quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

ENDOMETRIOSE ~ Marcha Mundial

Tenho-me apercebido de uma coisa nova em mim, uma viragem na forma como lido ultimamente com as coisas: uma vez resolvida determinada questão, saio dela, faço quase como que um abandono.

Vai fazer dois anos que fui histerectomizada (com anexectomia bilateral), que vivo sem dores, que disse adeus à endometriose. Desde então, quase que abandonei a luta em grupo, o apoio, a entre-ajuda. Eu não era assim. Depois vieram os meninos e eu pensava que andava arredada do grupo apenas por causa dos meninos.

A semana passada comecei a reflectir sobre a minha cada vez maior resistência e consequente incapacidade de lidar com uma situação com a qual sou confrontada diariamente e me obriga a fazer das tripas coração porque me traz sempre com a lembrança do meu pai.

E eis que... Eureka! 

Percebi o que se passava.

Custou-me a chegar lá porque se trata de uma viragem de tipo 180º.
Eu era aquela que enfrentava todos os touros de frente, procurava pegá-los pelos cornos e não largava até os deitar ao chão. E ficava ali a escarafunchar.
Mas uma pessoa muda. Pelo cansaço, uma pessoa também muda.
Por exemplo, eu via os maiores dramas do cinema e saía ilesa. Deixei de o conseguir fazer. Escolho muito bem o que vejo porque os efeitos secundários ficam muito localizados, ficam no lugar da angústia. E eu deixei de ter a mesma resistência à angústia. O que me traz em gestão controlada da mesma.

As minhas avós chamavam à coragem para enfrentar os touros de frente de “ter estômago”. Podemos dizer que as pessoas se vão dividindo entre as que têm estômago e as que não têm estômago.
Eu fui sempre uma gaija com muito estômago. Até profissionalmente fui sempre escolhendo as “piores” áreas de trabalho no que concerne sofrimento.

Mas estou cansada. O meu coração pediu-me tréguas.
Lembrei-me agora desta passagem, rápida e aflita, d’O Fugitivo de Sérgio Godinho:
É impossível
não é possível
correr tanto
e pensar tão
lucidamente
o coração
não aguenta
a cabeça também não
porque tenta
ultrapassar os seus limites?  
(oiçam, a sério, é boa demais esta obra)

É isto. Por agora, dei os meus 5cents para determinados temas. Em muitos momentos, ultrapassei os meus limites. Foram muitos eventos de vida traumatizantes em tão poucos anos. Preciso descansar, preciso de gerir a minha energia.

Sinto forças para estar no tema da adopção, porque ainda tem muita água para passar por debaixo da ponte e sinto muito estômago para a fazer escoar.

Sou solidária com todos os que estão nesta luta da endometriose, na luta contra cada um dos sofrimentos, mas o meu estômago não aguenta estar activa nesse lugar. Concerteza perco muitos momentos de comunhão. Poderia participar com ideias, com trabalho de facto, podia ajudar, mas não consigo.  Há umas semanas, aproveitei uma oportunidade, um contacto, para passar a mensagem junto de uma pessoa "conhecida" e fi-lo, farei sempre este tipo de abordagens, mas acho que não consigo mais por agora. Importa assumir isto, acabar com o equívoco (meu e dos outros) sobre expectativas da minha eventual participação. Neste momento, não consigo. Um dia destes, quem sabe possa voltar ao grupo de apoio.


Assim, fico-me pela adopção, onde há tanto para pensarmos e ver se fazemos algo mais concreto (na informação e apoio, por exemplo) nesta área (não sou só eu que sinto falta, pois não?).

Resta-me agradecer a quem faz da endometriose a sua causa, uma parte dos seus dias, e ajudar na sua divulgação.


Copiei integralmente a seguinte mensagem do site do site da Associação Portuguesa de Apoios às Mulheres com Endometriose:
No Sábado, dia 12 de Março de 2016, realizar-se-á, uma vez mais, uma marcha que pretende ter presente o maior número de pessoas possível, com o intuito de divulgar esta doença, que afecta tantas mulheres, mas que é ainda muito desconhecida e por isso mesmo, o seu diagnóstico é bastante tardio. Este ano o dia da Marcha não coincide em todos os países tendo sido dada a cada um a liberdade para escolher o dia que fosse mais conveniente para o seu país!
Em 2014, a nossa primeira marcha, foi um verdadeiro sucesso, contando com cerca de 200 pessoas. O ano passado ultrapassámos as 300 pessoas sendo um dos países em todo o mundo com maior adesão. Este ano queremos mais, muito mais!
Para se manterem a par de todos os preparativos para este grande evento, que este ano se realizará na cidade de Lisboa, por favor juntem-se à página do evento no facebook ou mantenham-se atentos ao nosso site!
Ajudem-nos na divulgação, ajudem-nos a ajudar. Juntem-se a nós neste dia tão importante que fará a diferença para muitas mulheres que por todo o mundo sofrem em silêncio sem um diagnóstico.
A participação no evento é gratuita mas para receber um kit de participação necessita de estar inscrito! Por favor façam as vossas INSCRIÇÕES AQUI

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

gripes emocionais

O fim-de-semana chegou. O fim-de-semana voou. Nele coube tanta coisa que parece ter sido uma semana. Vimos paisagens maravilhosas, Portugal é um país tão bonito. Trabalho e lazer. Ou "trabalho que é lazer" e mais lazer. Comida gostosa (que também faz parte da felicidade). Pessoas do melhor que há, de calibre boa gente
É tão bom sentirmo-nos rodeados de gente boa. Podermo-nos despir de cuidados no que dizemos. Poder dar uma opinião sem recear ferir sensibilidades, ser interrompida ou interromper em liberdade, ser calada ou poder mandar alguém calar porque se está a dizer disparates. Discordar ou concordar, no conforto da cumplicidade. Sorrir. Rir. 
Nem sei se tinha dado conta, andava um bocadito cansada dos ambientes que se crêem subversivos e contra o  politicamente correcto mas que, vai-se a ver, e é, afinal, tudo politicamente frágil

Adiante, que eu quero é dizer que o meu fim-de-semana foi muito doce. Os meninos conviveram com amigos novos. Brincaram muito. Comemos quase sempre em restaurante e eu fico tão orgulhosa da forma como os meus filhos se comportam em público. Dormimos numa espécie de camarata, os quatro. Fomos convidados para um jantar de família de pessoas que não conhecíamos. E ali nos envolvemos. 

E fiquei doente. 

Pois. 
Sábado à noite, após o tal jantar em família, subitamente comecei a ter sensação de “anginas”. No espaço de uma hora deixei de conseguir falar e engolir saliva. Fomos para “casa”, tomei uma dose de brufen e aspegic e cama. Os meninos ficaram assustados, coitadinhos. Pus-me a (tentar) rir e tal para os tranquilizar, mas nada. O que eles queriam era aconchegar a mãe. Estive 12 horas na cama e acordei (quase) fina. Eu nunca fico doente, tenho estas ameaças, tomo doses cavalares e consigo sempre reverter o processo em cerca de 12/24 horas. Ontem, tinha sensação de cabeça oca (o Chaparro disse-me que sempre fui assim, só que às vezes não dou conta :) ). 
Hoje, estou ainda com o corpo dorido, mas a cabeça já me parece inteira. 

Nunca fico doente. A endometriose foi a minha maleita, mas já passou. Fico muito escandalizada de cada vez que se me dão estes chiliques. Porque gosto muito de me gabar de ter saúde de ferro. 

Tenho uma teoria sobre estes episódios de ameaça que acabam sempre por recuar e não se traduzem em gripes ou outros, de facto. Eu acho que, quando faço viagens emocionais muito intensas fico mais frágil e o meu corpo reage assim. Ao invés de me dar para as crises de pânico ou assim, fico com sensação de gripe. 
A semana passada foi intensa em reflexões. Culminou na sexta-feira, quando fiz aquela pequena viagem emocional assim para o intenso. Depois foi o serão de sexta-feira, copos com trabalho e muito riso. O dia maravilhoso de Sábado em que cumprimos uma agenda enorme e convivemos. A envolvência daquelas pessoas, tudo, tudo me trouxe muita comoção e acho que o corpo deu de si. 

Lembram-se desta crise que descrevi? E quando o meu pai faleceu fiquei sem voz vários dias (e não foi por ter gritado ou chorado intensamente), com queixas respiratórias que não se traduziram num diagnóstico de facto. Agora deu-me para a somatização? 
Acho que o número de vezes que isto aconteceu já me deixam confirmar a teoria, são crises agudas de gripe emocional. 

Bom, mas agora é segunda-feira e há uma semana inteirinha de muito trabalhinho pela frente. 
Vamos a isto, 
boa semana a todos, 
Cipreste

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

num segundo se evolam tantos anos

AVISO: não foi, nem é minha intenção, mas este post pode ser um pouco (muito? nem sei) depressivo



- - -


Eu sou muito cómica, a sério, divirto-me muito a mim própria. Devo ser simultaneamente a pessoa que mais me entedia e a pessoa que mais me entretém neste andar à roda com os assuntos - baralhar, voltar a dar e baralhar de novo.
Confesso que tão depressa é divertido (no sentido cómico) como também cansa.

Então… não é que, por causa do post abaixo, me fui lembrar da canção da Aimee Mann – Wise Up desse filme grande que é o Magnólia (oh, coincidência néscia a do nome deste filme com o nickname que arranjei para a minha filha neste blog).
E, como se não bastasse, fui ver o vídeo.

Oh, minha nossa senhora das chafurdeiras na dor, tende compaixão de mim.


Vou deixar-vos já o vídeo, para os mais corajosos.



Agora, reparem no que me aconteceu ao ver o vídeo, faço-vos acompanhar da letra da canção e da minha interpretação (podem pôr a tocar de novo se pertencerem, como eu, à congregação de nossa senhora das chafurdeiras na dor)...

Primeiro, a imagem do meu pai e eu com ele nas suas últimas horas. Que dor. Que dor!
É bem certo que guardo estas horas como um dos meus maiores tesouros.
A vida não me deu o primeiro suspiro dos meus filhos, guardou outro requinte para mim, deu-me o último suspiro do meu pai.

Estou eu a achar que a dor de consciência por me irritar com os meus filhos é um problema, vou ouvir música para lamber feridas (sou tão estúpida,  tão freudamente… estúpida) e dou de caras com esta imagem deste vídeo que já vi milhentas vezes. 

Não me posso queixar, eu é que fui à procura. Lágrimas, portanto.


Sigo com o vídeo, aquele “you’re so stupid” dito em sussurro. Outro murro.

E aparece-me a minha mãe, viúva. Dói de novo.

Depois, começamos a aparecer todos. A imagem do cheque pago pelo “superior knowledge”. Conhecimento superior my ass. Continuamos tão básicos e primitivos como desde Edgar Adão e Eva ou lá como se chamou o primeiro Homo Sapiens (sabem que quer dizer “wise man”, certo? hahaha).

Seguimos, não fazemos pausa no vídeo. Aparecem os medicamentos novamente, as drogas, o álcool. Não, nem esses nem a grande sapiência da medicina te vai trazer a resposta. Estúpidos! Pensar que pode existir uma cura para a existência, estúpidos.

Nem a água da chuva há-de lavar a tua dor.

Desde os mais acompanhados aos mais solitários, estamos sós na nossa essência, na nossa busca.
E a derradeira imagem da infância. Saber isso desde a infância (deve ser a tristesse que sentia em criança). Essa imagem da criança frente a um livro (pois não, também não está nos livros, amigo) e verbaliza: give up.

Saber, desde o início – o do mundo e o nosso, o de cada um de nós, saber que há uma parte disto que só vai começar a funcionar em plenitude quando tivermos a sensatez de parar de querer saber a solução para o mistério da vida


Por vezes, só por vezes, como disse David Mourão-Ferreira no poema, E por vezes por vezes ah por vezes/ num segundo se evolam tantos anos.


- - -

Comic reflief: quando acabei de ver o vídeo, ligou-me uma pessoa que não conheço, apresentou-se, chama-se... Dores.

A sério, acho isto bastante divertido.

Não se zanguem comigo se levarem daqui uma pontinha de angústia. Desculpem qualquer coisinha. Vou pensar nalguma coisa para vos deixar aqui à laia de melhor disposição para o fim-de-semana.

Um abraço,
Cipreste

às vezes, não, não está tudo bem

Tenho lido tanto sobre como lidar com as contrariedades na parentalidade que já tudo me parece a mesma coisa. Neste momento, sinto que a informação está emaranhada num rolhão ali entre o meu cérebro, o meu coração e o meu botãozinho da reacção.

Educar é difícil, muito difícil.
E eu vivo com esta nuance da educação na adopção.

Muitos me dizem que ah, e tal, educar é difícil, ponto. Independentemente de o fazer num contexto de adopção. Sim, mas não.
Quando fizemos uma das formações com a equipa de adopção, tivemos um exercício sobre crenças e mitos. Lembro-me de me quedar muito tempo sobre esta questão: há diferenças entre as famílias adoptivas e as famílias biológicas. Parece fácil de entender, isto, não é? Porém a questão toca ali nas nossas convicções de tipo “ora essa, somos como qualquer outra família”. Da mesma forma como poderá reagir uma mãe a quem eu diga que acho que tem o trabalho mais facilitado por o seu filho ter vivido sempre consigo – não obstante a eventualidade de ter dificuldades próprias. Pois, são diferentes. As famílias, os filhos. A semelhança está no amor.

Quando me frustro e me zango com os meus filhos, quando arrefeço e me arrependo de morte, há uma pedrinha especialmente aguçada que me magoa a alma, a pedrinha da adopção. A pedrinha que me lembra que, não obstante estarmos todos a fazer o nosso melhor, o melhor deles é muito mais esforçado e dorido e doloroso e corajoso do que o nosso. E lembro que não detenho a informação “toda”. Que a codificação, processamento e tradução que fazem das minhas abordagens não está munida da total confiança de que sou deles, toda deles. 
Eles sofreram quebras, rupturas, interrupções no processamento, no seu desenvolvimento de competências que incluem, por exemplo, a confiança no adulto, na sua permanência.
Caramba, eu decorei isto a primeira vez que o li: a vinculação só é considerada completa aos dois anos após a adopção. Mais coisa, menos coisa, ok. Antes decorei a teoria, agora já percebi isto na prática, na pele, já o senti, já sei que é verdade, que não é um mito.

E falho na mesma,
E continuamos, ainda assim, com toda a bagagem que nos permite, pasme-se, reagir como se fôssemos pais biológicos. Os nossos botõezinhos não sabem que estes filhos não estiveram sempre connosco. Aos nossos botõezinhos só deve chegar a informação do amor, digo eu.

Zangarmo-nos com um filho, esquecermo-nos pela milésima vez da promessa de que não voltamos a gritar é normal, é humano. No entanto, quando há uma lacuna na história da família, essa humanidade assume em nós pais uma transformação que faz pesar terrivelmente a dor da nossa falha - como uma quebra na promessa que fizemos aos nossos filhos. A promessa do amor. Nós sabemos que, não obstante o ralhete, os continuamos a amar, mas nunca temos a certeza de como fica a certeza deles.
Depois, a vozinha cá dentro grita-nos e arranjamos maneira de inserir no meio do ralhete “a mãe ama-te muito, não se trata disso, trata-se de não estar nada satisfeita com o teu comportamento”. Ah, e nem sempre a vozinha chega a tempo, e nessas vezes ficamos ainda pior. Na fossa, como se dizia quando eu era adolescente, ficamos na fossa.

Bolas, amamo-los, são os nossos filhos, queremos o melhor do mundo para eles e fazemos isto. Bolas.

E, reparem, a informação que me chega diz que não devia reagir assim, não é? Porque já sei... os actos dos nossos filhos não o são “contra nós”, nem os nossos filhos nos amam menos por não seguir as nossas ordens orientações. Também sei que ficam aflitos e que ficam angustiados (oh, céus, angustio só de escrever isto).
Tantos livros e blogs e esses modernos trainers de famílias e cursinhos e quejandos já mo repetiram. Todos. E nenhum deles o fez com um traço sequer de originalidade que o distinguisse dos outros porque estão estamos todos a falar do mesmo: da humanidade de cada lado da parentalidade, de pais e de filhos. Das expectativas dos pais, do esforço e dedicação dos pais que, muitas vezes, parece cair em saco roto, do cansaço da associação a todas as outras tarefas da vida, da necessidade de colo dos filhos e da imaturidade neuropsicológica própria da idade dos filhos e, e, e que, afinal, só queremos, todos e cada um de nós, apenas... ser amados (no meio destas vírgulas todas que não consigo anular).


Hoje (ontem, escrevo já depois da meia-noite), zanguei-me com ambos meus filhos. Não quis gritar e consegui, hoje consegui, mas nem por isso fui mais simpática. Eles ficaram tristes, eu fiquei triste. Senti um desalento enorme, senti um cansaço enorme.

Às vezes, é muito difícil conciliar o colo todo que se tenta recuperar, com o colo do dia, com as coisas “normais” das crianças, com as coisas “extra” dos nossos filhos em particular, com a sopa, com os deveres, com as nossas coisas.
Às vezes, ficamos muito longe da teoria lógica que todos os experts que referi acima compilaram sobre o que é isso de vivermos em amor e comunhão.


Nesses dias, só me sobra assumir que fiz o meu melhor*, que amanhã quero procurar ser melhor do que fui hoje. E ir espreitar os meus filhos a dormir antes de me deitar.

* o problema é esta sensação de que o nosso melhor não chega, de que o nosso melhor pode fazer mal aos nossos filhos. Oh, angústia...




Nesses dias, tenho tolerância zero a pessoas que falam à professor Eduardo Sá, porque me fica sempre a parecer que, pese embora admitam que somos todos humanos e falíveis, o tom de voz parece dizer-me “ok, eu estou a desculpar-vos por serem assim defeituosos, e só assumo que sou humano por misericórdia com todos vós - mortais”.

Nesses dias, apetece-me dirigir a minha exasperação a algo, sei lá, a alguém. Alguém que não seja os meus filhos. Por isso, mantenho esta irritaçãozinha de estimação com a voz de expert maior do professor e evoco-a. Porque representa para mim todos aqueles que falam como se tivessem a situação milagrosa para isto e eu começo a suspeitar que ela, afinal, não existe. Que temos apenas de aprender a viver com isto e com a possibilidade do dia seguinte.

Vou calar-me, vou espreitar os meus filhos a dormir. 
Estou ansiosa por abraçá-los de novo pela manhã.

Carpe Diem,
Cipreste


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

carta aberta a quem passa por aqui e deixa um pouco de si

Já falei aqui várias vezes sobre porque escrevo, porque partilho o que escrevo. “Várias vezes” porque me questiono amiúde sobre o assunto. Porque muitas coisas deste fenómeno da convivência no mundo virtual me trazem constantemente em espanto. Em espanto pela dimensão de compaixão que se consegue encontrar.

Tenho as minhas opiniões, mas para lá disso há discussões que não me interessam. E não me interessa discutir se as pessoas são falsas atrás de um monitor ou se assumem várias personas. Nem me interessa o marketing ou rankings bloguísticos (que, atenção, acho perfeitamente legítimos e sei que há quem viva disso).

É bem certo que se identificam também esses fenómenos.
Em relação ao primeiro, já tive algumas desilusões, mas essas são com pessoas que conheço na vida real cujas personas virtuais me deixam constrangidas. Tenho pena, pronto, porque se me arrefece a admiração que tinha por essas pessoas, pela sua humanidade. Custa-me porque quase sempre interpreto como um sinal de mal-estar consigo próprio.
Quanto ao segundo fenómeno, não me constrange, quando muito provoca-me vergonha alheia. Custa-me ver as pessoas em bicos-dos-pés. 

Uma atenção que resulta de um estímulo que não corresponde à verdade, mas apenas a uma imagem construída para seduzir, só pode ser vã.
Parece uma solidão aflita. Uma solidão que se procura combater com uma busca por uma atenção imediata.



Eu sofro de solidão.

Tenho solidão profissional porque sou a única no meu local de trabalho, um sítio onde as pessoas são simpáticas mas estranhamente muito (tão demasiadamente) desligadas umas das outras. Tenho solidão por distância geográfica da família. Tenho solidão porque a minha melhor amiga vive nos antípodas.

Mas não me quero deixar enganar com companhia frugais.

Não sei dizer filosoficamente o que é a verdade, mas sei o que sinto no coração como sendo “de verdade”. E sou uma sôfrega por momentos verdadeiros.
Por isso, mesmo que tivesse algum interesse - para ganhos (sociais, económicos, de visibilidade, etc.) secundários em cativar, seria incapaz de o fazer passando uma mensagem falseada do que vou sendo, de como vou estando nas coisas. É-me contranatura. Como se, se assim o desejasse fazer, os meus dedos se paralisassem no momento de escrever o texto falacioso.


Isto tudo para dizer que, por estes dias, tenho sido especialmente agraciada com comentários e emails tão generosos da vossa parte.

Fazem-me sentir tão grata, tão satisfeita e confirmada por fazer esta partilha. 
Tão acompanhada.

Os gestos que vêm daí, desse lado, têm contribuído para diminuir a minha solidão.


Não sei quantos são os nossos visitantes. Criei uma página no facebook, mas o que faço é só linkar os posts daqui. Não vejo sentido nela, não me apetece dinamizá-la com outros posts efémeros. Talvez acabe com ela um dia destes. Criei a página do pinterest, mas já percebi que aquilo é uma espécie de emprego a tempo inteiro de link-atrás-de-link e não me posso perder por lá. Vou partilhando alguns dos posts/temas no fórum do website da Associação Portuguesa de Fertilidade quando acho que pode ser um mote para encetar alguma conversa. Muito de vez em quando, participo no grupo de Famílias Adoptantes em Portugal no facebook, mas nunca linkei lá o blog para não ser identificada. Ao longo do tempo, tenho mostrado o blog a algumas (poucas) pessoas conhecidas. A alguns amigos e familiares, uns creio que se esqueceram que ele existe, outros não sei se o lêem, mas não me dão feedback nesse sentido. Apenas a minha querida amiga me vai dando um retorno e, às vezes, até comenta. Recentemente, partilhei o blog com a nossa equipa de adopção, com a equipa do centro de acolhimento onde os nossos filhos viveram e com a minha psicóloga. Mais ou menos, é isto, é este o universo por onde ando e com quem partilho. Bastante restrito, portanto.

Não me interessa saber quantos são, interessa-me saber quem são. E eu já sei o que preciso de saber: são pessoas como eu. Pessoas que procuram um pouco mais de mundo na internet. Pessoas que tiram tempo para ler os outros. Pessoas que se emocionam como eu quando lêem da felicidade, da tristeza e da aflição dos outros. Pessoas que querem as coisas por inteiro, sem cortes no feio, no que é, afinal, também parte da nossa humanidade. Pessoas que sentem necessidade de deixar uma palavra sem saber bem o quê, como “oh, que lindo”, “obrigada”, “desejo-vos tudo de bom”, “vamos rezar por vós” ou “mandar energias positivas”. Pessoas que se lembram de nós, mesmo não nos conhecendo, quando vêem algo na rua que os fez lembrar um post nosso (isso não acontece só comigo, pois não?).
Pessoas.
Pessoas que encurtam um pouco a solidão umas às outras.

Hoje, já me fizeram chorar com um comentário, com a imagem cheia de esperança que me deixou. Obrigada, Ana G.

Obrigada a todos os que têm tomado tempo a ler e a dizer-nos que estão aí.
Obrigada pela companhia, muito, muito obrigada.

Que o dia vos seja limpo,
Cipreste

cenas dos próximos episódios

Vai sair um post sobre como afinal, sim, as crianças conseguem ser muito mázinhas umas com as outras e, não, não estou a falar das honestidades que as crianças dizem de forma cómica aos 3 anos. Estou a falar de crianças da faixa etária dos 10 anos.



Há duas semanas, a Magnólia teve um dos encontros receados e esperados por nós: uma fuinha menina, na escola, perguntou-lhe se não se sente inferiorizada por ter sido adoptada.
Dentre as perguntas sobre se conhece os seus progenitores e se não tem saudades, lá veio a derradeira sobre uma pretensa inferioridade.






O ano passado já tinha havido um episódio semelhante, mais imediato. Ela esperava-me ao portão da escola e uma colega chamou-a a brincar, ao que respondeu que não podia porque esperava a sua mãe. A ranhosa da cachopa respondeu-lhe «Quer dizer, estás à espera da tua “mãe”» fazendo o gesto de aspas com os dedos ao dizer mãe.


Deslarguem-me, senão eu... !


Depois venho cá dizer como lido com isto.


Para mostrar à Magnólia como pode neutralizar em si os actos passivo-agressivos as inconveniências dos outros.


E sentir-se mais tranquila e confiante e com as armas a bagagem necessária para ir lidando com este tipo de investidas. Dou-lhe sugestões sobre como pode lidar com a situação no momento.


Ela acaba sempre estas conversas com um olhar sereno, abraçada a mim, e eu com planos maléficos para ir lá dar cabo daquela gente toda sensação de missão cumprida.


Para já, e porque acordei com isto (não sei bem porque) vim dar um cheirinho do tema e partilhar convosco a minha irritação.


Bom dia a todos,
Cipreste

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

mágoas


Já ultrapassei muitas das mágoas dos últimos anos. 

Há uma que é um pau-de-dois-bicos: a minha esterilidade.

Assim mesmo, com o nome à antiga. Fui estéril. Sou um campo estéril. 
O meu ventre foi estéril, não me serviu de nada, só me serviu para sofrer física e psicologicamente.

Nem sequer o parirás com dor me calhou.

O tempo passou. Tornei-me mãe. O meu coração tem filhos. E deixei de ter as dores físicas.

Sinto agora serenidade na forma como convivo com a infertilidade e o fim dessa história com a histerectomia, mas não sinto serenidade quanto ao facto de não ter sido eu a gerar, carregar, parir e amamentar os meus filhos. 
Estes filhos. 
Os meus filhos.
Magoa-me não ter sido eu. 
Se são meus - que são, não me faz sentido não ter sido eu a gerar, carregar, parir e amamentá-los. 
É como um buraco na realidade.


Ainda não consegui solucionar isto nem sei se é um desgosto que alguma vez venha a estar arrumado e num lugar de convivência sã com os factos.

Não são só os meus filhos que têm mágoa de não ter fotografias suas de quando eram bebés, eu também tenho - especialmente de fotos destas: mãe e filho, após o nascimento.

Tenho mágoa de não poder dizer: fui eu que fiz os meus filhos.
Estão a ver estes dois seres tão maravilhosos, alegres, compassivos, divertidos, disponíveis, bondosos, generosos? Queria gritar: FUI EU QUE OS FIZ.

Não o posso dizer, não fui eu, de facto, que os fiz.

Será egoísta? Não sei.
Sou consciente de que não tem nada a ver com querer anular a existência dos seus progenitores nas suas narrativas. Não tem a ver com as pessoas do passado, tem a ver comigo e com uma lacuna que existe na biologia dos meus sentimentos. 

Às vezes, penso que, no caso de algum dos meus filhos vir a ter os seus próprios filhos, essa imagem - deles com os seus filhos recém-nascidos (embora ambos digam que quererão adoptar, mas isso são outros quinhentos) - com os meus netos, possa vir a redimir a ausência da nossa. 
Não sei explicar onde fui buscar esta ideia, é até uma ideia que mais me parece ser uma fantasia. 
E agora estou a partilhar as minhas fantasias com pessoas que nunca vi? Oh céus, acho que ao contrário do que sempre pensei, afinal a escrita tornar-nos-á inconscientes? :)

Eu avisei, isto é um pau-de-dois-bicos, não há saída racional possível para este assunto, nem forma coesa de eu o conseguir explanar. 
Pelo menos por agora, porque é uma mágoa e as mágoas são tão só isso: dor de alma, desgosto. 
E a dor de alma não me deixa falar com nexo.

Talvez passe :)

Bom dia a todos,
Cipreste

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

a adopção - tema a tema

Eu tinha tantos planos para vos escrever nestas mini-férias de Carnaval, mas estivemos demasiado ocupados aos mimos e abracinhos pelo que os posts ficaram em banho-maria.
Sei que é uma queixa recorrente da minha parte, mas reparem nos posts que tenho em rascunho e respectivos temas em lista de espera:

Enxoval – quando nos tornamos pais de uma semana para a outra e temos de 1. Montar quarto e 2. Ter roupa e brinquedos à espera do(s) filhos(s)

O álbum de apresentação dos pais aos filhos

Álbum de vida, a continuação após o centro de acolhimento

Dias D - o primeiro encontro entre pais e filhos e todos os outros primeiros dias

As abordagens das equipas de adopção - o passo-a-passo visto cá deste lado

O encontro com a figura misteriosa “O Juiz” 

O grande dia - receber o cartão de cidadão, a imensa força da identidade

e, precisamente... identidade na adopção

Vinculação – o (duro) processo do parto de uma família

A relação entre o filme Divertida Mente e a adopção (não me esqueci que te devo uma resposta, Joana)

Outra resposta que te quero escrever, Joana, ou antes, não é bem uma resposta, mas tenho este tema em espera também – A mãe perfeita e outros perfeccionismos

Malditos pesadelos, homens e monstros maus!

Adopção aberta - afectos e laços e o seu lugar no presente

O cordão umibilical com o centro de acolhimento

Traumaversary

Adopção de crianças "mais velhas"

Adopção e escola

Adopção e... o resto da sociedade

Muitas novidades da Magnólia
E tantas outras do Chaparrito

~  ~  ~

Para já, deixo-vos com 2 curtas deliciosas do passado fim-de-semana:

Falávamos da evolução da espécie humana ao jantar (não me lembro como surgiu o tema) e a Magnólia muito confusa: 
- Mas a minha catequista de antigamente disse-me que foi o Edgar e a Eva que blábláblá…

Afinal, havia outro e nós não sabíamos :D


Ainda ao jantar, comentei “dá chuva” para o fim-de-semana pelo que seria provável o adiamento do cortejo de Carnaval. Mas o Chaparrito elucidou-me:
- Não, não, mamã, eu vi o tempo e eles dão arco-íris para sábado e para domingo
- Hm?
- Sim, sim, eu vi, tinha um sol e chuva 

Family- Rainbow Happiness, 2012

Há lá coisa mais boa?

Até já,
Cipreste

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

isto é inadmissível - SHAME ON US

Pedi aos 37 simpáticos seguidores da nossa página no facebook para fazer partilha desta mensagem:

Serviço de Estrangeiros e FronteirasCâmara Municipal de Lisboa - Página OficialUNHCR - Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, Banco Alimentar Contra a FomeBanco BPIFundação Luís Figo, @Programa Comunitário de Ajuda Alimentar a Carenciados @PCAAC, SIC Esperança e Swatch já que apoiam (e bem) o Centro de Acolhimento Para Crianças Refugiadas (C.A.C.R.) do Conselho Português para os Refugiados, poderiam perguntar a quem de direito como é possível esta notícia? E quem é que vai ser responsabilizado? Agradece-se, desde já, a atenção.



27 menores refugiados desapareceram 
em Portugal

REUTERS/DARRIN ZAMMIT LUPI





"um dia sem rir é um dia desperdiçado"

O pai à paisana fala aqui de cinema de animação e lembrei-me de vos contar que andamos a ver Charlie Chaplin.

A ideia foi do Chaparro (aliás, a colecção de DVDs veio com ele) e foi mesmo uma ideia muito boa. Charlie Chaplin tem TUDO. Tem vida, tem dor, tem amizade, tem amor, tem as dificuldades mundanas que vão desde os relacionamentos sociais à falta de dinheiro e à fome, tem música e tem riso. 
Tem fotografia, tem palavras. 
É absolutamente emocionante ver um filme do Charlot com os meus filhos, a alegria deles, a atenção, os “oh” quando uma cena mostra alguma injustiça. Ser testemunha da descoberta deles do Chaplin é daquelas coisas bem bonitas.

Chaplin é completo, é vida, é como dizia Niemeyer - a vida é rir e chorar a vida inteira.


Fica a sugestão.

Cipreste



quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

dores muito específicas e muito sérias

Ler blogs ou livros de pessoas que foram adoptadas, os seus testemunhos de como viveram (e têm vivido) a condição de pessoa adoptada, tem sido o melhor e mais duro exercício para mim, enquanto a mãe adoptiva.

O meu maior desejo, a minha luta é manter-me sempre com a mente aberta e procurar uma certa clarividência nesta missão de ter as decisões de vida dos meus filhos nas mãos.

O meu maior receio é um dia perceber que de alguma forma os impedi de viver, de sentir a sua existência de forma plena.

Quando os nossos filhos precisam de colar peças do seu passado, não nos estão a rejeitar, estão a tentar sarar e o nosso papel é lamber-lhes as feridas.

Para além da validação das suas narrativas, um caminho que vamos seguindo é este, que verbalizamos junto deles sempre que surge (ou se repete) alguma dúvida:

- Ninguém manda no teu coração. O que tu sentes, só a ti diz respeito e ninguém, ninguém tem o direito de qualificar os teus sentimentos.

E rematamos sempre com:

- Se nos nossos corações cabem três filhos - tu e os teus irmãos, porque é que não pode haver lugar no teu para mais do que um pai ou mais do que uma mãe, por exemplo? Afinal, tu também amas mais do que um irmão, não é?




É preciso sentir as dores, é preciso deixar de enfiar as coisas num buraco escuro. É preciso caminhar lado-a-lado com eles. Se necessário, partir mesmo com eles à procura de respostas.
Já li testemunhos de adultos que foram adoptados em bebés e que descreviam sensações como de "membro fantasma" que relacionavam com a ausência de um (ou ambos) progenitores na sua história. Já li demasiados testemunhos sobre a sensação de se viver em dormência, aparentando ser a pessoa mais de bem com a vida, para fechar deliberadamente os olhos a isto. O suicídio e a automutilação têm números específicos de incidência em adolescentes adoptados (sendo bem certo que não estou a falar de números de Portugal, que nem sei se existem).

Não escrevo isto porque esteja alarmada (senão não o escrevia) nem para assustar ninguém, é apenas um resumo-muito-resumido do que sinto quando leio adultos ou adolescentes relatar a dor de lhes ter sido privado viver a sua narrativa completa em detrimento de terem de viver o sonho dos seus pais adoptivos.

É preciso abrir os braços a tudo o que os nossos filhos são, a toda a história que trazem consigo.
Quando nos propomos adoptar, temos de ter o coração aberto para a entrada nas nossas vidas não só dos nossos filhos, mas de todos a quem amam e cujo bem estar é necessário ao seu.

Não, a parentalidade na adopção, não é igual à parentalidade na biologia.

Cipreste

p.s. deixo este link - Lost Daughters, apenas como um ponto de partida para quem esteja interessado na temática; conheço outros lugares, com outras perspectivas, mas as dores são "as mesmas"

enchendo o saco à mamã

#1
A jogar às palavras
Ela: Rosa!
Ele: é o que a mamã é!

#2
Ele: tenho as mãos geladas, tenho de as aquecer junto ao lume
Não temos lareira, ele encosta as mãos a mim
E diz: o lume que é a mamã porque é muito quentinha

#3
Ela entra no quarto quando me estou a despir, encontra-me já só de cuecas
Ai, estavas tão linda agora, mamã, assim… as tuas costas. Tão linda!

#4
E, o clássico, praticado pelos dois...
Quero a mamã!

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

o meu deus das pequenas coisas

Os bracitos dele à volta do meu pescoço.
Eu digo "boa noite, dorme bem".
Ele responde, em sussurro, "vou gostar sempre de ti".


Esta cena aconteceu quando os meus filhos estavam connosco há sensivelmente 2 meses. Não foi inédita, pois os meus filhos fizeram-nos juras de amor desde o primeiro dia - mesmo antes de saber o que é isso de gostar de nós, de cada um de nós.

Esta promessa teve a beleza da genuinidade, da simplicidade de não dizer "para sempre" mas apenas "sempre".

Anteontem, preparávamos a roupa para o dia seguinte, para a escola, e ele ficou muito contente quando viu que lhe punha as calças de tipo fazenda e a camisa de que tanto gosta - são parte da primeira roupa que lhe demos e com que veio para casa. Ficou contente e disse "oh, obrigada, mamã", na verdade, ele já usou esta roupa várias vezes para a escola (o meu filho adora camisas e gosta de as levar para a escola). Disse-lhe que não precisava agradecer mas respondeu-me que queria  fazê-lo e disse-me "Sabes, às vezes, quando falamos coisas destas, fico assim com lágrimas nos olhos".

Olhei o meu filho, estava, de facto, com os olhos húmidos.

Abracei-o. 
Disse-lhe "É porque estas coisas te dão conforto, ficas feliz, comovido. São lágrimas de alegria, não são, filho?".
"São, mamã, é bom", respondeu, abraçando-me com os bracinhos mais maravilhosos do mundo.

Ali fiquei, suspensa, com os olhos marejados destas emoções todas. Não são todas boas. Sei que é bom o valor que o meu filho dá às pequenas coisas. Vibra quando os pais dão um beijo, por exemplo. - acho que um dos seus maiores tesouros de segurança é a relação dos pais.
Porém, dói-me porque penso que uma criança não deveria de se comover por ter o básico.

Assim vamos andando, sempre de lagrimita ao canto do olho.

Cipreste

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

à minha mesa

Ora aqui está mais um assunto sobre o qual tenho opiniões, é mais forte do que eu, as opiniões brotam-se-me dos poros :)

Nas nossas cozinhas, todos temos a mania de que somos um pouco nutricionistas, não é? Nem damos conta das ignorâncias que dizemos e a ignorância é muito atrevida, eu sei :) Aqui vai!...

Antes de avançar para a alimentação das minhas crias, deixo o meu testemunho pré-maternidade sobre a relação alimentação saudável versus peso/estatura.

Tive uma depressão há cerca de 15 anos que, juntamente com o tratamento medicamentoso, me provocou uma anorexia que me fez perder 18 kg, passei dos 72kg para os 54kg. Simplesmente, os alimentos não desciam. Passei assim de ser bom-garfo a uma enjoada. Segundo uns, estava magra demais, segundo outros assim é que estava bem.
Adiante, com o resgatar da minha pessoa a essa depressão, também resgatei o bom apetite que sempre tive e os quilos associados.
Gostei de estar assim magra, foi uma novidade e uma sensação engraçada, mas a verdade é que nunca fui infeliz com o peso anterior. Como todas as pessoas, sou mal resolvida nalgumas coisas sendo bem resolvida noutras. E, de facto, o peso nunca me fez sentir mal com o meu corpo – gosto dele. Porém, para mim, gostar do meu corpo é tirar prazer dele (e com ele) e comer faz parte desse deleite. Compreendo que para outras pessoas o prazer venha de assegurar o peso e a robustez que advém da privação a que não me sujeito, mas também não juro a pés juntos que alguma vez não o venha a fazer. Ou, então, fazê-lo motivada por alguma questão específica de saúde. Para já, essa não sou eu, mas também sei e concebo que mudamos.

Portanto, 15 anos depois, fora dos vintes e já dentro dos quarentas, passados tratamentos de fertilidade e histerectomia total com anexectomia bilateral, fazendo medicação diária de substituição, estou roliça, com formas, e não me sinto infeliz com o meu corpo nem se deu aqui nenhum clique que me diga que devia isto ou aquilo. Sinto-me bem. Não incorro na noção de que deveríamos encaixar num número que indica a massa corporal (IMC) que deveria ser o desejável para mim. Aliás, isto é toda uma outra conversa, a origem das tabelas IMC é muito mais sobre economia do que sobre saúde.

A única coisa radical que fiz por mim, pela minha saúde, foi deixar de fumar numa base diária. Mas agora não vou falar disto porque também dá pano para mangas, o assunto quente hoje é a alimentação (saudável).

O que é alimentação saudável? A quem a dirigimos? – Este assunto pode mesmo tornar-se uma obsessão como refere o texto.



(abrir imagem para melhor leitura)
Diário de Notícias de 22 de setembro de 2015

Falemos, portanto, enquanto gestores das nossas cozinhas e dos outros destinatários do que compramos e cozinhamos.

Quando éramos só nós dois (o Freixo não vive connosco), não havia regras. Nuns dias cozinhava, noutros não, sendo que nos dias em que não cozinhava ora petiscávamos ora íamos buscar fora.


O processo que me deram a ler com a descrição dos meus filhos, antes de os conhecer, tinha uma lista das suas rotinas de alimentação e preferências respectivas. Cereais ao pequeno-almoço (com direito a “estrelitas” à 4ªfeira e cerelac ao Domingo), sopa, segundo prato, fruta e pão ao almoço e jantar, pão e iogurte ou leite (a Magnólia com quantidade a dobrar) aos lanches. A fruta resumia-se a pêras, maçãs e laranjas. O pão com manteiga ou marmelada. A Magnólia vinha descrita como não gostando de carapaus (hoje adora!), feijão verde (na sopa, vai) e cenoura crua (continua a recusá-la) e o Chaparrito não trazia nenhuma recusa em especial.

No dia em que os conhecemos, a Magnólia entregou-me duas folhas cheias de recortes de supermercado com as comidas preferidas de ambos e comidas que desejava provar.
Ainda hoje estas folhas estão no nosso frigorífico. E já provaram dos tais alimentos.


Não tendo regras prévias, ainda assim sempre tivemos as nossas convicções. Prendem-se mais a uma forma ética de vida do que à nossa saúde em especial. Sei que a afirmação pode parecer incongruente, mas vou explicar.

A nossa alimentação baseia-se essencialmente nos princípios da mediterrânica, com as devidas ressalvas culturais e sem fundamentalismos. Por isso, acho que não deve haver demasiadas veleidades quanto a esmiuçarmos e controlarmos todos os alimentos que ingerimos. Não será a mais saudável, mas será certamente equilibrada. Um pouco de cada, sem exageros, é a nossa regra principal.

Vejamos, por exemplo, a situação da alimentação de origem biológica. Por vários motivos, sendo o nosso rendimento o principal, não consumimos produtos exclusivamente de produção biológica. Tornar-se-ia incomportável para nós. Gasto uma média de 20€ em fruta por semana. Vejamos o preço da pêra rocha no site do continente, a pêra de origem biológica custa 3,49€/kg, as “outras” custam 1,29€/kg, são mais 2,20€ por kg. Se fizer uma “regras de três simples” passaria a gastar 54,1€ de fruta por semana, ora 80€ para quase 220€ vai uma diferença abismal.

Por outro lado, damos preferência a produtos de origem animal provenientes da agricultura biológica. Consumimos cerca de 12 iogurtes “sólidos” e menos de 6 iogurtes líquidos por semana. Vejamos o preço no site do Jumbo (não encontrei no do continente), 6 iogurtes “sólidos” Agros bio de morango custam 2,39€ e 6 iogurtes “sólidos” Danone (dos poucos com leite nacional, pesquisem isto...) de morango custam 1,71€ (tive de fazer contas, pois vendem embalagens de 4 a 1,14). É uma diferença de 10ct em iogurte, em 12 iogurtes numa semana são 1,2€, tudo bem. O mesmo acontece com a manteiga. A diferença é maior no leite e nos ovos, mas fizemos a opção e vamos mantendo-a.

Ou seja, nem tanto ao mar, nem tanto à terra.

E onde entra então a minha afirmação “as nossas convicções prendem-se mais a uma forma ética de vida do que à nossa saúde em especial”? Tentamos consumir produtos que tenham origem o menos possível no sofrimento dos outros animais, de seres sencientes. Tanto quanto sabemos, as pêras e as pereiras não sofrem como sofrem as galinhas e as vacas, se as vamos explorar que, pelo menos (e enquanto consigamos os €€€) que venham de animais que vivam minimamente condignamente – mesmo considerando que os estamos a explorar “na mesma”.
É isto.

Gostávamos que todos pudessem comer alimentos de origem não manipulada, nós incluídos. Por enquanto, compramos uns vegetais biológicos aqui e ali, mas não fazemos disso um objectivo.

Mesmo sabendo que muitos outros produtos que consumimos – desde as tintas que revestem as nossas casas aos medicamentos que tomamos, têm origem no sofrimento de animais, vamos tentando minimizar esse impacto. Os nossos filhos sabem disto, não tentamos santificar este consumo, mas também não o usamos para branquear. Fazemo-lo com sentimento sincero.

Já a carne, não a consigo comprar de origem biológica pois só encontro congelada e em quantidades que não desejo.
Na verdade, comemos cada vez menos carne. Raramente vou ao talho. Cerca de 1 vez por mês o meu sogro dá-nos um saco de carne e fica sempre a sobrar no congelador. Tentamos também diminuir a quantidade de peixe. Percebemos a necessidade dos vários nutrientes, mas também percebemos que consumimos proteínas em excesso. Não fugimos aos hidratos de carbono porque procurámos compreender a sua importância – os nossos fígados e pâncreas agradecem.

Os nossos pratos são coloridos. Os meus filhos pedem-me “posso comer mais vagetais, mamã?” e o meu peito fica muito cheio, muito quentinho e consolado do prazer deles com coisas boas. 
tabuleiro de bacalhau, com abóbora e curgete (e outros legumes) a substituir a batata
antes e depois da broa por cima, com azeite - vai ao forno - simplesmente adoram!
Levamos os nossos filhos ao MacDonalds, sim, para aí de 3/4 em 3/4 meses. Muito de vez em quando deixamos comer gomas. Se tiver de ser, damos preferência a um chocolate (e tenho sempre uma barrita em casa) – o chocolate começou a pesar-me na consciência desde que soube a origem de trabalho no cacau, além de o ter diminuído drasticamente (sou chocolatoólica) quero começar a optar pelo de origem conhecida.
Só compramos refrigerantes – sim, consideramos os néctares como refrigerantes, os únicos que compramos (e da marca Compal, porque não é o mesmo que marca branca) – quando o rei faz anos.


Este é o nosso dia-a-dia em refeições:

Pequeno-almoço
1 taça de cereais com leite
- uma mistura feita por mim, com cereais da zona dos "dietéticos", atractiva visualmente para eles, e que me satisfaz nos níveis e na origem dos açucares, geralmente com arroz ou millet tufado simples e com cacau, trigo integral tufado simples e com mel e flocos de cevada integral (fujo do milho)
1 banana

Lanche da manhã
1 pão com manteiga/marmelada/queijo/doce de frutos vermelhos (às vezes, à 4ªfeira, com nutella, sim!)
1 pacote de leite branco (infelizmente não vendem do biológico)
1 maçã/pêra (para ela)

Almoço
Sopa (sempre)
Prato de carne/peixe/ovos
Fruta – ao almoço geralmente são citrinos
Água

Lanche da tarde
1 pão com manteiga/marmelada/queijo/doce de frutos vermelhos (às vezes torradas)
1 iogurte sólido (ela lancha na escola 2x/semana, leva iogurte líquido)
1 ou ½ maçã/pêra

Jantar
Sopa e um pouco de pão e queijo
Ou
Prato simples de legumes salteados ou ovos (quiche, por exemplo) ou uma pizza caseira (massa caseira) só de tomate e queijo, também uso muito o grão e comecei recentemente com as lentilhas.
1 ou ½ maçã/pêra

A fruta vai variando e fazemos provas de frutos vermelhos ou tropicais.

Não damos lanche da noite, o tempo entre o jantar e o deitar não o justifica. E eu já li demasiadas coisas sobre a Doença de Refluxo Gastro-Esofágico para andar cá com ceias à base de lacticínios em crianças maiores de 3 anos. Quando se deitam mais tarde, como ao fim de semana – ao invés das 21h30, passa para as 22 ou 22h30, pode haver um lanchinho mas fujo ao leite.

Como snacks fora da refeição, temos a fruta como opção privilegiada, queijo, iogurte e bolacha “pipoca” (que opto sempre por arroz e não milho, para fugir aos transgénicos e ao preço dos bio). Às vezes, compro um bolo de tipo folar e vai-se comendo também.

Compramos pão de mistura, o Chaparrito pede muito pão de sementes para a escola.

Quando a minha mãe está connosco, a nossa alimentação não é a mesma. Não tenho coragem de pedir à minha mãe para não usar a sua margarina vaqueiro ou caldos Knorr (lá ficam no frigorífico à espera da sua visita seguinte). É assim que ela sabe e gosta de cozinhar e uma semana por mês não nos há-de dar cabo da saúde. Ela sabe das nossas opções porque são faladas à mesa, tem dificuldade em aceitar que queremos comer de forma mais leve à noite, mas lá vai percebendo que é uma convicção firme. E não digo à minha mãe que o que nos traz da sua horta não é biológico.

Aos fins-de-semana, comemos papas de aveia aos pequenos-almoços, estamos completamente rendidos. Com canela, maçã, pêra e iogurte para o Chaparrito e para o pai, com canela, banana, laranja espremida e iogurte para a Magnólia e para a mãe. De resto, conforme o programa do fim-de-semana, ora comemos mais saudável, ora fazemos uns abusos.

Por vezes, enquanto faço o jantar, o pai abre uma garrafa de vinho, corta um queijo seco que comemos acompanhado com orégãos e maçã às fatias e os meninos vão debicando no queijo e na maçã.

Vão experimentando coisas novas e vamos cozinhando juntos.
Há tempos, arrisquei um caril de legumes: adoraram! Faço muitas vezes, muito, muito leve.

Adoram abóbora e curgete. Passei a substituir, muitas vezes, a batata por estes legumes.

Fazemos um bolo, ou coraçãs de nutella ou panquecas (que passei a fazer só com banana, leite e farinha de trigo integral) de vez em quando. Temos uma lata de Nesquick que adicionamos ao leite como um miminho menos do que uma vez por semana.



Estou tranquila com aquilo que dou a comer à minha família. Falo na primeira pessoa porque usurpei a cozinha para mim e raramente dou espaço ao Chaparro, quer dizer, dou-lhe espaço todas as noites ... para que a arrume :) Mas partilhamos as mesmas convicções.

Acho que não padeço da tal ortorexia.
É bem certo que assumo que pensamos mais na alimentação do que os nossos pais pensavam ou, pelo menos, doutra forma. Mas não acho isso pernicioso. Talvez sofra de algo cujo nome não sei, mas não se prende tanto com a nossa saúde - que, já disse e assumi, procuro cuidar mas considero que não o faço exageradamente (ninguém é juiz em causa própria, por favor digam-me se este parlapié todo serve de prova de que sofro, afinal, de ortorexia)
 :)
É capaz que haja um nome para a maleita de sofrer de consciência em relação ao sofrimento alheio na origem daquilo que como, isso sim, assumo que sofro.

Enfim, em inglês chamamos aos meus problemas de consciência de “first world problems”.

Não faz mal.
É bem melhor do que o sítio onde me encontrava o ano passado. De licença de maternidade, entendi que deveria ter os miúdos a almoçar todos os dias em casa. Entre as mil emoções de se ser mãe de um dia para o outro, passei de “sem regras” a ter de providenciar 14 refeições principais por semana, fora lanches e quejandos. Catorze! Com sopa e tudo.
Bem, este foi o meu primeiro passo junto dos meninos, diminuir a quantidade de comida ingerida ao jantar: ou há sopa, ou há “segundo” prato.

Não foi fácil, mesmo para uma cozinheira como eu, que rapidamente engendro comida para 30 (a sério, essa sou eu).
Aliar a responsabilidade de alimentar duas crianças ao fazer de contas às portas do desemprego do Chaparro não foi fácil.
Subitamente via-me num sítio onde tinha medo que o dinheiro não chegasse para o dia de amanhã.

Olhava o preço dos iogurtes no supermercado e trazia os mais baratos dos mais baratos, procurava todas as promoções. Um dia, tive uma crise de tristeza no supermercado. Não foi uma crise de pânico (acho que só tive uma dessas na vida), foi mesmo de desalento. Tinha deitado os meninos e disse ao Chaparro que ia às compras, precisava de abastecer e também de apanhar ar.
Dei por mim num daqueles memes que povoam o facebook com mães a dizerem que ir ao supermercado equivale a uma noite de saída. Mas dessa vez não teve graça. Dei por mim cheia de frio, no corredor dos congelados, a colocar alimentos transformados (aos quais sempre fugi), dos mais baratos, no carrinho de compras. Tomei coragem de espreitar os ingredientes, coisa que evitava desde a chegada desta conjuntura a nossa casa, e lá os vi, àqueles estabilizadores e açucares maus todos. Deixei vir aquelas compras para casa.

Os meses passaram e o Chaparro tem tido encomendas de trabalhos que nos vão indicando mais x meses tranquilos.
Não somos pobres, fazemos contas.
Não compro roupa, ou raramente o faço. As minhas botas de cano alto foram compradas em 2007, comprei uns botins o ano passado, este ano não comprei calçado. Andamos todos bem calçados e bem vestidos, eu, o Chaparro e os nossos filhos. Continuamos a comprar livros, mas menos. Vamos a poucos concertos com bilhetes de valor considerável. Vamos ao cinema 2 ou 3 vezes por ano. Fazemos muitas viagens de fim-de-semana, onde gastamos dinheiro para o combustível, mas ficamos com família. Isto para dizer que temos para aquilo de que precisamos. Vamos a muitos sítios e fazemos muitas coisas, basta estar atento, há muitas coisas a acontecer e que não implica gastar 100€ por família. Estamos a poupar para uma viagem no Verão de 2017. Poupámos para um piano digital que comprámos a um preço simpático. Nada nos falta.
Comecei a fazer contas mais a sério, como vos mostrei acima e vamos decidindo… compramos leite biológico, 1€ mais caro em litro é muito, mas não compramos as pêras biológicas, pronto.

Quando se abre o nosso frigorífico, há comidinha da boa e muito variada.
E há sempre para quem mais chegar à hora do jantar.

Este é o equilíbrio que vamos encontrando.
Falamos destas decisões com os filhos.
Se um dia eles decidirem por outras opções que não estas, cá estarei para as experimentar com eles ou, pelo menos, para não as boicotar.


Não quero acabar este texto sobre alimentação sem a seguinte ressalva: os meus filhos nunca me verão desesperada a fazer uma dieta de emagrecimento. Tal como disse acima, não juro que um dia não decida que quero diminuir o meu volume, mas isso nunca (nunca!) será o mesmo que mostrar que não gosto de mim e do meu corpo, será, quando muito desejá-lo numa dimensão mais reduzida, mas nunca (nunca!) o será de forma a procurar o que o meu corpo não permita. É importante olhar para o lado, todos (todos!) os dias ouço alguém (e não apenas mulheres) queixar-se ou comentar o volume ou quilo a mais, não compreendo nem me encaixa esse stress. Esse stress não é o mesmo que cuidar, não me venham com tretas.

E a lição que prefiro dar aos meus filhos é: gosta de ti como és.


Noutro dia, falarei nas nossas opções no que concerne o consumo de produtos do cuidado do corpo, o desperdício e outros produtos biodegradáveis.


Bom apetite a todos é o que desejo.
E boa semana!
Cipreste

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

cruelmente simbólico

Isto é real, é duro, as crianças andam de lar em lar com as suas coisas em sacos de plástico e é tããooo estupida e cruelmente simbólico



Ando há que tempos para vos falar da vinda para casa - passos preconizados, enxoval, etc. Achei espectacular que a Assistente Social do CAT nos tenha dito que deveríamos ter uma mala de viagem para trazer as coisas dos nossos filhos para casa. Muito simbólico, um cuidado que nos comoveu.