar minada com algo mais para além do que é natural nas limitações de se ser criança e não se poder fazer tudo o que se quereria fazer. Fazer uma birra pode não ter iniciado com esse objectivo mas pode muito bem ser uma forma de testar ali, no lugar público, o quão empenhados estão aqueles pais em serem seus pais. É agora, vou fazer uma birra tão má, mas tão má, que vais ver como sou horrível e vais ver se não me deixas aqui, vou provar como toda a gente, mais cedo ou mais tarde, me abandonará. E podemos acrescentar mais umas conclusões a esta teoria como porque sou mau e ninguém gosta de mim, não mereço um pai e uma mãe, etc etc. Sim, assim tão básico e a direito. Penso que é claro que reagir como descrevi acima com o método “isso já te passa/ quem é este menino tão mal educado/ ficas aí? eu vou embora” é completamente contraproducente do ponto de vista pedagógico numa situação destas. Porque se trata de uma emergência emocional. Porque, mais urgente do que ensinar boas maneiras, é urgente abraçar a criança e mostrar-lhe (se necessário dizer mesmo) que ninguém a vai deixar ali sozinha a chorar a sua frustração, as suas angústias, o seu medo de ser abandonado e de não merecer ser amado incondicionalmente, para além das boas e das más maneiras. Que, no fim do dia, volta para casa com o pai e a mãe.

~ ~ ~

E logo a mim havia de calhar ser mãe adoptiva. Eu, tão firme e hirta. Tão convicta da educação “rígida mas com amor” que fui dando aos sobrinhos. Só penso nos meus mais velhos que passaram tanto tempo comigo. Não digo que estivesse completamente errada, e é verdade que eles mostram muito amor por mim pelo que as memórias não devem ser más. Mas penso nisto que tentei explicar das reacções pedagógicas e chego à conclusão de que provavelmente ler não nos faz assim tão mal nem nos mina a naturalidade. Porque o que nos é natural é o amor e este não se aprende nos livros. E penso que o que se aprende nos livros é a travar e a modelar  as nossas reacções. Afinal, falamos de construções e essas estão lá, nos livros. E isso não me parece nada mal. Parar e respirar e, se necessário, contar até 10.

E depois, estas coisas não podem ser só aprendidas porque se leu num livro, têm de ser sentidas. Vou dar-vos um exemplo que vos pode parecer completamente parvo, mas não é. Eu sei que é bom porque não o li apenas, senti-o e foi por isso que o consegui concretizar.
O meu gato vai para 10 anos com 8kg de mimo. É um gatarrão filho único. Um doce que faz birras. De vez em quando passa-lhe pela cabeça que manda cá em casa e, de orelhas para trás, faz uns avanços de quem nos vai pôr na linha. Mas tem azar e costuma, er... costumava levar uma palmada que resolvia o assunto de uma (mão-)assentada só. Há tempos, estava eu a reflectir sobre esta coisa da história de alguns meninos adoptados e no quão assustador deve ser entrar na casa de estranhos para se tornar seu filho e eis que um pensamento leva a outro e me  veio à cabeça as palmadas que o Manjerico leva de vez em quando. Senti um calafrio ao imaginar um primeiro dia com uma provável birra do Manjerico a ser resolvida com uma palmada e a imagem com que a criança ficaria de nós: potenciais educadores pela palmada. Nem consigo descrever o quanto essa imagem me doeu. Falei com o Chaparro e resolvemos tentar mudar a nossa reacção pedagógica perante as birras do Manjerico. Adoptámos o método de lhe soprar no focinho quando o “não” não funciona, aprendemos esta com a Gi.
Começámo-nos a treinar para a não-palmada em Setembro e passados 2 meses e picos posso afiançar-vos que o sortudo do Manjerico deixou de levar palmadas e até faz menos birras (go figure!). Não digo que vá tentar aplicar teorias a torto e a direito, mas percebemos que esta era importante e sentimo-nos felizes e orgulhosos de ter concretizado isto.

O que eu quis dizer com este palavreado todo resume-se nisto que li há tempos: uma mãe a dizer que se tivesse tido os seus filhos adoptados antes dos seus filhos biológicos certamente que estes últimos teriam sido poupados a muitas palmadas. Capisce?

Resposta: Ir aos livros, aos amigos, aos blogs. Parar e respirar e, se necessário, contar até 10. No fim, confirmar com o nosso coração.










Cipreste

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Vamos falar disto.

Dentre os meus amigos e conhecidos, quem esteja mais ou menos atento, já terá percebido que tenho dado alguns passos para sair do armário.
Ou seja, tanto andei que arranjei coragem para dar a cara: OLÁ, O MEU NOME É CIPRESTE E SOU PORTADORA DE ENDOMETRIOSE.

Trata-se de uma doença que me tem tomado alguns dos dias… desde os meus 14 anos.
Fui diagnosticada pelo 4º médico a quem me queixei, aos 27 anos (13 anos depois  do início dos sintomas!). Fui operada. E fui ignorante porque não procurei mais informação na altura, pensei que estava curada. Mas não. Tudo voltou. Hoje, às portas de fazer 40 anos, continuo com muitos dias marcados por esta malvada.

Muito há a dizer sobre a vida com endometriose.

Não nos olhem com pena, mas façam-nos um favor: ajudem a passar a palavra.
Porque CHEGA de deixar esta doença passar impune.
CHEGA de ouvir alguns médicos ainda da idade das trevas dizer-nos que é normal ter dores.
Aos que quiserem, e puderem, venham caminhar comigo no dia 13 de Março.

Não sei dizer grandes coisas sobre isto. Deixa-me sem palavras.

Não esqueçam o meu pedido: passem palavra.

Vamos falar disto.
Obrigada.

 

Fico com o meu sonho.

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Cipreste

domingo, 8 de dezembro de 2013

7 poemas para o sol que me aquece o sangue

Hoje é o dia

i. (Ainda Outra definição de mar e de mim próprio consoante a maré[1])
asa em viés
sombra inclinada à espera
vela norte mar adentro
terra atrás: muito atrás
saber que não é nada
tudo. nada
para não te
afogares.

ii.
pleno momento é dia,
sol de tudo que navego

iii
és um instante
o peito um polvo
no teu olhar
luz acesa
lassidão que nos macera

iv.
excisão de dor
impossível
talvez um excerto do meu sorriso
no teu peito

v.
Instala-se na letra
o seio do corpo nu à sombra
cercado pelas grandes árvores
lenha para queimar
lentamente.

vi.
tempestade corpo
habitado

vii.
o espaço entre as coisas é
um buraco para ver através da noite

hoje é o dia
para continuar

será um dia em breve.




[1] Outra definição de mar e de mim próprio consoante a maré – título de poema de João César Monteiro.



Chaparro

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

(ritos de passagem)

Nada mais perfeito do que uma casa enfeitada de natal com uma caixinha de música a tocar durante a vida vazia de filhos. Digo: nada mais perfeito para espiar a ferida de uma não-mãe.
Estou a dias de completar 40 anos. Programei-me com mestria para estas construções culturais. Datas, marcos, lugares, cheiros. Aceito-os, não os renego, não sou, no entanto, dramática em relação aos mesmos. Assumi há já algum tempo que sou assim, evoco estas coisas, é uma característica como qualquer outra. As décadas: Gostei muito de fazer 30 anos, foi no final de um ano muito duro para mim, aquele em que recomecei a minha vida numa cidade onde não tinha amigos nem família, apenas trabalho. O ano seguinte a um divórcio, com uma mala cheia de lutos por fazer.
Ainda que com alguns golpes por sarar, senti os meus 30 como uma vitória. Foi um dia feliz passado com aqueles que amo, e que me amam.
Há dias decidi que quero fazer uma festa para celebrar os 40. E assim será. Mas não vou fingir que entro nesta época natalícia com o coração incólume. Não, não vou fingir.
Fechou-se uma porta. E eu tranquei-a.

Nunca hei-de gerar um filho dentro de mim. Nunca hei-de ver o meu corpo transformar-se. Nunca hei-de ser abordada pelos que me amam a abraçar-me a barriga, a fazer promessas para dentro dela. Nunca hei-de parir. Com dor ou sem ela. Nunca hei-de parir. Nunca hei-de ter um bebé em cima de mim, acabado de nascer e eu cheia de lágrimas de felicidade por receber esse sentimento misterioso. Nunca hei-de ter as entranhas atravessadas por águas de dar à luz. Nunca hei-de dar de mamar ao meu filho. Nunca hei-de ter o meu bebé nos braços, adormecido, aconchegado, consolado. Nunca hei-de ouvir o riso dobrado do meu bebé. Nunca.

Tenho de encontrar um lugar onde sepultar este sonho. Os médicos, sábios, propõem que coloque na mesma cova o meu útero e os meus ovários. E fico eu, para lamber esta ferida. Oiço música triste. Enquanto choro, deixo acesas as luzes da árvore de natal.
Eis que esta luta se metamorfoseia agora num luto.

 

(procurar o chão, quando o "you" em "fix you" somos nós próprios)


When you lose something you cannot replace
Tears stream down your face



Cipreste

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Ajuda

(publicado inicialmente no facebook)


Acto de auxílio é uma das definições desta palavra.
Não sendo uma pessoa crente numa entidade superior única, sou crente no bem-querer entre as pessoas. E aqui entra uma expressão-chave: entre.
Tenho pensado muito sobre este assunto nos últimos tempos, um pouco mais nos últimos 3 anos. Muita água tem passado debaixo da minha ponte. Alguns sustos e aflições.
Vou juntando as expressões para esta reflexão: ajuda; entre; e escrita.
É de escrita que também quero falar. Escrita e leitura - suas necessidades e eventuais utilizações (que é como quem diz da serventia). E do fenómeno dos livros de auto-ajuda.
Conheço poucas pessoas que admitam ler livros de auto-ajuda e vejo lógica nisso, já vou explicar a razão.

Antes, quero dizer que, vivendo uma “condição” específica  há muito tempo, no último ano encontrei ajuda além da habitual (família, amigos, colegas de trabalho, etc.) nessa coisa que um dia pareceu tão distante de mim: os grupos de entre-ajuda. Sim, a partilha das nossas dores e receios com perfeitos estranhos. Ou deverei dizer estranhos perfeitos? Sim, isso.
Aprendi mais umas lições. A primeira (a velha lição) foi sobre não negar à partida uma ciência que se desconhece.
Não me vou alongar sobre o que ganhei por me abrir a mais uma dimensão das relações humanas. É tudo demasiado óbvio para mim, e compreendo que possa parecer demasiado obscuro para quem nunca o praticou. Fiquemo-nos nas nossas realidades se assim for mais confortável. Está tudo bem.

E volto às expressões que juntei para este texto e à auto-ajuda.
Ontem, encontrei um livro na caixa de correio. Já o encomendara no dia 04 pelo que a ansiedade de o receber estava já sossegada. Trata-se de um livro escrito na primeira pessoa por alguém que vive uma condição parecida com a minha. Digo parecida porque todas as histórias são diferentes, obviamente. Entrei em casa e li logo as 2 ou 3 páginas iniciais. Hoje, tenho estado a fazer tarefas soltas entre as quais pego no livro amiúde e vou lendo uma página de cada vez. Gostava de ficar a lê-lo de seguida, mas compromissos do coração falam mais alto.
Porém, tive de vir aqui partilhar uma série de sentimentos que têm brotado ao longo das parcas páginas que já li. Sim, sentimentos por vezes acompanhados de uma lagrimita, mas não, não é um livro de emoções-instantâneas e posso dizer que está muito bem escrito por uma pessoa que se revela muito inteligente.

Adiante. As ideias que desejo partilhar são as seguintes:

- Vale a pena entrar, nem que seja muito devagarinho, no mundo da entre-ajuda. Não estou, de todo, a desvalorizar o papel da restante rede de apoio (expressão feíota, eu sei, mas acho que é a que define melhor). Nem sequer estou a dizer que, na minha experiência, uma das dimensões onde vou encontrar alento é melhor do que a outra. São diferentes, ponto. E, vou contar-vos… esta menina tem-se surpreendido muito a cada passo na entre-ajuda. E, até agora, só ganhei.

- Penso que percebo agora porque é que a auto-ajuda pode ser algo falacioso: é auto e não entre. Duh! Não querendo ajuizar quem se faz valer da auto-ajuda, penso que é apenas mais uma forma de estar virado sobre si próprio. E um dos riscos de estarmos sempre virados para o espelho é precisamente a oferta limitada de visões que essa perspectiva oferece. Há que viajar e ver outras realidades, nem que sejam viagens pela net que foi onde encontrei o “meu” grupo de entre-ajuda.

- Sobre a leitura: fico sempre tão aparvalhada quando leio outras pessoas a descreverem na perfeição episódios que eu vivi. Estou a falar de livros que fazem partilha de experiências, e entra aqui uma grande diferença: não são livros de entre-ajuda, são de partilha, isso, apenas isso. Porque estamos a falar de leitura e de humanos que escrevem e não de génios - seres superiores e infalíveis. Ninguém pode pensar que vai ajudar alguém através de um livro. Não compreendo a ajuda como algo que acontece de forma unidireccional. E a leitura é-o. A leitura é um acto numa só direcção. E a escrita também. Por isso mesmo a diferença que refiro. O máximo que pode acontecer é eu ligar peças ao ler um livro de partilha e, a partir daí, tornar esse corolário em algo útil. Não quero, com isto, dizer que não nos possamos sentir gratos a quem escreveu.

Estarei a fazer sentido?

O que quero aqui dizer, e talvez fosse desnecessário o texto acima(?), é que, quando vivemos situações específicas que requerem alguma resiliência  para não se andar por aí a mal-dizer a vida, há ajudas. Não estamos sozinhos. E eu acho que é tão importante saber que não estamos sozinhos. Não que desejemos aflições às outras pessoas, mas porque sabemos que, de facto, shit happens e não é só a nós. Então, porque não nos aproximarmos um pouco (pode ser à laia de raposa) para observarmos como convivem outras pessoas com o mesmo tipo de situações?
Porque não? Porque somos muito ciosos da nossa privacidade? Ok, legítimo. Mas depois não me venham cá dizer que a privacidade é um lugar muito só. Vou começar por explicar que acho que a privacidade pode ser muito mais do que aquilo que pensamos ser um segredo bem guardado. E que, a cada camada da nossa privacidade que revelamos, estará lá outra a formar-se. E que não vamos deixar de ser únicos porque levantámos o véu de algo que, afinal, não nos é exclusivo. E acresce que, nos tempos que correm, nem sequer temos de o fazer revelando a nossa identidade ;)
Enfim, se me disserem que gostam de se considerar uma espécie de eremitas, então não percebo porque é que ainda estão a ler este texto :)

Finalizo confessando que tenho pensado muito em escrever sobre as minhas vivências, em formato de blog, apenas ainda não consegui resolver que grau de identificação da minha pessoa é que quero revelar. A decisão não é linear, é de tipo pau-de-dois-bicos, mas hei-de lá chegar. Porque, noutros contextos, já tive a oportunidade de saber que a partilha de algumas situações nos pode permitir a abertura de horizontes. E porque gosto de escrever. E porque me faz sentido que utilize a escrita para além da poesia. Ou antes, porque a entre-ajuda tem muito de poético. Vá, chamem-me fatela. Eu chamo-lhe uma espécie de entre-auto-ajuda ;)

Reli o texto e ainda não percebi se só fará sentido a mim.
Enfim, hoje sinto-me muito grata e quis partilhar estas ideias soltas.
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Cipreste