terça-feira, 23 de setembro de 2014



Se a ideia dos chineses da antiguidade de que não nascemos completamente humanos, mas antes que nos tornamos humanos à medida que nos cultivamos, e às nossas relações com os outros, está correcta – e que o façamos num mundo tão hostil e ameaçador em que os acontecimentos tomam rumos terríveis e em que aquilo que conseguimos controlar é muito limitado – então, o cuidar é uma daquelas relações e práticas de auto-cultivação que nos torna, mesmo quando experimentamos os nossos limites e falhas, mais humanos.

Arthur Kleinman, 2010

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Chegou o nosso certificado

Com 6 meses de atraso em relação ao prazo legal, ou seja, datado do dia em que fez 1 ano da candidatura, mas isso agora não interessa para nada.
São duas folhas. Uma diz “notificação de selecção”, a outra diz “Certificado de Selecção de Candidato a Adoptante” e reza assim:

«Certifica-se que nos termos do disposto no nº 3 do art. 6º do Decreto-Lei nº 185/93, de 22 de Maio, na redacção que lhe foi dada pelo Decreto-Lei nº 120/98, de 8 de Maio e pela Lei nº 31/2003, de 22 de Agosto, Chaparro e Cipreste residentes no Que o Dia Te Seja Limpo, foram seleccionados como candidatos a adoptantes, por decisão do Exmo. Senhor Director Distrital de Segurança Social.»
Assinado e com carimbo branco e tudo e tudo.

Registe-se: temos o papel!



Estais, portanto, perante duas pessoas certificadas a nível Estatal para serem pais. Duas pessoas que nunca pensaram ficar com os olhos marejados de lágrimas, ao abrir a caixa de correio, só por causa de um papel.

Cipreste e Chaparro

coisas que nos fazem sentir muito, muito, pequeninos


"I can't see, so he guides me. Whenever I make a sound, he will come running. He reads to me. He cooks for me. And he got the second highest ranking in his 6th grade class."

Nurpur, India

E uma vez lançada, a palavra voa irrevogável*

Consulto o Priberam para confirmar a conjugação de um verbo e os meus olhos são chamados para a nuvem do lado direito com as palavras mais pesquisadas do dia. 


Fico suspensa a pensar nas pessoas que terão procurado o significado de paliativo, que dou por mim a dizer no plural: paliativos. Cuidados. Sinto proximidade e compaixão por essas pessoas.

Diz-se que há três coisas que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida. O momento em que alguém nos diz a palavra paliativo consegue conjugar estas três coisas. Sentimos como que uma flecha no peito, a palavra fica a ecoar e mergulhamos nas oportunidades que não voltam atrás.

Não há-de ser fácil ler, de chofre:

1. Que serve para paliar.
substantivo masculino
2. Remédio que não cura mas mitiga a doença.
3. Recurso para atenuar um mal ou adiar uma crise; adiamento.
4. Disfarce.

Seguir a palavra paliar e encontrar a crueza de:

verbo transitivo
1. Encobrir, revestir de falsas aparências.
2. Pretextar.
3. Demorar, adiar.
4. Atenuar, aliviar.
5. Travar com paliativos.

Perceber que tudo isto não passa de um verbo transitivo. Seguir o significado de transitivo e receber a mensagem "que passa" e confirmar que não serão os dicionários a amenizar as nossas suspeitas.
Cipreste

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Desafio

Há muito tempo que não vos venho falar da endometriose e convém ir fazendo-o amiúde porque é muito importante ir passando a palavra.
Fica a mensagem de ontem da Associação Portuguesa de Apoio a Mulheres com Endometriose, no facebook:

Esta doença afeta mais de 176 milhões de mulheres em todo o mundo!
Já a conhecias? A divulgação é a nossa maior arma para um diagnóstico correcto e atempado podendo assim evitar a progressão da doença e sequelas irreversíveis!
Sabe mais em mulherendo.

A ideia é escrever a palavra Endometriose de forma original, fotografar e partilhar com a mensagem no vosso mural desafiando 4 amigos a fazê-lo também.

Têm 48h para cumprir este desafio (foi a contar desde ontem dia 15, eu é que me atrasei...), caso contrário deverão fazer um donativo de 1€ à MulherEndo - Associação Portuguesa de Apoio a Mulheres com Endometriose!

Fica o meu contributo, em dia de aniversário da Mafalda ;)



Pf ajudem a passar a palavra e, se possível, uma pequena contribuição para a nossa associação que tanto nos tem ajudado - pelo menos, a mim, já fez uma enooorme diferença na vida

Obrigada e beijinhos,
Cipreste

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Consolo

Ontem, foi o último dia de trabalho do Chaparro. Alegando a extinção de postos de trabalho, o patrão milionário viu-se obrigado a arrumar contas com os primeiro 25 que despachou colectivamente, alguns com 30 anos de casa. E assim se viram livres dos 2 meses legais da tortura da praxe que distam entre a oficialização do despedimento e a sua concretização.

Ontem, entre intervalos do meu trabalho, acompanhei o meu pai nas consultas – Oncologia Médica e Consulta da Dor. O dia começou ameno, mas quando chegou à Consulta da Dor começou a queixar-se de forma mais intensa. Contratempos e urgências a que os médicos foram chamados, levaram-nos a perceber que as dores do meu pai não eram ali uma urgência major. E nós compreendemos. Nós compreendemos sempre. São 13 anos a arrastar-nos entre muitas especialidades.
Agora, a especialidade da dor.

O meu pai saiu de lá aliviado da dor. Eu, nem por isso.

Trouxera o carro para a cidade, a 100km de casa deles, ainda insisti que os levava, que conduziria o seu carro. Mas ele é um resistente. Disse-me: eu consigo. E eu acreditei nele. Lá foram. A minha mãe ligou quando estavam a chegar. “Quando chegarem, liga-me”. Que é para eu ficar mais descansada. Mas eu não fiquei mais descansada. A minha mãe disse “Já chegámos, o pai está melhor.” e ele, lá do volante, disse bem alto, para eu ouvir, “beijinhoooos!”. E eu disse “beijinhoooos!”. E o meu coração fez aquela coisa de ficar muito pequenino e muito grande ao mesmo tempo.

Tive de anular umas das reuniões que ia ter mas ainda consegui ir à outra. O Chaparro foi buscar-me no fim, com o porta-bagagens cheio de caixas com livros e catálogos e mais não sei o quê – o espólio que lhe restou.

Dias grandes.

Hoje, vim ainda mais cedo que o habitual, sozinha, de carro, e ele lá ficou. Vai ao banco e vai continuar a obcecar com as várias hipóteses profissionais, que maioritariamente passam por criar o seu próprio emprego. Não vale a pena ter a veleidade de que conseguirá, na conjuntura actual, emprego na sua área.

Costumávamos sair de casa juntos pela manhã. Só temos um automóvel. Ele deixava-me de manhã e seguia, ao final da tarde eu regressava a casa de autocarro ou a pé. Não sei como vai ser agora.
Estacionei na garagem do meu trabalho, no -1, o elevador desceu ao -2 para apanhar mais alguém. Entraram 3 colegas com quem simpatizo. Um perguntou-me pelo meu pai e dei por mim a responder “um dia de cada vez” já entre lágrimas. Coitados, embaracei-os. Pediu-me desculpa por perguntar. Eu agradeci o seu cuidado ao perguntar. E desculpei-me pela vontade própria das minhas lágrimas.

Cheguei ao meu gabinete para de seguida sair com um cigarro e uma moeda para tirar café da máquina.
A caminho do cantinho dos fumadores, trauteava que a vida é sempre a perder.
Éramos 3 fumadores. Uma desabafou que é 6ªfeira, o outro disse em desalento que é igual a ser fim-de-semana. Ele não trabalha por turnos nem noites, os dias são iguais porque sim e rematou que somos sortudos por ter emprego. Eu não disse nada. Eu pensei “hoje é o primeiro dia do Chaparro desempregado”.
Pensei que sei que sou sortuda por ter emprego e pensei que sou ainda mais sortuda por ter um emprego em que não estou simplesmente a enriquecer um porco rico que tem coragem para despedir pessoas com cancro ou acabadas de comprar casa ou de ter um filho – esse é o ex-patrão do Chaparro. É essa a forma como cumpre a responsabilidade social de que tanto os da sua laia apregoam fazer.
Eu estou no serviço público e sei que é isso que faço. Nenhum ordenado paga a humanidade que venho buscar aqui. Estou feliz por ver o Chaparro livre daquele ambiente.

A vida pode ser sempre a perder, mas há formas mais dignas de perder do que outras. Não odeio o que é fácil, nem acho que tudo o que vale a pena é difícil de conseguir. Mas tem sido a nossa experiência de vida. Estou mesmo muito feliz por ver o Chaparro livre daquele ambiente. Consola-me saber que pode estar aí ao virar da esquina o realizar de um sonho para ele.
Ok, ainda não será o sonho de ter uma cabana na praia, mas já não será nada mau. Está nas nossas mãos.

Deixo-vos com este poema:

BIOGRAFIA

Tive amigos que morriam, amigos que partiam
Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
Odiei o que era fácil
Procurei-me na luz, no mar, no vento.

Sophia de Melo Breyner Andresen



Um bom dia para vós,
Cipreste

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

da boca dos outros

Conta-me histórias

«(...) Formas de pensar nem sempre são formas de ser e, muitas das vezes, não passam de modos de dizer. Além disso, sabes o que acho das convicções: são suicídio. Quando a gente insiste num lado, começa logo a morrer dos outros. Poupemo-nos à terrível humilhação de nos faltar o ar quando estamos no cimo do palanque.
Conta-me histórias. Prefiro que me contes histórias, nem que as inventes. Antes ser aldrabada pela tua imaginação do que pelos teus juízos. (...)
Poupa-me a moral, sentença ou epílogo. Para contar uma história é preciso hipotecar o coração e assim logo ficarei a saber o quanto ele vale.»

por Mãe Preocupada

terça-feira, 9 de setembro de 2014

dos aforismos do dia

Being negative may make a difficult journey more difficult.
You may be given a cactus, but you don't have to sit on it.

a caminho de me tornar numa Schmuck colossal

Felizmente, é raro dar-me chiliques como o de ontem. Nessas horas, parece que, à minha frente, só existe um muro intransponível. Nessas horas, sinto-me próxima de um point of no return. Quando passa, percebo que essa sensação é falaciosa. Nem o muro é intransponível, nem, trespassando esse muro, chegarei a um lugar sem retorno.
Embora todos os tempos sejam sem retorno, e alguns lugares também, o retorno, aqui, surge mais como uma sobrevivência e não como um regresso. Ou seja, a única coisa que não tem remédio é a morte, ao resto, no mínimo, resistimos.
E, quando falo em sensação falaciosa, penso que se pode fazer uma analogia com aquilo que os antigos (provavelmente alguns contemporâneos também) chamariam de “espíritos maus”. Porque uma pessoa como que se sente possuída por uma força que nos impede de ver mais além, de perceber que há uma saída, que aquele momento é só isso – um momento.
São horas difíceis, horas de desesperança.
É uma implosão, consequência de idades sucessivas a fazer por escapar a torvelinhos.

Este fenómeno, a sua constatação, tem uma importância imensa na minha biografia. Vivi um episódio em que esta cegueira tomou conta de mim e me fez vivenciar um dos momentos mais negros da minha existência. Nesse dia, eu disse com todas as minhas forças “não consigo”. Toda a conjuntura à minha volta foi favorável a uma desistência. E eu desisti. Foi nesse dia que eu quis morrer. No entanto, vai uma distância entre achar que a nossa vida não vale nada e acabar com ela. Não fiz nada no sentido de atentar contra a minha própria vida. E continuei a respirar até me sentir gente de novo. Tudo porque me deixei tomar conta pela desesperança.

Sabemos que a vida não é estanque, sabemos que há dias bons e dias maus, ainda assim, nunca estamos preparados para as quedas. 

Quando eu era adolescente e nos sentíamos em baixo, dizíamos que estávamos na fossa. Parece-me uma boa metáfora. Há horas em que perdemos o Norte e nos questionamos sobre a própria inteligência ao evocar outras horas em que achámos algum sentido a isto. Relembrando o Mickey Sabbath, «Qualquer pessoa com alguma inteligência compreende que está destinada a levar uma vida estúpida porque não há outra espécie de vida».

Depois, há qualquer coisa que nos impele a seguir em frente. Conformamo-nos que é isto que temos e admitimos que há horas bem passadas. As sensações físicas sossegam, a aflição esvai-se. A humanidade que há em nós leva-nos à conciliação e damos por nós a seguir em frente. 

Não acho que o Universo ande a conspirar contra, nem a favor (já agora), a minha vida. Acho que somos uma cambada de acasos, mas não tenho como afiançar. Os dias enchem-se de acontecimentos aos quais vou encontrar sentidos e que uso para fazer ligações. Falamos do medo, somos uma cambada de medos que podemos ligar uns aos outros. Porque estamos todos no mesmo patamar de conhecimento sobre o mistério da vida.

Hoje, o Google festeja Tolstoi, autor de um dos livros da minha vida – A Morte de Ivan Ilitch. Podem ler sobre o livro aqui. Também concordo que cada página é como um espelho. E estou certa de que o relerei mais vezes. Preciso de me lembrar amiúde da nossa ignorância.

Ontem, uma pessoa que me é muito querida, que faz parte do meu bem-querer, partilhou este post no facebook com a legenda “me too”. Quando vi, fiquei em pânico. Fiquei aflita porque não posso ver que alguém se sinta na fossa, impotente, nesse mesmo lugar em que eu, ainda ontem, me sentira. Corri a dizer-lhe que vai ficar tudo bem, que são horas que devemos tentar fazer com que sejam pequenas, que devemos breathe in e breathe out e, logo-logo, you're gonna be alright.
Disse-lhe tudo o que o Chaparro me havia dito horas antes ao tentar ajudar-me.

Mais tarde, quando o Chaparro chegou a casa e lhe falei sobre tudo isto e lhe disse que já me sentia melhor, rematei, citando o meu amigo Sabbath, que, um dia, vou ser uma Schmuck colossal:

«As parvoíces em que temos de nos meter para chegarmos onde temos de chegar, a extensão dos erros que precisamos de fazer! Se nos informassem antecipadamente de todos os erros, diríamos não, não posso fazer isso, têm de arranjar outro qualquer, eu sou demasiado esperto para fazer essas asneiras. E responder-nos-iam, nós temos confiança, não te preocupes, e nós responderíamos não, nada feito, precisam de um schmuck muito maior do que eu, mas eles repetiriam que têm confiança que somos a pessoa indicada, de que evoluiremos para um schmuck colossal mais conscienciosamente do que podemos começar sequer a imaginar, de que cometeremos os erros numa escala que nem podemos sonhar agora: porque não existe nenhuma outra maneira de atingir o fim.»
in Teatro de Sabbath de Philip Roth
Publicações dom Quixote, Colecção Ficção universal, 2000
Gosto da palavra schmuck.

Cipreste

novas demais para casar


"Too Young to Wed /Novas Demais para Casar" - é uma exposição sobre os casamentos infantis, precoces e forçados que põem em causa os Direitos Humanos de milhões de crianças em todo o mundo. Pretende contribuir para o aumento da consciencialização sobre o tema, apoiar as raparigas já casadas, desencorajar e eliminar esta prática e salvar cerca de 142 milhões de outras raparigas de igual destino. Chega a Portugal no âmbito da campanha "Continuamos à Espera" e estará aberta ao público de 1 a 15 de setembro, em Lisboa.
Em muitas sociedades o casamento é uma celebração que significa a união entre dois adultos. Mas infelizmente, diariamente, 39.000 meninas, em idade de brincar e ir à escola, são forçadas a casar. Muitas noivas são tão pequenas ainda que levam os seus brinquedos para a cerimónia de casamento. Geralmente essas meninas tornam-se mães no início da adolescência, enquanto elas próprias ainda são crianças. Isto pode resultar em profundas consequências negativas para as meninas, para as suas famílias e para toda a comunidade.

Esta exposição internacional é fruto de parceria entre o Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA) e a Agência Premier Photo VII, integrando trabalhos das fotógrafas Stephanie Sinclair e Jessica Dimmock com diversas fotos e infografias organizadas em cinco áreas temáticas: expectativas da comunidade, viagens, saúde materna, violência e saúde mental, esperança e educação.

Depois de inaugurada na sede da ONU, em Nova Iorque, e passar por várias capitais e países, chega a Portugal no âmbito da campanha "Continuamos à Espera", da iniciativa de quatro organizações portuguesas: P&D Factor – Associação para a Cooperação e DesenvolvimentoCCC- Associação Corações com CoroaAJPAS – Associação de Intervenção Comunitária, Desenvolvimento Social e Saúde e Oikos – Cooperação e Desenvolvimento; em parceria com o Camões - Instituto da Cooperação e da Língua, IP e apoio da Caixa Geral de Depósitos.

apresentação oficial da Exposição será no próximo dia 10 de Setembro pelas 16h30 no local da exposição e contará com as presenças do Secretário de Estado da Cooperação e Negócios Estrangeiros (Luís Campos Ferreira), do UNFPA (Alanna Armitage), da Presidente da P&D Factor (Graça Campino Poças), da Presidente do Camões - Instituto da Cooperação e da Língua, I.P. (Ana Paula Laborinho), dos dirigentes das demais ONG parceiras da Campanha "Continuamos à Espera" -  Presidente da Corações Com Coroa e Embaixadora de Boa Vontade do UNFPA (Catarina Furtado), Presidente da AJPAS (António Carlos Silva), da Oikos (Pedro Krupenski), entre outras entidades e personalidades.

"Too Young to Wed" - Novas demais para casar - estará aberta ao público entre 1 a 15 de setembro, das 9h00 às 19h00 no átrio central do edifício sede da Caixa Geral de Depósitos, na Avenida João XXI em Lisboa (a entrada pode ser feita também pela Culturgest, Rua do Arco Cego). 
Entrada livre.

via OIKOS 

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

talvez escrever

Estou cansada de desabafar sobre os meus problemas. Estou cansada de tentar colocá-los em perspectiva, de me acusar de me queixar de “barriga cheia”. Estou cansada de olhar para o lado, para os problemas dos outros e sentir-me indigna dos meus queixumes. Às vezes, estou simplesmente cansada de mim.

Cada vez menos confidencio com amigos. Na verdade, os meus únicos confidentes têm sido mesmo o Chaparro e este blog.

Estando eu própria cansada de mim, receio cansar os outros. Aliás, penso já ter cansado algumas pessoas que claramente se afastaram de mim nos últimos meses. Nem sequer sinto legitimidade para abordar essas pessoas. Sinto que posso ter sufocado um ou outro amigo com tanta intensidade de relatos de eventos em sucessão. Deixo-me ficar no meu canto. Disse-lhes um ou dois olás, perguntei-lhes como vão, responderam-me que vão bem ou que vão indo. E ficou por ali. Confirmei de mim para mim que as suas ausências se devem ao espaço que ocupo e que precisam de libertar para si. E assim tenho vindo a ficar no meu canto.

Não exploro o assunto solidão porque não o identifico, embora reconheça que o afastamento de pessoas que habitualmente fazem parte do nosso círculo íntimo leve a uma certa solidão. Mas não creio ser essa a solidão que sinto.
Resta a saudade do que foi e a consciência de que o que se foi não volta, nunca mais. Fico com a auto-estima periclitante e falo mais baixinho com quem quer que se aproxime de mim. Desejo não ferir os ouvidos das pessoas.
Reflicto sobre o bem-querer. Reflicto sobre a efemeridade.
Recuso-me a considerar que já não se fazem amizades como antigamente porque não acredito que antigamente é que era.
Começo textos sobre a necessidade que sentimos, que sinto, de cultivar a lealdade e apago tudo. E depois recomeço outro texto.

Não sou prisioneira da obrigação de se ser zen e detesto a tirania do optimismo. Apesar disso, e de reconhecer que todos temos os nossos dias, procuro fazer por contrariar o mal-estar interior. Acima de tudo, porque não gosto (mesmo nada) desta sensação de querer fugir, de fazer um sprint, ouvindo esta canção em repeat, e só parar quando chegar a um penhasco da Galiza e ficar ali em pendência com as minhas vertigens.

Há dias em que nenhuma solução se adivinha, há dias em que sentimos muito mais forte que a nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer*.
Hoje, a minha manhã foi regular, igual a tantas outras, cumpri o meu dever e fui almoçar. Não senti o sabor da comida, depois tomei um café e fui fumar um cigarro. Tenho fumado uns cigarros, ainda assim não me sinto consolada. Há pouco, voltava ao meu posto de trabalho e listava mentalmente os eventos e tarefas para os próximos tempos, sendo a ocupação mais importante a cirurgia da mãe-Chaparro, e o revolver a cabeça à procura de uma solução profissional para o Chaparro, seguem-se as ninharias que me levarão as energias: uma reunião hoje ao final do dia com outra entidade com que colaboro; retomar aquele compromisso que ficou interrompido com a minha cirurgia; preparar a formação do final da semana; preparar-me para a reunião de amanhã; preparar-me para a reunião de 5ªfeira e que levará à escrita de 3 resumos e 1 proposta de projecto que tenho de fazer até dia 25; preparar a formação de Outubro, e a de Novembro e a de Dezembro, sem falar na outra que começa no dia 22; contactar aqueles indivíduos que vêm ajudar nesta formação que começa no dia 22; (reparem que todas estas formações, excepto uma, são extra o meu emprego/horário de trabalho) inscrever-me na outra associação; pagar quotas; já agora, lembrar o Chaparro de pagar o selo do automóvel assim como da inspecção periódica; ah! e pagar aquela conta da oficina; inscrever-me no congresso profissional; planificar as 6ªs e Sábados que vou ter ocupados com formação que, essa sim, vou receber; e o sindicato (oh céus, como me deixei envolver em mais esta?!);  continuar a marimbar-me para a limpeza da casa, mas pôr roupa a lavar ur-gen-te-men-te; e decidir se sempre publico o meu livro.

O meu livro. Nunca vos contei: eu escrevo. Quero dizer, escrevo sobre outros assuntos que não só a infertilidade, a endometriose e a adopção. Escrevo uma coisa a que penso se possa chamar de prosa poética. Ando há anos (anos!) para publicar e parece que vai ser agora. São tudo textos escritos a anos-luz desta que hoje se apresenta como Cipreste. Embora este apelido venha da convivência desses dias. À distância, reli-os, e leram-mos em voz alta convencendo-me que, ok, é publicável.

Ao listar estas tarefas, pensei que não vou conseguir levar avante tudo isto. É demais, pensei. Não é um dia de cada vez, são 4 meses muito cheios. E senti o canso todo em miscelânea, senti os cansaços todos juntos dentro e fora de mim, como uma nuvem de fumo, mas de fumo indestrutível. E pensei que, uma vez que não tenho disponibilidade nem dinheiro para ir passar os próximos meses a Bora-Bora, talvez deva voltar a escrever sobre os outros assuntos que não só a infertilidade, a endometriose e a adopção. Ou, talvez, sejam  os mesmos assuntos, apenas todos juntos nesses dois que dizem obcecar os poetas: o amor e a morte.

Tenho uma vaga memória de me sentir mais perto do mundo quando escrevia sem travões. E eu que ando tão atreita a deixar-me vaguear ao deus-dará. Talvez hoje passe por um café antes de zarpar para casa e tente escrevinhar uma ou duas linhas com a alma toda lá dentro.
Em busca de me sentir mais perto de casa.

É isso: tenho saudades de casa.

Cipreste

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

da boca dos outros

Bandeiras

Tenho aprendido pouco da vida. Não por falta de tabefes ou de atenção às lições, mas porque em nada disto vejo ciência exata e a fórmula que ontem deu conta certa hoje pode resultar em incógnita. De uma coisa, porém, me vou lembrando: que certos apegos são inúteis. Que o "abrigo", o "porto seguro", a "estrutura", a "terra firme" são conceitos fantasiosos, esculturas da nossa debilidade. Que o melhor é manter a disposição para mudar de rumo. Que não há casa que não possa desmoronar-se, caminho que não possa desembocar em precipício, dinheiro que não arda, vida que não tombe em sepultura. Caminhe-se com bons companheiros e vistas amplas, mas não se presumam apropriações, moradas definitivas, territórios cercados, contratos vitalícios.
É tolice espetar bandeiras num mundo que não para de girar.

por Mãe Preocupada

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Companheiro de vida

Não me lembro exactamente quando soube que o Chaparro era o companheiro com quem queria partilhar a minha vida. Guardo muito carinhosamente a memória de um email que me enviou num dia em que eu estava triste e lhe pedi para me fazer rir. Nesse dia, pensei na amizade que me dera nos últimos tempos, no seu sorriso, na sua generosidade que é enorme. Senti um calorzinho bom. Ainda éramos apenas amigos. Ficou este poema, constante desse email, como parte da nossa antologia:


- Gostas da palavra litote?

gostas da palavra litote?
é um tropo.
e não gostas da palavra tropolitote?
então diz comigo:
tropolitóóóóóóóte !
litote
tropope
tropolipope
tripopopote
tripolitripolitote
tripolitripolipoli
toliloli
tropopopoli
tripopeli
popoli
poplili
popli
popliiii,

Ana Hatherly in um calculador de improbabilidades
Quimera, 2001
Cipreste

sobre os ritmos de desenvolvimento

Bom dia,

Andava há algum tempo para vir partilhar este post convosco - a altura certa.
Ainda não sou mãe e, na verdade, tenho-me tentado "preparar" (eu sei, nunca estamos "preparados") para lidar com eventuais dificuldades de desenvolvimento, apesar disso não sei se serei uma mãe ansiosa acerca das várias etapas, com o "já faz" versus o "ainda não faz".

Gostava de conseguir ser como esta mãe que não esconde angústias mas transmite muito eficazmente o amor pelos filhos tal-como-são, um saber viver devagar o dia-a-dia .

Como diz uma comentadora do post,  porque «Cada um tem o seu ritmo e os nossos filhos apenas são extraordinários na medida em que são nossos.».

boa leitura,
Cipreste

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Sweet sixteen

Invadi o mural do facebook do Freixo :) fiz um meme como este, um pouco mais "personalizado", a rimar e tudo!
hip hip, hurra!


Cipreste

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Ainda sou do tempo... em que usávamos a mala do enxoval

Enquanto esperamos pela concretização da adopção, pouco podemos fazer em prol da futura família, dos nossos futuros filhos. Ou antes, a única coisa que nos sobra é ler, procurar aprender o máximo possível sobre “parentalidade terapêutica” – conceito em voga aplicado à parentalidade na adopção.

Por vezes, ler torna-se muito pesado. Pelo menos para mim que, na verdade, não tenho procurado ler livros “cor-de-rosa” sobre adopção, restando-me literatura bastante pesada, muitas vezes académica e muito densa.

Com os eventos, também pesados, que têm ocorrido por aqui, preciso de uma lufada de ar fresco, de um escape. Preciso de ouvir histórias de sucesso e não esquecer que toda esta dificuldade é em prol da busca de uma outra felicidade. 

Precisava de ter uma mala do enxoval onde guardar a parte azul e cor-de-rosa deste sonho.

 imagem via Notícias do Ribatejo

Desde que decidimos adoptar, o primeiro passo após a entrega da candidatura foi fazer uma pequena transformação cá em casa. Vivemos numa casa velha com 3 quartos e uma casa de banho no andar superior, um dos quartos estava transformado em quarto de vestir, o outro é o nosso e o terceiro é o do Freixo. Desmontámos o quarto de vestir que passou a chamar-se “o quarto dos meninos”. É mais forte do que nós, mesmo sem saber se será uma ou duas crianças e qual o género, está para sempre baptizado como o quarto dos meninos. De momento, contém uma cómoda antiga que era da minha avó paterna – pesada e escura, um roupeiro ikea e um sofá-cama baratucho da moviflor. A cómoda da minha avó tem em cima alguns objectos já destinados aos nossos meninos, que já descrevi um pouco ali e ali. As paredes são amarelo tipo girassol e as janelas de madeira, em guilhotina, porta por dentro e rodapé estão pintados de preto. A nossa casa é muito colorida e este quarto foi idealizado assim, para ser quarto de vestir. Quando nos mudámos para esta casa, há 5 anos, não quisemos ter quartos-fantasma, mesmo sabendo da nossa vontade de ser pais, não quisemos ter ali um quarto à espera a lembrar uma ausência. Portanto, quando chegar a personagem, ou personagens, que venham habitar esse quarto logo lhes perguntaremos sobre as cores e decoração de sua preferência para proceder em conformidade. O facto de ter apenas um quarto reservado com a eventualidade de chegarem duas crianças prende-se com a nossa convicção de que dormir na casa de dois-completos-estranhos há-de ser mais fácil se se partilhar o quarto com um irmão, ou irmã. Depois de instalados, logo nos organizaremos para saber se se desdobra o quarto do Freixo, ou se se fazem outras alterações.
Adiante com pormenores técnicos sobre distribuição familiar por assoalhadas que eu quero mesmo é falar de enxoval.
Portanto, o quarto dos meninos tem esses móveis, dos quais sairá o sofá-cama que passará para o family room. Tenham paciência com o estrangeirismo, mas é isso que eu também sou – estrangeira, devido à minha condição de nascida no Canadá. Acontece que não nos tem sido prático chamar quarto de brincar à divisão que antes era o escritório, escritório esse que agora passou a ser no antigo estúdio, estúdio esse que anulámos por entretanto se ter tornado num depósito de lixo velharias. Não se percam pela casa nem pensem que é um casarão, trata-se apenas de uma casa geminada com um anexo que penso termos aproveitado muito bem, modéstia à parte. E já que falamos de modéstia, digo-vos que a casa, embora se apresente como modesta, é-o muito pouco, chamamos-lhe nossa-senhora-da-eterna-manutenção. Tem quase 70 anos, alvenaria em pedra, janelas originais, ou seja, de madeira e com vidros fininhos e nada eficazes energeticamente, soalho original, enfim, tudo o que possam imaginar que exige manutenção e respectivos gastos constantes, sem falar no pormenor de se sujar muito mais, acumular mais pó e ter  aranhas&comp.ª. Enfim, a verdade é que eu e o Chaparro temos o gosto das casas velhas em bairros velhos e esse charme tem um custo.
Mas eu, há um parágrafo atrás, havia dito que queria falar de enxoval, não é verdade? Já lá chegaremos. Acontece que dei conta de que, aproveitando o facto de não ser uma pessoa muito sucinta nas descrições, achei que para explicar o que tem sido este dificuldade em não fazer um enxoval para os meus futuros filhos tinha de comentar o que já existe à espera deles. Assim, tinha ficado na explicação do estrangeirismo family room, termo que o próprio Chaparro também já utiliza, já lhe chamámos quarto de brincar mas dá-nos demasiada noção da ausência de alguém que ainda não chegou. Trata-se da primeira divisão do anexo, que está colado à casa através de um corredor com telheiro transparente e que se segue à cozinha – a divisão ideal, portanto, para eu estar a cozinhar e ter simultaneamente os miúdos debaixo de olho. (sabe tão bem dizer isto, sonhar com esta ideia: eu estar a cozinhar e ter simultaneamente os miúdos debaixo de olho). O family room tem uma estante com os nossos livros de infância, livros juvenis, livros de história, ciências naturais e geografia, Atlas, revistas da National Geographic e outras, jogos de tabuleiro, alguns brinquedos e instrumentos musicais curiosos - tudo coisas que já nos pertenciam, depois também há uma mesa com 4 cadeiras onde lemos, jogamos, desenhamos e duas poltronas que passarão para a sala dando o lugar para o sofá-cama, o resto do espaço será liberto para haver algum chão onde brincar.

Acontece que há uns meses, numa conversa com a Assistente Social da nossa equipa esta nos “proibiu terminantemente” de continuar a fazer enxoval. Bah. E bah. Fiquei amuada. Mas fui obrigada a reconhecer que compreendi os seus argumentos. Quando percebeu a minha desilusão, lá concedeu: ok, podem ir fazendo uma biblioteca.
A verdade é que continuo a achar que o enxoval que estávamos a fazer era, de certa forma, inócuo para nós. Nunca comprámos roupa de vestir nem qualquer objecto dirigido a uma criança ficcionada. Eram generalidades, fronhas, um peluche, mantinhas, etc. Gosto da ideia da mala do enxoval, de ir lá de vez emquando e tirar tudo para fora sonhando com o que está por vir. Mas uma promessa é uma promessa é uma promessa e, se não conseguíssemos manter esta, penso que isso quereria dizer que estaríamos muito mal na ideia do que é a sinceridade e colaboração com a equipa de adopções.

O que aconteceu: não comprámos sequer um livro durante meses. No passado Sábado, havia um senhor a vender livros em segunda-mão lá na terra dos meus pais e então voltámos à composição da biblioteca para os nossos meninos com este livro por 1€.

Confesso que me custa um bocadito não comprar determinadas coisas, mas esta é a minha missão: controlar-me, pelo bem das minhas representações mentais.


Gostaria muito de saber qual a vossa opinião sobre este assunto.

E aos companheiros de adopção pergunto como fazem, vão fazendo algum tipo de enxoval ou nem sequer pensam nisso? Falaram disso com a vossa equipa de adopções? Hoje, visitava a Heidi e dei conta com mais um dos seus posts sweets for my sweet e pensei em pedir-vos para partilhar connosco as vossas experiências.

Peço aos que já adoptaram se podem partilhar como foi a azáfama de comprar quarto, roupa, brinquedos tudo de uma assentada só. A equipa deu-vos alguma lista?
Entretanto, já temos um pé-de-meia a contar com esses dias, que mais nos soam a loucura consumista do que a enxoval. Foi assim para vós?

Cipreste

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Fazer desaguar emoções

Ontem voltei ao trabalho.
Ao final do dia, não me apeteceu apanhar o autocarro directo para casa e enfiei-me naquele que passa pelo rio. Gosto de passar na baixa de olhos pegados no rio. Não sou propriamente fã dos Ala dos Namorados, mas evoco sempre aquela passagem que diz “São os loucos de Lisboa/ Que nos fazem duvidar/ Que a Terra gira ao contrário/ E os rios nascem no mar”. Um facto sobre mim: preciso de exercitar a desconstrução constantemente.
Ontem sentia-me só. E cansada.
Dos 13 dias úteis de férias que tive (o Chaparro teve 10), passámos 5 em hospitais com familiares e os restantes a procurar transformar medos em esperança. Todos sabemos que um mal nunca vem só. É um facto sobejamente conhecido sobre as tempestades. Após 7 semanas de baixa médica, regressei ao trabalho fresca como uma alface, cheia de energia para trabalhar e boa disposição. Antes de partir para férias, cheguei até a confessar que não sentia necessidade delas. Pum. Toma lá que é para aprenderes. Na primeira semana, passámos logo 3 dias às voltas nos hospitais. Na segunda semana, deixei-vos aqui um postal de “até já”. Chegámos à praia nesse Domingo para regressar de imediato na 3ªfeira para uma nova ronda, não planeada, de hospital. Não voltámos à praia desde então, ficámos por perto uns dos outros. Encontrámos forma de nos distrair e penso que conseguimos deixar tudo mais ou menos controlado.
O Chaparro voltou ao trabalho na 2ªfeira, eu ainda fiquei longe de casa a amanhar algumas pontas soltas. O Chaparro encontrou um postal na caixa do correio para levantar uma carta registada. Regressei a casa na 4ªfeira. O Chaparro esperou por mim para irmos juntos aos CTT levantar a carta que sabíamos trazer a notícia do seu despedimento. É a crise, senhores e senhoras.

É muita coisa. Nem saberia por onde começar ao tentar explicar aquilo que, de certo, compreenderão. Os serões nesta casa têm sido ora silenciosos, ora cheios de planos e ideias para uma nova vida. Eu brinco e evoco o Primeiro-ministro deste país, cujo nome não nomeamos neste blog, e digo que temos de fazer do desemprego uma oportunidade de vida. Digo que talvez seja a hora do Chaparro mudar de vida e procurar fazer algo que o faça mais feliz, mais realizado. Depois ficamos em silêncio e não confessamos os nossos reais pensamentos um ao outro. E volto a evocar outra personalidade inominável neste blog, aquela escritora que se lamentou há tempos na imprensa por ter tido de fazer um “downsizing” no seu estilo de vida. Tento colocar algum humor nesta coisa. Logo eu, pessoa que se tem como muito séria, pessoa que, afinal, nem sequer sabe se é séria ou uma espécie de palhacita, pessoa que agora fica exausta à mais pequena reflexão e que conclui simultaneamente que isto é difícil mas que sabe que não se pode queixar da sua sorte neste mundo tão hostil – sim, vislumbrei as notícias do mundo há dias e claro que fiquei doente. Ai, vidinha medíocre de pessoa ultraformatada (ou será ultralimitada?) por aforismos populares. Escrevo “vidinha medíocre” e recordo esta passagem:

«Sorvendo a borra da sua própria chávena, Sabbath levantou finalmente o olhar do submerso erro crasso que era o seu passado. Por acaso o presente também estava em curso, construído dia e noite como os navio-transporte de tropas em Perth Amboy durante a guerra, o venerável presente que recua até à Antiguidade e prossegue a direito da Renascença até hoje – era a esse presente sempre-a-começar e interminável que Sabbath renunciava. Acha repugnante a sua inexauribilidade. Só por isso devia morrer. E depois, que importa que tenha levado uma vida estúpida? Qualquer pessoa com alguma inteligência sabe que está a levar uma vida estúpida mesmo enquanto está a levá-la. Qualquer pessoa com alguma inteligência compreende que está destinada a levar uma vida estúpida porque não há outra espécie de vida. Não existe nada de pessoal nisso. No entanto, lágrimas infantis marejam os seus olhos quando Mickey Sabbath – sim o Mickey Sabbath, daquele bando selecto de sete mil milhões de idiotas de primeira apanha que constituem a história humana – diz adeus à sua unicidade com um meio entaramelado e profundamente dolorido “Quem liga a mínima?”.»
in Teatro de Sabbath de Philip Roth 
Publicações dom Quixote, Colecção Ficção Universal, 2000

Sinto-me acompanhada de novo. O Sabbath, esse porcalhão, essa personagem mais que improvável no meu rol de amigos, minha alma gémea, faz-me sempre sentir acompanhada. Lembro o título de outro livro: ninguém morre sozinho e aceno a cabeça em assentimento.
Tenho a cachola feita em água e urge procurar fórmulas para o lugar de equilíbrio. Eu sei que vou conseguir. Vamos. This too, shall pass.

E a adopção? Onde fica a adopção no meio disto tudo? Precisamente aí: no meio. A adopção continua a ser o centro das nossas vidas. E também continua a ser algo informe. É um sonho, é o nosso sonho, tentamos dar-lhe forma, falando, lendo e escrevendo, mas só terá forma quando tiver rosto, ou rostos. Tentamos fugir dos sentimentos ambíguos que a adopção vai tomando ao longo desta espera que agora começa a parecer isso mesmo: uma espera. Uma espera cuja data final é absolutamente incerta. E a incerteza, amigos, é um sentimento bastante difícil de gerir nesta fase das nossas vidas. Isto não é uma gravidez. Não estamos grávidos.

Oiço muitas pessoas falar da gravidez na adopção, a gravidez do coração, mas não concordo com a aplicação do termo ao tempo em que esperamos pela proposta da equipa.
Não, nós não estamos grávidos. Nós estamos a tentar engravidar. Quando a equipa de adopções nos diz que temos tudo para ser pais, é como quando o médico diz a um casal que está tudo bem, ele e ela estão aptos a engravidar. Depois, é ir para casa e esperar que num dos meses seguintes apareçam os dois tracinhos vermelhos no teste. No nosso caso, voltámos para casa e esperamos que o telefone toque. É nesse dia que se confirmará a gravidez. Não no dia em que recebemos a certificação.
Uma mulher não está grávida a partir do momento em que decide engravidar (sei do que falo). Uma mulher está grávida a partir do momento em que confirma a gravidez biológica. Aquele filho, aquele alvo do seu amor é real. Existe.
Eu sei que os meus filhos existem, já nasceram, de outra mãe cuja vida infelizmente se enviesou. Estão algures neste país, ainda com os pais, ou há anos numa instituição. À espera. E nós também, à espera.
Mas os meus filhos ainda não estão no meu coração. Porque não lhes conheço o nome, são apenas uma ideia que amo. Não sei se é um ou uma, ou um e uma, ou dois, ou duas. Preciso saber quantos são os fetos. Preciso que alguém me diga que os seus nomes são reais para, então, colocar a mão sobre o ventre, olhar para dentro a sonhar com os seus nomes, repetidamente.
Não, nós não estamos grávidos. A gravidez na adopção é muito curta, a espera pela concepção é que é longa. Como na infertilidade. É a história a repetir-se.
Creio que é também por isso que os momentos iniciais são relatados como sendo de grandes choques, porque na adopção temos muito menos tempo para sonhar com o real, com quem já existe. Porque na adopção temos muito menos tempo para estar grávidos. Fazendo a matemática, do que tenho lido e ouvido, entre receber uma proposta e o nascimento da família, costuma acontecer tudo no espaço de um mês (máximo dos máximos), ou seja, um nono do tempo de uma gravidez biológica. Já a concepção, parece-me ser o dia em que o juiz declara a criança como disponível para adopção.

Eis-nos, assim, neste lugar de certeza de que a gravidez acontecerá, sem saber quando, neste lugar pouco fácil, pedregoso.

Há momentos em que nos saem desabafos como o do Chaparro, num destes Sábados, enquanto eu arrumava as compras feitas no mercado e ele preparava as brasas para grelhar o peixe: já não faz sentido a ausência dos nossos filhos nesta casa. É verdade, não faz sentido. Ainda assim, vamos esperando e tentando que seja serenamente. Olho o quarto deles com mais parcimónia e uso o quarto de brincar como sala de leitura e para compôr puzzles, num exercício de abstracção.
Sinto uma qualquer importância de não fazer a vida girar à volta desta espera, mas é assim que ela gira. Não estamos a encaixar no ditado Quem espera, desespera, mas não vos vou amaciar a verdade, é difícil. Temos convicções mais ou menos secretas de que já fizemos por merecer que a vida nos fosse um pouco mais meiga. Olhamos à volta, fazemos as contas ao sucedido nos últimos anos, entre divórcios e o nosso encontro, entre o reconstruir de uma vida e as diligências médicas e burocráticas para ser pais, sentimo-nos um pouco escrutinados pela vida. Pensamos que, caramba, não somos más pessoas, merecíamos uma chance de viver algo fora da incerteza. E depois, dá-nos um laivo de lucidez e lembramo-nos de que isto não trata de merecimentos nem de justiça, mas de acasos. Voltamos a assentar pés no chão e sentamo-nos à espera.

Nesta espera, sabe bem encontrar empatia como a que encontrei, escrita por uma senhora com quem, acaso dos acasos, me cruzei no meu percurso académico. Nesta espera de sentimentos ambíguos, por vezes, quando encontramos a empatia alheia, por pessoas do mundo da adopção, do outro lado, como a das palavras que se seguem, conseguimos dar nome às nossas emoções e saber reconhecer que são emoções válidas, que a espécie de dor que sentimos não é um erro nosso:

«A incerteza do tempo que levará até ser concretizada a adopção é outro factor causador de stresse. Ao contrário da gravidez, a duração do tempo do processo de adopção é altamente imprevisível. Este tempo de espera, mesmo após a sua candidatura ter sido aprovada, gera ansiedade, confusão, sentimentos de desamparo e muitas vezes depressão, podendo levá-los a questionar-se sobre o seu direito de serem pais.»
Fernanda Salvaterra in A Criança no Processo de Adopção – Realidades, Desafios e Mudanças
Coordenação de Manuel Matias e Mauro Paulino
Prime Books, 2014

Leio por dois motivos: porque gosto de aprender e porque me faz sentir acompanhada.

Ontem, ao sair do trabalho, sentia-me só e cansada. Após entrar no autocarro, tirei o livro para reler o pequeno excerto sublinhado, para me fazer lembrar que não estou só e que não estou em erro. Momentos depois, entrou no autocarro quase vazio um casal muito parecido com os meus pais. Eu ia sentada no lado certo para poder olhar o rio. A mulher desse casal dirigiu-se para se sentar no lado oposto, o homem chamou-a a sentar-se no meu lado, à minha frente, e disse-lhe “para irmos a olhar o rio”. E ela sentou-se junto dele. Ao passar pelo rio, olhámos os três e eu sussurrei que a Terra gira ao contrário e que os rios nascem no mar.

Deixo-vos com este óleo da praia fluvial do Agroal, onde nos fomos refrescar a meio das peripécias destas férias. Pesquisem e visitem, um conselho de quem se adora banhar nas águas frias do Nabão na piscina do Agroal. 
Foto do óleo foi surripiada ali


Cipreste