sábado, 5 de março de 2016

para fazer depois de tomar café

Como é que, movendo apenas um palito, se obtém a soma de quatro?
A bem dizer da verdade, o post donde tirei o quebra-cabeças refere "movendo dois palitos" mas eu considero que é só um ;)

desafio via Palmier Encoberto


Bom dia,
Cipreste

sexta-feira, 4 de março de 2016

a ridícula ideia disso

Por altura do falecimento do meu pai, saiu em Portugal o livro A Rídicula Ideia de Não Voltar a Ver-te de Rosa Montero. Já tinha lido artigos dela mas nunca tinha lido um livro. Tinha-a ouvido uma vez no Correntes de Escritas (não, não sou uma fã-arranca-cabelos, fui lá duas vezes, gostei e bastou-me) e gostei muito dela, do seu olhar, da sua doçura, da sua inteligência. Fiquei com a nota mental para a ler. Foi o primeiro livro que li sem o meu pai. (todos fazemos exercícios das primeiras vezes)

Fiquei boquiaberta quando vi o livro, quando li o seu título.
Obrigou-me a lê-lo porque, de facto, a ideia de não voltar a ver o meu pai é das coisas mais ridículas da minha existência.

Gostei bastante, acresce o que aprendi sobre Madame Curie e a certeza de ser uma feminista. Eu até podia ter-me sentido defraudada pelo miolo do livro o que não interessaria para nada. Bastava ter comprado um livro em branco com a capa deste (foto incluída, que é muito boa) e sentir-me-ia uma cliente satisfeita. O título vale o preço do livro. O título serviu-me para horas de solidão neste enigma que é o presente sem o meu pai, a ideia de futuro sem o meu pai. O título vale que o livro seja levado para o café e que fiquemos ali a mirá-lo como quem está a ler a sua vida para trás por causa da tal ideia ridícula. 

O título vale-me pela ideia de prisão perpétua num instante, que não conseguimos definir no tempo, quando nos encontramos de luto. E eu acho que estamos de luto para sempre quando alguém que nos é querido parte, porque também é para sempre. E não, não falo do período de nojo que consta nos dicionários. E não, não estou a falar das fases do luto, nem de Kubler-Ross nem de outros. Embora fale de um momento, de um instante, refiro-o como algo contínuo e ininterrupto, porque se trata de “Não Voltar a Ver-te” da “Rídicula Ideia” disso. E isso nunca há-de passar. A menos que nos voltemos a ver.

Ali estamos e repetimos em voz baixa “A Rídicula Ideia de Não Voltar a Ver-te”, a ver se somos apanhados por alguém que nos pergunte “o que disseste?”. E nós respondemos “nada, nada” e voltamos a repetir “A Rídicula Ideia de Não Voltar a Ver-te”. O meu cérebro costuma fazer umas ligações que nem sempre consigo explicar, por exemplo, ilustro mentalmente este momento com a memória desta cena do enorme filme Big Fish:



Mas eu não vinha cá falar deste livro, vinha falar daquele que estou a ler agora: O Ano do Pensamento Mágico de Joan Didion.

Bru-tal. 

Às vezes, dá-me vontade de dizer palavrões, outras vezes, obriga-me a gargalhadas. A sério, há dias estava num café com a Magnólia, ela estudava e eu lia, e dei uma gargalhada que cortou ali o ar de forma um pouco inusitada. Uns segundos depois estava com os olhos marejados de lágrimas.

Não vou fazer de spoiler, achei apenas que era minha obrigação vir fazer a recomendação do livro. Foi-me aconselhado por uma amiga que perdeu o pai um ano antes de eu ter perdido o meu. A autora não me era desconhecida, mas também nunca a tinha lido. Não encontrei uma edição em Portugal, pelo que o mandei vir pelo Book Depository, em inglês. 

Bastou-me esta citação dela, encontrada na internet quando a pesquisei, para me convencer de que nos iríamos dar bem: I write entirely to find out what I'm thinking, what I'm looking at, what I see and what it means. What I want and what I fear.

Tenho andado a tentar solucionar esta coisa de “fazer o luto” versus “A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te” e ler este livro está a ajudar-me a sentir muito acompanhada na forma de pensar (consequentemente de sentir) este sofrimento. É que, reparem, faz-me todo, todo o sentido seguir o raciocínio do pensamento mágico aliado à ridícula ideia de não voltar a ver os nossos entes queridos.

Só assim consigo começar a dar uma imagem ao meu luto.

Porque nós, os em luto, damos uma imagem ao nosso luto, não damos?
Se não. Então, como fazem? Eu faço isso, dou imagens às coisas, construo maquetes mentais. Às vezes, construo mesmo maquetes verdadeiras, chamo-lhes instalações e às vezes chego mesmo a mostrá-las publicamente.

Colocadas as coisas assim, talvez possa assumir que torno públicas as minhas dores. 

Faz tudo parte do tornar o nosso snetimento em algo concreto. Tocar no que se torna fisicamente simbólico do nosso sentir. Como a Joan Didion diz na citação acima, mas nas várias materializações, para além da escrita, ou, juntamente com a escrita - para perceber o que estou a pensar, para onde estou a olhar, o que estou a ver e o que significa. O que desejo e o que receio.

Chego sempre à conclusão de que é melhor se falarmos das coisas. Mostrar é como falar.

Não é o vício de escarafunchar, de buscar sangue numa ferida em quase total cicatrização. Não é nada disso. Uma ferida em cicatrização é outra coisa. Isto do luto é toda uma outra dimensão, para lá das feridas. Mesmo quando sobram feridas do passado às pessoas em luto.

Se ninguém fala disto anda para aí tudo a pensar que está maluco e, afinal, só estamos mas é todos a fazer essa coisa esquisita a que se dá o nome de processo. O que me encanita um bocado quando chego a esta ideia de processo é a necessidade de o compartimentar em fases e dar-lhes nomes definitivos. Digo eu, que não sou psi e não preciso dessas ferramentas, ou porque simplesmente não me consigo encaixar nas teorias que conheço (também não conheço assim tantas). 



Voltando ao livro, a citação que o marca e que está impressa a letras douradas na edição que tenho é esta: Life changes fast. Life changes in the instant. You sit down to dinner and life as you know it ends.

Parece banal, não é? Hahaha. Deixem-me rir. Not.

O pai da minha amiga teve morte súbita, de manhã foi às compras, à tarde faleceu. O meu pai teve um percurso de 14 anos de doença oncológica, com 4 tumores primários (um case study), sobreviveu a uma série de coisas contra todas as probabilidades e, mesmo assim, a morte dele aconteceu num instante. Porque agora estamos e no momento seguinte não estamos. Com 14 anos de preparação ou sem qualquer preparação. Mesmo que sejam processos diferentes, a partida, aquele instante é que marca a passagem da era sem ideias ridículas para a era com ideias ridículas.

Joan Didion, na minha interpretação, não se deixa ficar pelos factos óbvios. Volta a todos os lugares necessários. E é aqui que me sinto tão acompanhada por ela. Não se trata apenas de revisitar memórias nem tão-pouco de ficar preso no exercício “o que é que eu poderia ter feito melhor”. Trata-se de reformular todo o nosso pensamento dentro da ideia ridícula de não voltar a ver aquela pessoa. 

Por vezes, tenho vontade de fazer uma birra. Bater com os pés e dizer que não, que não é possível que  nunca mais veja o meu pai. Mas isto passa-me num instante. Ou, estou convencida de que passa e, afinal, este parlapiê todo não é senão prova disso ;)

Quando digo baixinho “A Rídicula Ideia de Não Voltar a Ver-te” estou apenas à espera da minha resposta, da minha submissão à ideia. Hoje ainda não é o dia. Ainda tenho de caminhar muito. Talvez para sempre.

Não sei se fiz algum sentido, a Joan Didion também escreve: “These people who have lost someone look naked because they think themselves invisible.” 


Deixo-vos com este excerto:

“Grief turns out to be a place none of us know until we reach it. We anticipate (we know) that someone close to us could die, but we do not look beyond the few days or weeks that immediately follow such an imagined death. We misconstrue the nature of even those few days or weeks. We might expect if the death is sudden to feel shock. We do not expect the shock to be obliterative, dislocating to both body and mind. We might expect that we will be prostrate, inconsolable, crazy with loss. We do not expect to be literally crazy, cool customers who believe that their husband is about to return and need his shoes. In the version of grief we imagine, the model will be "healing." A certain forward movement will prevail. The worst days will be the earliest days. We imagine that the moment to most severely test us will be the funeral, after which this hypothetical healing will take place. When we anticipate the funeral we wonder about failing to "get through it," rise to the occasion, exhibit the "strength" that invariably gets mentioned as the correct response to death. We anticipate needing to steel ourselves the for the moment: will I be able to greet people, will I be able to leave the scene, will I be able even to get dressed that day? We have no way of knowing that this will not be the issue. We have no way of knowing that the funeral itself will be anodyne, a kind of narcotic regression in which we are wrapped in the care of others and the gravity and meaning of the occasion. Nor can we know ahead of the fact (and here lies the heart of the difference between grief was we imagine it and grief as it is) the unending absence that follows, the void, the very opposite of meaning, the relentless succession of moments during which we will confront the experience of meaninglessness itself.” 

Uma vez mais, desculpem lá qualquer coisinha pelo tema mais sorumbático, mas temos de falar de tudo.

Até já,
Cipreste

quinta-feira, 3 de março de 2016

o melhor sítio do mundo com as melhores pessoas do mundo

As madrugadas, oh as madrugadas. Agora, deito-me ansiando pelas madrugadas.
Os meninos entraram num ritmo em que vêm ter à nossa cama de madrugada. Depois dos pesadelos de Janeiro, tornou-se apenas e simplesmente na nossa rotina. Não é por nada, é porque acordaram e, os bebés, bem se sabe, quando acordam de madrugada é para irem para a cama dos pais. O emaranhado de cabelos e pés e pernas e bracitos (oh, os bracitos) e beijos ensonados que acontecem ali pelo meio são a coisa mais tremendamente ternurenta do mundo.
Sonhei tantos anos com isto. Sonhei tanto com isto. E é verdade, é bom, é tão bom.

E temos noção de que há que aproveitar o momento.
Eu sei que é horrível o que vou dizer, mas sinto tanto a efemeridade destes dias. Talvez tenha sido o desencanto provocado pelos anos a sonhar sem alcançar, ou os 13 cm (e meio) que me tenham provocado esta consciência de que este momento vai passar depressa. Que não há-de ser em muito tempo que já não apareçam no nosso quarto.

Sou assim, penso coisas destas, assim. Valha-me este ímpeto para viver e aproveitar o momento.
Tenho um álbum cheio de fotografias dos meus filhos a dormir. Adoro vê-los dormir, todas as noites vou espreitá-los, muitas dessas noites não resisto a registá-los. 

Às vezes, penso se não deveríamos fazer uma coisa destas. Para aproveitar melhor.

family bed
Fico a sonhar. Vou espreitá-los. 
Talvez tirar uma fotografia. Ansiar pela madrugada.
Para ficar suspensa no momento, no melhor sítio do mundo com as melhores pessoas do mundo.

Boa noite a todos,
Cipreste

quarta-feira, 2 de março de 2016

Só mais uma coisinha

Sobre a adopção por casais do mesmo sexo.

Fujo do encaixe dos casais do mesmo sexo como sendo aqueles que serão a tábua de salvação para as crianças que estão no espectro das não desejadas pelos outros candidatos. Esta ideia é feia, injusta e preniciosa tanto para os casais do mesmo sexo quanto para as crianças.

Atenção que, quando digo que se não sou a favor da institucionalização das crianças havendo quem que as queria adoptar, amar e criar, então sou a favor da adopção por casais do mesmo sexo, não estou a resumir a minha visão, nem o leque de crianças a que se possam propor, do direito dos casais à adopção daqueles que mais ninguém quis (dói só de escrever, imagino que doa de ler, mas é ou não é a verdade? Porra.). É apenas um exercício no ponto de partida para a reflexão no assunto.

Acredito não só que esses casais têm o mesmo direito de acesso que eu como também acredito no seu direito a desejar, por exemplo, um bebé.

Espero que agora não se banalize esta imagem de que os casais do mesmo sexo são aqueles que vêm para adoptar os que mais ninguém quer.
Bom, se acontecesse seria uma bela lição para todos os normodependentes, isso era.

O que quero dizer é que não vejo esta conquista dos direitos dos casais do mesmo sexo para além do interesse superior da criança, vejo-a como um interesse superior do amor, isso sim.

A conquista da adopção por casais do mesmo sexo deve ser vista à mesma luz da adopção com quaisquer outros candidatos, de todas as perspectivas - direitos e deveres, claro.

Agora cito-me doutro texto :P
(eu sei, citar-se a si próprio é uma espécie de prática de presunção e água benta)



Digo eu, que às vezes me sinto parte duma minoria na forma como encaro a adopção.
É preciso assumir que isto trata de ideias de supremacia e, em nenhuma situação, deixar que a supremacia dos direitos individuais se sobreponha à supremacia do direito da criança.

Alguém se junta em coro comigo?

Bom dia,
Cipreste

terça-feira, 1 de março de 2016

welcome willkommen bienvenue bienvenido bem-vindo


Escrever o post de ontem e responder agora a um comentário fizeram-me reparar que, de facto, eu que tomo tantas posições, ainda não tinha tomado esta: Bem-vindos, novos candidatos à adopção em Portugal!

Eu acredito nisto: O que faz uma família é o amor.

Finalmente, Portugal juntou-se ao rol de países que permitem a adopção por parte de casais formados por pessoas do mesmo sexo. Ufa. Finalmente, deixou-se de confundir a orientação sexual com a capacidade de parentalidade. Que bom. 

Já o tenho dito várias vezes, gosto de viver neste tempo. Para lá de todas as barbáries que nos sejam contemporâneas e novas face ao passado, vivemos tempos de maior abertura para compreender, respeitar e aceitar a diversidade. Ufa.

Há 10 anos, eu tentava ter uma conversa com alguém sobre a possibilidade de casais formados por pessoas do mesmo sexo poderem adoptar e era quase linchada. Só podia ter esta conversa em meios muito restritos. Hoje, já o podem fazer legalmente. Caramba, isto é uma coisa boa.

Estou feliz e dou as boas vindas aos casais formados por pessoas do mesmo sexo que eventualmente venham aqui parar para conversar sobre adopção. 
Nunca foi nosso objectivo especificar, nem afunilar, o tipo de adopção de que se fala aqui e gostamos e queremos falar com todos. 

Este mundo é muito grande  e tem imensas particularidades, mas essas não devem ser motivo para nos separarmos por grupinhos, antes devemos unir-nos - pais em casal do mesmo sexo, pais em casal de sexos diferentes, pais em adopção individual, pais através da adopção internacional, pais através da adopção na área das necessidades especiais, padrinhos civis, famílias de acolhimento, etc. 

Todos, antes de mais, devemos unir-nos para melhor compreendermos e sabermos como estar na adopção que, por si só, é já bastante difícil, não precisamos de cisões e pseudo-polémicas ;)

Estou curiosa por verificar as adoaptações das equipas para tal, nomeadamente para o aumento do fluxo que imagino que vá acontecer no número de candidaturas. Espero bem que esta alteração à lei venha a ser acompanhada do devido equipamento das equipas, nomeadamente em recursos humanos.


Uma vez mais, welcome willkommen bienvenue bienvenidos bem-vindos  :) falem connosco.

Cipreste

A Vida Breve

Estou no carro com o Chaparrito à espera que a Magnólia saia da escola. São 17.50. Ouvimos rádio, como sempre. Antena 2, como quase sempre. 
O Chaparrito pergunta-me - são quase horas do teu programa, não são, mamã?
- Que programa, filho? - pergunto, espantada, para me certificar 
- Aquele da poesia
- Foi há uma hora, filho - respondo, pensando Oh, coisa mais boa da sua mamã.

Refere-se ao A Vida Breve que passa pelas 16.50.

Estas coisas dos miúdos. Estas atenções às pequenas coisas provocam-me um contentamento, uma excitação que foi muito bem explicada pelo meu pai. Quando as minhas sobrinhas se saíam com coisas deste género, ele olhava para nós com um ar simultaneamente derretido e indefeso e dizia “dá vontade de uma pessoa se atirar para o chão”. É isso. 

O meu coisa-mais-boa não foi ensinado verbalmente deste facto da mãe parar quase todos os dias por  volta dessa hora para ouvir os poetas a dizer a sua poesia. Provavelmente, já aconteceu pedir-lhe para se calar porque queria ouvir aqueles minutos que passam tão depressa, mas não tenho ideia de falar do programa.

Observou-me.
O meu filho observou-me.


Chamem-me novata nesta coisa de ser mãe, mas eu sou uma eterna espantada e estas coisas deixam-me pasmada. Não, eu não acho que o meu filho seja estúpido que não conseguisse aperceber-se de um pormenor destes, nem acho que seja preciso um génio para o fazer. Foi a forma como o verbalizou, o tom, o carinho, o reconhecimento de "uma coisa da mãe".

O meu filho observou-me em silêncio e eu acho isso absolutamente extraordinário.

Deixo-vos com a maravilhosa peça que faz o genérico deste programa perfeito em tudo menos na duração.
Bom dia,
Cipreste


segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Temas fracturantes: onde a porca torce o rabo

(e o gosto de conversar, pelo que o post é muito longo e provavelmente inútil o tempo gasto a lê-lo)

Não foi há muitos anos que encontrei uma forma instantânea para me solucionar dúvidas nos temas fracturantes da sociedade.

Despenalização do aborto. Adopção por casais do mesmo sexo. Doação de gâmetas e o direito da pessoa a saber a verdade sobre a sua origem genética. Eutanásia. O cartaz do Bloco de Esquerda. Etc.

Estes assuntos são tão complexos que devemos sempre desconfiar de soluções instantâneas. Não usei a expressão acima para depois me contradizer como um truque de escrita para atrair a atenção de quem lê. A contradição está lá, ela existe. É verdade que, em determinados assuntos, uso da fórmula instantânea.

~
Antes de avançar, gostaria de sublinhar três coisas:

- Não aceito a realização de referendos para a legislação de direitos individuais

- Acho que se deve dar lugar à discussão pública pelas entidades competentes e que esta, aliás, deve ser renovada amiúde e não apenas para o momento legislativo

- Acho que concordamos todos que estes temas são complexos. O facto de termos opinião sobre eles não quer dizer que os tratemos de forma leviana. Lamento que alguém encete uma discussão e que a arrume para canto confundindo o desejo de não continuar a discussão com a conclusão típica da complexidade do assunto e da sua privacidade.
~



As sociedades tendem à mudança. Aquilo em que se acreditava e que se advogava há 100 anos é muito diferente dos dias de hoje. Aliás, não precisamos de ir tão longe, o nosso país é um bom exemplo com o antes e o após a ditadura. E não esqueçamos que estou a falar do mundo ocidental com todas as diferenças dentro do mesmo (por exemplo, a pena de morte que ainda é muito real em tantos países do ocidente) e que existem fenómenos para nós arcaicos que são prática corrente em tantos outros países do “resto do mundo”. (só para registo: detesto esta distinção entre “ocidental” e “resto do mundo” mas não tenho agora tempo para ser menos “estereotipante”)


Quando uso as expressões “acreditava” e “advogava” estou a fazê-lo para distinguir aquilo que cada pessoa acredita para si daquilo que fica legislado. Isto é importante.


Ao afirmar acima que não foi há muitos anos que encontrei a forma instantânea de me solucionar nos temas fracturantes da sociedade o que quero dizer é que, tenho reparado que a chave para uma “solução” mais imediata para estas dúvidas está no lugar da discussão em que uma parte das pessoas recua.
Vou tentar explicar-me com exemplos.


Despenalização do aborto

Eu acho que somos todos contra o aborto e pró-vida. Aliás, acho a utilização da designação pró-vida por parte dos grupos contra a despenalização uma apropriação indevida do termo.

 A questão que se coloca não é se a pessoa é a favor do aborto, a questão que se coloca é a da sua despenalização e consequente abertura de condições para que seja realizado condignamente. Podia explorar agora o facto de que o aborto existe desde sempre etc., etc., mas não é aí que quero ir, eu quero ir à “solução instantânea”.
Eu acho que as pessoas se enredam nos milhentos argumentos emocionais e esquecem-se de se questionar sobre o significado de cada lado do tema.

Repare-se: se sou contra a despenalização do aborto isso quer dizer que sou a favor da sua penalização. Portanto, penso que a mulher que cometer aborto deverá ser penalizada legalmente (Coima? Prisão?) e, consequentemente, sou contra haver condições de saúde pública para que o façam em segurança. Não resolvo o fenómeno da existência do aborto na minha sociedade nem resolvo a consciência daqueles que praticam ou irão praticar o aborto. A única coisa que faço é permitir que se continue a fazer abortos em condições degradantes (mais toda a economia paralela do aborto) e que essas pessoas sejam punidas legalmente.

Afinal, o que houve de instantâneo aqui? O seguinte raciocínio: se sou contra a despenalização do aborto > sou a favor da sua penalização  > penso que a mulher que cometer aborto deverá ser penalizada legalmente (Coima? Prisão?) > e sou contra haver condições de saúde pública para que o façam em segurança.

É bem certo que o exercício, para ser intelectualmente honesto, deverá ser feito no sentido inverso. Vejamos o que me acontece: se penso que a mulher que cometer aborto não deverá ser penalizada legalmente  e se, reconhecendo que o aborto existe, sou a favor de haver condições de saúde pública para que o façam em segurança  > sou a favor da despenalização do aborto > sou a favor da sua legalização.

Agora questionam-me se a liberalização (sim, acabei de comparar despenalização com liberalização) não trará a sua vulgarização. O que traz a liberalização do aborto são outros quinhentos e os resultados estão à vista, lá está, com as sociedades ocidentais a tenderem todas para a liberalização. Bem, ninguém disse que o tema é simples, pelo contrário, assumi logo a sua complexidade. Não tenho respostas para tudo (ainda bem, senão era apenas uma idiota que pensava ter respostas para tudo). Sou apenas uma parva que pensa muitas coisas e que acaba a escrever sobre elas. E sei apenas que prefiro a segunda equação à primeira. Não desejo que ninguém vá para a prisão por ter feito um aborto e muito menos que morra por o ter feito fora das condições clínicas necessárias para o fazer.
Quando discuto isto com alguém que seja contra a despenalização, este é o momento em que a pessoa vai embora ou põe um ponto final no assunto. Até hoje, não conversei directamente com uma pessoa que me assumisse que sendo contra a despenalização do aborto > logo, é a favor da sua penalização  > e que portanto pensa que a mulher que cometer aborto deverá ser penalizada legalmente (Coima? Prisão?) > e que é contra haver condições de saúde pública para que o façam em segurança.


Adopção por casais do mesmo sexo

Eu acho que estamos todos de acordo que crescer numa instituição não é melhor do que crescer numa família com amor. A questão que se coloca para lá dos direitos das pessoas homossexuais é esta. É do interesse da criança que falamos e não dos adultos, um interesse superior, portanto.

Repare-se: se sou contra a adopção por casais do mesmo sexo isso quer dizer que sou a favor que as crianças continuem institucionalizadas ao invés de serem adoptadas. Portanto, penso que a criança está melhor numa instituição do que no seio de uma família devido à orientação sexual dos pais (ou mães). Uso, por exemplo, a velha deixa da possibilidade da criança ficar traumatizada por ser gozada na escola por ter dois pais (ou duas mães). Imaginemos a cena: a criança adoptada por pais do mesmo sexo é gozada por causa disso e vai para casa, chora, os pais conversam com ela, acarinham-na e ensinam-lhe que o mundo é mesmo assim - injusto e reactivo a tudo o que é diferente de si, à noite, são estes pais que aconchegam esta criança; a criança institucionalizada também anda na escola, é gozada porque é institucionalizada/gorda/magra/clara/escura/inteligente/o-que-desejarem e vai para “casa”, chora, com sorte (muita) uma das funcionárias tem 5 minutos para falar consigo, com sorte essa funcionária acarinha-a e diz-lhe que o mundo é mesmo assim - injusto e reactivo a tudo o que é diferente de si, à noite, não é esta funcionária que aconchega e acarinha esta criança porque já acabou o seu turno. Faz todo o sentido proteger as crianças de serem gozadas, sim senhor. Prefiro, portanto, que a criança cresça sem o amor e a protecção de dois pais (ou duas mães) convencida de que a estou a proteger de vir a ser gozada.

O que traz a adopção por casais do mesmo sexo não me preocupa porque sempre houve crianças a serem criadas por casais do mesmo sexo.

Afinal, o que houve de instantâneo aqui? O raciocínio: se sou contra a adopção por casais do mesmo sexo > sou a favor da institucionalização das crianças mesmo que haja um casal que a queria adoptar.

É bem certo que o exercício, para ser intelectualmente honesto, deverá ser feito no sentido inverso. Vejamos o que me acontece: se não sou a favor da institucionalização das crianças havendo quem que as queria adoptar, amar e criar > sou a favor da adopção por casais do mesmo sexo.

Bem sei que acima ilustrei de forma aparentemente leve as preocupações que as pessoas “contra” têm, desde o trauma à leitura bíblica apelidada errada e convenientemente de biologia. Mas estou antes a falar do imediato família-instituição. Agora questionam-me sobre a passagem de casais do mesmo sexo à frente de casais de sexos diferentes nas listas para a adopção. Bom, o problema é o mesmo que o das adopções individuais. Uma vez mais, ninguém disse que o tema é simples, pelo contrário blábláblá. Seja como for, prefiro a segunda equação à primeira. Não desejo que nenhuma criança cresça numa instituição se houver quem a deseje e saiba amá-la.

Quando discuto isto com alguém que seja contra a adopção por casais do mesmo sexo, este é o momento em que a pessoa vai embora ou põe um ponto final no assunto. Até hoje, não conversei directamente com uma pessoa que me assumisse que se é contra a adopção por casais do mesmo sexo > está a ser a favor da institucionalização das crianças mesmo que haja um casal que a queria adoptar.


Doação de gâmetas e o direito da pessoa a saber a verdade sobre a sua origem genética

Eu acho que estamos todos de acordo que temos direito a saber tudo o que envolve a nossa existência. Acho.

Compreendo e sou a favor da procriação medicamente assistida através da doação de gâmetas e admiro muito as pessoas que a ela recorrem. Mas não lhes reconheço o direito de decidir ocultar esse facto à pessoa que nasce de tal processo.

Imaginemos a cena: a decisão de “contar ou não contar” cabe aos pais, os pais não contam, um dia o filho acaba por saber e agora? Não se iludam, muito provavelmente qualquer dia há testes genéticos na farmácia e esse filho que um dia foi só um bebé, cresce e forma opiniões, nomeadamente sobre a sua vida, mas a situação descrita não o contempla como senhor da sua verdade.

Afinal, o que houve de instantâneo aqui? O raciocínio: sou a favor de que a decisão de “contar ou não contar” cabe aos pais > sou a favor de esconder a verdade à pessoa (o bebé cresce, um dia há-de ser um adulto como os pais o foram na hora da decisão de ocultar) sobre a sua história > sou a favor de que tenho mais direito à história de vida do meu filho do que ele > sou a favor de que tenho mais direitos do que o meu filho.
Hum?! Pois. E sou grata a quem me venha mostrar onde estou errada no raciocínio.

É bem certo que o exercício, para ser intelectualmente honesto, deverá ser feito no sentido inverso. Vejamos o que me acontece: se sou a favor de que o meu filho tem tantos direitos individuais como eu > se sou a favor de que tenho tanto (ou menos) direito à história de vida do meu filho do que ele > sou a favor de ter de dizer a verdade à pessoa sobre a sua história >  sou a favor de que a decisão de “contar ou não contar” não cabe aos pais.

A situação é difícil e acredito que a gestão do “contar” não seja fácil de fazer. Quando? Com que idade? E depois? Com que preço? Etc. Mas não é este facto que deverá tolher o tema, uma vez mais, são questões que ficam em segundo plano. Questões muito pertinentes, é certo, mas não estão no primeiro plano de interesse. Pois, aqui, o que se discute é o direito à verdade.


Eutanásia

Eu acho que todos temos o direito de decidir como desejamos levar a nossa vida, uma vez que não implique maleficência a outros.

Compreendo e sou a favor da medicina procurar prolongar a vida, nomeadamente da evolução dos cuidados continuados e especificamente no controlo da dor. Compreendo que a avaliação de cada caso é uma tarefa muito completa e que exige muita competência e parcimónia por parte dos envolvidos. Não sou a favor de manter as pessoas vivas contra a sua própria vontade, nomeadamente situações de introdução forçada de sondas nasogástricas, por exemplo. Acredito na morte assistida, acredito que a pessoa que deixe de ter condições físicas para terminar a sua vida possa ainda ter algum recurso para o fazer. Mas escapa-me tudo o resto, não consigo avançar e também me escapa completamente a forma como isto tudo deve e possa ser feito. É para mim, dentre os temas fracturantes, dos mais complexos.

Continuando no meu registo de pensante simplória, acho que o facto de haver possibilidade legal de alguém acabar com a vida de outrem extravasa os temas que referi acima. Acabar com a vida de uma pessoa não é, para mim, o mesmo que acabar com a vida de um feto, por exemplo.

Não consigo fazer aqui um raciocínio instantâneo. Fico sossegadita no meu canto, apanho uma opinião aqui, outra ali e leio, mas não me consigo solucionar além do “eu acho que a pessoa tem direito e deveria ter forma de obter ajuda”. Apesar disso, não consigo tecer mais considerações e, no mínimo, magoa-me e assusta-me a hipótese de tal tema vir a ser alvo de consulta popular.


O cartaz do Bloco de Esquerda

Ná, não estou nem aí, foi só uma provocaçãozinha :)



~

Na verdade, este texto surgiu num momento em que me senti um pouco frustrada com a fuga que se costuma ver neste tipo de discussões. Uso muitas vezes este tipo de raciocínio, da solução instantânea como lhe resolvi chamar hoje e acho que acabo por ser interpretada como querendo argumentar até à evangelização do outro. Talvez as pessoas pensem que estou a ser leviana ao querer ir por partes. Talvez seja apenas uma impressão errada, ou talvez sejam complexos por ser tão faladora e cheia de opiniões.

Fui opiniativa desde muito pequenina. Em 1999, num reencontro após 18 anos, um amigo de infância, cerca de 7 ou 8  anos mais velho do que eu, numa conversa à volta de um belo almoço diz “Ah, mas a Cipreste tinha 4 anos e já era muito cheia de opiniões”. Ele disse isto com graça, sem qualquer tom de censura. Lembro-me de ter uma daquelas sensações de que tudo parou naquele momento. Afinal, eu sempre fora assim. Ele usou a expressão em inglês “opinionated”. Caramba, nunca tinha pensado nisto. Quer dizer, era evidente para mim que sempre fui muito conversadora e curiosa, formando opiniões sobre os mais variados assuntos, mas não tinha consciência de o ser desde sempre, de ser parte da minha essência.

Se não estivermos de bem com as nossas opiniões e respectivas dúvidas, se não estivermos conscientes de que estas são dinâmicas, pode ser difícil ser-se assim. Há uma facção da sociedade que trata os opinionated como uns chatos, com exclamações de género “lá vens tu com as tuas opiniões”. É verdade que as pessoas com o meu perfil, se não tiverem muito jeito para a diplomacia, podem ser conotadas como tal. Ora, não lamento e não peço desculpa por pensar e construir ideias e, o escândalo, querer discuti-las. Lamento, no entanto, quando as pessoas saem de fininho, tenho pena e claro que tento rever se foi a minha postura e não o assunto em si.

Um dos únicos confortos que encontro nestas reflexões e discussões é que as minhas ficam-se só por aí. Não faço parte de qualquer grupo legislador porque isto tudo vai muito além dos raciocínios instantâneos e é a partir daí que a porca torce o rabo e eu fico aflita só de imaginar que são pessoas como eu que podem vir a definir o caminho a tomar nestes temas, se consultados através de referendo.
E fico confusa muitas vezes pois grande parte dessas mesmas pessoas que preferem chutar para o canto a discussão de determinado tema são as que não se incomodam que o tema seja referendado. É estranho, não é? Ou então é só impressão minha.


Olá, o fim-de-semana foi bom?
Cipreste

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Magnólia

Os almoços de semana com a Magnólia. Mais uma coisa de calibre “coisa mais boa da mãe”.
A redução horária que fiz, permitindo-me almoçar 4 dias por semana com os meus filhos, foi dos melhores investimentos que já fiz na vida. Sim, porque isto também trata de euros. Foi uma decisão muito reflectida e quase adiada. Mas vemos os frutos a olhos nus e o pormenor dos almoços é dos melhores, mais proveitosos e deliciosos. Lamento apenas que seja à custa da abnegação por parte do Chaparro pai. Um dia almoçamos os três, eu, a Magnólia e o Chaparrito, outro só eu e o Chaparrito e dois só eu e a Magnólia. Isto permite diferentes variações de contacto e confidência. Para ser perfeito, faltava fazer variações com o papá.
É durante os almoços da semana, de um para um, ou entre os três, que se conversam e analisam muitas coisas da convivência com os outros. Eles ainda vêm com os eventos da manhã muito frescos. Ele, porque a MB já não quer namorar com ele ou porque, uma vez mais, o M é que fez as equipas para o futebol e não o escolheu para a sua. Ela, porque, benza-a-deus, sai à mãe e chega indignada com uma série de injustiças entre os garotos. Imagino-a tipo barata tonta a andar de um lado para o outro a procurar sanar discórdias.
Tenho de ser justa e admitir que a Magnólia não é como a mãe, a Magnólia é muito melhor pessoa do que eu. Pela idade dela, eu não era má, nunca fui e sofria quando via injustiças, mas era mesquinhita, não tinha o mesmo poder de encaixe e, embora já me questionasse, não sei se tinha a coragem de me pôr em causa e ela tem. Bem-dita a minha amiga K que sempre me ajudou a mudar de perspectiva para procurar olhar as coisas de novas formas. Ainda esta semana falei disso com a Magnólia, de como afinei a minha forma de estar com os outros, em coisas em que ela é já tão eficaz, na idade adulta. E como isso me trouxe dissabores que desejava ter evitado.
A magnólia vai-me descrevendo cada uma das pessoas com quem convive, e a sua turma em particular. Parecem saídos de um filme estereotipado sobre o liceu (com as devidas adaptações à sua faixa etária). Tem lá a malta toda, desde a menina popular ao garoto ignorado por todos.
A Magnólia anda especificamente incomodada com um comportamento (ou vários) da menina popular da turma. Nós não lhe chamamos “menina popular” nem usamos qualquer outro apelido que não seja o seu nome próprio. Na segunda semana de aulas, a Magnólia falava de algo à mesa e disse “a F é mesmo uma convencida”. Confrontei-a, convidei-a a pensar em voz alta connosco sobre o que acabara de dizer, perguntei-lhe o que é isso de ser convencida, se não temos todos uma parte que está, de facto, convencida de algo, se isso não é legítimo e se a utilização desse apelido viera dela ou estaria a replicar algo que ouvira. Falámos em cuidar a nossa linguagem, no poder e no impacto que pode ter. Perguntámos se já conhecia assim tão bem a menina que pudesse concluir tal coisa sobre ela. Também falámos sobre a forma como nos apresentamos aos outros, particularmente em situações como o início de uma no escolar junto a pessoas que não conhecíamos, e em atitudes de protecção, de defesa, que podem não ser as melhores nem as mais eficazes mas que podem, muitas vezes, demonstrar o contrário do que se apresenta. Por exemplo, alguém que se apresenta muito “convencida” pode estar, afinal, receosa, pouco confiante e usa esse papel porque é a forma que encontrou para se proteger e defender. Finalmente, alertámo-la para o facto de que estava a abrir espaço a uma antipatia por uma pessoa que desconhecia e com quem poderá partilhar a mesma turma nos próximos 8 anos. Ufa! A Magnólia tem arcaboiço para este parlapiê todo. Ela encaixa a informação. No espaço de uma semana já falava da F com amizade. Até hoje.
A F é das melhores alunas da turma, senão a melhor. É gira. Tem o cabelo até aos tornozelos rabo. Tem roupas giras. Sabe ser simpática e parece ter um sentido de humor muito apurado. E a Magnólia sabe viver com isso. Porque ela sabe que é bonita e divertida e também veste muito bem e também é inteligente e sabe que o uso de “também” tem a ver com a dimensão de sermos tantos que se torna absurdo haver qualquer tipo de competição entre nós. Se a F trouxe uma camisola bonita, a Magnólia aprendeu que lhe é legítimo gostar da camisola e verbalizá-lo, sabe que isso não significa inveja nem significa que desejaria ser a F. A Magnólia sabe que se verbalizar “oh, que linda a tua camisola, adorava ter uma assim!” vai dissipar a sensação de que o gostar da camisola poderia significar que queria ser a F. Não, significa apenas que o mundo é imenso e que há lugar para todos nós e que não podemos possuir todas as camisolas do mundo, embora nos seja legítimo apreciá-las e até desejá-las (às vezes, até, acabamos a possuir algumas). Ufa, outra vez! A Magnólia tem arcaboiço para este parlapiê todo. Ela encaixa a informação.
Agora anda preocupada com ela, com a F. porque a F é simultaneamente simpática e muito divertida mas também sabe ser cruelzita. Sim, palavra pesada. Quando magoamos pessoas com palavras, repetidamente, estamos a ser cruéis, para mais quando essas pessoas apresentam a sua fragilidade à flôr da pele. A Magnólia anda irritada com ela, quer dizer-lhe que ela se anda a comportar mal com o colega. Pediu-me conselhos. - O que farias, mamã? E a K, o que achas que a K faria?
Respondi-lhe “Acho que a K teria o cuidado de apanhar a F num momento a sós, sem pressa. Não pode ser uns segundos antes de tocar para entrada, por exemplo. E é de máxima importância que seja a sós, com a certeza de que mais ninguém vos vai ouvir. Porque se a queres alertar para uma humilhação que ela esteja a praticar, não o podes fazer humilhando-a de volta. Quando o mano chegava a casa com recados porque tinha batido nalgum menino, se a mãe lhe fosse bater de volta, como castigo, estaria a mostrar-lhe que, afinal, bater é legítimo. Percebes? Dizer-lhe algo em público só serviria para 1) humilhá-la, 2) armares-te, 3) fazer com que ela, ao invés de parar para pensar, reaja e faça ainda pior e 4) provavelmente virar-se contra ti e também passares a ser uma das suas “vítimas”. A menos que fosse um episódio de violência que tivesse de ser interrompido ali, no momento, como uma urgência, essas coisas devem ser feitas em privado. Eu não sei o que lhe diria, talvez lhe perguntasse se sabia dos problemas dele, que ele sofre, que ela pode estar a contribuir para que ele se sinta pior. Mas só tu é que sabes o que queres fazer. Não me parece que, se o fizeres com cuidado, ela te guarde rancor, mas nada garante de como isto pode funcionar. Nunca, nada, é garantido. Isto incomoda-te e parece-me muito bonito que ponderes falar com ela ao invés de estares para aí cheia de planos para fazer queixas, por exemplo, à directora de turma.”

A Magnólia perguntou-me se eu achava que era bullying, eu acho que não é, senão teria abordado a questão de outra forma. Não me parece, de todo, perseguição. Mas concordo com a minha filha e sinto um orgulho imenso de que ande com isto na cabeça e sinta que talvez possa ter uma acção. A minha filha não vira a cara ao lado a injustiças que não lhe sejam dirigidas a ela, e só de escrever isto fiquei com lágrimas nos olhos, de comoção, de orgulho. Nunca pensei que fosse possível sentir um orgulho tão imensamente grande em alguém.

sushi, sashimi, gengibre e wasabi

Estas têm sido umas semanas muito particulares. Anda aqui qualquer coisa a acontecer. Sinto que se está a dar uma viragem nesta família, nas pessoas desta família. Não sei a ordem dos factores, se é cada um que está a aclimatizar-se ou se é a família como um todo e que depois proporciona as condições a cada membro para a sua adaptação. Há-de ser, certamente, uma miscelânea.
Esta semana soube-me bem, soube-me a real. Não foi sempre bonita, há, aliás, uma coisa que me anda a incomodar muito e que não sei como solucionar. A minha mente parece aquelas passagens nos filmes, em que fazem retrospectivas em flash. Não sendo propriamente uma semana bonita, foi uma semana real, franca.


Ontem, para tornar esta numa semana ainda mais especial, fomos jantar fora e depois ao teatro.

Há determinadas coisas que só dizemos aos meninos antes de acontecerem para eles não andarem a antecipar. Temos de ter especial atenção com o Chaparrito, fragiliza-se muito com qualquer coisa que sirva para se questionar, para se sentir inseguro e isto pode concretizar-se, por exemplo, em mau comportamento na escola nesse dia. Assim, só lhes dissemos cerca de meia-hora antes de sair de casa. A minha mãe está cá e ficou com eles. Ainda o Chaparro lhes estava a dizer e já eu via os olhos do Chaparrito a ficar vermelhos. Veio logo para o meu colo e começou a chorar copiosamente. Pumba. Olhei o Chaparro com aquele olhar de “fiquemos em casa” e ele retribuiu-me com o outro olhar, o de “nem penses”. 
A última vez que a minha mãe estivera cá eu tinha feito destes planos e anulei-os precisamente porque achei o Chaparrito mais frágil naquele dia. 
Se o Chaparro não se impusesse é bem capaz que este ciclo nunca mais fosse interrompido. 
Quando saímos de casa o pequeno já estava bem disposto, mas isso não o impediu de me lançar o seu olhar de cachorrinho quando saí, e olhem que ele é, por definição, de tipo cachorrinho do mais fofinho que há.

Já no restaurante, estava cheia de dor de consciência, sentia um ímpeto enorme para me levantar e zarpar para casa. Era quase um sofrimento. Só quando lhes telefonámos para dar as boas noites, antes de ir para a peça, é que relaxei.

Comentei que era a primeira vez que ia comer japonês desde a chegada dos meninos. Comecei a fazer contas de cabeça e questionei o Chaparro - olha lá, quantas vezes fomos ambos jantar e a um espectáculo, desde que temos os meninos? 
Ora… noves fora…. nada. 
Era a primeira vez. Ontem foi a primeira vez que saímos os dois para um programa completo desde que tivemos os meninos. Já fomos à vez. E já tínhamos ido ambos ver um espectáculo de dança, tendo a minha mãe ficado com eles, mas jantámos em casa e saímos 15 minutos antes da hora deles de deitar.

Ontem, matei saudades de sushi, sashimi, gengibre e wasabi, acompanhados de chá de jasmim. 

O tema de conversa começou por ser disperso, mas acabámos com uma conversa muito profunda sobre os nossos filhos e os últimos tempos, o nosso processo, e o de cada um de nós enquanto pais. Comovi-me em vários momentos. Demos as mãos, como sempre, mas ontem éramos mesmo só nós dois. Vimos uma peça. Lavei a alma e cheguei tão feliz a casa para ir espreitar os meus filhos a dormir.


Na verdade, eu tenho dois bebés com 1 ano e 4 meses, faz todo o sentido que só agora comece a sair.
Não é assim com todos os pais?

Cipreste

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

and the Oscar goes to...


Inside Out
directed by Pete Docter and Ronnie del Carmen


Divertida Mente



Já tinha prometido falar dele (aqui e ali).
E queria passar-vos cada parte do filme, analisando-o e explicando detalhadamente porque é que quando o vi me emocionei tão completamente, e porque é que achei (e bem) que este era o filme que eu ia passar a usar para abordar a adopção com os meus filhos. Queria, mas não consegui o tempo para o fazer e sou uma chata sempre a queixar-me disto, segue o que consegui escrevinhar.



Eu sei, é como em tudo, o que o filme nos fornece dá para ajudar qualquer criança (e adulto) a compreender uma série de fenómenos do nosso comportamento.

Ok e adiante. Eu. Aqui. Falo das particularidades da adopção.

O filme nem sequer aborda a adopção. Eu sei.

O filme começa com uma situação de separação. Riley sai da sua terra natal, "perde" as suas referências de infância, "perde" a segurança daquilo que é garantido (ou, pensava ela que era), é deslocada para uma cidade desconhecida e vê-se obrigada a fazer um luto do antes e a (re)construir uma série de edifícios para o depois. Alguém consegue ver aqui uma relação com a adopção? Vejo braços no ar? Vejo.

Vejo a retirada da criança do ambiente que conhece e onde se sente segura - é bem certo que aquilo que nós entendemos como segurança pode ser muito diferente do que uma criança negligenciada entende como tal. Mas, apesar disso, essa segurança é para si bem melhor do que o medo do desconhecido, do que perder as suas referências. É bem certo que, no filme, Riley se mantém com os pais, eu não disse que o filme é a adopção preto-no-branco, disse que podemos fazer muitas analogias.

Vejo a chegada a uma nova casa (centro de acolhimento, pais adoptivos), a uma nova escola, a uma nova cidade (até a pizza é diferente! Quem é que se lembra de pôr brócolos na pizza, pelo amor de deus!).

O luto do que ficou para trás, a casa, os amigos, a escola, o desporto, todas as fundações das suas memórias são abaladas (uma vez mais, não, não estou a esquecer os pais quando digo “todas”).

Ruptura. Dor. Incompreensão. Confusão. Medo. Negação. Revolta. Coragem. Luto. Gestão. Processo. Descoberta. Readaptação.

Tristeza.

Todo o processo que se dá de seguida pode ser usado como metáfora para quem, como eu, tem filhos adoptados em idades que já permitam elaborações sobre as suas emoções.

Eis um exemplo duma conversa com a Magnólia, usando o filme, mais coisa, menos coisa, foi isto:

- A Riley também não sabia muito bem como lidar com todas as coisas - as emoções novas, para ela. A determinada altura, ela própria nem sabia bem como reagir, dizia e fazia umas coisas um bocado descabidas (sorrisos). Na verdade, eu acho que o que estavas a fazer era a tentar mandar a tristeza embora, não? E talvez precises dela, para arrumar esse assunto. Lembras-te da Alegria? Ela pensava que a Tristeza não podia tocar em memórias da categoria “boas memórias”, como se as fosse estragar... De facto, as memórias podem tornar-se diferentes consoante aquilo que vivemos, mas não tem de ser catastrófico. Eu penso que se não aceitares que tens saudades de determinada pessoa, por exemplo, e que essa saudade vem acompanhada de uma pontinha de tristeza, então, vai tonar-se num mau-estar a andar sempre aí a incomodar-te, como uma pedrinha no sapato. A Alegria deve deixar a Tristeza fazer parte. TU deverás aceitar a tristeza. Quem sabe, até, possas deixar a Zanga espreitar um bocadinho. Sei lá, deixa entrar todos os que estão a bater à porta. Logo vês como os geres (e rimos). A tua base, a tua essência é de pessoa de bem com a vida. Eu sei que hás-de encontrar o caminho, a forma de estar com todas as emoções de que és capaz. E nós estamos sempre aqui, para partilhares, para conversares quando te sentires confusa.

Bem-dita Riley e respectivas emoções. São evocadas tantas vezes nesta casa.

Agora, não consigo explicar melhor, estou aberta à discussão. Posso dar muitos outros exemplos do Divertida Mente aplicado à adopção.

Volto a esta citação que já tinha usado: in real life, sadness prompts people to unite in response to loss.

E, depois, este personagem que é o Bing Bong, por si só, já devia fazer-lhe valer o "Oscar" ;)

sou apaixonada e vidrada neste ser tonto e doce, alegre, inocente, generoso e altruísta
meio elefante, meio golfinho e cauda de gato, feito de algodão
simplesmente, derrete-me e põe-me um sorriso na cara :)


Para já, vinha mesmo era dizer-vos quem ganhou os “Oscares” :)

Cipreste


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

ENDOMETRIOSE ~ Marcha Mundial

Tenho-me apercebido de uma coisa nova em mim, uma viragem na forma como lido ultimamente com as coisas: uma vez resolvida determinada questão, saio dela, faço quase como que um abandono.

Vai fazer dois anos que fui histerectomizada (com anexectomia bilateral), que vivo sem dores, que disse adeus à endometriose. Desde então, quase que abandonei a luta em grupo, o apoio, a entre-ajuda. Eu não era assim. Depois vieram os meninos e eu pensava que andava arredada do grupo apenas por causa dos meninos.

A semana passada comecei a reflectir sobre a minha cada vez maior resistência e consequente incapacidade de lidar com uma situação com a qual sou confrontada diariamente e me obriga a fazer das tripas coração porque me traz sempre com a lembrança do meu pai.

E eis que... Eureka! 

Percebi o que se passava.

Custou-me a chegar lá porque se trata de uma viragem de tipo 180º.
Eu era aquela que enfrentava todos os touros de frente, procurava pegá-los pelos cornos e não largava até os deitar ao chão. E ficava ali a escarafunchar.
Mas uma pessoa muda. Pelo cansaço, uma pessoa também muda.
Por exemplo, eu via os maiores dramas do cinema e saía ilesa. Deixei de o conseguir fazer. Escolho muito bem o que vejo porque os efeitos secundários ficam muito localizados, ficam no lugar da angústia. E eu deixei de ter a mesma resistência à angústia. O que me traz em gestão controlada da mesma.

As minhas avós chamavam à coragem para enfrentar os touros de frente de “ter estômago”. Podemos dizer que as pessoas se vão dividindo entre as que têm estômago e as que não têm estômago.
Eu fui sempre uma gaija com muito estômago. Até profissionalmente fui sempre escolhendo as “piores” áreas de trabalho no que concerne sofrimento.

Mas estou cansada. O meu coração pediu-me tréguas.
Lembrei-me agora desta passagem, rápida e aflita, d’O Fugitivo de Sérgio Godinho:
É impossível
não é possível
correr tanto
e pensar tão
lucidamente
o coração
não aguenta
a cabeça também não
porque tenta
ultrapassar os seus limites?  
(oiçam, a sério, é boa demais esta obra)

É isto. Por agora, dei os meus 5cents para determinados temas. Em muitos momentos, ultrapassei os meus limites. Foram muitos eventos de vida traumatizantes em tão poucos anos. Preciso descansar, preciso de gerir a minha energia.

Sinto forças para estar no tema da adopção, porque ainda tem muita água para passar por debaixo da ponte e sinto muito estômago para a fazer escoar.

Sou solidária com todos os que estão nesta luta da endometriose, na luta contra cada um dos sofrimentos, mas o meu estômago não aguenta estar activa nesse lugar. Concerteza perco muitos momentos de comunhão. Poderia participar com ideias, com trabalho de facto, podia ajudar, mas não consigo.  Há umas semanas, aproveitei uma oportunidade, um contacto, para passar a mensagem junto de uma pessoa "conhecida" e fi-lo, farei sempre este tipo de abordagens, mas acho que não consigo mais por agora. Importa assumir isto, acabar com o equívoco (meu e dos outros) sobre expectativas da minha eventual participação. Neste momento, não consigo. Um dia destes, quem sabe possa voltar ao grupo de apoio.


Assim, fico-me pela adopção, onde há tanto para pensarmos e ver se fazemos algo mais concreto (na informação e apoio, por exemplo) nesta área (não sou só eu que sinto falta, pois não?).

Resta-me agradecer a quem faz da endometriose a sua causa, uma parte dos seus dias, e ajudar na sua divulgação.


Copiei integralmente a seguinte mensagem do site do site da Associação Portuguesa de Apoios às Mulheres com Endometriose:
No Sábado, dia 12 de Março de 2016, realizar-se-á, uma vez mais, uma marcha que pretende ter presente o maior número de pessoas possível, com o intuito de divulgar esta doença, que afecta tantas mulheres, mas que é ainda muito desconhecida e por isso mesmo, o seu diagnóstico é bastante tardio. Este ano o dia da Marcha não coincide em todos os países tendo sido dada a cada um a liberdade para escolher o dia que fosse mais conveniente para o seu país!
Em 2014, a nossa primeira marcha, foi um verdadeiro sucesso, contando com cerca de 200 pessoas. O ano passado ultrapassámos as 300 pessoas sendo um dos países em todo o mundo com maior adesão. Este ano queremos mais, muito mais!
Para se manterem a par de todos os preparativos para este grande evento, que este ano se realizará na cidade de Lisboa, por favor juntem-se à página do evento no facebook ou mantenham-se atentos ao nosso site!
Ajudem-nos na divulgação, ajudem-nos a ajudar. Juntem-se a nós neste dia tão importante que fará a diferença para muitas mulheres que por todo o mundo sofrem em silêncio sem um diagnóstico.
A participação no evento é gratuita mas para receber um kit de participação necessita de estar inscrito! Por favor façam as vossas INSCRIÇÕES AQUI