Mostrar mensagens com a etiqueta Declaração Universal dos Direitos da Criança. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Declaração Universal dos Direitos da Criança. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

isto é inadmissível - SHAME ON US

Pedi aos 37 simpáticos seguidores da nossa página no facebook para fazer partilha desta mensagem:

Serviço de Estrangeiros e FronteirasCâmara Municipal de Lisboa - Página OficialUNHCR - Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, Banco Alimentar Contra a FomeBanco BPIFundação Luís Figo, @Programa Comunitário de Ajuda Alimentar a Carenciados @PCAAC, SIC Esperança e Swatch já que apoiam (e bem) o Centro de Acolhimento Para Crianças Refugiadas (C.A.C.R.) do Conselho Português para os Refugiados, poderiam perguntar a quem de direito como é possível esta notícia? E quem é que vai ser responsabilizado? Agradece-se, desde já, a atenção.



27 menores refugiados desapareceram 
em Portugal

REUTERS/DARRIN ZAMMIT LUPI





sábado, 11 de outubro de 2014

ReMoved - parte II


Olá,
Lembram-se deste filme? Pois bem, os seus autores querem ir mais longe e estão a precisar de financiamento, para isso, lançaram esta acção de crowdfunding. Já agora, podem fazer "like" na sua página ;)
Beijinhos,

Cipreste e Chaparro

quarta-feira, 23 de abril de 2014

É preciso assumir que isto trata de ideias de supremacia

~ ~ ~

Há uns anos, após um passeio à beira-mar com uma amiga, deitámo-nos naquela linha de fim de rebentação, recebendo sol e água simultaneamente. Não sei como foi que, num ambiente tão descontraído, veio à baila uma conversa profunda sobre a existência. Às tantas, a minha amiga remata com a sua sentença de fútil em comparação comigo (não sei se eu seria, por antónimo, “útil”), – «Porque, ao contrário de ti, eu sou uma egoísta e uma irresponsável, não me preocupo com nada, só me interessa viajar, concertos, roupas, jantares e copos». Refutei veementemente os títulos com que se presenteara, a frase dela estava correcta excepto apelidar de egoísmo e irresponsabilidade a caracterização que fazia dos seus objectivos de vida.

Para mim, isto é claro como água:
– As pessoas são responsáveis na proporção do cumprimento dos compromissos que assumem.
– As pessoas são egoístas na proporção do prejuízo dos outros em favor da satisfação das suas necessidades acima-de-tudo.

A minha amiga é professora e assume a sua função muito competentemente. A minha amiga diverte-se muito e não prejudica ninguém em função do seu divertimento. A minha amiga consome aquilo que consome, sejam concertos, roupa ou copos, com o dinheiro que ganha do seu trabalho. A sociedade ensinou a minha amiga a apelidar-se de egoísta e irresponsável. Eu chamo a minha amiga de amiga e, fossem necessários epítetos face ao seu estilo de vida, diria “responsável” e “hedonista”. E dispensamos sentimentos judaico-cristãos de culpa. 

~ ~ ~

Hoje de manhã, enquanto tomava café no bar do meu local de trabalho com duas colegas, surge o assunto das barrigas de aluguer. As campainhas tocaram cá dentro, mas não tive a esperteza de sair de cena. Diz a colega nº1 que acha muito bem que se autorizem as barrigas de aluguer que é para ver se eles (“eles” quem?) aprendem(!), que é para não demorarem tanto tempo a dar bebés para adopção. Segurem-me senhores. (subitamente, preciso de um cigarro) Acreditam que eu respondi? Pois. Disse umas coisas sobre a adopção não ser uma fábrica de bebés para satisfazer a frustração biológica dos adultos. Mas ela insistiu e contou a história de uma amiga que visita uma menina numa instituição, uma menina que hoje tem 4 anos e que é visitada por este casal desde que tem 1 anito e meio, mas que o juiz nunca mais a liberta para a adopção. Pum. E eu, de rajada: que essas visitas, com esse objectivo, são exactamente o que não deveria acontecer. Esse casal pensa o quê? Que não precisa de estar em lista de espera junto do resto da plebe? Que simplesmente escolhe a criança que quer e depois é só reclamar dos tribunais? Que essa coisa que se diz da adopção ser uma solução de vida para as crianças em primeiro plano e não uma solução para os adultos que querem ser pais não é apenas uma coisa que se diz, pois que tem fundamentos lógicos, legais e éticos muito sólidos. Que quem quer adoptar tem de respeitar a lei. Que não é ético tornar-se família amiga com o primeiro objectivo da adopção. Existe o ser-se “família amiga” e, depois, existe o ser-se família de acolhimento, o ser-se candidato ao apadrinhamento civil ou à adopção. Não existe o escolher-se a criança e visitá-la com vista à adopção, fora do circuito estabelecido, que parte da Segurança Social e que é esta que escolhe o casal para a criança e não o contrário.
ISTO NÃO É DISCURSO PARA FAZER O BONITO. Isto não é um discurso vazio sobre o SUPERIOR INTERESSE DA CRIANÇA.
(definitivamente, depois disto hei-de cravar um cigarro a alguém) 


Vamos a ver, todos já ouvimos falar de histórias de crianças cuja vida está "empatada" em instituições à espera de serem “libertadas” para adopções. A lei provavelmente deveria ser revista, sim. Mesmo considerando a melhor instituição possível, concordamos que as crianças devem ter o direito a uma família, o direito a crescer num ambiente que lhe proporcione um crescimento saudável, e quando falamos de saúde estamos também a falar de saúde emocional, certo?
Há um mundo de coisas para dizer sobre isto, mas a principal lição a tirar é que a adopção deve existir, em primeiro plano, para assegurar uma família à criança. Dito de outra forma, a adopção não serve, em primeiro plano, para proporcionar filhos aos adultos. Não pode haver equívoco em relação a isto.

Falando daqueles que partem para a adopção com uma história de infertilidade por detrás, nós, os adultos temos de aceitar a nossa história, temos de aceitar as condicionantes que nos impediram da descendência biológica. Para ser bruta, em inglês, dizemos “get a grip”. Há que aceitar a realidade e encetar o luto da maternidade, ou paternidade, biológica. E, se pensarmos em recorrer à adopção para substituir o filho biológico tudo vai ser muito mais difícil e pode mesmo correr mal. Quando pensamos em adopção, sonhamos com maternidade e/ou paternidade, e é assim que deve de ser, é um sonho de constituir família - é certo, e o sentimento é que conta - é certo, mas convém estarmos muito conscientes de que é um sonho diferente. Não é pior nem é melhor, mas é definitivamente diferente.

Na adopção não há uma barriga, nem um parto, nem amamentação, nem comparações de parecenças com o pai ou a mãe. Na adopção há, de um lado, um ou dois adultos que desejam ter um filho e, do outro lado, há uma criança que carrega uma mochila cheia de histórias. Do outro lado, não há uma tábua-rasa que vem satisfazer um capricho. Do outro lado, há uma criança que precisa de ajuda para crescer, para aprender a confiar que nem todos os adultos são violentos ou negligentes ou omissos. Do outro lado, há uma criança que, de ter vivido tantos anos numa instituição, não sabe o que é ficar de pijama a comer porcarias (entenda-se guloseimas e afins) e a ver televisão o dia todo. Do outro lado, há uma criança que não sabe o que é poder ir ao frigorífico servir-se daquilo que lhe apetecer, mesmo que mais tarde lhe doa a barriga, porque o frigorífico não é seu e as horas das refeições estão escritas num papel oficial, junto com a ementa do mês e os horários das funcionárias. Do outro lado, se é que alguém os aconchega ao final do dia, não é sempre a mesma pessoa, e essa pessoa está apenas a cumprir uma profissão. Do outro lado, não houve a satisfação das necessidades ao desenvolvimento físico e emocional sem contratempos, sem preocupações de se passar fome ou de ser vítima de violência física e/ou psicológica. Do outro lado, ninguém diz "Não faz mal, a mãe/pai está aqui". Do outro lado, há muito provavelmente o sonho de ter uma família, de se ser protegido e não pode haver, nem há, espaço para aquilo que foi o nosso sonho da barriga, do parto, da amamentação, das comparações de parecenças com o pai ou a mãe. A esta altura, os sonhos que os adultos tiveram não interessam para nada.

A vida não me foi fácil e não me deu uma coisa que sonhei ter, pois, de facto, não foi. Mas eu tive um pai e uma mãe e muito amor e muita protecção e muito riso e muito saber o que é chorar todos juntos, todos juntos – um por todos e todos por um. Tenho a obrigação de ser consciente, altruísta e responsável. Se a vida não me deu o que eu queria, não posso usar a vida de uma criança para tentar fazer uma substituição disso. Nem que o tentasse fazer, seria impossível substituir um sonho com outro. Ah, e tal, posso ficar pelos cantos a suspirar pelo que não tive, é legítimo. Por outro lado, se eu mexer uma palha para tentar substituir o meu sonho usando a vida de uma criança através da adopção, então, meus senhores, poderão apelidar-me de egoísta e irresponsável. A verdadeira, e não a minha amiga de que falei no início do texto.

Eu sei que há muitas variáveis e História por detrás desta salganhada toda que é a adopção, mas os pontos têm de ser colocados nos i. Não se pode iniciar a adopção em equívoco acerca dos direitos nela implicados. Já li demasiadas histórias para tentar escapar ao reconhecimento do que é a adopção para o adoptado. Na adopção, os candidatos têm a obrigação de se informarem. Hoje em dia, temos informação grátis e acessível para todos e não concebo que alguém alegue que não sabe onde ir ler sobre adopção. É preciso procurar saber o que é isso do desenvolvimento, do crescer-se como adoptado, do direito à história natural e aos dados genéticos, do direito aos laços que se desejam. É preciso pôr-se o bem-estar dos filhos à frente do nosso – uma coisa que os pais costumam fazer, certo? Mas, do que tenho lido, sinceramente, fico a pensar que muitos pais adoptivos quando dizem que amam os seus filhos como se tivessem nascido de si, esquecem-se de que (1) eles não nasceram de si, pelo que (2) os seus filhos têm direito à sua história.


Quando chegamos a estes lugares de reflexão, digo-vos que tudo o que foi um dia o sonho de ter um bebé fica noutro universo.

Ficam, assim, a saber que estou a marimbar-me para a problemática dos casais que esperam tantos anos para adoptar um bebé.

A adopção não é uma construção à semelhança duma qualquer supremacia do sonho biológico, mas antes a responsabilidade de assumir o superior interesse do adoptado.

A adopção não é uma alternativa à biologia e eu gostava tanto de viver numa sociedade que compreendesse isto.


Cipreste

segunda-feira, 7 de abril de 2014

da protecção das crianças nesta era online

Ontem sonhei com uma menina que não conheço. Quer dizer, conheço, mas não conheço. Trata-se de uma menina cuja história acompanho online há 2 anos.
Visito amiúde uma mão-cheia de blogs sobre parentalidade e adopção, a maior parte anglófonos, há cerca de 3/4 anos. Antes mesmo de decidirmos pelo caminho da adopção. Digamos que antes de nos admitirmos, de nos assumirmos um ao outro, com vontade de embarcar na adopção. Dentre estes blogs, vou acompanhando a história desta menina e a da sua irmã (mais velha) - cuja história foi uma das primeiras que comecei a acompanhar.
Creio que o Chaparro não visita o blog, mas reconhece os nomes das meninas e as suas histórias, quando o informo de alguma novidade nunca pergunta “quem?!”, antes diz “oh, que bom” ou “que giro”.
Portanto, e pensando nisso agora, é como se estivéssemos a falar das filhotas de algum vizinho ou de amigos distantes. Acontece que não é disso que se trata, pois a relação não é bilateral. Nós sabemos quem é aquela família. Ou, no mínimo, conhecemos-lhes os rostos, para não falar de muitas coisas dos seus percursos de vida. Estão lá as imagens para vermos: blog, instagram, flickr, facebook, twitter, etc. E diga-se que são uma família bonita de se ver. E, repare-se que não se trata só de ver, trata-se de se associar a imagem ao que se sabe. Acompanhámos cada passo de cada cirurgia da mais nova. Sabíamos onde é que ela estava internada. Sabemos onde fazem as suas compras, onde gostam de ir tomar café. Sabemos datas, por ex, quando fazem anos.
É muita informação sobre uma família que, de mim, o máximo que poderá deter será o IP.

Esta era online traz-me sempre em reflexão. Nada é linear e nada compreendo à primeira. Quando penso que compreendi uma camada da existência online, percebo que há mais algumas que não estão tão visíveis, e volto quase à estaca zero nas conclusões a que havia chegado.

Sou do meu tempo, sou deste tempo. Não estaria aqui a comunicar convosco se não o fosse. Nunca andei no MIRC nem no IRC. Leio e detenho blogs desde cerca de 2003. Usei fóruns. Tenho uma conta pessoal no facebook com algumas páginas associadas. Agora que falamos nisso, nunca me ocorreu abrir uma página para este blog (será necessário ou útil?). Não twitto, porque não lhe acho graça. Enfim, sou do meu tempo. Porém vou sendo-o devagarinho. Talvez tenha sido das últimas entre os meus amigos a criar conta no facebook. Há fotos minhas com o rosto perfeitamente identificado, porque alguns amigos começaram a afixá-las (sem me perguntar, já agora) e dum ou outro evento duma coisa a que estou ligada e da qual ficaria difícil controlar a publicação de imagens, no caso de eu eventualmente fazer questão de não aparecer (mas chega a pouquíssima gente). Raramente uso uma foto do meu rosto no perfil e quando uso é sempre um pouco desfocada. Nunca partilho fotos de cenas domésticas com a identificação explícita das pessoas, e zelo sempre com mais cuidado pela identificação de pessoas que sei não estarem confortáveis com os fenómenos do online (nomeadamente duas grandes amigas).
Disclaimer: esta é a minha forma de estar online, não é melhor nem pior do que as outras (bom, e daí, outro assunto, acho que sim, que há pessoas que sabem melhor do que outras sobre como estar online), esta é a que me é natural e confortável.

Este assunto dá muito pano para mangas. E eu agora podia falar de educação e etiqueta online. Podia falar da liberdade a que algumas pessoas se dão publicando fotografias de terceiros sem se "importunarem" lembrarem de pedir autorização. Podia falar das relações online, nomeadamente de uma das coisas que mais abomino – os recados, vulgo indirectas, online. A falta de carácter que se vê a olhos nus de quem prefere deixar recados a resolver as suas questões olhos nos olhos é, para mim, das revelações mais óbvias da pobreza de espírito das pessoas. E nós a ver tudo e a pessoa a pensar que está a fazer um figurão: triste.

Adiante que eu dizia que isto dá pano para mangas mas o que me traz hoje aqui é a identificação de pessoas, especificamente de crianças e, mais especificamente ainda, a identificação de crianças adoptadas.

Sinceramente, se alguém me viesse dizer que sonhou com um filho meu, filho que não conhece para além das fotos e histórias do blog, acho que o meu primeiro impulso seria apagar o blog. Estou a exagerar ou isto arrepia um bocado? Ou devo simplesmente encarar estas meninas como vedetas, pessoas cujos rostos e histórias são públicos?
Reparem, o meu sonho foi muito inocente. Ainda assim, acordei com a sensação de ter sonhado algo que não devia.
Bom, talvez eu seja uma grande pudica e eram evitadas estas linhas todas de parlapié. Não sei, mas hei-de solucionar esta sensação estranha de ter sonhado que passeava a menina.

Para já, isto só veio confirmar a minha ideia de que pouco provavelmente divulgarei de forma explícita a imagem dos meus futuros filhos. 

esta imagem é-me tão ternurenta, vi-a ali e ficou-me cá dentro :)

Poucas pessoas dos meus relacionamentos têm conhecimento deste blog, talvez meia-dúzia e, dessas, são poucas as que me dizem que o visitam. Não o escondo dos meus amigos, apenas não creio que muitos deles tivessem interesse em lê-lo. Das pessoas que não me conhecem, acho que consigo preservar a nossa identidade. Até porque não somos pessoas públicas. Estou, portanto, convencida de que se tiram poucos nabos desta púcara. Ou antes, pelas partilhas de pensamentos que faço, conhecem-me mais a alma do que o rosto, o nome, a minha profissão ou onde vivo.


É bem certo que eu própria vou olhando as fotos dos meninos dos outros, mas não deixo de ler ou visitar blogs cujas imagens dos envolvidos estão protegidas. É também certo que pode chegar aqui alguém e reconhecer-me, nesse caso, sou grata pela vossa discrição ;)


Algumas notas para finalizar:

- discutir as motivações de algumas pessoas para se exporem, e às suas famílias, nos blogs e quejandos, sugerindo interesses de audiência associados a patrocínios são outros quinhentos e eu nem sequer vou por aí;

- há milhões de imagens de crianças online, bem sei, para publicidade, informação, sensibilização, etc., mas não é o mesmo que estar a imagem associada a relatos de vida; 

- mesmo para  famílias sem associação a adopção ou outras questões que incutam mais protecção, aqueles que crêem ser inócuo associar a imagem dos seus filhos a relatos engraçados das suas tropleias, podem sempre estar a dar informações, aos seus coleguinhas de escola por exemplo, que não têm a certeza de ser informação a ser usada de forma inocente. 

- deixando de lado teorias da conspiração, podem perguntar-me o que é que penso que pode acontecer de mal por divulgar a imagem de crianças - sei lá, um completo estranho sonhar com os vossos filhos não vos parece suficientemente estranho e justificação para nos sentarmos a pensar e a falar disto?

Don't get me wrong. Tenho tirado muito partido da dimensão online do mundo da parentalidade e da adopção. E gosto muito. E faz-me bem. Estou só a falar de cuidados que acho que não devemos descurar.

- Etc., etc. Eu disse: pano para mangas.



Bom dia e desejos de que tenham uma semana bonita,

Cipreste

domingo, 6 de abril de 2014

Merecer ser amado, cuidado, acarinhado




Vídeo por sugestão da Mãe Sabichona, a quem sou muito agradecida. 

Não resisti a fazer uma tradução-livre do "texto":

Por vezes, alguém magoa-nos tanto que deixa de doer de todo. Até que algo no faz sentir de novo. E depois volta tudo, cada palavra. Cada dor. Cada momento.
Como é que poderás alguma vez perceber de onde venho? Mesmo que perguntes. Mesmo que oiças. Não estás aqui, nem viste, nem sentiste. Tu não te lembras da minha história. Não caminhaste no meu trilho. Não viste o que eu vi.

O meu passado define-me. Isto é o que eu sou. Eu sou: invisível, sem voz, indesejada. Isto é o que eu sou, se é que sou algo.

Parece que a mesma coisa que me manteve foi a mesma que me levou abaixo. O mundo virou-se do avesso e a ordem desapareceu. Nada foi como deveria ser e uma tristeza dura preencheu-me a alma.
De forma cada vez mais profunda, afundei em mim mesma. E nada me conseguia fazer ressurgir. Encarcerada na miséria da minha vida. Perdida na dor da minha alma. Incapaz de ver a luz. Incapaz de ver a alvorada, de sentir, de ter esperança, de sonhar.
E assim os dias escuros continuavam a chegar, e as noites negros da minha alma não paravam. Parecia que era sempre de noite com pesadelos, e que nunca era de manhã. E talvez nos questionemos “porquê?”, mas na maior parte do tempo tentamos nem pensar nisso e tentamos escapar e sobreviver. E tudo o resto fica tão insignificante, a única coisa que desejamos é recuperar o que tínhamos. Como desejar que pudéssemos ver a nossa mãe a sorrir de novo. E ouvi-la a cantar aquela canção preferida que sempre nos acalmou. Ou, se não podemos recuperar a nossa mãe que, pelo menos, pudéssemos tomar conta do nosso irmão bebé. Porque sabemos que ele precisa de nós e que vai ter medo e sentir-se sozinho. E quem é que lhe vai agarrar a mão e segredar-lhe que vai correr tudo bem? E quem o há-de segredar a mim?

Sei que sou desamparada, dependente, desesperada. Mas o que acontece quando aqueles de quem precisávamos são os que mais ameaçam a nossa própria existência? Já ouvi muitas promessas, e todas soam ao mesmo. Se eu tentar o suficientemente, mais tarde ou mais cedo, todas as promessas provam ser vãs.

O sol nasce toas as manhãs, mas saberemos onde? Em cada lugar, é num sítio diferente. É difícil encontrar o norte quando continuamos a mudar, mas acabamos por encontra-lo. Ao menos isso. Habituei-me a depender disso. E devagarinho, devagarinho, as estações mudaram. E parecia que, desta vez, talvez o tapete não seria puxado por debaixo dos meus pés, de novo. Pés a salvo, raízes a começar a crescer, pequenos pedaços de esperança para mim. Devagarinho a tentar confiar nesta vida nova.
Desejo que alguém me diga que vai correr tudo bem. Que um dia, talvez, me sinta normal. E que não me sinta sempre sozinha. Que tenha uma mãe que me abrace e que seja forte por mim. Porque, talvez, eu não consiga fazer tudo sozinha.

Este é o meu passado. A minha história não é culpa minha, não é por minha causa. E não tem de ser o que define o meu futuro. Eu sou amável, eu mereço cuidado. E um vislumbre de luz faz toda a diferença.
Os vislumbres de luz dão-me esperança de que um dia o meu Verão chegue.

________________________________

“It would be impossible to fully understand the life and emotions of a child going through the foster care system, but this short narrative film portrays that saga in a poetic light, with brushes of fear, anger, sadness, and a tiny bit of hope.” - Santa Barbara Independent via

________________________________

Nota pessoal: O vídeo foi realizado para sensibilização sobre famílias de acolhimento, mas o que me interessa mesmo nele é a forma eficaz como nos deixa perceber o universo da criança que vive traumas, é retirada à família e entregue a estranhos. Nada mais consigo dizer, estou demasiado comovida.


Cipreste

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Unicef + Pedro Strecht

clicar para aumentar
Todas as crianças com mais de cinco anos têm direito a desabafar.

Todas as crianças até aos onze ou doze anos têm direito a andar grátis no Carrocel quando estão de férias.

Todas as crianças que andam na Escola têm direito a serem alegres, terem amigos e a brincarem com os outros.

Todas as crianças têm direito a ter uma Professora que não grite com elas.

Todas as crianças têm direito a ver o mar verdadeiro, especialmente em dia de maré vazia.

Todas as crianças têm direito a, pelo menos uma vez na vida, escolher um chocolate que lhes apeteça.

Todas as crianças têm direito a terem orgulho na sua existência.

Todas as crianças têm direito a pensar e a sentir como lhes manda o coração, até serem velhas, aí com uns vinte anos.

Todas as crianças têm direito a terem em casa o Pai e a Mãe, os irmãos, se houver, e comida. Se o Pai e Mãe não conseguirem viver juntos têm direito a que cada um deles respeite o outro.

Todas as crianças têm direito a deitarem-se no chão para ver as nuvens passar, imaginando formas de todos os bichos do Mundo combinadas com as coisas que quiserem (por exemplo, um cão a andar de patins ou uma girafa de orelhas compridas).

Todas as crianças têm direito a começarem uma colecção não interessa de quê.

Todas as crianças têm direito a chupar o dedo indicador que espetaram num bolo acabado de fazer ou então lamber a colher com que raparam a taça em que ele foi feito.

Todas as crianças têm direito a tentarem manter-se acordadas até tarde numa noite de Verão, na esperança de verem uma estrela cadente e pedirem três desejos (a justiça devia fazer acontecer sempre pelo menos um).

Todas as crianças têm direito a escrever ou a falar uma linguagem inventada por elas (ou que julgam inventada por elas), como por exemplo a «linguagem dos pês»: «apalinpingupuapagempem dospos pêspês».

Todas as crianças têm direito a imaginar o que vão querer fazer quando forem grandes (habitualmente coisas extravagantes) e a perguntar aos adultos «o que queres ser quando fores pequenino?».

Todas as crianças têm direito a dormir numa cama sua, sentindo o cheiro da roupa lavada, e a terem um espaço próprio na casa, pelo menos a partir do ano de idade.

Todas as crianças têm direito a passear na rua tentando pisar apenas o empedrado branco (ou só o preto); em opção, têm direito a fazer uma viagem contando quantos carros vermelhos passam na faixa contrária.

Todas as crianças meninos têm direito a, pelo menos uma vez na vida, perguntar a uma menina «queres ser a minha namorada?» e todas as meninas têm direito a, pelo menos uma vez na vida, responder, «sim, quero».

Todas as crianças têm direito a ouvir um adulto contar pelo menos uma destas histórias: Peter Pan, o Principezinho ou o Príncipe Feliz.

Todas as crianças têm direito a ter alegria suficiente para imaginar coisas boas antes de dormirem e depois, a sonhar com elas.

Todas as crianças têm direito a ter um boneco de peluche preferido, especialmente quando velho, já lavado e mesmo com um olho a menos.

Todas as crianças (especialmente se já adolescentes) têm direito a usar os ténis preferidos, mesmo que rotos e com cheiro tóxico.

Todas as crianças têm direito a poder tomar banho sozinhas e a experimentar mergulhar na banheira contando o tempo que aguentam sem respirar.

Todas as crianças têm direito a jogar aos polícias e ladrões, preferindo inevitavelmente serem ladrões.

Todas as crianças têm direito a ter um colo onde se possam sentar, enroscar como numa concha e receber mimos.

Todas as crianças têm direito a nascer iguais em direitos.

Todas as crianças têm direito a conhecer o sítio onde nasceram e a visitá-lo livremente.

Todas as crianças têm direito a não ficarem sozinhas a chorar.

Todas as crianças têm direito a viver num País que tenha um Ministério da Infância e Juventude, que olhe verdadeiramente pelo crescimento afectivo e bem-estar interior (sem preconceitos adultocêntricos ou hipocrisias com ares de cromo abrilhantado).

Todas as crianças têm direito a acreditar que têm um adulto que olha por elas e as ama sem condição prévia (nem que seja Nosso Senhor).

Todas as crianças têm direito a viver felizes e a ter paz nos seus pensamentos e sentimentos.

Pedro Strecht via maus tratos na infância