sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

coragem major ~ coragem minor

Por vezes, sinto-me tão perdida. Tão longe das soluções que passam pela expressão “basta fazer isto ou aquilo” e, pronto, “já está!”. Para além de me sentir perdida, também me chego a sentir mal por  achar que não estou a encontrar no amor a solução para os problemas dos meus filhos. A ideia de que o amor tudo cura é muito linda, mas não encaixa milagrosamente no quotidiano das nossas dores. Quando vemos os nossos dias a seguir rumos dolorosos e amamos, mas não conseguimos que esse amor cure, acabamos a colocar em causa a nossa capacidade de amor. Será que isto é amor? É que, repare-se, se o amor tudo cura e eu não estou a curar ninguém, então isto não deve ser amor.

É. É do camandro.

Uma pessoa lê estas afirmações: “A ideia da não vinculação é monstruosa para a espécie humana” e que “para desenvolver-se bem, toda a criança precisa que alguém esteja louca por ela”(aqui). E fica a questionar o seu amor. Será que amo mal? Será que não lhes mostro que sou louca por eles? Num instante, estamos a pensar, oh, não, estou a fazer mal aos meus filhos. Eles portam-se assim porque se sentem mal-amados e eu sou a pior mãe do mundo.

É. Tenho dias assim. Depois eles sorriem e abraçam-se a mim e acontece uma palhaçada qualquer e sobrevivo novamente a mim.

~ ~ ~

Ultimamente, comecei a reler alguns dos meus posts pré-filhos e tenho tido felizes encontros. Nem sequer posso dizer que tenho engolido muitas das minhas palavras ;) afinal, a maternidade não me veio mostrar assim tanta incoerência. Na verdade, e já que estamos a falar das diferenças antes-depois, posso declarar que a grande diferença é a forma como encaro as opiniões alheias. Antigamente, avançava com a minha opinião, mas restava uma dúvida pesada sobre a opinião alheia, agora, embora reste sempre uma dúvida – que considero a dúvida razoável, senão seria uma tola cheia de certezas, avanço de forma firme.
Uma pessoa que não se munisse deste mecanismo nunca poderia sobreviver no dias em que pensa que ama mal e recebe simultaneamente opiniões alheias destrutivas.

Adiante. Ao reler os posts, tenho encontrado um ou outro excerto muito certeiros. Sobre os últimos tempos por cá, este que já partilhei ontem:

“Compreender quem somos é um processo difícil – mesmo quando temos histórias familiares intactas, longa e discriminadamente detalhadas. Quando não temos nada disso, compreender quem somos é muito mais difícil. Não admira que não se queira falar do assunto o tempo todo. É uma tarefa árdua. É um trabalho doloroso. Mas não devemos concluir que o assunto não interessa só porque ela não fala dele. Ela está a tentar perceber quem é, mesmo que não fale disso todos os dias. ”(aqui)

Adoptar crianças “mais velhas” tem a benesse de encontrarmos pessoas que já conseguem elaborar sobre as suas emoções. Se o fazem são outros quinhentos, pelo menos já têm a bagagem neuropsicológica para tal.
Assim são os meus filhos: com competências para elaborar sobre as suas emoções. E o mais lindo é que gostam de o fazer.

Há dias, a nossa assistente social, em resposta ao nosso email periódico em que enviamos notícias com fotografias, respondeu “os vossos filhos estão lindos e cheios de competências”.

Ena! Pensei… os meus filhos… cheios de competências. Uau, isto soou-me bem, muito bem, tão bem. Uma mãe precisa de ouvir estas coisas.

E é mesmo verdade que estão cheios de competências.

Como todas as mães, antes de o ser, sonhei muito com o que gostaria de fazer com os meus filhos. Sonhei com a música que aprenderiam, que ouviríamos, os concertos a que iríamos. Sonhei com a partilha que faríamos com eles dos nossos passatempos. Os nossos passatempos, meus e do Chaparro, passam maioritariamente pela área das artes. Apreciamos muito o conciliar das artes à natureza, praia, bosque, etc. Assim, damos uns toques na fotografia, escrita, instalação, leituras públicas, e participamos na organização de eventos relacionados.
Várias vezes por semana, os meninos fazem actuações para nós que passam pelo teatro e pela música. Agora começaram a compor! É mesmo admirável porque nenhum de nós lhes deu alguma vez tal ideia. Levamo-los a ateliers de ilustração, teatro, música, etc. Vamos a concertos, às vezes, várias vezes por semana, pois na escola da Magnólia são muito activos e são quase sempre de entrada livre. E eles adoram. Vibram. Desde a música clássica ao jazz. E sabem estar numa sala de espectáculos. Vêm para casa e mimetizam tudo. O Chaparrito é especialmente delicioso a imitar músicos e maestro.

Posso dizer que os nossos filhos abraçaram incondicionalmente o nosso amor pelas artes e tiram verdadeiro prazer delas.

Depois, há dias inteiros em que a televisão não é ligada. Obviamente que é por princípio nosso, como o hábito é que faz o monge, quando éramos só nós dois já havia este registo cá me casa. Liga-se quando é para se ver algum programa em específico. Se já fizeram os tpc, se já se estudou instrumento, se a mesa está posta para o jantar, ok, vemos um pouco do zigzag (depois há também o pormenor de que não temos tv-cabo). Com sorte, apanhamos o ioga que eles adoram fazer.

Ainda mantemos os nossos filhos ignorantes quanto às outras tecnologias – smartphone, tablet, computador. Vêem nos nossos, connosco, e não jogam. Não tenho qualquer dor de consciência em relação a isto e sei que rapidamente apanharão o comboio quando começarem. Além disso andam aí umas manchetes nos jornais a falar dos perigos da utilização destes dispositivos antes dos 12 anos – right on! Estamos dentro do prazo.

Não tenho pressa para estar a falar com os meus filhos e ter como reacção o silêncio acompanhado de uma expressão de dormência deles perante um écran. Aliás, eles sabem que se não nos respondem a chamamentos enquanto vêem televisão que esta é desligada imediatamente.
Somos muito maus, muito intransigentes. Já sabemos.

Portanto, juntando este não desperdiçar tempo frente a écrans à tal resposta positiva que eles têm aos estímulos artísticos, é um corrupio de espectáculos em nossa casa.

Há duas semanas, fomos a Serralves porque tinha de ver a exposição da Helena Almeida (acabava nesse fim-de-semana). A Magnólia foi simplesmente maravilhosa. Interpretou as séries dela de forma deslumbrante. Usou espontaneamente as palavras “luto”, “ferida”, “belo”. As pessoas que passavam por mim deviam ficar ofuscadas com o brilho que saía dos meus olhos.
Fizemos fotografias interpretativas das obras frente a elas, assumindo posições muito engraçadas. Frente ao “abraço” fizemos uma fotografia com os quatro abraçados. Acho que a determinada altura andava uma pessoa a perseguir-nos e ficou felicíssima por poder tirar-nos essa foto.

A semana passada, a Magnólia "enviou-nos" um convite para uma exposição que montou no corredor. Deviam ver. Ok, depois fotografo para verem, como ainda está patente, posso voltar lá. Chama-se "sentimentos" e está dividida em várias ilustrações com placas identificativas - incluindo nome da autora e ano de nascimento (tão sweet :) ). O nome das obras passa pela designação "etapa" que se segue pela ordem com números romanos e depois a explicação de tipo "se pensas que não sabes dançar, põe música e começa a mexer-te, vais ver que sabes dançar". Ficámos de queixo caído.

Isto tudo para dizer que tenho andado a rondar uma certas e determinadas questões junto da Magnólia e comecei a usar estas competências. Afinal, a arte serve para quê?

Não se esqueçam de que estou a falar disto: “Compreender quem somos é um processo difícil – mesmo quando temos histórias familiares intactas, longa e discriminadamente detalhadas. Quando não temos nada disso, compreender quem somos é muito mais difícil. Não admira que não se queira falar do assunto o tempo todo. É uma tarefa árdua. É um trabalho doloroso. Mas não devemos concluir que o assunto não interessa só porque ela não fala dele. Ela está a tentar perceber quem é, mesmo que não fale disso todos os dias. ”(aqui)

Esta semana, aconteceu algo extraordinário: a Magnólia contou-me pormenores da sua vida anterior que não constam dos relatórios oficiais. Estou a falar de factos que vão além de relatos do quotidiano.
Digo-vos que isto não é nada fácil.

A Magnólia gosta muito de usar a expressão “pozinhos mágicos”.
Eu disse-lhe que, se eu pudesse ter os pozinhos mágicos, utilizá-los-ia para que ela nunca tivesse tido de viver estas coisas. Ordenaria que ela tivesse sido sempre feliz desde o seu primeiro minuto, que nunca tivesse tido que ser “retirada” e que ainda hoje fosse muito feliz com as pessoas do seu passado, mesmo que o preço fosse viver a minha vida sem ela. Fiz questão que compreendesse que não estava a dizer que abdicaria dela. Ela compreendeu, acenou a cabeça à medida que as lágrimas lhe corriam pela face. As minhas já corriam há uns segundos.

Fizemos um acordo, propus-lhe um novo exercício. Uma nova tentativa para ver se conseguimos transformar um comportamento que ela tem e que a prejudica. Aceitou. Estamos agora neste novo tempo. Estou cautelosa. Já falhámos tantas vezes. Mas sinto cada vez mais a solidez disto tudo.



A adopção é uma coisa violentíssima. Para todas as partes. E não há texto ou palavra amiga que nos consiga fazer vislumbrar o quão violento pode ser tudo isto. Desde o amor ao aceitar a instalação de dores novas e permanentes.

É precisa coragem, sim senhora. Vejo muitos pais adoptivos dizer que se sentem ofendidos quando alguém lhes gaba a coragem. Compreendo ao que se referem: a coragem das crianças é ainda maior do que a nossa. Mas esta não deixa de ser também uma coragem.

Se as queremos distinguir, chamemos-lhe coragem major e coragem minor, então.

Sim, a coragem dos nossos filhos é major

Caramba, imaginem-se: ok, achámos que aquelas pessoas não sabiam amar-te e cuidar-te devidamente, trouxemos-te para esta casa e agora que te sentes seguro aqui vais embora e viver com estes senhores, que não conheces de lado nenhum, mas a quem vais chamar de pai e mãe, e que têm mil sonhos e expectativas para o que querem que tu sejas enquanto filho deles.

É isto que acontece. Por mais conscienciosos que tentemos ser, vamos também com a nossa bagagem de expectativas. 
E deve ser mesmo muito brutalmente assustador para uma criança e, sim, a coragem deles é maior do que a nossa.

Nem por isso, a nossa deixa de o ser. Eu, que sempre achei que encarava as emoções de frente (hahaha) e que sempre gostei de dar nome às coisas para procurar compreendê-las, tenho levado com cada safanão emocional que até fico a ver estrelas.
Enfrentar as dores dos nossos filhos é coragem, sim. É uma bela coragem e a minha vida é bela acima de tudo por causa da coragem que os meus filhos necessitam de mim. Não estamos curados da vida, nunca estaremos, mas caminhamos juntos e com coragem para o que der e vier.


Deixo-vos com um excerto a que volto muito.

«Deitei-me no chão, e não é fácil. É preciso ter sido queimado por muitos nomes, ter esquecido e relembrado a delicadeza, o sangue, a ironia, paisagens e transmutações, as formas, as vozes. Como se pudéssemos existir sem qualquer herança, com a fortuna apenas de um tesouro criado pela solidão. Deitado na terra, respiro contra o chão vivo; e como estou com a cara muito junto ao chão, o sopro bate na terra e volta-me à cara. É ainda assim uma bela coragem.»
.
Herberto Helder in Photomaton & Vox


Cipreste



curtas

ele: mãe, porque é que nós vemos?
eu: como assim?
ele: porque é que nós conseguimos ver?
tento explicar as coisas pela biologia, mas...
ele: sim, mas às vezes estou a olhar para as pessoas e penso "porque é que nós vemos, porque é que não somos todos cegos?"

~ ~ ~

ele: mãe, como é que sabemos que as coisas são o que elas são?
eu: como assim?
ele: por exemplo, como é que sabemos que o café se chama "café"?

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

ai ca nervos

Sigo esta mãe desde muito antes da chegada dos meninos. Uma vez inclusive traduzi um post seu.

E agora ela tinha de ir tocar no assunto. Argh.
Na consulta de pediatria do ano passado, o pediatra, nosso amigo, disse que a Magnólia iria menstruar nos 12 meses seguintes. Aliás, disse-o a ela. Apeteceu-me colar-lhe a boca com fita-cola. Raio de coisa para se dizer à miúda, pá! Não estou preparada para isto.

Ok, ok. Não penso assim. Ele fez bem, e fê-lo bem. Apenas, acontece que… eu não estou preparada para isto. Pronto, já o disse. Não sinto maturidade para enfrentar a menarca da minha filha. Grande palavrão, hein? Mas é assim que se chama a primeira menstruação de uma mulher. Acabei de escrever “mulher” pensando na minha filha. Oh-meu-deus.

Estão a ver o meu nível de preparação? Pois.

Mas não pensem que estou sozinha nesta falta de preparação. Há duas semanas, a Magnólia queixou-se de dores musculares no baixo-ventre durante dois dias. Ao segundo dia, já eles se tinham deitado e disse ao Chaparro que era capaz de estar aí a menarca dela e ele mandou-me calar. Assim mesmo: mandou-me calar(!). O Chaparro nunca me manda calar. Disse-me “Cala-te” (como é que é?!) “Isso dá-me vontade de chorar” (disse, já com os olhitos pequeninos e brilhantes) e rematou “ela é muito pequenina, é a minha menina”. Haha, ela já ultrapassou a minha mãe em altura, já cresceu uns 12 cm desde que está connosco. A nossa menina já não é pequenina.

Ai… é, é! Escrevo cá com cada parvoíce. Pfff.

Estão, finalmente, a ver o meu nível de não preparação para isto? Pois.

Ontem, numa conversa com ela, voltei a tocar no assunto “porque um dia destes vem-te o período” blábláblá.
Acho que ela encara isto com naturalidade, nem sequer é pessoa de stressar com as coisas. A mãe é que…

Faltam-me coisas.
Falta-me um livro: alguém aí desse lado me recomenda um livro sobre o assunto para lhe oferecer e ler com ela?
Já comprei duas bolsinhas para lhe dar nesse fatídico dia. Uma mais pequenina onde caiba um penso higiénico e um toalhete (daqueles embalados individualmente), para ter na sua malinha, e outra bolsinha um pouco maior para ter com reforços no cacifo da escola.
Mas não comprei pensos porque… ela é... muito pequenina, entendem?
Argh.
Quando me veio o período usei um penso da minha mãe e da minha irmã - não havia distinções lá em casa, estava tudo no mesmo armário da casa de banho, eram da marca Modess (alguém aí se lembra daqueles pensos-almofada?). Eu não tenho pensos porque, enfim, já sabem, sou histerectomizada (com anexectomia bilateral). Que pensos devo comprar? Os que eu usava são grandes demais para ela, para as suas cuequinhas… ela é muito pequenina, é... um bebé pequenino – o meu bebé pequenino, percebem?


Ajudem esta pobre mãe.
Ajudem-me, por favor.











Cipreste

post-scriptum  agora mais a sério, quem vos fala daqui é uma mãe que sofreu muito (e sofrer não é eufemismo) por causa do período e... e... e nada, pensar na possibilidade da minha filha sofrer como eu sofri, enfim, deixa-me aflita, fico como o Chaparro, só me dá vontade de chorar. E eu sei que ela não tem os meus genes, mas uma em cada cinco mulheres sofre de endometriose e... oh, céus.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

the boss

Sigo esta moça pelo facebook, mais do que pelo blog.

Tenho andado apreensiva com os dias da minha família, devido à discrepância entre aquilo que eu penso que todos somos capazes de fazer, aquilo que desejamos de facto (para si e para a vida em família) e aquilo que concretizamos e que tem sido muitas vezes preocupante para todos nós.

Dou por mim no site da wook a ler a sinopse do livro desta mãe que é a chefe e sinto um arrepio na espinha (assim mesmo, espinha e não coluna):

«Quantas vezes deixamos os nossos filhos na escola e vamos para o trabalho a pensar «por que é que temos sempre de nos aborrecer logo de manhã uns com os outros? Por que é que as coisas não correm bem?» Prometemos que quando os formos buscar, as coisas serão diferentes. Planeamos actividades para fazermos no final do dia, idealizamos os momentos que queremos viver, para depois esbarrarmos no cansaço deles [e no nosso] e é o «vira-o-disco-e-toca-o-mesmo». Zangamo-nos, gritamos, afastamo-nos e sentimos o nosso coração a ficar pequenino porque sabemos que não é nada daquilo que queremos... Mas há formas simples e práticas de dar a volta ao texto e de educarmos crianças resilientes, positivas e felizes, sem abdicar da autoridade, mas equilibrando tudo com mimo, empatia, carinho e amizade. Basta percebermos o porquê daquela birra que aparece vinda do nada, aprendermos a falar com os nossos filhos, tendo em conta não só o que dizemos, mas também como dizemos. Magda Gomes Dias, especialista em Coaching e Aconselhamento Parental, através de uma linguagem prática e directa, e recorrendo a exemplos do dia-a-dia e muitas sugestões, apresenta-nos um livro fundamental para desfrutarmos a 100% da relação com os nossos filhos. Porque se a relação parental for equilibrada, pacífica e saudável, sobrar-nos-á tempo para vivermos em conjunto a felicidade de sermos pais e filhos.»
(sublinhado, itálico e negrito são meus)

Ah, pois, então era só isso que me estava a faltar? Duh para mim. Ok, logo já resolvo os problemas todos. É só aplicar.

Das duas, uma: ou esta mãe consegue ser mesmo a chefe e eu andava desencontrada da minha guru, ou houve aqui um erro crasso de marketing... falta ali o espaço para a falha, mesmo que esteja no interior do livro.
Esta sinopse afasta logo os... como eu.

Era só isso. Ando um bocado embirr... intransigente, ou lá como se diz.

Bom dia, de novo,
Cipreste


e um pouco de filosofia... perdão, de um filósofo

«Example number two: my fingernails, which are long because I don't cut them. At the end of your letter you say my worker's jacket (it's actually a peasant's jacket) is like Marilyn Monroe's pleated bodice and my fingernails are like Greta Garbo's dark glasses. And you shower me with ironic and spiteful advice. As you mention them several times, my fingernails, let's consider them. One might say that my mother used to cut them for me and it's to do with the Oedipus complex and castration (a ridiculous interpretation but a psychoanalytical one) . One might also note, looking at my fingertips, that I haven't got the normal protective whorls, so that touching anything, especially fabric, causes such irritation that I need long nails to protect them (a teratological, selectionist interpretation).O r one might say, and it's true, that I dream of being, not invisible, but imperceptible, and the closest I can get to the dream is having fingernails I can keep in my pockets, so I find nothing more disconcerting than somebody looking at them (a social psychologist's interpretation) . One might, finally, say: "You mustn't bite your fingernails, because they're part of you; if you like fingernails, bite other people's if you want to and get the chance " (a Darien-style2 political interpretation) . But you, you choose the shabbiest interpretation of all: he wants to be different, wants to do a Garbo. It's strange, anyway, how none of my friends have ever commented on my nails, finding them perfectly natural, as though they'd just landed there like seeds blown in the wind that nobody bothers mentioning.»

Deleuze (aqui)


(era só isto, tenham um bom dia)

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

limpar janeiro

Janeiro, cumprindo o papel de mês das resoluções (antes das decepções), costuma ser mês de limpezas e arrumações.
O mês de janeiro é muito mal visto. Diz que é o mês em que ganhamos menos, é o inverno nu e cru, sem as luzes de natal. Em janeiro do ano passado, eu estava a entrar num buraco fundo, escuro e frio. 
A iniciar a vida sem o meu pai, no meio de destroços, com as mãos cheias da missão de criar e amar os meus filhos recém-chegados.

Cheguei a cair na cama uns dias, desesperei, pensei que não saía de lá e que não reencontraria a alegria de viver.
Fiquei doente. O meu corpo falou tão alto que o médico chegou a pensar que seria uma pneumonia.
O meu filho ficou doente.
Hoje tenho a certeza de que, sendo a esponja emocional que o meu filho é, essa foi a causa da maleita dele e não a tal virose. Febres repetidas que nos passavam rasteiras, mais de uma semana - quase 24 horas sem febre, subitamente olhava-o, a sua face rosada indicava-nos nova urgência de um duche, pijama lavado, cama, mais uma dose de ben-U-ron.
Deixava-os na escola às 9 e ia tomar café com o Chaparro, fumava dois cigarros de seguida e regressava a casa. Quando entrava, o silêncio era um silêncio novo. Era frio. Era implacável. Era solitário.
Comecei a afastar-me de algumas pessoas. Não muitas, mas eram aquelas com quem pensava contar para o bem e para o mal.
Mas o mal foi outro e senti urgência em proteger-me e aos meus.

Hoje, à distância, compreendo alguns desses desencontros como meras negligências sem qualquer fundo de mau-querer (pelo contrário) ou mesquinhez, infelizmente, receio que um desses grandes desencontros seja nada menos do que o culminar de anos de episódios aparentemente ultrapassados, mas que apenas revelavam uma incompatibilidade intrínseca. Vou vivendo uns dias mais conformada, outros menos. Há dias em que consigo ser empática e sentir compaixão pelas batalhas alheias, mas há outros em que... não consigo. Nesses dias percebo que não ultrapassei o que sinto como uma traição à minha confiança. Percebo que não se põem pedras sobre (determinados) assuntos e vou vivendo com isto em mim.
Demoro tempo a arrumar os assuntos, porque gosto deles bem arrumados. Crescer, porém, é também assumir que há assuntos que nunca serão arrumados como gostaríamos. Por exemplo, sei que jamais me será possível falar sobre isto com as pessoas em questão. Porque estamos em comprimentos de onda diferentes, porque creio mesmo que só contribuiria para um maior desentendimento. Mas não posso tirar estas pessoas totalmente da minha vida.
E depois vem janeiro e acordam estas memórias no meio de novos eventos, novas falas, novas ausências.

E tenho cada vez mais a certeza disto: quero tanto quebrar este ciclo.
Não quero que os meus filhos herdem isto. Isto, não.
Isto não é fácil, há dias que são realmente muito duros. A luta interior pode ser mesmo muito grande, pois mantermo-nos fiéis aos nossos princípios assim como a questão que fazemos por manter a educação dos nossos filhos o mais genuína possível leva-nos a sítios de confronto muito bruto.

Cito de cor o professor João dos Santos: educar é fazer falhar a educação que nos deram.

Quero quebrar este ciclo e o principal ingrediente para isso é estar atenta, ser consciente da replicação de atitudes dentro do círculo de pessoas a quem me refiro – eu incluída.

Esta é uma luta à qual fugi durante anos, acho que era desnecessária ao nosso crescimento. Muito menos deveria ser necessária a expressão "luta".

Duas coisas e o alerta para não apelidar estes factos de ambivalência:
- Já o disse antes, detesto a obediência mas dou por mim a fazer mais uso dela do que alguma vez imaginei. 
- Tenho a minha atenção toda voltada para isto: o livre arbítrio dos meus filhos. 

Acho que é aqui que reside o maior equívoco, pois o meu compromisso é com eles, com os meus filhos. Que ninguém confunda a minha missão em mostrar aos meus filhos as hipóteses de escolha que têm com o reconhecimento de que são senhores dos seus dias. Repare-se: estou a falar das pessoas mais corajosas que já conheci, estou a falar das pessoas mais maravilhosas que conheço. E nada, nem ninguém, deverá confundir isto.  
Tenho de limpar janeiro. Para nós, por nós.

My friend's kid is going places


Bom dia, boa semana,
Cipreste

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Confia

Algumas das minhas relações são caracterizadas por grandes desencontros nos contactos (telefonemas, emails não respondidos, encontros adiados sem marcação de novas datas, etc), mas, no fim, acabamos sempre por nos encontrar no mesmo sítio do bem-querer.
Por estes dias, tive oportunidade de dar de caras com alguns desencontros. Alguns do calibre dos que descrevo acima, outros de calibre mais vale um bom desengano do que andar enganado sempre.

Lembro-me tantas vezes da maior lição que a minha melhor amiga me ensinou:

Um dia, irritada porque queria contactar consigo, pedi-lhe contas por não me responder a chamadas/sms e ela apenas me respondeu "tens de confiar em mim".
Disse-o com tal veemência, com tal verdade que eu compreendi numa assentada só.

(gosto tanto desta amiga, e gosto tanto como os meus filhos quase todos os dias a mencionam :) ora ela, ora ele, "é como a K, mamã?", "sim, filhos, é como a K")

É.
É isso. Temos de confiar.
Para o bem e para o mal, pois tudo acaba por encontrar o seu lugar e tentar forçar as situações só lhes dá mais fragilidade.
Tudo precisa do seu espaço e do seu tempo.
Eu sei, isto é do conhecimento geral, mas às vezes preciso de mo lembrar.

Bom dia,
Cipreste

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

projecto para este fim de semana

Vou *tão* propôr isto à família. 
E já estou toda excitada a pensar no jarro e nos berlindes... na imagética disto tudo. Muito bom :) gosto tanto destes encontros entre necessidades e respostas criativas.

Ainda por cima... eu adoro berlindes mas nunca soube brincar com eles, eis a oportunidade para dar uso a eles :))))

Baseado-me na ideia original, mas dando-lhe o nosso toque, estas são as minhas ideias:

- propor a tarefa à família como forma de irmos observando a evolução das nossas atitudes - deixando  a definição dos critérios para decisão em conjunto - por exemplo, quantos berlindes se colocam/retiram no jarro conforme as atitudes que determinaremos

- arranjar um local acessível e visível que permita o acumular de jarros

imagem encontrada no pinterest, sem referência à origem...
- à medida que cada jarro se enche, encerra-se e começa um jarro novo - pensei nisto como forma de permitir que os berlindes se tornem num símbolo, ou seja, aquilo que foi construído não se destrói - e para que possam verificar que, mesmo havendo alguns momentos de retrocesso, o que vinga é a construção; ao longo do tempo, acho que pode ser positivo ir vendo o acumular de jarros, até que decidamos que já não precisamos do seu simbolismo podendo, então, fazer algo com os berlindes que entretanto ficarão a embelezar aquele "canto"

Depois posso vir cá dizer-vos os critérios que definimos.

Bom dia, bom fim-de-semana,

Cipreste

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

pescadinha-de-rabo-na-boca

Ontem, após um encontro (mais um) muito feliz nesta coisa da parentalidade, fiquei a pensar nisto: qualquer pessoa minimamente perspicaz, após 5 minutos de convívio franco comigo compreende que tenho este vício de racionalizar. Por outro lado, sou fã da genuinidade. Depois, tenho a reacção básica de concluir que racionalizar algo mina a sua genuinidade. Isto dá um cocktail do camandro. Então, há pouco, deu-se-me um daqueles saltinhos interiores de tipo eureka! com o pensamento "Será que esta coisa de eu gostar tanto do blog e de escrever sobre parentalidade mas, ao mesmo tempo, arranjar sempre maneira de o negligenciar sou eu a tentar baixar os meus níveis de racionalização das coisas?". Hm... sinto-me como uma pescadinha-de-rabo-na-boca e fico com aquela sensação de que estou a precisar de um abanãozinho (ai, K, fazes-me tanta falta, só tu - e o Chaparro, tens coragem de me dar abanões) a ver se começo a mudar de posição para olhar as coisas por outras perspectivas.
O que vale divirto-me sozinha com estas parvoíces, há qualquer coisa que acontece e que acaba por me dar graça no meio disto tudo
Que hei-de fazer? :)
Bom dia,
Cipreste

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

e assim se passou mais um Natal

E eu sem dar notícias
Gostava francamente de conseguir reorganizar as minhas prioridades por forma a dedicar-me mais ao blog. Eu sei, estou sempre a escrever este lamento: mas queria mesmo escrever para mais do que apenas as actualizações dos nossos dias, escrever sobre os assuntos da adopção e da parentalidade, dar dicas, dizer como foi e como tem sido connosco, partilhar, dar e receber.
Hoje é o final oficial da época de Natal. Já demos conta dele no passado Sábado, quisemos entrar no 2º período do ano lectivo com a casa à civil. Nem por isso deixamos de sentir como o garfield. Assim que consiga, volto cá. Não fiz, nem faço, resoluções de ano novo, mas talvez não fosse má ideia ponderar esta: rever os meus dias para dar mais tempo a este blog que é hoje um dos meus maiores depósitos de pensamentos. Bom dia a todos, bom ano, boa vida,

da família toda para todos vós aí desse lado

esta tira está no meu placard do trabalho há uns 12 anos, diz muito, diz muito...

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

acho que o vou pedir ao pai Natal

Apaixonei-me por um boneco da Imaginarium: é a cópia do meu Chaparrito!


Tudo, os olhitos, o penteado, os acobreados do cabelo, o arzinho tão simpático e doce. Ainda por cima, veste como ele, mesmos tons, riscas... oh, coisa-mais-boa-da-mãe :)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

solidão (e outras formas de mau-estar) na missão da parentalidade

Dei comigo a fazer coisas que jamais imaginei fazer (talvez até jurasse que nunca o faria): gritar aos meus filhos e... (engolir em seco antes de escrever isto)... dar-lhes palmadas.

Sim, já dei palmadas aos meus filhos e não me orgulho de o dizer. 
Não, não passei a acreditar nas palmadas pedagógicas e, sim, continuo a achar que ninguém tem o direito de violentar ninguém - quer seja verbal, quer seja fisicamente.

E agora, onde fica a minha incoerência?
Fica num buraco triste e sem fundo. Fica numa desilusão imensa de mim para mim. 
Mora nos momentos de desespero em que cresce uma distância imensurável entre aquilo em que acredito e a urgência em mostrar-lhes que determinado comportamento é inadmissível.
E respondo com um comportamento também inadmissível.
Será que, afinal, acredito na palmada pedagógica? É que, reparem, luto contra a ideia de que a minha palmada foi um acto incontrolável. Eu não sou como os protagonistas da violência doméstica que depois se mergulham em choros e pedidos de desculpa, eu não digo que não o queria fazer (não o desejava fazer, mas sabia o que estava a fazer).
Afinal, quem comanda o quê nestes momentos? O desespero. É o desespero que toma conta de nós, é a ideia de "último recurso". E quando caímos em nós, pensamos que não pode ser. Sendo bem certo que a palmada surge após a escalada de comportamentos abusivos e repetidos por parte das crianças, há sempre hipótese de fazerem pior, e depois o que fazemos? Mais palmadas? Até doer a sério? Não, não pode ser.
E, assim, damos por nós num lugar solitário e dorido e de arrependimento atroz: falhámos numa das promessas mais importantes, falhámos num dos princípios mais básicos na nossa ética de vida. E cresce uma dor profunda dentro de nós. Olhamos os nossos filhos e pensamos coisas terríveis sobre os danos possíveis da palmada. (não, não me escondo atrás do "eu levei palmadas e não estou traumatizada")
Olhamos os nossos filhos e não nos resta mais senão aceitar a nossa humanidade, que nada mais é do que a prova da nossa imperfeição. Olhamos os nossos filhos e sentimos a urgência de compaixão: para com eles e... para connosco.
Voltamos a fazer votos com as nossas convicções - depois de as confirmarmos de nós para nós (haverá quem as mude e passe a incluir a palmada no seu repertório?).
Isto tudo dói terrivelmente. Por esses dias, fugimos de toda a informação sobre a parentalidade positiva e com apego e não é por tentar negar esses princípios - é por nos sentirmos indignos da companhia de quem se mostra mais capaz do que nós.
O amor entretanto sobrepõe-se e recomeçamos o regresso à sensação de sermos também dignos.
E todo este caminho é tão solitário.

Esta solidão tem muitas portas por onde entra: os juízos de valor, por exemplo, que já nos magoaram profundamente. Se já é difícil que as pessoas sejam compassivas na parentalidade biológica de cada um, garanto-vos que na parentalidade através da adopção o não são de forma implacável. Principalmente as pessoas que têm dificuldade em aceitar quem vive de forma diferente à sua. Sentimos nos seus olhares, ouvimo-lo nas suas palavras e recebemo-lo como balas no peito através de algumas atitudes - que nos doem mais ainda quando são direccionadas aos nossos filhos: primeiro atiram e só depois perguntam. E eu deixei de responder. Fechei a loja para quem me julgou implacavelmente e me deitou ao chão em três tempos morais. Acabou. Porque há limites para os falsos humildes, os falsos simples. Há limites para o espaço que damos aos passivo-agressivos das nossas vidas. Há limites para a benevolência perante atitudes sobranceiras e que trazem mau-estar de facto. Cada um que se amanhe com as suas inseguranças, mas que não as imponha aos outros por causa de serem diferentes.

E, assim, damos por nós numa solidão maior. É bem certo que é uma solidão também escolhida, mas não deixa de ser um lugar difícil.

Entretanto, fiz escolhas conscientes e calculadas. Mantenho todas as pessoas nos meus círculos, apenas umas estão nos círculos mais interiores enquanto outras passaram para círculos mais afastados do meu centro.

Dei com esta moça há algum tempo - cujo site certeiramente se chama "famílias imperfeitas", diz umas coisas que me têm ajudado. Fala desta solidão que  creio que todos, em alguma altura, já sentimos. Fala de algo que nunca devemos deixar de fora desta equação e cuja expressão em língua inglesa exprime muito bem: it takes a village (to raise a child) - a comunidade...



Cipreste

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

e a tentar fazer o encaixe de tudo isto

uma coisa por publicar, com o editor à espera; umas (novas) arrumações que planeei para a nossa sala de forma a podermos fazer ioga e meditação em família; a reestruturação que fiz nos nossos hábitos alimentares e consequente logística; a mudança do meu horário de trabalho implicando almoço em casa 4xsemana (ora com um filho, ora com o outro) e consequente logística; o vídeo/performance que está por fazer há 2 anos (dois - anos!); momentos para estar comigo e com o (luto d') o meu pai; acabar de ler o raio do livro que estou a adorar mas que me adormece, como qualquer outra leitura me adormece assim que caio na cama (vou começar a ler no carro, nos momentos em que espero os meus filhos entre escola-actividades); isto tudo sem sequer falar do meu trabalho (o de ganha-pão) porque aqui listei apenas o que faço na vida familiar e nos meus "passatempos".
e, depois, existe ainda muito eu, eu tudo e cada coisa, eu mulher, eu pessoa, eu casa, eu mundo. vai daí, dou de caras com este excerto:


in História de Quem Vai e de Quem Fica de Elena Ferrante via Não mudes nunca


pronto, ok, seu sei, nem sequer estou afilta e não, não penso que se esteja a perder um génio e sim, eu sei que estou a viver o que sonhei e sim, está a ser muito bom mas uma pessoa, às vezes, deve parar e verificar em que direcção está a seguir 
e, se necessário, dar uns toques no volante
a bem dizer, sou mãe há um ano e perdi um bocado de mim no momento inicial em que era preciso estar com a atenção virada para a adaptação dos meus filhos, agora começo a reencontrar-me nalgumas esquinas e está a ser muito bom
muito bom mesmo
um ano é pouco, bem sei, mas eu tinha saudades de mim
era só isso 

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

cá ando, neste emaranhado

já que não tenho tempo, fica aqui uma ideia do que eu gostaria de conseguir fazer e vir dizer, pela mãe preocupada:

Eu, que tantas birras e amuos tenho aturado aos adultos, não compreendo que dificuldade é esta, pisada, repisada e perversamente alimentada, em entender quem acabou de chegar ao mundo e demora a incorporar códigos, rotinas e convenções.
Não se aguenta mais esta conversinha da treta, lucrativa, bem falante e livresca, sobre disciplina e autoridade. Dissertam sobre educação e amor como quem dá dicas para abrir latas de atum sem verter óleo, mas as latas de atum são todas iguais e saem de linhas de montagem com idêntica mecânica, o que não se aplica à humanidade (por enquanto).
Em todo o caso, que valor tem isto num mundo onde os adultos andam desorientados, desfocados, gastando rios de dinheiro em paliativos, terapias, workshops, esperando receber em três tempos dos céus, dos gurus ou dos manuais a serenidade, a compaixão e a gentileza que nem têm tempo para dar aos outros? Quantos adultos conheço que dizem "por favor" e "obrigada"? Quantos vão dormir a bem? Quantos aceitam aquilo que é facto, o trânsito parado, o dia de chuva, a constipação que já atacou? Quantos não têm achaques nervosos a cada contrariedade? Quantos não vivem para alimentar os próprios caprichos, futilidades, gadgets, acessórios, roupinhas? Quantos não sofrem de um narcisismo crónico que mal disfarçam nas conversas de café e na urgência em aderir a nobres causas? Quantos não viram costas e fecham a cara, só pelo desagrado do que acabaram de ouvir? E quantos não se satisfazem depois a rogar uma praga, a espalhar um boato, a maldizer e vomitar palavrões?
Qualquer criança sabe - porque sente - que não se pode confiar em nada disto. Talvez ajude deixar de esperar se portem como macaquinhos amestrados, como brinquedos programáveis, como estabilizadores das nossas próprias emoções. Talvez ajude aceitar que são gente. E então tudo se aquieta, o que não significa que se resolva.»

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

coisas com que sonhei, emoções que desconhecia

Eu e os meus filhos no cubículo que é a nossa cozinha. Eles de pijama e robe. Os cabelos dele ainda meio molhados, ela de luvas sem dedos. Eu ao fogão. O livro Anita na Cozinha aberto na banca. Os ingredientes em fila. Velas acesas, o fio de luzes aos corações acesas à janela. O gato dormita. O pai à espera do nosso chamamento. Eu ao fogão e eles dois, lado a lado, observam o passo seguinte. Coloco a massa das panquecas na frigideira e ela certifica-se "sabes mesmo virar as panquecas, mãe?". Sei. 
Tudo o resto acontece rapidamente. 
A panqueca fica pronta para ser virada, eu fico nervosa, sinto a mão tremer. 
Olho-os, estão expectantes. 
Faço o jeito de salto mortal com a frigideira. 
Sucesso.
A partir daqui só consigo ouvir a salva de palmas que me dedicam os meus filhos com olhares brilhantes. Batem palmas entusiasticamente e eu sinto que vivi 41 anos e 11 meses para este momento. O mundo pára.

São os olhos dos meus filhos a brilhar. Os sorrisos mais maravilhosos e puros de sempre. As mãozinhas deles a dar-me vivas. A alegria dos meus filhos - dos meus filhos

Sim, eu sabia que teria de ser bom. Mas não, não pensei que isto fosse assim tão bom.

Cipreste