quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Confia

Algumas das minhas relações são caracterizadas por grandes desencontros nos contactos (telefonemas, emails não respondidos, encontros adiados sem marcação de novas datas, etc), mas, no fim, acabamos sempre por nos encontrar no mesmo sítio do bem-querer.
Por estes dias, tive oportunidade de dar de caras com alguns desencontros. Alguns do calibre dos que descrevo acima, outros de calibre mais vale um bom desengano do que andar enganado sempre.

Lembro-me tantas vezes da maior lição que a minha melhor amiga me ensinou:

Um dia, irritada porque queria contactar consigo, pedi-lhe contas por não me responder a chamadas/sms e ela apenas me respondeu "tens de confiar em mim".
Disse-o com tal veemência, com tal verdade que eu compreendi numa assentada só.

(gosto tanto desta amiga, e gosto tanto como os meus filhos quase todos os dias a mencionam :) ora ela, ora ele, "é como a K, mamã?", "sim, filhos, é como a K")

É.
É isso. Temos de confiar.
Para o bem e para o mal, pois tudo acaba por encontrar o seu lugar e tentar forçar as situações só lhes dá mais fragilidade.
Tudo precisa do seu espaço e do seu tempo.
Eu sei, isto é do conhecimento geral, mas às vezes preciso de mo lembrar.

Bom dia,
Cipreste

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

projecto para este fim de semana

Vou *tão* propôr isto à família. 
E já estou toda excitada a pensar no jarro e nos berlindes... na imagética disto tudo. Muito bom :) gosto tanto destes encontros entre necessidades e respostas criativas.

Ainda por cima... eu adoro berlindes mas nunca soube brincar com eles, eis a oportunidade para dar uso a eles :))))

Baseado-me na ideia original, mas dando-lhe o nosso toque, estas são as minhas ideias:

- propor a tarefa à família como forma de irmos observando a evolução das nossas atitudes - deixando  a definição dos critérios para decisão em conjunto - por exemplo, quantos berlindes se colocam/retiram no jarro conforme as atitudes que determinaremos

- arranjar um local acessível e visível que permita o acumular de jarros

imagem encontrada no pinterest, sem referência à origem...
- à medida que cada jarro se enche, encerra-se e começa um jarro novo - pensei nisto como forma de permitir que os berlindes se tornem num símbolo, ou seja, aquilo que foi construído não se destrói - e para que possam verificar que, mesmo havendo alguns momentos de retrocesso, o que vinga é a construção; ao longo do tempo, acho que pode ser positivo ir vendo o acumular de jarros, até que decidamos que já não precisamos do seu simbolismo podendo, então, fazer algo com os berlindes que entretanto ficarão a embelezar aquele "canto"

Depois posso vir cá dizer-vos os critérios que definimos.

Bom dia, bom fim-de-semana,

Cipreste

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

pescadinha-de-rabo-na-boca

Ontem, após um encontro (mais um) muito feliz nesta coisa da parentalidade, fiquei a pensar nisto: qualquer pessoa minimamente perspicaz, após 5 minutos de convívio franco comigo compreende que tenho este vício de racionalizar. Por outro lado, sou fã da genuinidade. Depois, tenho a reacção básica de concluir que racionalizar algo mina a sua genuinidade. Isto dá um cocktail do camandro. Então, há pouco, deu-se-me um daqueles saltinhos interiores de tipo eureka! com o pensamento "Será que esta coisa de eu gostar tanto do blog e de escrever sobre parentalidade mas, ao mesmo tempo, arranjar sempre maneira de o negligenciar sou eu a tentar baixar os meus níveis de racionalização das coisas?". Hm... sinto-me como uma pescadinha-de-rabo-na-boca e fico com aquela sensação de que estou a precisar de um abanãozinho (ai, K, fazes-me tanta falta, só tu - e o Chaparro, tens coragem de me dar abanões) a ver se começo a mudar de posição para olhar as coisas por outras perspectivas.
O que vale divirto-me sozinha com estas parvoíces, há qualquer coisa que acontece e que acaba por me dar graça no meio disto tudo
Que hei-de fazer? :)
Bom dia,
Cipreste

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

e assim se passou mais um Natal

E eu sem dar notícias
Gostava francamente de conseguir reorganizar as minhas prioridades por forma a dedicar-me mais ao blog. Eu sei, estou sempre a escrever este lamento: mas queria mesmo escrever para mais do que apenas as actualizações dos nossos dias, escrever sobre os assuntos da adopção e da parentalidade, dar dicas, dizer como foi e como tem sido connosco, partilhar, dar e receber.
Hoje é o final oficial da época de Natal. Já demos conta dele no passado Sábado, quisemos entrar no 2º período do ano lectivo com a casa à civil. Nem por isso deixamos de sentir como o garfield. Assim que consiga, volto cá. Não fiz, nem faço, resoluções de ano novo, mas talvez não fosse má ideia ponderar esta: rever os meus dias para dar mais tempo a este blog que é hoje um dos meus maiores depósitos de pensamentos. Bom dia a todos, bom ano, boa vida,

da família toda para todos vós aí desse lado

esta tira está no meu placard do trabalho há uns 12 anos, diz muito, diz muito...

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

acho que o vou pedir ao pai Natal

Apaixonei-me por um boneco da Imaginarium: é a cópia do meu Chaparrito!


Tudo, os olhitos, o penteado, os acobreados do cabelo, o arzinho tão simpático e doce. Ainda por cima, veste como ele, mesmos tons, riscas... oh, coisa-mais-boa-da-mãe :)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

solidão (e outras formas de mau-estar) na missão da parentalidade

Dei comigo a fazer coisas que jamais imaginei fazer (talvez até jurasse que nunca o faria): gritar aos meus filhos e... (engolir em seco antes de escrever isto)... dar-lhes palmadas.

Sim, já dei palmadas aos meus filhos e não me orgulho de o dizer. 
Não, não passei a acreditar nas palmadas pedagógicas e, sim, continuo a achar que ninguém tem o direito de violentar ninguém - quer seja verbal, quer seja fisicamente.

E agora, onde fica a minha incoerência?
Fica num buraco triste e sem fundo. Fica numa desilusão imensa de mim para mim. 
Mora nos momentos de desespero em que cresce uma distância imensurável entre aquilo em que acredito e a urgência em mostrar-lhes que determinado comportamento é inadmissível.
E respondo com um comportamento também inadmissível.
Será que, afinal, acredito na palmada pedagógica? É que, reparem, luto contra a ideia de que a minha palmada foi um acto incontrolável. Eu não sou como os protagonistas da violência doméstica que depois se mergulham em choros e pedidos de desculpa, eu não digo que não o queria fazer (não o desejava fazer, mas sabia o que estava a fazer).
Afinal, quem comanda o quê nestes momentos? O desespero. É o desespero que toma conta de nós, é a ideia de "último recurso". E quando caímos em nós, pensamos que não pode ser. Sendo bem certo que a palmada surge após a escalada de comportamentos abusivos e repetidos por parte das crianças, há sempre hipótese de fazerem pior, e depois o que fazemos? Mais palmadas? Até doer a sério? Não, não pode ser.
E, assim, damos por nós num lugar solitário e dorido e de arrependimento atroz: falhámos numa das promessas mais importantes, falhámos num dos princípios mais básicos na nossa ética de vida. E cresce uma dor profunda dentro de nós. Olhamos os nossos filhos e pensamos coisas terríveis sobre os danos possíveis da palmada. (não, não me escondo atrás do "eu levei palmadas e não estou traumatizada")
Olhamos os nossos filhos e não nos resta mais senão aceitar a nossa humanidade, que nada mais é do que a prova da nossa imperfeição. Olhamos os nossos filhos e sentimos a urgência de compaixão: para com eles e... para connosco.
Voltamos a fazer votos com as nossas convicções - depois de as confirmarmos de nós para nós (haverá quem as mude e passe a incluir a palmada no seu repertório?).
Isto tudo dói terrivelmente. Por esses dias, fugimos de toda a informação sobre a parentalidade positiva e com apego e não é por tentar negar esses princípios - é por nos sentirmos indignos da companhia de quem se mostra mais capaz do que nós.
O amor entretanto sobrepõe-se e recomeçamos o regresso à sensação de sermos também dignos.
E todo este caminho é tão solitário.

Esta solidão tem muitas portas por onde entra: os juízos de valor, por exemplo, que já nos magoaram profundamente. Se já é difícil que as pessoas sejam compassivas na parentalidade biológica de cada um, garanto-vos que na parentalidade através da adopção o não são de forma implacável. Principalmente as pessoas que têm dificuldade em aceitar quem vive de forma diferente à sua. Sentimos nos seus olhares, ouvimo-lo nas suas palavras e recebemo-lo como balas no peito através de algumas atitudes - que nos doem mais ainda quando são direccionadas aos nossos filhos: primeiro atiram e só depois perguntam. E eu deixei de responder. Fechei a loja para quem me julgou implacavelmente e me deitou ao chão em três tempos morais. Acabou. Porque há limites para os falsos humildes, os falsos simples. Há limites para o espaço que damos aos passivo-agressivos das nossas vidas. Há limites para a benevolência perante atitudes sobranceiras e que trazem mau-estar de facto. Cada um que se amanhe com as suas inseguranças, mas que não as imponha aos outros por causa de serem diferentes.

E, assim, damos por nós numa solidão maior. É bem certo que é uma solidão também escolhida, mas não deixa de ser um lugar difícil.

Entretanto, fiz escolhas conscientes e calculadas. Mantenho todas as pessoas nos meus círculos, apenas umas estão nos círculos mais interiores enquanto outras passaram para círculos mais afastados do meu centro.

Dei com esta moça há algum tempo - cujo site certeiramente se chama "famílias imperfeitas", diz umas coisas que me têm ajudado. Fala desta solidão que  creio que todos, em alguma altura, já sentimos. Fala de algo que nunca devemos deixar de fora desta equação e cuja expressão em língua inglesa exprime muito bem: it takes a village (to raise a child) - a comunidade...



Cipreste

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

e a tentar fazer o encaixe de tudo isto

uma coisa por publicar, com o editor à espera; umas (novas) arrumações que planeei para a nossa sala de forma a podermos fazer ioga e meditação em família; a reestruturação que fiz nos nossos hábitos alimentares e consequente logística; a mudança do meu horário de trabalho implicando almoço em casa 4xsemana (ora com um filho, ora com o outro) e consequente logística; o vídeo/performance que está por fazer há 2 anos (dois - anos!); momentos para estar comigo e com o (luto d') o meu pai; acabar de ler o raio do livro que estou a adorar mas que me adormece, como qualquer outra leitura me adormece assim que caio na cama (vou começar a ler no carro, nos momentos em que espero os meus filhos entre escola-actividades); isto tudo sem sequer falar do meu trabalho (o de ganha-pão) porque aqui listei apenas o que faço na vida familiar e nos meus "passatempos".
e, depois, existe ainda muito eu, eu tudo e cada coisa, eu mulher, eu pessoa, eu casa, eu mundo. vai daí, dou de caras com este excerto:


in História de Quem Vai e de Quem Fica de Elena Ferrante via Não mudes nunca


pronto, ok, seu sei, nem sequer estou afilta e não, não penso que se esteja a perder um génio e sim, eu sei que estou a viver o que sonhei e sim, está a ser muito bom mas uma pessoa, às vezes, deve parar e verificar em que direcção está a seguir 
e, se necessário, dar uns toques no volante
a bem dizer, sou mãe há um ano e perdi um bocado de mim no momento inicial em que era preciso estar com a atenção virada para a adaptação dos meus filhos, agora começo a reencontrar-me nalgumas esquinas e está a ser muito bom
muito bom mesmo
um ano é pouco, bem sei, mas eu tinha saudades de mim
era só isso 

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

cá ando, neste emaranhado

já que não tenho tempo, fica aqui uma ideia do que eu gostaria de conseguir fazer e vir dizer, pela mãe preocupada:

Eu, que tantas birras e amuos tenho aturado aos adultos, não compreendo que dificuldade é esta, pisada, repisada e perversamente alimentada, em entender quem acabou de chegar ao mundo e demora a incorporar códigos, rotinas e convenções.
Não se aguenta mais esta conversinha da treta, lucrativa, bem falante e livresca, sobre disciplina e autoridade. Dissertam sobre educação e amor como quem dá dicas para abrir latas de atum sem verter óleo, mas as latas de atum são todas iguais e saem de linhas de montagem com idêntica mecânica, o que não se aplica à humanidade (por enquanto).
Em todo o caso, que valor tem isto num mundo onde os adultos andam desorientados, desfocados, gastando rios de dinheiro em paliativos, terapias, workshops, esperando receber em três tempos dos céus, dos gurus ou dos manuais a serenidade, a compaixão e a gentileza que nem têm tempo para dar aos outros? Quantos adultos conheço que dizem "por favor" e "obrigada"? Quantos vão dormir a bem? Quantos aceitam aquilo que é facto, o trânsito parado, o dia de chuva, a constipação que já atacou? Quantos não têm achaques nervosos a cada contrariedade? Quantos não vivem para alimentar os próprios caprichos, futilidades, gadgets, acessórios, roupinhas? Quantos não sofrem de um narcisismo crónico que mal disfarçam nas conversas de café e na urgência em aderir a nobres causas? Quantos não viram costas e fecham a cara, só pelo desagrado do que acabaram de ouvir? E quantos não se satisfazem depois a rogar uma praga, a espalhar um boato, a maldizer e vomitar palavrões?
Qualquer criança sabe - porque sente - que não se pode confiar em nada disto. Talvez ajude deixar de esperar se portem como macaquinhos amestrados, como brinquedos programáveis, como estabilizadores das nossas próprias emoções. Talvez ajude aceitar que são gente. E então tudo se aquieta, o que não significa que se resolva.»

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

coisas com que sonhei, emoções que desconhecia

Eu e os meus filhos no cubículo que é a nossa cozinha. Eles de pijama e robe. Os cabelos dele ainda meio molhados, ela de luvas sem dedos. Eu ao fogão. O livro Anita na Cozinha aberto na banca. Os ingredientes em fila. Velas acesas, o fio de luzes aos corações acesas à janela. O gato dormita. O pai à espera do nosso chamamento. Eu ao fogão e eles dois, lado a lado, observam o passo seguinte. Coloco a massa das panquecas na frigideira e ela certifica-se "sabes mesmo virar as panquecas, mãe?". Sei. 
Tudo o resto acontece rapidamente. 
A panqueca fica pronta para ser virada, eu fico nervosa, sinto a mão tremer. 
Olho-os, estão expectantes. 
Faço o jeito de salto mortal com a frigideira. 
Sucesso.
A partir daqui só consigo ouvir a salva de palmas que me dedicam os meus filhos com olhares brilhantes. Batem palmas entusiasticamente e eu sinto que vivi 41 anos e 11 meses para este momento. O mundo pára.

São os olhos dos meus filhos a brilhar. Os sorrisos mais maravilhosos e puros de sempre. As mãozinhas deles a dar-me vivas. A alegria dos meus filhos - dos meus filhos

Sim, eu sabia que teria de ser bom. Mas não, não pensei que isto fosse assim tão bom.

Cipreste

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

o meu melhor

Faço o meu melhor, ainda assim, às vezes, o meu melhor não chega.
Falho. Entro na minha espiral de pensamentos. O que fui fazer? O que fui dizer?
Apocalipticamente, imagino os meus filhos, já jovens adultos, num divã-psi com patrocínio dos meus métodos de parentalidade. Métodos? Reacções. Pois. Falho.
Amo. Sei que amo. Procuro solucionar-me entre expectativas, convicções (malditas!) e factos (o que é a verdade?). Amo e falho. Falho com aqueles que mais procuro proteger e amparar.
Penso em Beckett à procura de saídas intelectuais para os meus erros. Dou de caras com a discussão sobre a eterna perda das traduções: fail é falhar ou errar? Erro?
Oh, céus, faço demasiada carga sobre os meus ombros e depois fico cansada para o amor. Ou antes, com medo. Às vezes, tenho tanto medo do amor. 

Será isso?
Não sei.

Hoje, sei que o papel de mãe transportou-me para:

- o lugar onde, cada vez mais, me interesso menos com o que “os outros” pensam de mim
- a mira daqueles que preferem disparar primeiro e perguntar depois
- o confronto com a solidão desta tarefa
- a necessidade de abdicar de algumas das minhas utopias (não, Cipreste, nem todos os que dizem que te amam estão aptos a abdicar da sua arrogância para te ceder o benefício da dúvida; e tu, estás apta para fazer o mesmo no sentido contrário?))
- a necessidade de me sentir mais limpa, mais livre, com menos objectos, com mais presenças, com compaixão (tenho de apontar esta compaixão também para mim, eu sei, eu sei...)
- o saber, cada vez mais, pensar e respirar e contar (até mil, se necessário,) antes de reagir

É. Falho, mas sei o que não quero.

Não quero conflitos obtusos. Não quero levar com a agressividade passiva das frustrações dos outros. Tenho mesmo muito mais coisas (bem mais importantes e interessantes) com que me coçar e só sou mãe de dois.
Três, a contar com o Freixo, que (lá no meio das minhas inseguranças) descobri que está mesmo no lugar de filho no meu coração.
Ok, quatro, se contarmos com o gato :)

Bom fim-de-semana, 
Cipreste

p.s. obrigada por me lerem, obrigada pelo feedback que me deixam, não respondi ainda porque me faz sentir tão espantada, tão pequenina perante palavras tão generosas e companheiras. Tantas vezes, obrigada.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

o que eu gostava mesmo

Era de ter tempo e tranquilidade para me sentar a escrever (a melhor forma que tenho para arrumar as ideias sobre as quais matuto) acerca desta dualidade de ser uma pessoa que, por um lado, acredita numa parentalidade que se baseia na confiança e responsabilização das crianças por forma a dar-lhes a liberdade que merecem, mas que, ao deparar-se na parentalidade na adopção, se vê no papel que parece ser o da helicopter mom a quem todos gostam tanto de atirar pedras (sendo eu a primeira).
Gostava de escrever sobre como se vê a olhos nus o resultado do "tempo de qualidade" com os filhos.
A sério, os meus bichinhos têm um botão vermelho que liga assim que se passam uns dias menos "dedicados no tempo".
Aquela máxima de que os nossos filhos não precisam de bens materiais mas antes do nosso tempo é a mais pura das verdades.
Fizemos contas, muitas contas, pedi redução do meu horário e vou ter 3 tardes por semana para estar com eles, só com eles.
É agora ou nunca, é o tudo pelos meus filhos.
Os meus bichinhos.
Percebem? Não claro que não, pois se nem sequer estou a tocar o assunto pela rama.
Isto não é fácil, sabemos que há um comboio que nunca mais vamos apanhar (em comparação com as famílias biológicas) mas a vida deixa-nos sempre com o barómetro da biologia nas mãos e, embora o amor seja igual, nas nossas famílias - as famílias adoptivas, as coisas não são iguais às outras famílias.

O que eu gostava mesmo era de ter tempo e tranquilidade para escrever sobre isto e sobre como, oh, sim, é nisto tudo que acredito - obrigada, pai à paisana por nos arrumar assim estes assuntos tão bem arrumadinhos (no pun intended) (ah, e outro, oh, sim, eu também tenho especial embirração com os pontos de exclamação, principalmente quando vêm aos trios).

Enfim, o que eu gostava mesmo era de ter tempo e tranquilidade para escrever sobre isto.

Até já, ou assim,
Cipreste

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

terça-feira, 20 de outubro de 2015

overload de fofura

Ela

Pergunta se podemos ter um hamster.
Eu digo que sim, mas que se prepare para que sirva de refeição ao gato.
Ela pergunta se o hamster não pode ficar com a avó. Não pode.
Depois de estudar alguns cenários, todos inexequíveis, conforma-se: pronto, espero por crescer e ter um na minha casa, só não o posso trazer quando vier cá a casa por causa do gato.

Agradeço-lhe em silêncio que inclua o gato nos planos das próximas décadas.


~ ~ ~ 

Ele

Mãe, tens de ficar a olhar para a lua enquanto eu leio, só podes tirar os olhos da lua quando eu acabar o parágrafo.
...
Mamã! Estamos a ler, não é hora para beijinhos, vá, olha para a lua enquanto eu leio para ti.


Isto aguenta-se?

E mais vos informo que tenho foto que acompanha este momento, por acaso não se percebe bem o rosto dele mas não posso partilhá-la convosco, receio que o Chaparrito um dia me venha pedir contas - está fofa demais. Só levanto a ponta do véu um bocadinho... envolve aquele bocadinho de barriguita que ele tem a espreitar da camisola do pijama e os pézinhos de bebé dele. E mais não digo.

sábado, 17 de outubro de 2015

Sábado em Outubro

Um medley de Sábados de Outubro

Finalmente, Sábado. O Sábado exige nada menos do que uma maiúscula. O Sábado suporta tudo. Ao Sábado, conseguimos tudo.
Resta decidirmos entre ficar na cama ou fazer tudo.
Estou indecisa.
Aqui me exponho: sabe-me bem a cama. É o melhor lugar do mundo.
Ouvir os miúdos no quarto deles a continuar o jogo de ontem à noite, daqueles livros maravilhosos que os nossos amigos M.S. - nossos eternos fornecedores de roupa, livros e brinquedos, nos deram.
São tão cromos os meus filhos, são tão maravilhosamente cromos. Quando não estão na escola ou a estudar em casa, ora brincam aos professores, ora escolhem jogos didácticos, ou, não sendo didácticos, encontram aprendizagens em tudo. Tão maravilhosamente cromos, os meus filhos. Estou na cama e oiço-os, ela descreve o sistema digestivo, eles riem de algo que não apanho. Estou na cama e oiço os meus filhos a rir. São bons amigos, tomara que assim continuem, penso. Na minha cama – o lugar onde posso fantasiar conciliações e utopias, o lugar onde me sinto genuinamente grata.
Espero que os miúdos venham ter à nossa cama.
Não existe lugar mais redentor do que a cama do Sábado de manhã, albergando a família toda, em diálogos desconexos de obrigações.
Por outro lado, a manhã do Sábado, quando passada do lado de fora das camas, permitem o resto do universo em possibilidades. Ou, então: o sofá.
O melhor que existe para aprimorar o cenário descrito acima é a passagem directa para o sofá. Seja com uma taça de cereais, seja com o resto do bolo de chocolate que sobrou das comemorações da data especial de ontem. Com leite frio e desenhos animados da RTP2.
E a confirmação de que certas opções acabam bem. Tivéssemos TV-Cabo e teríamos de lidar com diplomacias para a escolha entre aquilo que consideramos minimamente construtivo e as parvoeiras que vislumbramos nas poucas vezes que nos quedamos em tv-cartoons e quejandos.
Continuemos a viagem de Sábado: cama, família toda, parlapiê com paródia, sofá, leite frio, desenhos animados, e bolo de chocolate.
Agora o café.
Não é Sábado de manhã se não houver cheiro a café. Um grande sim com ponto de exclamação para o café.
Siga. Deveres da escola. Que é para estarmos descansados amanhã.
Ela tem o primeiro teste para a semana, História e Geografia de Portugal. Ensinei-a a fazer resumos, digo-lhe «Lembras-te do que fizemos com Português? Faz o mesmo para HGP.» e ela dá saltinhos de contente. Apetece-me dizer «A sério, Magnólia?!», com aquele ar de pré-adolescente ainda-não-enjoada que ela faz - «A sério… mãe?!» e dá ênfase a “mãe” ou “pai” consoante a situação, e lá vai, toda empertigada.
Dá saltinhos de contente por ter de fazer resumo da matéria de HGP. O pai vem dizer-me que o pequeno está frustrado porque teve 3 erros no ditado. Agora que experimentou o sabor de ter “Zero erros! Parabéns!”, tem de aprender a errar como Beckett. Segue uma conversa sobre a perfeição e sobre a espera por Godot. São tão maravilhosamente cromos os meus filhos.
Quem dera poder dizer que fui eu que os fiz.
Mercado Municipal. Mercearia, padaria e talho do nosso bairro. Encontrar o P e a J, a R e o Super-V para outro café na esplanada. Ligar à Je ao J, saber se estão por cá. Dar um salto ao mercadinho biológico. Fazer o tal panelão de sopa. Deixar a sopa para depois e decidir colocar queijo e pão e uvas e laranjas e água e vinho num saco, seguir para o parque depois de ligar à F e ao A para virem ter connosco. A Magnólia pede para levar o fagote e nós ficamos a olhar um para o outro sem saber o que responder. O fagote toma o lugar do nenuco. Seguir. Deixá-los andar descalços no parque, contra as crenças portuguesas sobre as constipações. Rir, comer, beber, dormitar. As mãos dele sobre mim, sempre as mãos dele sobre mim. À medida que se conversa, a minha pele acarinhada e eu a sentir-me amada, nunca mais abandonada e muito menos em Outubro.
Seguir para casa a meio da tarde, passar pelo centro comercial e comprar as sabrinas para ela. Não temos sapatos de Domingo que lhe sirvam e vai precisar para a audição. Pretas ou azul-escuras? Quem disse que preto ou azul-escuro é entediante? Ora, que parvoíce, penso enquanto escolhemos as azul-escuras e ela segura o saco, feliz com a compra.
Chegados a casa, enrolamos massa folhada com Nutella. Os croissaints (ou coraçãs, como ele diz) ficam prontos em 5 minutos.
Pomos a mesa para o lanche. Comemos. Ela diz que vai estudar fagote. Cada um pega em pequenas tarefas sabendo que o momento vai ser desse instrumento grave que entrou de rompante nas nossas vidas. Eu leio, ele responde a emails, o pequeno pega nos legos ou na enciclopédia de instrumentos musicais – continua a dizer que quer tocar tuba. Quer percussão e tuba. Ela prepara o fagote e começa. Dó dó dó ré mi fá mi ré dóóó. E nós acompanhamos mentalmente. O irmão manda bitaites acertados e nós dizemos-lhe que tem de ser a mana a perceber isso. Ela percebe, ela sabe. Continua, dó dó dó ré mi fá mi ré dóóó. É tão maravilhosamente croma a minha filha. Diz piadas relacionadas com o fagote. Falta pouco para começar a dizer piadas que nenhum de nós na família há-de perceber. Ri-se de si. Frustra-se com o som que não sai como quer. Repete e diz “outra vez”. E eu de lágrimas nos olhos. Poucas coisas comovem como uma criança que tenta e repete para ser melhor.
Acaba o estudo. Desmonta o fagote, limpa o fagote, arruma o fagote à medida que diz “o meu fagotinho”. Não é dela, é alugado. Um dia, quem sabe…
Digo-lhe que vi no facebook que no dia 11 foi dia do fagotista, mostro-lhe este vídeo. Os fagotistas são tão maravilhosamente cromos. Onde já se viu uma flashMob de fagote. Rio muito. Rio muito alto. (Não costumo rir muito. Ou costumo? Não sei. Acho que rio pouco.)
Chamo-os para o sofá, vou buscar o portátil, com um de cada lado, vemos vídeos alternadamente. Um de judo, um de fagote. Ele espanta-se com os judocas, ela faz reparos sobre a posição do queixo daquele fagotista. Puxamos a manta, começa a arrefecer e vemos a vinha-virgem à nossa janela, está a mudar de cor. Há-de ficar vermelha daqui a poucas semanas. Bela.
Ao final da tarde, as minhas amigas vão mandar uma mensagem a dizer que estão no café, para eu ir lá ter. Ele vai insistir para que eu vá. Nuns Sábados irei, noutros não. Está tudo bem quando os amigos esperam por nós.

É Outono, é Outubro, é Sábado. Para sempre, Outubro será um mês major. Por estes dias, assinalam-se muitas datas para a nossa família. 
Sofro porque é verdade que o meu pai já não me vai chamar com a sua voz. Sofro porque me custa cada vez mais a distinguir do sofrimento que vejo no dia-a-dia no meu trabalho.
Esta é a minha vida, sempre muito cheia, sempre muito rica. Cantada por Maria Bethânia. Eu a viver emoções non-stop.
Chegar-se-á a hora de jantar e ele vai dizer que, porque não lhe apetece fazer nada, não quer que mais ninguém faça e há-de buscar algo para comermos. Não nos apetece ir fora. Mas somos sortudos, embora faça contas e queira poupar, ainda podemos buscar um frango ou uma pizza. Temos muitos agasalhos.
É Sábado e faremos planos para visitar algum museu amanhã, ou almoçar com a avó de um lado ou os avós do outro. Temos saudades tuas, pai.
Às vezes, é preciso dizer as coisas a fingir na segunda pessoa do singular.
Fez 4ªfeira um ano do primeiro dia doutro resto da minha vida, fez ontem um ano que vi a fotografia mais importante da minha vida (dito assim mesmo sobre a importância) e fez um ano que tivemos uma falsa esperança de viver um pouco mais sem a dor persistente da ausência.
Hoje é Sábado. Vou ali viver e sonhar. Vou pesquisar o preço dos bilhetes para concertos de ano novo e sonhar com viagens que não faz mal que não possamos fazer, porque o Sábado é nada mais do que a lembrança do cuidar diário. O sábado é nada mais do que a celebração do que se construiu nos outros dias.

Bom fim-de-semana,
Cipreste

p.s. talvez dever-se-ia chamar este blog Outubro a Outubro ;)