quarta-feira, 30 de julho de 2014

Não é outra forma de discriminar pela cor da pele?

O sonhar-se com uma família colorida parece-me ser uma motivação na adopção, no mínimo, fútil.

Um filho escolhe-se pela cor da pele? Desejar-se especificamente um filho com cor de pele diferente da nossa não será o equivalente a dizer-se que se quer um filho com a cor de pele exacta à nossa? Não é outra forma de discriminar pela cor da pele?

Custa-me aperceber que algumas pessoas não estejam disponíveis para receber uma criança que tenha um aspecto físico diferente do seu, mas consigo compreender que essas pessoas tenham limitações familiares ou sociais que as levam a tal opção. Reconheço-lhes o acto de responsabilidade ao assumir que não se sentem preparadas para tal e, apesar de não deixar de ser uma forma de discriminação, não me passa pela cabeça julgar que, em todos os casos, o seja por racismo.
Por outro lado, uma pessoa que se candidata à adopção tendo em vista receber, especificamente, uma criança fisicamente diferente de si, parece-me estar equivocada quanto ao cerne do acto de adoptar, estando mais a pensar no lado estético da sua família.

Adoptar crianças com aspecto físico que indique claramente que as suas origens são diferentes das dos pais faz acrescer ao facto “ter-se sido adoptado” questões de discriminação, ou seja, não é propriamente uma festa colorida. Atenção que não digo, com isto, que as crianças devem ser adoptadas por pessoas com o mesmo aspecto físico com o seu. Digo apenas que há assuntos que me parecem carecer de um pouco de mais parcimónia.
Enfim, talvez seja só eu que hoje já dei de caras com dois lugares onde as pessoas apregoavam o sonho da família colorida e dei por mim um bocado indignada. Caramba, uma família é uma família independentemente dos membros que a compoem, uma família acontece, uma família não é um ramalhete para compor a gosto conforme uma montra. Pouco mais sei dizer sobre isto sem entrar por caminhos ajuizadores e não quero isso.

Cipreste

#GIVEHOPE - Dia Mundial Contra o Tráfico de Pessoas

 

das coisas que eles dizem... às nossas reacções

Isto não trata de controlar o nosso discurso grão-a-grão, nem de invalidar o facto de que toda a gente já respondeu a desafios sem parar para respirar e pensar no que pode estar por detrás do acto provocatório. Isto trata de encurtar caminhos, de evitar enrolos já de si suficientemente complexos.


Surripiei o seguinte quadro aos Padrinhos Civis:


O que eles dizem
O que eles querem dizer
O que nós respondemos
O que nós devíamos responder

“Não tenho de lavar os dentes. Não és minha mãe!”
“És a minha mãe?”
“Aqui fazes o que eu mando!”
Eu sou tua mãe/responsável por ti, amo-te muito e quero tudo de bom para ti. Quero que tenhas uns dentes branquinhos e não sofras com dentes estragados”

“Não faço, porque na minha instituição não fazíamos assim!”
“Ainda não percebi se devo continuar a identificar-me com a minha instituição ou se já pertenço aqui”
“Pois, mas aqui é assim e ponto final!”
“Compreendo que fazias assim na instituição. Na nossa família fazemos de outra maneira e tu és da nossa família.”

“Não quero estar aqui!“
“Vais abandonar-me como toda a gente fez antes?”
“E nós ralados!”
“Nós queremos que tu estejas aqui. Esta família é a tua família para sempre, nunca nos vamos perder uns aos outros.”

“Vou fugir!”
“Vais deixar-me fugir? Parece que não me amas…”
“Porta da rua, serventia da casa!”
“Podemos zangar-nos, mas somos uma família para sempre. Amo-te muito e nunca te deixaria partir.”

“Vou dizer ao juiz que não quero estar aqui!”
“Gostas de mim o suficiente mesmo que eu me tenha portado mal ou vais dizer ao juiz que já não me queres?”
“Então vai! Quero lá saber, deves pensar que me ralo muito com isso!”
“Somos uma família para sempre. Mesmo quando te portas mal, amamos-te. Isso não significa que poderás continuar a portar-te mal, mas que gostamos de ti em todas as situações."


Cipreste

terça-feira, 29 de julho de 2014

é isto

«I know that life holds no guarantees, no matter how pure one's intentions, but I think this is going to be good.»

Dito pela Mary Bishop, com quem tenho aprendido tanto sobre adopção, sobre a procura de um caminho honesto.

Bom dia!

Cipreste

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Porque quero adoptar?

A primeira parte da resposta é, simplesmente, que desejo ser mãe, que sinto que tenho amor para dar a uma criança - a um filho. A segunda parte da resposta é que, apesar de ter sido presenteada com a infertilidade, a adopção sempre me fez muito sentido, mesmo antes de saber qual o rumo da minha história. E, depois, tenho muita curiosidade e esperança de um dia dizer qualquer coisa como «É inexplicável ter tanto trabalho, sofrer, chorar às vezes, e ser mais feliz.». 
Sou feliz, gosto da minha vida. Confesso que o processo de adopção me assusta um bocado - principalmente porque vamos adoptar crianças mais velhas e, no limite dos meus medos, receio que nunca me venham a identificar como sua mãe.

Ainda assim, estou disposta a arriscar. Por agora, as doses de curiosidade e de medo estão empatadas. Não obstante a perda da "vida livre", de deixar de estar em "primeiro lugar" e de ter de enfrentar as inúmeras responsabilidades e dificuldades que a maternidade acarreta,  sempre suspeitei que me levará a lugares de felicidade que desconheço.




Cipreste

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Da vida para os livros e de volta para a vida

Consigo ouvir no silêncio de algumas pessoas uma certa dúvida sobre a pertinência do meu empenho em consumir a literatura possível sobre o tema da adopção. Por vezes, quando me perguntam pelo processo, respondo rapidamente que estamos em espera e sigo para partilhar as últimas leituras e consequentes descobertas. Não me vou perder a tentar explicar de onde vêm alguns dos silêncios. Acontece que basta um bom parágrafo para eu sentir que todas as leituras têm valido a pena. Não receio perder a genuinidade por me debruçar sobre teorias. Não receio tornar-me numa mãe que tenta aplicar modelos nos seus filhos. Porque eu sei que isso não me vai acontecer. Nisto, sou muito segura de mim: sei que sou autêntica, que ajo do coração. E confio muito nos meus instintos (não confundir com capacidades preditivas).


Somos feitos das várias experiências a que nos expomos, onde se inclui também a leitura e o estudo.  Os livros têm-me ajudado a:
1. Compreender comportamentos que eu sabia existirem, mas cuja compreensão das conjunturas eu não alcançava
2. Identificar situações exclusivas na adopção que eu desconhecia por completo
3. Conhecer as estratégias preconizadas e utilizadas por outras famílias
4. Finalmente, poder, um dia destes, saber identificar melhor determinados comportamentos que demasiado frequentemente são interpretados erradamente por negligenciar o contexto “adopção”.

Tudo isto, para poder vir a ajudar os meus filhos em eventuais dificuldades que não quero ver enrodilhadas em intervenções profissionais desajustadas. Ponto.
O amor, fiquem descansados os silêncios, será espontâneo e não letrado.
E sou eternamente grata a qualquer pessoa que esteja disponível para pensar e falar destes assuntos comigo.

Vejamos o seguinte que parece óbvio, mas na prática não acontece naturalmente a todas as pessoas:

«If the adoptees’ behaviours were seen as attempts to avoid pain, rather than deliberate provocation of the parents, the parents might be able to identify the signs or manifestations of that trauma and help their child integrate it. »

Esta é a última linha após duas páginas donde sublinhei o seguinte:

«Traumatic memories, in the form of emotional or bodily sensations, keep intruding into consciousness. This often causes the adoptee to appear irritable, aggressive, impulsive, and anti-social.
In the case of constriction or numbing, the adoptee is in another state of consciousness, where she can’t be hurt by painful memories. This state is characterized by emotional detachment, indifference, complacency, and passivity. (…)
Adoptees vacillate between intrusion an constriction.»

«This ambivalence is the source of great confusion and enigmatic behavior.
Not understanding the unconscious source of this behavior, parents think that their children should be able to change it at will. (…) in talking to adult adoptees who acted out as children or adolescents, they, of course, don’t understand it any more than their parents do. Michael told me, ‘I put my parents through hell, and I don’t know why. They were good parents (…)’. The idea that he was reacting to a trauma that he didn’t even remember had never occurred to him. He just thought he was a bad kid.»

Vamos a ver uma coisa, tudo se resume a esta frase:

«(…) mothers are not supposed to leave their babies. God should not let it happen. No rationalization changes that basic knowing

Se pensarmos nisto, se nos lembrarmos de que até nós, adultos, por vezes não compreendemos nem gerimos da melhor forma episódios de afastamento (pensem no caso de alguma amizade que tenha acabado, por exemplo), como é que uma criança conseguirá enfrentar dores tão intensas e geri-las racionalmente? Como é que uma criança, um ser emocionalmente em construção, poderá compreender o afastamento do ser que o criou, com quem, no mínimo, tem uma relação biológica?

As leituras são, na minha opinião, uma obrigação minha. Não as vejo como um instrumento para prever o que me vai acontecer. Eu não sei qual vai ser a nossa história e ela não está certamente escrita num livro. Apenas, acredito que entender os comportamentos de uma criança que passe por uma separação (no mínimo, pois nem sequer estou a considerar outras violências) acontecerá de forma mais fluída após conhecer algumas histórias e teorias. Voltamos à frase com que comecei as citações:

«If the adoptees’ behaviours were seen as attempts to avoid pain, rather than deliberate provocation of the parents, the parents might be able to identify the signs or manifestations of that trauma and help their child integrate it. »

Citações de The Primal Wound - Understanding the Adopted Child de Nancy Verrier (pp.58 e 59)

Partir desta premissa não quer dizer que venha a ser uma mãe permissiva e que interprete má-criação como trauma, pelo contrário, penso que ajudará a não confundir dor com má-criação – um dos mais infelizes mal entendidos que acontecem às crianças adoptadas.

Uma nota pessoal: das expressões que mais retenho das leituras é "ambivalência", tenho reflectido muito sobre isto, acho que é um caminho para compreender muitas coisas na/da pessoa adoptada

Cipreste

(e este é português!)

Acabei de saber deste livro através do fórum da APF. Liguei e, surpresa das surpresas, a minha livraria tem lá o livro,  o que é uma novidade: não ter de encomendar um livro sobre adopção e recebê-lo pelo correio*. Deixei-o reservado. E, ainda sem conhecer o contéudo, deixo já a sugestão numa de passa-a-outro-e-não-ao-mesmo e também pelo contentamento deste ser da realidade portuguesa, uma raridade na bibliografia que tenho encontrado.


* para mais, o preço na livraria está igual ao do site ;)

Cipreste

repitam comigo: you is smart, you is kind, you is important

Ando bastante ocupada, mas tenho muitos posts escritos na minha cabeça, de temas muito variados que quero partilhar convosco e cuja opinião quero saber.
Ainda hoje venho aqui dizer duas ou três coisas.

Entretanto, não te esqueças que:

do filme The Help/As Serviçais

Um bom dia para vós :)
Cipreste

sexta-feira, 18 de julho de 2014

não vale a pena tentar ser criativa no léxico, a palavra é: ironia

Conforme as tabelas normativas da vida civilizada, tenho excesso de peso. Ou seja, eu não devia ser como sou, ou qualquer coisa assim. Depois da cirurgia, o meu ventre continua como que dilatado e assumiu uma forma de barriga de grávida. Estive 7 semanas recolhida, consequentemente protegida, em casa.
Regressei ao trabalho 2ª-feira e já tardava o que hoje, finalmente, ouvi de uma cliente: "essa barriguinha é aquilo que eu estou a pensar?" (seguido de um sorriso rasgado).

Vai ao encontro do comentário que deixei neste post da Mãe Sabichona.

adenda a este post: o cliente seguinte pergunta como estou, faz sentido a pergunta uma vez que sabe que estive ausente, alguém lhe disse que eu estivera "de atestado", e remata com "esteve de licença de maternidade?" :/


Cipreste

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Regresso

Depois do corpo ferido, o corpo renovado. Com a alma esclarecida.

Sermos sujeitos a uma cirurgia que nos amputa pode, e deve, servir para uma renovação do nosso eu. Sou a mesma Cipreste, aquela que quer sempre ser melhor e tirar o melhor partido desta passagem pela vida. Sou uma Cipreste no caminho da conciliação.

Sofri dores desde que fui menstruada. Conheci os sentimentos da infertilidade, da impossibilidade de realizar um sonho. Conheci, por momentos, a felicidade da gravidez para, de seguida, saber o que é a perda da esperança. Outras perdas se apresentaram. Tudo isto pode ser vivido de forma dramática, mas chega o dia em que nos cabe a decisão: Carpe Diem.

Tive de me recolher junto dos que se juntaram a mim.
Nestas horas, o crivo acciona e mostra-nos o que é real - a amizade revela-se nas horas difíceis.

Nunca tinha sentido a real vulnerabilidade física, nem tinha percebido que seria necessário ter alguém a meu lado a cuidar de mim. Fiquei em espanto quando percebi que dependia do bem-querer dos que me querem bem. Tive quem cuidasse de mim. Tive o cuidado e o carinho incondicionais da minha sogra, da minha mãe e do meu pai. Ajudaram-me a tomar banho e a vestir, a sentar, deitar e levantar. Descascaram-me maçãs, trouxeram-me flores. Limparam-me lágrimas e perguntaram-me amiúde “tens dores?”. Mas eu não tinha. Eu não tive dores. E chorei menos de meia-dúzia de vezes. Na verdade, passei este tempo sempre bem disposta, nem sequer estive irritável ;) vá lá que tenha tido um ou dois momentos, mas, de resto, a disposição tem sido das melhores e a superar (para melhor) o que pensei que estes dias viessem a ser.

E há a novidade da vida devagar, não me lembro de ter vivido alguma vez dias assim, de forma lenta e calma. Quero mesmo tirar proveito desta aprendizagem.

~ ~ ~

E o meu amor...

O meu amor pôs-me creme nas cicatrizes e disse, pesaroso, “cortaram a minha menina”. Depois, conformou-se e explicou “mas tinha de ser, para não teres mais dores”.

~ ~ ~

A cirurgia foi mais extensa do que planeado. Era para ter sido por laparoscopia (os “furinhos”) e começou como tal – 3 furinhos, mas o meu útero era enorme e tiveram de reverter para laparotomia (incisão no abdómen). Tiraram tudo e “limparam” muitas aderências. Isto fez com que tudo demorasse mais tempo e exigisse outros cuidados. 29 agrafos, contou-me a médica quando acabou de os tirar.

Estive 3 semanas em modo zombie, não li, não me liguei à net, nem sequer liguei o computador. Raramente atendia chamadas.
Senti a fragilidade do corpo e do cérebro.
Fui retomando algumas actividades lentamente. Respondi a mensagens, comecei a atender os telefonemas todos e a ir à net.
Para a semana, regresso ao trabalho. Confesso que já tenho saudades, mas senti e percebi a importância de não me acelerar nesse retorno.

~ ~ ~

Entretanto, li mais um livro sobre adopção e estou a meio de outro. Tivemos a visita domiciliária e aguardamos o certificado.
Estamos em modo de espera.
E regresso aqui.

Hoje de manhã, em chat com uma amiga de infância, esta voltou a certificar-me “I know that you will be a good mom”. Respondi-lhe com a mensagem deste meme que vos deixo. Ela, que é mãe fantástica de duas crianças fantásticas, confirmou e rimos.

Olá :)

Cipreste

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Remendos

A amputação, não tem solução, nem remedeio, nem um pano quente. É uma amputação.
Tem de se viver com ela, a amputação, uma dor que sempre persiste.
Não imagino o que seja.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

this too, shall pass

Olá,

Tenho andado por aí. Muita reflexão. Muito trabalho para ver se me estafo e caio redonda na cama, sem insónias. Não tenho tido muita capacidade para falar. Quem diz de falar, também diz de escrever.
Esta canção deixa-me bem disposta.

Até ,
Cipreste

terça-feira, 13 de maio de 2014

Canções tristes

I
Maldades googlianas

Pronto, já tenho data de internamento para a cirurgia. No meu jeito de navegadora inveterada, só porque sim, digitei “hospital packing” no Google e cliquei em Images. (sim, tenho por hábito pesquisar em inglês caso não esteja à procura de receitas de caldo verde) Pesquisem e vejam que “bonitos” resultados obtêm.
Bah. Não precisava de ser lembrada que vou ser internada numa maternidade não para trazer um filho em braços para casa mas para deixar os órgãos que tantos dissabores que têm dado desde há 26 anos, sendo o maior, precisamente, o impeditivo de gerar vida.
Preciso mesmo de ir ali chorar um bocadinho.

Na 6ª-feira, comecei a escrever um texto sobre a necessidade de chorar, um texto que não acabei, nem chorei como era o meu plano. Ao invés disso, fui sair com o Chaparro e dois amigos e seguiu-se um fim-de-semana de jardinagem, algo que é sempre muito terapêutico para mim.
De seguida, fica o texto inacabado.

II
Tristesse

Trago uma tristeza dentro de mim desde pequenina. Embora não seja francófona, faz-me sentido chamar-lhe tristesse.

Se partirmos de uma postura psicanalista-de-trazer-por-casa, podemos procurar identificar algum acontecimento de vida que seja responsável por esta característica. Se partirmos de uma postura geneticista-de-trazer-por-casa, podemos cabalmente afirmar que haverá um gene qualquer que é responsável por esta característica.
Não sei o que poderá ser identificado na minha meninice como responsável por esta tristesse. Radicais das filosofias New Age provavelmente diriam que, para começar, eu nem sequer queria nascer, pois tive de ser “arrancada a ferros” e chorei que me desunhei até aos 9 meses levando a minha mãe à exaustão, pelo que a minha tristesse já virá de vidas anteriores.
Por outro lado, se falarmos na genética, e partindo do princípio de que não sou adoptada, nunca esquecerei o dia em que a minha mãe me disse que eu sou tal-qual o meu avô, pai dela, também conhecido como “avô dos pães”, por ser padeiro. Quando perguntei à minha mãe porque acha que sou parecida com o avô dos pães, ela simplesmente respondeu “Porque ele também tinha uma tristeza.”. Nunca mais falámos disto, como se proferir que o seu pai tinha uma tristeza fora como que uma traição. Mas nunca o vou esquecer, por ser para mim uma honra ser parecida com o avô dos pães.

~ ~ ~

Ouvi toda a vida que sou parecida com a avó dos pães e isso constituiu sempre uma dificuldade para mim. Eu amava a minha avó mas, se for para sermos honestos, temos de admitir que ela tinha um feitio difícil, muito difícil. E eu não queria ser comparada com uma pessoa difícil. Ninguém quer ser uma pessoa difícil. Antes triste do que difícil. Até hoje, tenho esta insegurança que me traz a auto-estima e a auto-confiança em corrupio. Por vezes, dou por mim a pensar se terei sido difícil com determinada pessoa, ou em determinada situação. Isto também pode tornar-se num pau-de-dois-bicos, pois uma pessoa menos honesta com os seus sentimentos pode usar isto facilmente contra mim. Basta que alguém, para não assumir a sua falha, me acuse de estar a ser difícil e deixar-me de quatro, ficando ali uma situação mal resolvida mas declarada como finda.

Fui aprendendo a juntar bocadinhos bons para procurar neutralizar a minha parte “difícil”, um lado que creio estar muito no rigor com que assumo as coisas e a minha frontalidade terrível. Vou buscar outros bocadinhos, os bons, à avó dos pães que também misturo com bocadinhos bons dos outros avós, e assim levo os meus dias a procurar ser uma pessoa melhor.

~ ~ ~

Acredito nisto: procura ser uma pessoa melhor a cada dia.

Ser uma pessoa melhor é, para mim, ser uma pessoa que leva a sua vida, com as suas pessoas e no desenvolvimento dos seus interesses, numa ética de vida que procura o bem-estar sem consequente prejuízo de outros.

Acontece que, por mais que façamos, há sempre falhas na circunstância do bem-estar. Essas falhas podem ser do exterior, como o exemplo dos acontecimentos de vida, ou do interior, como o exemplo da predisposição genética.
E eu tenho andado tão periclitante nesta coisa do bem-estar, quer espiritual, quer físico.

É de propósito que digo espiritual e não emocional e não vejo sentido em explicar essa opção.

Temos vivido uns anos muito intensos cá para estes lados da minha família. É sempre tudo tão grande, é sempre tudo tão de vida ou de morte. Há sempre tantos eventos, tantas reflexões, tantas decisões, tantas alegrias e tantos medos.
Isto são coisas espirituais e merecem a devida parcimónia. Importa encontrarmos o lugar para o seu crescimento. Importa encontrar o lado da vida que proporcione a sua aceitação.

~ ~ ~

Na verdade, eu não sei se o meu avô dos pães trazia uma tristeza dentro de si, mas a observação da minha mãe fez sentido. Trago uma tristesse dentro de mim, desde pequenina. Porém, nada do que tenho sentido tem a ver com essa tristesse, o que tenho sentido tem a ver com desalento, com a procura de me adaptar às realidades duras da vida. O que tenho sentido tem a ver com doença, minha e dos meus. O que tenho sentido tem a ver com medo e com impotência. O que tenho sentido tem nome e não é de cá dentro, vem de fora, sem dó nem piedade.
É tristeza, não é a minha tristesse.
E é-me muito importante reconhecer esta diferença e actuar.

Tenho procurado dar o lugar devido à tristeza sem me afligir imediatamente em tarefas vãs a procurar enxotá-la dos meus dias. Ela tem estado aí. Os motivos para a sua existência são reais. Já ouviram falar deles por aqui.
A tristeza tem-me rondado, fruto deste sofrimento e deste medo. Hoje de manhã, percebendo que estava a tentar disfarçá-la com as dores físicas que exigiram analgesia, pensei: se não tiveres forças para dar um giro ao final da tarde, vais para casa deitar este corpo dorido no sofá e vais ouvir as canções mais tristes que conheces e vais chorar.

Há que encontrar um lugar para tudo, nuns dias dá para ir beber uns finos e rir de baboseiras, noutros dias ouvem-se canções tristes.
Contando com o dia seguinte.
Contando que teremos forças para nos desenrolarmos do próprio corpo, dos dramas próprios, e dar lugar a toadas mais alegres.


III
Medo & raiva

Ontem, com a carta da convocatória na mão, apeteceu-me iniciar um sprint e fugir, mas eu sei que tenho pouquíssima resistência e que antes de chegar ao fim da minha rua já estaria com os bofes de fora, encostada a um muro, a arfar defraudada com a minha própria raiva.
Não sei que pensar disto tudo. 
Não tenho medo de cateteres e agulhas e o diabo a sete, mas tenho medo. Tenho medo que o estadiamento da minha endometriose obrigue à intervenção noutros órgãos. Tenho medo da vida com terapêutica hormonal de substituição. Receio que a histerectomia total não compense em qualidade de vida – que é, afinal, o meu maior motivo para me sujeitar a tão grande mutilação.

Repara, Cipreste: vais permitir que te amputem.

Não estou a, nem vou, dramatizar. Mas as coisas são o que são e uma histerectomia total é uma amputação.

IV
Bondade

Não sei o que pensar e preciso de me preparar: organizar a casa, dar conta de dois ou três recados, organizar a minha vida profissional, fazer a mala e chorar. 
Tenho de fazer isso. As lágrimas andam por aqui a cirandar e não saem, mas eu sei que têm de sair. Preciso de chorar o meu corpo para que depois se possa renovar. Não sei se isto é certo ou errado, nem sequer sei se há um certo e um errado para estas coisas. 
O que sei - o que sinto, é que agora é hora de ouvir canções tristes.
Para depois me preparar para entregar o meu corpo nas mãos de estranhos e contar com a sua bondade.



Deixo-vos com esta imagem por vários motivos, um deles é que sei que me esqueci disto no trato a uma pessoa a semana passada. Entretanto, já me retractei com a pessoa, mas fico sempre um pouco desiludida comigo quando deixo que algo me tolha a visão. 
O conceito de neutralização - de que passei a tomar mais consciência desde uma das formações da adopção, parece-me ser um bom passo para conseguirmos lembrar desta máxima: sermos bondosos uns com os outros, pois estamos todos a travar batalhas.

Desculpem o estilo soturno dos últimos dias,
I'm gonna be alright ;) eu sei que sim

Cipreste

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Dias "não"

Há dias em que a endometriose toma conta de nós. São os dias de calibre “não”. Apetece dizer “não” a tudo e ficar debaixo das mantas.
Tenho noção de que não sou um caso extremo, embora a minha indicação terapêutica seja a histerectomia total, não posso, nem de longe, queixar-me ao pé de determinadas mulheres a quem a endometriose roubou quase a autonomia. Mas, neste momento, sinto-me um bocado sequestrada pela porcaria da doença.
Comecei o ano no rescaldo de 2 FIVs mal sucedidas e parti para lista de espera para histerectomia. O médico deu-me uma expectativa de que esperaria cerca de 1 mês e meio a 2 meses, já lá vão 4 meses e a contar... No início, cuidei de mim, alimentação o mais saudável possível, muitas caminhadas, etc. Começaram as hemorragias, mesmo com pílula contínua, e tudo descambou em Fevereiro. Nunca mais fui a mesma. O médico disse-me para não me preocupar porque estava como "prioritária" e disse-me que é mesmo importante que eu faça a pílula. Só "descansei" desta instabilidade toda umas semanitas em Março em que isto andou calmo, de resto, tem sido um contínuo de hemorragias e expectativa (as dores são intermitentes – hoje: check!).
Não tomo determinados compromissos profissionais, tenho gente à minha espera, a quem já tinha prometido estar disponível em Maio e a quem agora só consigo encolher os ombros e ficar envergonhada por não estar a cumprir com elas :(
Enfim, uma situação em que ninguém tem culpa, mas em que muitas pessoas são afectadas.
O meu corpo já só é um meio de chegar às pessoas. Não tenho gosto em arranjar-me, tenho fumado uns cigarros, ou tenho noites ocupadas com sonhos mirabolantes ou pesadelos ou então simplesmente não durmo.
Vou para o trabalho em modo zombie e não sei o que dizer ao meu chefe quando me pede para começar determinados serviços com determinados clientes, serviços esses que não sei se terei de interromper... ou não.

Não me apetece sair, fico à espera de um telefonema, de um postal...

Acresce a esta expectativa, em nada pequena, a da visita domiciliária pela equipa de adopções. Neste momento, o nosso processo já passou 2 meses do prazo legal para nos darem o certificado. O que é que uma pessoa vai fazer? Insistir com eles? Depois pedem imensas desculpas, são muito simpáticos e dizem que nada fica para trás, que a nossa “vez” na lista conta a partir da entrega dos papéis, etc, etc. Uma pessoa vai incompatibilizar-se com os seus maiores aliados neste processo? Não me parece. Resta-nos esperar “pacientemente”. Só não gosto de pensar que, com tanta "publicidade" que fazem às crianças mais velhas que ninguém quer adoptar (mas eu quero!), que não esteja para aí alguém à minha espera e nós deste lado também à espera...

O Verão aí à porta e eu com tantas coisas por começar e sem nada acabado :( e, tantas vezes, a evitar olhar-me ao espelho. Sei que disfarço bem, que "mesmo assim" faço muitas coisas, mas esta não sou eu - eu inteira. Enfim, a vida de uma pessoa com endometriose.
Resta-me dar-me espaço para sentir o desalento que estou a sentir para depois conseguir procurar a alegria que existe dentro de mim. Rodear-me dos que são reais na minha vida, aqueles que gostam da minha companhia até em dias "não". 
Resta-me, enfim, libertar um pouco da minha angústia neste desabafo. Falar ajuda e é isso que vim aqui fazer.
Bom dia,

Cipreste

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Petição

Apelo à libertação imediata das estudantes raptadas em Chibok, na Nigéria.

Evidências na era online

Penso "estou a ficar velha!", quando miúdos que "vi" nascer na net...
já fazem limpezas à casa.


Cipreste

Isto tem piada

O filme Rei Leão saiu quando a minha Princesa tinha 2 anitos, chegou rapidamente a Portugal (ainda sou do tempo em que tínhamos de esperar bastante para ver os filmes por cá), e ela teve a cassete assim que o filme ficou disponível em VHS. A primeira vez que vi o filme foi num fim-de-semana que ela veio passar a minha casa. Ela devia ter entre os 3 e os 4 anos. Lá preparámos os rituais todos e nos sentámos a ver o filme. Ela disse as falas TO-DAS de TO-DAS as personagens. Às tantas, farta de ter aquela voz-off ali encostada ao meu ouvido, perguntei-lhe se já vira o filme muitas vezes ao que ela me respondeu "Sim, madrinha, já o vi umas sete ou duas vezes". E, pronto, embevecida pela sua noção de quantidades um pouco baralhada, lá me deixei ver o filme até ao fim, agarradinha à voz dela.

Frozen
Lembrei-me deste episódio a propósito disto, leiam, é hi-la-ri-an-te

Já agora, este episódio também tem piada ;)

E vejam o filme, vale a pena. 

Desta vez, vi com a Líti e a Noqui, na véspera de Natal, enroscadinhas umas nas outras, com as luzes da árvore de Natal ligadas e elas a cantar Let it go, let it gooo!
Cipreste


mãe ~ avó

da ausência dos últimos dias...

Começamos o dia da mãe com a notícia do falecimento da avó P., avó paterna do Chaparro, bisavó do Freixo. Um dia triste. Dias tristes.
A avó P. está muito presente nas memórias do Chaparro - como uma protectora, uma salvadora em momentos mais difíceis da sua infância.

Não sabemos se o Universo fala connosco.
Factos: a avó P., junto com a minha avó M. eram as nossas avós paternas, eram as nossas avós maternais. Uma foi a enterrar no dia da mãe, a outra foi embora no dia da mãe.
Dói-me que os meus futuros filhos não as tenham conhecido.

Era-me muito fácil gostar da avó P. e eu sabia que o sentimento era recíproco. A sua solidariedade para com a minha infertilidade era uma coisa forte, de mulher para mulher. Era muito bom estar de mãos dadas com ela durante as nossas curtas visitas. Estava sempre a mandar-nos embora, não gostava da ideia da viagem longa que tínhamos de volta. Era demasiado prática, a vida assim lho exigiu.

Teve direito a uma igreja cheia de familiares e amigos, todos doridos, todos com um sorriso no rosto por terem feito parte da sua vida. Cumprimos os rituais funerários e mimetizámos o seu discurso se nos pudesse correr a todos dali por estarmos a "perder" dias de trabalho e, afinal, não valer a pena tanta coisa só por causa dela. E sorrimos.

Voltou para os braços do seu amor que perdeu há 50 anos e cuja memória evocava sempre, descansam agora juntos.

À noite, brindámos a si e agradecemos-lhe pela lição de vida.

Adeus, avó P.

Cipreste



a caminho

Mais dois livrinhos:

coming home to self
the primal wound

conselho: comparem preços amazon/book depository/wook, comprei na book depository, nem sempre a wook é a mais barata e a amazon agora com os portes... 

~ ~ ~

E mais uma tradução autorizada que começo a fazer hoje e que virá aqui para o blog. Para quem está à vontade com a língua inglesa, podem ir lendo: Information for Adoptive Parents/ WHAT ADOPTIVE PARENTS CAN DO

Cipreste

quinta-feira, 1 de maio de 2014

A Narrativa

A nossa vida enquanto possíveis pais adoptantes, é um processo constante, presente em cada momento da nossa vida. Estou então a fazer um trabalho de Teoria da Literatura, para um projecto de vida. Estudo os conceitos de Narrativa e leio: «os elementos narrativos estão na base de qualquer tentativa de informação e esta é a parte importante do conteúdo normal da comunicação; sendo a significação a estrutura central da via comunicativa, a condição de formação da mensagem (constituída a partir do signo)».
Falamos pois de literatura e romance, mas imaginei a vida de um adoptado e a sua concepção de linha de vida e na forma como lê os signos – como interpreta o que se passa à sua volta.
Para nós, existe uma fractura, um momento, em que a vida dessa(s) criança(s) passa a fazer parte de outra vida, a nossa e a dele(s). Mas será assim? Do ponto de vista da criança, existem dois momentos distintos, todos parte da mesma narrativa: a vida após nascimento, com a sua família original, onde aprende os primeiros sinais do mundo; a vida institucionalizada, onde se dá uma estruturação (ou desestruturação ) da vida anterior e que não o prepara para  a vida seguinte. Depois destes dois, vem o mais complexo, a vida depois - que será onde nós entraremos. Imaginar a complicação da desconstrução signica de estar, sentir e actuar, na cabeça da criança pode aproximar-se do atroz. Toda a sua estrutura consciente e subconsciente, gerará nos primeiros tempos – e nos outros seguintes – uma enorme bolha de conflitos interiores para descodificar mensagens, que podem ir do mais simples ao mais complicado: da rotina familiar do pequeno-almoço (onde há atrasos, interligações familiares, mudanças de planos, etc.), à forma de estar em família à noite, para fazer trabalhos de casa, brincar, arrumar, conversar em família, receber instruções sobre rotinas e aspectos comportamentais, etc.
Estarei longe de imaginar a velocidade, a quantidades de pensamentos contraditórios, o instinto a mandar ir para um sítio, a consciência a mandar ir para outro, o conflito interior e a quantidade de sentimentos associados: o medo, a frustração e a raiva, o aprender a gerir a ansiedade, a vontade de comer, a vontade de brincar, a vontade de dizer algo que está preso há muito tempo (há tempo demais), saber se gosta, se pode falar, se pode ser honesto, se esconde, se diz, se não diz, se faz, se não faz,…
A narrativa não é só um «processo de comunicação», mas para o adoptado, a sua história, de variações, interrupções, cisões desse processo comunicativo e de compreensão do mundo à sua volta. Tudo isto ainda na infância ou adolescência, numa perspectiva de passado, o agora e o futuro, nesse «lugar por excelência da manifestação da experiência humana no tempo».
A gestão da narrativa nestas crianças é a arte de lidar com o tempo, de gerir a irreversibilidade do mesmo, ficcionando ou criando uma série de ilusões, numa estratégia para organizar o caos.


E até vos deixo uma música (e um vídeo), que nem são do meu género, mas que gosto bastante e que acrescenta alguma coisa à reflexão que podemos - se queremos - fazer do texto acima:

manhãs na esperança

Dou conta que o acordar dos fins-de-semana e feriados está diferente nesta casa. Vamos dando lugar ao sonho e, por vezes, após darmos os bons dias um ao outro, há um que diz “vamos ver se os meninos já acordaram?”. E ficamos ali uns segundos com um sorriso feliz nos rostos. E prosseguimos com os dias ainda sem filhos. Digo "ainda" porque é essa a grande diferença entre o sonho de se desejar um filho biológico e o sonho de se desejar um filho adoptado – é certo que o filho adoptado vai chegar. Hoje acordei com o coração cheio de esperança, ouvi o silêncio desta casa e sonhei acordada e o coração conseguiu insuflar mais um pouco. Fiz o pequeno-almoço para ambos, o Chaparro já havia descido ao escritório pois anda em época de exames. Deu-lhe para estudar e está no 2º ano de um curso que lhe parece estar a encher as medidas, ou, pelo menos, tanto quanto pode um curso à distância preencher um trabalhador-estudante a quem as 8 horas são uma utopia mas que ainda assim consegue arrancar 18s e 19s e até 20s nos exames. O meu orgulho e um belo exemplo para o Freixo e para os filhos que haverão de chegar. Portanto, preparei-lhe um tabuleiro com um pequeno-almoço cheio de mimo. Fui consultar o e-mail à espera que já tivesse chegado uma mensagem que aguardo já há alguns dias: népia. Aproveitei e vi este vídeo que me enviou uma companheira de viagem na adopção, uma companheira que se me apresentou esta semana, através de uma "janela privada" [olá! :)]. Sabe tão bem falar com quem está no mesmo caminho. Encontro poucos lugares, pelo menos de comunidades portuguesas. Ou, então, sou eu que não sei procurar as comunidades online. Por vezes, sinto uma certa solidão “em português” nesta imensa rede internética ao explorar o assunto da adopção. Adiante, é apenas um desabafo. Dizia que vi o vídeo e cá estou, com o coração ainda mais um bocadinho insuflado. Destaco duas passagens que me tocaram especialmente, por volta do minuto 13 e depois a partir do minuto 27. Tenham um bom dia do trabalhador. Mais logo, hei-de marchar um pouco em comemoração do 1º de Maio e voltar para casa com um cravo na mão. Agora vou jardinar um pouco, se é que se possa chamar de jardinar a tratar de um canteiro de 5x1,5m :) bom dia.

Cipreste


quarta-feira, 30 de abril de 2014

da boca dos outros

Hoje trago-vos um post traduzido por mim do inglês para o português, pois achei que o assunto merece não ficar perdido sem tradução, trata de identidade e da obrigação dos pais adoptivos em não fechar os olhos à biografia dos filhos prévia à adopção.
Foi através desta moça, muito honesta nas suas reflexões e consequentemente na sua escrita, que encontrei o livro Adoption Reunion in the social media age.
Mesmo sem saber ainda quem vai ser meu filho/a(s), enquanto candidata à adopção nacional, há uma série de questões relativas à cultura às quais eu e a minha família seremos poupados. Ainda assim, restará muito sobre a identidade que percebo agora poder vir a ser um problema se não for bem encarado por parte dos pais adoptivos, por nós. O livro que refiro deu-me uns belos abanões sobre coisas de que nunca me lembraria se não as lesse ou, então, só no momento em que as fosse vivenciar. Neste momento, eu e o Chaparro temos muito presente questões sobre o direito da pessoa adoptada à sua história, ao seu passado, aos seus dados genéticos e origens.
Deixo uma passagem da página 29 do livro, traduzida por mim, sobre o processo de se reconhecer a necessidade à própria biografia e os resultados de procurar negligenciar essa necessidade:

«Olhando agora para trás, para os meus primeiros anos, consigo perceber de que forma a separação da minha família original me afectou ao longo da vida; Eu simplesmente não reconheci os sinais na altura. Ter-me-ia descrito como uma pessoa feliz, mas agora percebo que em grande parte do tempo eu estava mais próxima da dormência.»

Não sabemos como se desenrolará a nossa história, mas sentimos a premência de nos mantermos atentos a estas questões. Felizmente, há os blogs e os livros.

Segue-se o texto, via Casa Bicicleta.
Enjoy,
Cipreste





Enquanto mãe de uma criança adoptada, passo o tempo a pensar em questões de identidade. O que nos faz quem somos? O que é importante para a nossa noção de nós mesmos e o nosso lugar na família? Como posso ajudar a minha filha na sua busca pelo seu eu? Devo envolver-me nesta busca? Estas são coisas sobre as quais penso.

Provavelmente seja o contraste entre ter filhos biológicos e uma adoptada que me traz esta questão de forma mais presente. Os meus rapazes, como a maioria de nós, têm a sua identidade como algo garantido, os seus antepassados, as suas origens, as parecenças… todas as pequenas peças individuais que fazem de nós, nós. Ter acesso às histórias e fotografias e anedotas a qualquer momento é, enfim, uma dádiva. É uma coisa que a maioria de nós tem e em que a maioria de nós nunca tem de pensar. Está simplesmente ali. De cada vez que desejamos pensar acerca de quem somos e de onde vimos… não temos de pensar demasiado. A história está ali ao nosso alcance.

Quarta-feira foi o aniversário do QF#1*. Casualmente, mencionei ao jantar que lhe queria ter ligado às 10h03 da manhã porque essa é a hora exacta do seu nascimento. E ainda acrescentei num Sábado, estava a chover. O QM* perguntou a que horas nascera o QF#2 e eu respondi.

À medida que a conversa decorria, a Menina da Bicicleta (MB)** perguntou a que horas é que eu nasci? Ela já me tinha perguntado isto antes e já tivemos outras conversas sobre o facto de não sabermos pormenores sobre o seu nascimento. Na verdade, não sabemos nada. Não creio que esta conversa tenha sido particularmente dolorosa para a MB, não é certamente uma conversa nova, como disse, embora ela deseje, obviamente, possuir as mesmas peças do seu passado tal como os outros também têm. Portanto, ela pergunta. Mesmo quando sabe que não tenho as respostas.

Assim, depois de conversas destas, fico a pensar sobre como é que ela ficará a sentir-se. Ela tem uma relação muito próxima comigo, tão próxima que por vezes é um pouco intensa – duma forma insegura e nervosa, mas ela tem esta necessidade de estar próxima de mim, e ela queria determinada informação da minha parte, informação essa que não lhe consegui dar e isto prova, uma vez mais, que ela não vem de mim e do QM. Esta ausência de informação básica prova que houve outras pessoas na sua vida em certa altura que não estão lá agora, e nós não sabemos nada sobre quem são.

Isto acontece por fases. Por vezes, a MB e eu falamos sobre o seu passado, mas na maioria dos dias não o fazemos. Trago o assunto à baila sempre que o considero adequado. Por vezes, quando temos estas conversas, ela faz uma pergunta. Mas na maior parte das vezes, não faz perguntas. Se eu quisesse, diria a mim própria que ela não está interessada no seu passado. Poderia convencer-me de que, porque ela raramente toca no assunto, não está interessada nem é curiosa. Porque quando falo no assunto, ela por vezes ouve e noutras muda de assunto, e porque não se mostra excessivamente interessada, eu poderia convencer-me de que não lhe interessa. Eu poderia permitir-me deixar para trás este assunto da identidade, um assunto muito confuso e difícil. Claramente, poderia convencer-me a mim própria de que ela não está interessada.

Mas isso seria errado.

Considerando a personalidade da MB, eu sei que ela não consegue fazer demasiadas perguntas de prospecção. Ela tem um medo profundo das respostas. Cabe-me a mim, então, dar-lhe a informação – deixá-la à sua disposição, para que possa ver e ouvir, e ajudá-la a responder a questões não-perguntadas e ter fé para além da fé de que estou a dar-lhe aquilo de que precisa.

Aqueles de vós que me têm acompanhado desde há algum tempo, sabem que numa das nossas Buscas Pela Família Natural, uma mulher que foi entrevistada lembrava-se da MB. Deu-nos bastantes detalhes, incluindo o facto que ela trazia dinheiro consigo e um bilhete. No bilhete estava escrito um nome, nome esse que presumimos ser o seu nome próprio dado pela sua Mãe Biológica, e que esta mulher partilhou connosco. Aqueles de vós que têm estado comigo, lembrar-se-ão também do quanto me debati sobre como e quando dar (oferecer***) este nome à MB. Levou algum tempo, porque era algo tão precioso - este nome, que eu não o conseguia simplesmente proferir como se fosse uma informação tipo brinde. A sua importância fez-se sentir em mim.

Numa determinada altura, encontrei a oportunidade de falar disto com a MB e saiu. Disse-lhe o seu nome original. Disse-lhe que veio da sua Mãe. Disse-lhe que é precioso (e privado, se assim for a sua vontade). Disse-lhe quão bonito é e que se desejasse ser tratada por esse nome, e não por aquele que lhe déramos, bastaria dizê-lo e nós assim o faríamos e a trataríamos pelo nome que a sua Mãe escolhera para si.

Ela ouviu. Guardou tudo consigo. E não falou sobre o assunto.

Comprei-lhe o livro que a Maggie sugeriu (obrigada Maggie!) The Three Names Of Me. Tentei ler-lho, mas não consegui. Chorei de cada vez que comecei o livro. Estou a falar de choro tipo baba e ranho e soluços, que me deixou sem fala. Deixei o livro no quarto dela junto com todos os livros e papéis especiais dela, e sugeri-lhe que o lesse. De vez em quando, perguntava-lhe se o lera, ou se queria que eu tentasse lê-lo novamente, mas ela respondeu sempre que não.

Se eu desejasse ficar sossegada, poderia convencer-me de que ela não está interessada nisto tudo. Poderia fazê-lo porque seria infinitamente mais fácil, diria que ela agora é americana, que é a minha filha e de mais ninguém. Poderia usar a sua hesitação no assunto – porque tudo seria mais simples, como um sinal para deixar de lado o assunto, de que ela não está interessada.

Mas isso seria errado.

Ontem foi Dia de Levar o seu Filho/a para o Trabalho. O QM levou a MB para o trabalho. Dizer que ela estava excitada é eufemismo. A MB estava para além de excitada. Escolheu a sua toilette com o devido cuidado (duh) e preparou uma sacola cheia de canetas e lápis e um bloco de notas, que é o tipo de material que o QM leva para o trabalho. Ela não podia esperar.

Explicámos-lhe que teria de conhecer muitas pessoas, algo que é difícil para ela. Disse-lhe que poderia ser um bom treino e que a terapeuta ficaria muito feliz se ela conseguisse fazê-lo. Orientámo-la sobre como cumprimentar e ser educada no local de trabalho das pessoas, e disse-lhe que deveria olhar as pessoas nos olhos quando estas lhe dissessem “olá” (ou, pelo menos, olhar na direcção dos olhos da outra pessoa) e responder “olá” de volta. O QM disse-lhe quais dos seus colegas é que estavam particularmente interessados em conhecê-la, ou revê-la, para que ela tivesse uma ideia do que deveria esperar, uma delas é uma senhora chinesa que nos ajudou algumas vezes na nossa caminhada com a MB. O QM perguntou-lhe se ela queria conhecer esta colega e a MB disse que sim, mas que não queria ter de lhe falar em chinês.

É justo.

Quando o QM e a MB regressaram a casa, recebi um relatório completo sobre a quantas pessoas ela conheceu e cumprimentou (E olhou nos olhos!) e o QM disse-me que quando ela deu conta de que ainda não tinham encontrado a colega chinesa, foi a própria MB que pediu para a ir conhecer. Quando a encontraram, a MB e a colega do QM falaram um pouco em chinês, uma coisa que ela jurou que não faria. O coração do QM inchou de tanto orgulho. Para nós, conhecer a sua língua nativa permite ter uma porta aberta que nos pode levar às suas raízes e identidade. Vê-la abraçar esta parte da sua vida fez-nos pensar que provavelmente ela está confortável com quem é, ou quem considera ser para si própria. Pareceu correcto.

E depois o QM mostrou-me um desenho que a MB deixou no seu quadro. Incluía todas as coisas que possam esperar da MB: corações, flores, um sol brilhante, uma nota a descrever o desenho dela como “Dia de Levar o seu Filho/a para o Trabalho” e uma versão inspirada da MB do logótipo da empresa do QM.

Mas depois, ao reparar melhor, vi outras coisas. Ela desenhara um par de caracteres chineses: 小 e 大. Suponho que estava a meter-se com o QM e que pensa que estes são os caracteres que ele reconheceria. Ela também escreveu: Wǒ xǐhuan bīngqílín, que quer dizer “eu gosto de gelado”. E depois havia outra coisa.

Vi três palavras escritas em pinyin e, a princípio, não conseguia perceber o que era porque a caligrafia estava difícil. Mas depois pronunciei-o. Era o seu nome chinês. Aquele que lhe foi dado pela sua Mãe. Aquele que pensei que não lhe interessava. Aquele nome que não dissemos em voz alta durante pelo menos um ano. E foi então que percebi que ela tem estado a trabalhar (n)a sua identidade este tempo todo. Quer fale disso ou não, está a pensar no assunto. Demitir-me do assunto, não falar das coisas difíceis convencendo-me de que ela não estaria interessada, não é, simplesmente, uma opção. Porque, claramente, mesmo que ela não fale disto todos os dias, está a pensar no assunto.

Compreender quem somos é um processo difícil – mesmo quando temos histórias familiares intactas, longa e discriminadamente detalhadas. Quando não temos nada disso, compreender quem somos é muito mais difícil. Não admira que não se queira falar do assunto o tempo todo. É uma tarefa árdua. É um trabalho doloroso. Mas não devemos concluir que o assunto não interessa só porque ela não fala dele. Ela está a tentar perceber quem é, mesmo que não fale disso todos os dias.



Notas da tradução:

* QF #1 = Querido Filho; na língua inglesa, utilizam muito siglas na escrita corrente de tipo DH = Dear Husband (vamos usar QM = Querido Marido), neste caso DS = Dear Son
** epíteto da filha, em Inglês Bicicleta Girl
*** tive algumas dúvidas sobre como traduzir esta passagem, pois trata-se de uma oferenda, na verdade

terça-feira, 29 de abril de 2014

sobre Crescer - e educar, nesta era online


Imprimi esta citação de um blog maravilhoso, em 2003. Está, desde então, afixada no placard do meu gabinete. Há dias, olhava para ela e pensei que uma das coisas que eu quis dizer no post Crescer - e educar, nesta era online, comparando com a era offline, é que o "defeito" está em que a participação online passa demasiadas vezes pelo vazio (muitas vezes tornando-se mesmo numa feira de vaidades), em que, de facto, tantas pessoas estão alienadas dos outros (e talvez mesmo de si). 
Muitos ficam melindrados quando se fala disto, penso que esses são os que padecem do vício que os traz precisamente alienados, dormentes embora (hiper?)activos e sempre online. Quando faço estas observações, não estou a demonizar, como já sublinhei antes, a tecnologia. Estou apenas a reconhecer que o seu mau uso leva a perdas nas relações humanas que considero lamentáveis e isso, quando é desde pequenino, pode distorcer o input das relações face-a-face, levando a uma proporção inversa de presença online em relação (e em detrimento) à presença e participação comunitária offline

Cipreste

Planos para amar - Parte II

Ainda não tinha afixado aqui a parte II da saga Planos para amar simplesmente porque não tinha fotografado as provas.
Alguns de nós somos mais tagarelas do que outros, entre mim e o Chaparro, a tagarelice está na mesma proporção de posts afixados no blog: 99% meus para 1% dele. Por vezes, comenta os posts que vou colocando aqui, ora na caixa de comentários, ora por e-mail, ora frente-a-frente. Desta vez, deixou este "comentário", que encontrei no dia seguinte a ter publicado o post, nas paredes da nossa casa:


Esta é uma parede de cerca de 50 cm que tem do lado direito a porta do nosso quarto e do lado esquerdo a porta do quarto do(s) nosso(s) futuro(s) filho(s), dá para espreitar o sofá-cama que ocupa o espaço enquanto não houver lá uma cama com destinatário(s) específico(s).

Todos os dias: o amor :)

Quem tem um Chaparro tem tudo.

Cipreste

quinta-feira, 24 de abril de 2014

25 de Abril, sempre! Fascismo, nunca mais!

Outra vez, no bar do meu local de trabalho. Na véspera do 40º aniversário do 25 de Abril, ainda se ouve este tipo de conversas - «Hoje vinham dois sem-abrigo, da associação X, no autocarro. Iam para uma formação, mas todos bem vestidos. Com telemóvel e tudo, até headphones! E recebem 80€ por mês!» 
:( 
Respondi, claro (provavelmente, tenho de deixar de ir ao bar) - «Não lhes invejo a vida. Bom dia a todos.»

~ ~ ~

Hoje começo os meus festejos “oficiais” deste 25 de Abril que é da mesma idade que eu. Penso muitas coisas sobre ele. Ele é uma entidade para mim. Eu, herege, dou mais importância ao dia 25 de Abril do que ao dia 25 de Dezembro, e olhem que, embora ateia, gosto muito do Natal. 
Andam para aí uns energúmenos a perguntar se valeu a pena o 25 de Abril. É que isso não se pergunta, nem em forma de metáfora, ou antes, só aceito essa pergunta na bela obra que é o FMI do José Mário Branco. Uma obra que conheci em 2004 (dou agora conta que passam 10 anos) pelas mãos de uns amigos que conheci através da net. Oiçam, é lindo, às tantas o JMB pergunta se valeu a pena e responde de imediato: valeu, pois!

Valeu, sim. 

Desejo-vos um 25 de Abril muito bonito e inspirado.


Cipreste

da boca dos outros




um àparte: nunca vos disse, mas tenho muitas reservas quanto à adopção internacional. Atenção, eu não disse que sou totalmente contra. Falarei disto noutro dia.


Bom dia,

Cipreste

quarta-feira, 23 de abril de 2014

É preciso assumir que isto trata de ideias de supremacia

~ ~ ~

Há uns anos, após um passeio à beira-mar com uma amiga, deitámo-nos naquela linha de fim de rebentação, recebendo sol e água simultaneamente. Não sei como foi que, num ambiente tão descontraído, veio à baila uma conversa profunda sobre a existência. Às tantas, a minha amiga remata com a sua sentença de fútil em comparação comigo (não sei se eu seria, por antónimo, “útil”), – «Porque, ao contrário de ti, eu sou uma egoísta e uma irresponsável, não me preocupo com nada, só me interessa viajar, concertos, roupas, jantares e copos». Refutei veementemente os títulos com que se presenteara, a frase dela estava correcta excepto apelidar de egoísmo e irresponsabilidade a caracterização que fazia dos seus objectivos de vida.

Para mim, isto é claro como água:
– As pessoas são responsáveis na proporção do cumprimento dos compromissos que assumem.
– As pessoas são egoístas na proporção do prejuízo dos outros em favor da satisfação das suas necessidades acima-de-tudo.

A minha amiga é professora e assume a sua função muito competentemente. A minha amiga diverte-se muito e não prejudica ninguém em função do seu divertimento. A minha amiga consome aquilo que consome, sejam concertos, roupa ou copos, com o dinheiro que ganha do seu trabalho. A sociedade ensinou a minha amiga a apelidar-se de egoísta e irresponsável. Eu chamo a minha amiga de amiga e, fossem necessários epítetos face ao seu estilo de vida, diria “responsável” e “hedonista”. E dispensamos sentimentos judaico-cristãos de culpa. 

~ ~ ~

Hoje de manhã, enquanto tomava café no bar do meu local de trabalho com duas colegas, surge o assunto das barrigas de aluguer. As campainhas tocaram cá dentro, mas não tive a esperteza de sair de cena. Diz a colega nº1 que acha muito bem que se autorizem as barrigas de aluguer que é para ver se eles (“eles” quem?) aprendem(!), que é para não demorarem tanto tempo a dar bebés para adopção. Segurem-me senhores. (subitamente, preciso de um cigarro) Acreditam que eu respondi? Pois. Disse umas coisas sobre a adopção não ser uma fábrica de bebés para satisfazer a frustração biológica dos adultos. Mas ela insistiu e contou a história de uma amiga que visita uma menina numa instituição, uma menina que hoje tem 4 anos e que é visitada por este casal desde que tem 1 anito e meio, mas que o juiz nunca mais a liberta para a adopção. Pum. E eu, de rajada: que essas visitas, com esse objectivo, são exactamente o que não deveria acontecer. Esse casal pensa o quê? Que não precisa de estar em lista de espera junto do resto da plebe? Que simplesmente escolhe a criança que quer e depois é só reclamar dos tribunais? Que essa coisa que se diz da adopção ser uma solução de vida para as crianças em primeiro plano e não uma solução para os adultos que querem ser pais não é apenas uma coisa que se diz, pois que tem fundamentos lógicos, legais e éticos muito sólidos. Que quem quer adoptar tem de respeitar a lei. Que não é ético tornar-se família amiga com o primeiro objectivo da adopção. Existe o ser-se “família amiga” e, depois, existe o ser-se família de acolhimento, o ser-se candidato ao apadrinhamento civil ou à adopção. Não existe o escolher-se a criança e visitá-la com vista à adopção, fora do circuito estabelecido, que parte da Segurança Social e que é esta que escolhe o casal para a criança e não o contrário.
ISTO NÃO É DISCURSO PARA FAZER O BONITO. Isto não é um discurso vazio sobre o SUPERIOR INTERESSE DA CRIANÇA.
(definitivamente, depois disto hei-de cravar um cigarro a alguém) 


Vamos a ver, todos já ouvimos falar de histórias de crianças cuja vida está "empatada" em instituições à espera de serem “libertadas” para adopções. A lei provavelmente deveria ser revista, sim. Mesmo considerando a melhor instituição possível, concordamos que as crianças devem ter o direito a uma família, o direito a crescer num ambiente que lhe proporcione um crescimento saudável, e quando falamos de saúde estamos também a falar de saúde emocional, certo?
Há um mundo de coisas para dizer sobre isto, mas a principal lição a tirar é que a adopção deve existir, em primeiro plano, para assegurar uma família à criança. Dito de outra forma, a adopção não serve, em primeiro plano, para proporcionar filhos aos adultos. Não pode haver equívoco em relação a isto.

Falando daqueles que partem para a adopção com uma história de infertilidade por detrás, nós, os adultos temos de aceitar a nossa história, temos de aceitar as condicionantes que nos impediram da descendência biológica. Para ser bruta, em inglês, dizemos “get a grip”. Há que aceitar a realidade e encetar o luto da maternidade, ou paternidade, biológica. E, se pensarmos em recorrer à adopção para substituir o filho biológico tudo vai ser muito mais difícil e pode mesmo correr mal. Quando pensamos em adopção, sonhamos com maternidade e/ou paternidade, e é assim que deve de ser, é um sonho de constituir família - é certo, e o sentimento é que conta - é certo, mas convém estarmos muito conscientes de que é um sonho diferente. Não é pior nem é melhor, mas é definitivamente diferente.

Na adopção não há uma barriga, nem um parto, nem amamentação, nem comparações de parecenças com o pai ou a mãe. Na adopção há, de um lado, um ou dois adultos que desejam ter um filho e, do outro lado, há uma criança que carrega uma mochila cheia de histórias. Do outro lado, não há uma tábua-rasa que vem satisfazer um capricho. Do outro lado, há uma criança que precisa de ajuda para crescer, para aprender a confiar que nem todos os adultos são violentos ou negligentes ou omissos. Do outro lado, há uma criança que, de ter vivido tantos anos numa instituição, não sabe o que é ficar de pijama a comer porcarias (entenda-se guloseimas e afins) e a ver televisão o dia todo. Do outro lado, há uma criança que não sabe o que é poder ir ao frigorífico servir-se daquilo que lhe apetecer, mesmo que mais tarde lhe doa a barriga, porque o frigorífico não é seu e as horas das refeições estão escritas num papel oficial, junto com a ementa do mês e os horários das funcionárias. Do outro lado, se é que alguém os aconchega ao final do dia, não é sempre a mesma pessoa, e essa pessoa está apenas a cumprir uma profissão. Do outro lado, não houve a satisfação das necessidades ao desenvolvimento físico e emocional sem contratempos, sem preocupações de se passar fome ou de ser vítima de violência física e/ou psicológica. Do outro lado, ninguém diz "Não faz mal, a mãe/pai está aqui". Do outro lado, há muito provavelmente o sonho de ter uma família, de se ser protegido e não pode haver, nem há, espaço para aquilo que foi o nosso sonho da barriga, do parto, da amamentação, das comparações de parecenças com o pai ou a mãe. A esta altura, os sonhos que os adultos tiveram não interessam para nada.

A vida não me foi fácil e não me deu uma coisa que sonhei ter, pois, de facto, não foi. Mas eu tive um pai e uma mãe e muito amor e muita protecção e muito riso e muito saber o que é chorar todos juntos, todos juntos – um por todos e todos por um. Tenho a obrigação de ser consciente, altruísta e responsável. Se a vida não me deu o que eu queria, não posso usar a vida de uma criança para tentar fazer uma substituição disso. Nem que o tentasse fazer, seria impossível substituir um sonho com outro. Ah, e tal, posso ficar pelos cantos a suspirar pelo que não tive, é legítimo. Por outro lado, se eu mexer uma palha para tentar substituir o meu sonho usando a vida de uma criança através da adopção, então, meus senhores, poderão apelidar-me de egoísta e irresponsável. A verdadeira, e não a minha amiga de que falei no início do texto.

Eu sei que há muitas variáveis e História por detrás desta salganhada toda que é a adopção, mas os pontos têm de ser colocados nos i. Não se pode iniciar a adopção em equívoco acerca dos direitos nela implicados. Já li demasiadas histórias para tentar escapar ao reconhecimento do que é a adopção para o adoptado. Na adopção, os candidatos têm a obrigação de se informarem. Hoje em dia, temos informação grátis e acessível para todos e não concebo que alguém alegue que não sabe onde ir ler sobre adopção. É preciso procurar saber o que é isso do desenvolvimento, do crescer-se como adoptado, do direito à história natural e aos dados genéticos, do direito aos laços que se desejam. É preciso pôr-se o bem-estar dos filhos à frente do nosso – uma coisa que os pais costumam fazer, certo? Mas, do que tenho lido, sinceramente, fico a pensar que muitos pais adoptivos quando dizem que amam os seus filhos como se tivessem nascido de si, esquecem-se de que (1) eles não nasceram de si, pelo que (2) os seus filhos têm direito à sua história.


Quando chegamos a estes lugares de reflexão, digo-vos que tudo o que foi um dia o sonho de ter um bebé fica noutro universo.

Ficam, assim, a saber que estou a marimbar-me para a problemática dos casais que esperam tantos anos para adoptar um bebé.

A adopção não é uma construção à semelhança duma qualquer supremacia do sonho biológico, mas antes a responsabilidade de assumir o superior interesse do adoptado.

A adopção não é uma alternativa à biologia e eu gostava tanto de viver numa sociedade que compreendesse isto.


Cipreste

sábado, 19 de abril de 2014

(...)

via HONY
"It's not as bad as people make it sound. Sure, you created a little monster that you have to take care of. But it's a blast."




















Um dia destes falo disto (depois explico o que é isto)

Vim só dar-vos os bons dias :)

Cipreste

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Planos para amar

Acho este miúdo genial na sua expressão dos sentimentos:



Eu também não gosto sempre das pessoas que amo, embora, enfim, são raras as vezes. E sei que é recíproco.

Sobre os Exercícios do futuro hipotético - coisas do contacto com a equipa de adopções, cujas ideias ando a tentar arrumar, sobram-me sempre duas coisas como as principais "campaínhas":

1. Por vezes, as marcas de se viver anos numa instituição - longe de um ambiente familiar, são mais intensas do que os traumas do passado, propriamente ditos.

2. Na sua maioria, uma das grandes dificuldades que as crianças adoptadas apresentam a início é a confiança no adulto. Estas crianças* não costumam sequer saber o que é acreditar que se é amado e que o amor dos pais é, não acontece apenas conforme os dias ou o humor das partes. Que os pais amam todos os dias, a cada segundo. Para sempre.

Tenho muita curiosidade (e medos) sobre este amor de que tanto se fala. Ando a confiar no futuro, é o que me resta em relação a este assunto.
Eu e o Chaparro escrevemos mensagens um ao outro nas paredes cá de casa, pela escadaria acima. Aguardo ansiosamente pelo dia em que vou escrever para, e com, os meus filhos, nas mesmas paredes.
Talvez uma mensagem assim:

via

Ou a promessa - que aos filhos podemos, e devemos, fazer esta promessa: para sempre.

Cipreste


* já sabem que detesto generalizações, certo?