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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Temas fracturantes: onde a porca torce o rabo

(e o gosto de conversar, pelo que o post é muito longo e provavelmente inútil o tempo gasto a lê-lo)

Não foi há muitos anos que encontrei uma forma instantânea para me solucionar dúvidas nos temas fracturantes da sociedade.

Despenalização do aborto. Adopção por casais do mesmo sexo. Doação de gâmetas e o direito da pessoa a saber a verdade sobre a sua origem genética. Eutanásia. O cartaz do Bloco de Esquerda. Etc.

Estes assuntos são tão complexos que devemos sempre desconfiar de soluções instantâneas. Não usei a expressão acima para depois me contradizer como um truque de escrita para atrair a atenção de quem lê. A contradição está lá, ela existe. É verdade que, em determinados assuntos, uso da fórmula instantânea.

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Antes de avançar, gostaria de sublinhar três coisas:

- Não aceito a realização de referendos para a legislação de direitos individuais

- Acho que se deve dar lugar à discussão pública pelas entidades competentes e que esta, aliás, deve ser renovada amiúde e não apenas para o momento legislativo

- Acho que concordamos todos que estes temas são complexos. O facto de termos opinião sobre eles não quer dizer que os tratemos de forma leviana. Lamento que alguém encete uma discussão e que a arrume para canto confundindo o desejo de não continuar a discussão com a conclusão típica da complexidade do assunto e da sua privacidade.
~



As sociedades tendem à mudança. Aquilo em que se acreditava e que se advogava há 100 anos é muito diferente dos dias de hoje. Aliás, não precisamos de ir tão longe, o nosso país é um bom exemplo com o antes e o após a ditadura. E não esqueçamos que estou a falar do mundo ocidental com todas as diferenças dentro do mesmo (por exemplo, a pena de morte que ainda é muito real em tantos países do ocidente) e que existem fenómenos para nós arcaicos que são prática corrente em tantos outros países do “resto do mundo”. (só para registo: detesto esta distinção entre “ocidental” e “resto do mundo” mas não tenho agora tempo para ser menos “estereotipante”)


Quando uso as expressões “acreditava” e “advogava” estou a fazê-lo para distinguir aquilo que cada pessoa acredita para si daquilo que fica legislado. Isto é importante.


Ao afirmar acima que não foi há muitos anos que encontrei a forma instantânea de me solucionar nos temas fracturantes da sociedade o que quero dizer é que, tenho reparado que a chave para uma “solução” mais imediata para estas dúvidas está no lugar da discussão em que uma parte das pessoas recua.
Vou tentar explicar-me com exemplos.


Despenalização do aborto

Eu acho que somos todos contra o aborto e pró-vida. Aliás, acho a utilização da designação pró-vida por parte dos grupos contra a despenalização uma apropriação indevida do termo.

 A questão que se coloca não é se a pessoa é a favor do aborto, a questão que se coloca é a da sua despenalização e consequente abertura de condições para que seja realizado condignamente. Podia explorar agora o facto de que o aborto existe desde sempre etc., etc., mas não é aí que quero ir, eu quero ir à “solução instantânea”.
Eu acho que as pessoas se enredam nos milhentos argumentos emocionais e esquecem-se de se questionar sobre o significado de cada lado do tema.

Repare-se: se sou contra a despenalização do aborto isso quer dizer que sou a favor da sua penalização. Portanto, penso que a mulher que cometer aborto deverá ser penalizada legalmente (Coima? Prisão?) e, consequentemente, sou contra haver condições de saúde pública para que o façam em segurança. Não resolvo o fenómeno da existência do aborto na minha sociedade nem resolvo a consciência daqueles que praticam ou irão praticar o aborto. A única coisa que faço é permitir que se continue a fazer abortos em condições degradantes (mais toda a economia paralela do aborto) e que essas pessoas sejam punidas legalmente.

Afinal, o que houve de instantâneo aqui? O seguinte raciocínio: se sou contra a despenalização do aborto > sou a favor da sua penalização  > penso que a mulher que cometer aborto deverá ser penalizada legalmente (Coima? Prisão?) > e sou contra haver condições de saúde pública para que o façam em segurança.

É bem certo que o exercício, para ser intelectualmente honesto, deverá ser feito no sentido inverso. Vejamos o que me acontece: se penso que a mulher que cometer aborto não deverá ser penalizada legalmente  e se, reconhecendo que o aborto existe, sou a favor de haver condições de saúde pública para que o façam em segurança  > sou a favor da despenalização do aborto > sou a favor da sua legalização.

Agora questionam-me se a liberalização (sim, acabei de comparar despenalização com liberalização) não trará a sua vulgarização. O que traz a liberalização do aborto são outros quinhentos e os resultados estão à vista, lá está, com as sociedades ocidentais a tenderem todas para a liberalização. Bem, ninguém disse que o tema é simples, pelo contrário, assumi logo a sua complexidade. Não tenho respostas para tudo (ainda bem, senão era apenas uma idiota que pensava ter respostas para tudo). Sou apenas uma parva que pensa muitas coisas e que acaba a escrever sobre elas. E sei apenas que prefiro a segunda equação à primeira. Não desejo que ninguém vá para a prisão por ter feito um aborto e muito menos que morra por o ter feito fora das condições clínicas necessárias para o fazer.
Quando discuto isto com alguém que seja contra a despenalização, este é o momento em que a pessoa vai embora ou põe um ponto final no assunto. Até hoje, não conversei directamente com uma pessoa que me assumisse que sendo contra a despenalização do aborto > logo, é a favor da sua penalização  > e que portanto pensa que a mulher que cometer aborto deverá ser penalizada legalmente (Coima? Prisão?) > e que é contra haver condições de saúde pública para que o façam em segurança.


Adopção por casais do mesmo sexo

Eu acho que estamos todos de acordo que crescer numa instituição não é melhor do que crescer numa família com amor. A questão que se coloca para lá dos direitos das pessoas homossexuais é esta. É do interesse da criança que falamos e não dos adultos, um interesse superior, portanto.

Repare-se: se sou contra a adopção por casais do mesmo sexo isso quer dizer que sou a favor que as crianças continuem institucionalizadas ao invés de serem adoptadas. Portanto, penso que a criança está melhor numa instituição do que no seio de uma família devido à orientação sexual dos pais (ou mães). Uso, por exemplo, a velha deixa da possibilidade da criança ficar traumatizada por ser gozada na escola por ter dois pais (ou duas mães). Imaginemos a cena: a criança adoptada por pais do mesmo sexo é gozada por causa disso e vai para casa, chora, os pais conversam com ela, acarinham-na e ensinam-lhe que o mundo é mesmo assim - injusto e reactivo a tudo o que é diferente de si, à noite, são estes pais que aconchegam esta criança; a criança institucionalizada também anda na escola, é gozada porque é institucionalizada/gorda/magra/clara/escura/inteligente/o-que-desejarem e vai para “casa”, chora, com sorte (muita) uma das funcionárias tem 5 minutos para falar consigo, com sorte essa funcionária acarinha-a e diz-lhe que o mundo é mesmo assim - injusto e reactivo a tudo o que é diferente de si, à noite, não é esta funcionária que aconchega e acarinha esta criança porque já acabou o seu turno. Faz todo o sentido proteger as crianças de serem gozadas, sim senhor. Prefiro, portanto, que a criança cresça sem o amor e a protecção de dois pais (ou duas mães) convencida de que a estou a proteger de vir a ser gozada.

O que traz a adopção por casais do mesmo sexo não me preocupa porque sempre houve crianças a serem criadas por casais do mesmo sexo.

Afinal, o que houve de instantâneo aqui? O raciocínio: se sou contra a adopção por casais do mesmo sexo > sou a favor da institucionalização das crianças mesmo que haja um casal que a queria adoptar.

É bem certo que o exercício, para ser intelectualmente honesto, deverá ser feito no sentido inverso. Vejamos o que me acontece: se não sou a favor da institucionalização das crianças havendo quem que as queria adoptar, amar e criar > sou a favor da adopção por casais do mesmo sexo.

Bem sei que acima ilustrei de forma aparentemente leve as preocupações que as pessoas “contra” têm, desde o trauma à leitura bíblica apelidada errada e convenientemente de biologia. Mas estou antes a falar do imediato família-instituição. Agora questionam-me sobre a passagem de casais do mesmo sexo à frente de casais de sexos diferentes nas listas para a adopção. Bom, o problema é o mesmo que o das adopções individuais. Uma vez mais, ninguém disse que o tema é simples, pelo contrário blábláblá. Seja como for, prefiro a segunda equação à primeira. Não desejo que nenhuma criança cresça numa instituição se houver quem a deseje e saiba amá-la.

Quando discuto isto com alguém que seja contra a adopção por casais do mesmo sexo, este é o momento em que a pessoa vai embora ou põe um ponto final no assunto. Até hoje, não conversei directamente com uma pessoa que me assumisse que se é contra a adopção por casais do mesmo sexo > está a ser a favor da institucionalização das crianças mesmo que haja um casal que a queria adoptar.


Doação de gâmetas e o direito da pessoa a saber a verdade sobre a sua origem genética

Eu acho que estamos todos de acordo que temos direito a saber tudo o que envolve a nossa existência. Acho.

Compreendo e sou a favor da procriação medicamente assistida através da doação de gâmetas e admiro muito as pessoas que a ela recorrem. Mas não lhes reconheço o direito de decidir ocultar esse facto à pessoa que nasce de tal processo.

Imaginemos a cena: a decisão de “contar ou não contar” cabe aos pais, os pais não contam, um dia o filho acaba por saber e agora? Não se iludam, muito provavelmente qualquer dia há testes genéticos na farmácia e esse filho que um dia foi só um bebé, cresce e forma opiniões, nomeadamente sobre a sua vida, mas a situação descrita não o contempla como senhor da sua verdade.

Afinal, o que houve de instantâneo aqui? O raciocínio: sou a favor de que a decisão de “contar ou não contar” cabe aos pais > sou a favor de esconder a verdade à pessoa (o bebé cresce, um dia há-de ser um adulto como os pais o foram na hora da decisão de ocultar) sobre a sua história > sou a favor de que tenho mais direito à história de vida do meu filho do que ele > sou a favor de que tenho mais direitos do que o meu filho.
Hum?! Pois. E sou grata a quem me venha mostrar onde estou errada no raciocínio.

É bem certo que o exercício, para ser intelectualmente honesto, deverá ser feito no sentido inverso. Vejamos o que me acontece: se sou a favor de que o meu filho tem tantos direitos individuais como eu > se sou a favor de que tenho tanto (ou menos) direito à história de vida do meu filho do que ele > sou a favor de ter de dizer a verdade à pessoa sobre a sua história >  sou a favor de que a decisão de “contar ou não contar” não cabe aos pais.

A situação é difícil e acredito que a gestão do “contar” não seja fácil de fazer. Quando? Com que idade? E depois? Com que preço? Etc. Mas não é este facto que deverá tolher o tema, uma vez mais, são questões que ficam em segundo plano. Questões muito pertinentes, é certo, mas não estão no primeiro plano de interesse. Pois, aqui, o que se discute é o direito à verdade.


Eutanásia

Eu acho que todos temos o direito de decidir como desejamos levar a nossa vida, uma vez que não implique maleficência a outros.

Compreendo e sou a favor da medicina procurar prolongar a vida, nomeadamente da evolução dos cuidados continuados e especificamente no controlo da dor. Compreendo que a avaliação de cada caso é uma tarefa muito completa e que exige muita competência e parcimónia por parte dos envolvidos. Não sou a favor de manter as pessoas vivas contra a sua própria vontade, nomeadamente situações de introdução forçada de sondas nasogástricas, por exemplo. Acredito na morte assistida, acredito que a pessoa que deixe de ter condições físicas para terminar a sua vida possa ainda ter algum recurso para o fazer. Mas escapa-me tudo o resto, não consigo avançar e também me escapa completamente a forma como isto tudo deve e possa ser feito. É para mim, dentre os temas fracturantes, dos mais complexos.

Continuando no meu registo de pensante simplória, acho que o facto de haver possibilidade legal de alguém acabar com a vida de outrem extravasa os temas que referi acima. Acabar com a vida de uma pessoa não é, para mim, o mesmo que acabar com a vida de um feto, por exemplo.

Não consigo fazer aqui um raciocínio instantâneo. Fico sossegadita no meu canto, apanho uma opinião aqui, outra ali e leio, mas não me consigo solucionar além do “eu acho que a pessoa tem direito e deveria ter forma de obter ajuda”. Apesar disso, não consigo tecer mais considerações e, no mínimo, magoa-me e assusta-me a hipótese de tal tema vir a ser alvo de consulta popular.


O cartaz do Bloco de Esquerda

Ná, não estou nem aí, foi só uma provocaçãozinha :)



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Na verdade, este texto surgiu num momento em que me senti um pouco frustrada com a fuga que se costuma ver neste tipo de discussões. Uso muitas vezes este tipo de raciocínio, da solução instantânea como lhe resolvi chamar hoje e acho que acabo por ser interpretada como querendo argumentar até à evangelização do outro. Talvez as pessoas pensem que estou a ser leviana ao querer ir por partes. Talvez seja apenas uma impressão errada, ou talvez sejam complexos por ser tão faladora e cheia de opiniões.

Fui opiniativa desde muito pequenina. Em 1999, num reencontro após 18 anos, um amigo de infância, cerca de 7 ou 8  anos mais velho do que eu, numa conversa à volta de um belo almoço diz “Ah, mas a Cipreste tinha 4 anos e já era muito cheia de opiniões”. Ele disse isto com graça, sem qualquer tom de censura. Lembro-me de ter uma daquelas sensações de que tudo parou naquele momento. Afinal, eu sempre fora assim. Ele usou a expressão em inglês “opinionated”. Caramba, nunca tinha pensado nisto. Quer dizer, era evidente para mim que sempre fui muito conversadora e curiosa, formando opiniões sobre os mais variados assuntos, mas não tinha consciência de o ser desde sempre, de ser parte da minha essência.

Se não estivermos de bem com as nossas opiniões e respectivas dúvidas, se não estivermos conscientes de que estas são dinâmicas, pode ser difícil ser-se assim. Há uma facção da sociedade que trata os opinionated como uns chatos, com exclamações de género “lá vens tu com as tuas opiniões”. É verdade que as pessoas com o meu perfil, se não tiverem muito jeito para a diplomacia, podem ser conotadas como tal. Ora, não lamento e não peço desculpa por pensar e construir ideias e, o escândalo, querer discuti-las. Lamento, no entanto, quando as pessoas saem de fininho, tenho pena e claro que tento rever se foi a minha postura e não o assunto em si.

Um dos únicos confortos que encontro nestas reflexões e discussões é que as minhas ficam-se só por aí. Não faço parte de qualquer grupo legislador porque isto tudo vai muito além dos raciocínios instantâneos e é a partir daí que a porca torce o rabo e eu fico aflita só de imaginar que são pessoas como eu que podem vir a definir o caminho a tomar nestes temas, se consultados através de referendo.
E fico confusa muitas vezes pois grande parte dessas mesmas pessoas que preferem chutar para o canto a discussão de determinado tema são as que não se incomodam que o tema seja referendado. É estranho, não é? Ou então é só impressão minha.


Olá, o fim-de-semana foi bom?
Cipreste

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

num segundo se evolam tantos anos

AVISO: não foi, nem é minha intenção, mas este post pode ser um pouco (muito? nem sei) depressivo



- - -


Eu sou muito cómica, a sério, divirto-me muito a mim própria. Devo ser simultaneamente a pessoa que mais me entedia e a pessoa que mais me entretém neste andar à roda com os assuntos - baralhar, voltar a dar e baralhar de novo.
Confesso que tão depressa é divertido (no sentido cómico) como também cansa.

Então… não é que, por causa do post abaixo, me fui lembrar da canção da Aimee Mann – Wise Up desse filme grande que é o Magnólia (oh, coincidência néscia a do nome deste filme com o nickname que arranjei para a minha filha neste blog).
E, como se não bastasse, fui ver o vídeo.

Oh, minha nossa senhora das chafurdeiras na dor, tende compaixão de mim.


Vou deixar-vos já o vídeo, para os mais corajosos.



Agora, reparem no que me aconteceu ao ver o vídeo, faço-vos acompanhar da letra da canção e da minha interpretação (podem pôr a tocar de novo se pertencerem, como eu, à congregação de nossa senhora das chafurdeiras na dor)...

Primeiro, a imagem do meu pai e eu com ele nas suas últimas horas. Que dor. Que dor!
É bem certo que guardo estas horas como um dos meus maiores tesouros.
A vida não me deu o primeiro suspiro dos meus filhos, guardou outro requinte para mim, deu-me o último suspiro do meu pai.

Estou eu a achar que a dor de consciência por me irritar com os meus filhos é um problema, vou ouvir música para lamber feridas (sou tão estúpida,  tão freudamente… estúpida) e dou de caras com esta imagem deste vídeo que já vi milhentas vezes. 

Não me posso queixar, eu é que fui à procura. Lágrimas, portanto.


Sigo com o vídeo, aquele “you’re so stupid” dito em sussurro. Outro murro.

E aparece-me a minha mãe, viúva. Dói de novo.

Depois, começamos a aparecer todos. A imagem do cheque pago pelo “superior knowledge”. Conhecimento superior my ass. Continuamos tão básicos e primitivos como desde Edgar Adão e Eva ou lá como se chamou o primeiro Homo Sapiens (sabem que quer dizer “wise man”, certo? hahaha).

Seguimos, não fazemos pausa no vídeo. Aparecem os medicamentos novamente, as drogas, o álcool. Não, nem esses nem a grande sapiência da medicina te vai trazer a resposta. Estúpidos! Pensar que pode existir uma cura para a existência, estúpidos.

Nem a água da chuva há-de lavar a tua dor.

Desde os mais acompanhados aos mais solitários, estamos sós na nossa essência, na nossa busca.
E a derradeira imagem da infância. Saber isso desde a infância (deve ser a tristesse que sentia em criança). Essa imagem da criança frente a um livro (pois não, também não está nos livros, amigo) e verbaliza: give up.

Saber, desde o início – o do mundo e o nosso, o de cada um de nós, saber que há uma parte disto que só vai começar a funcionar em plenitude quando tivermos a sensatez de parar de querer saber a solução para o mistério da vida


Por vezes, só por vezes, como disse David Mourão-Ferreira no poema, E por vezes por vezes ah por vezes/ num segundo se evolam tantos anos.


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Comic reflief: quando acabei de ver o vídeo, ligou-me uma pessoa que não conheço, apresentou-se, chama-se... Dores.

A sério, acho isto bastante divertido.

Não se zanguem comigo se levarem daqui uma pontinha de angústia. Desculpem qualquer coisinha. Vou pensar nalguma coisa para vos deixar aqui à laia de melhor disposição para o fim-de-semana.

Um abraço,
Cipreste

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

a adopção - tema a tema

Eu tinha tantos planos para vos escrever nestas mini-férias de Carnaval, mas estivemos demasiado ocupados aos mimos e abracinhos pelo que os posts ficaram em banho-maria.
Sei que é uma queixa recorrente da minha parte, mas reparem nos posts que tenho em rascunho e respectivos temas em lista de espera:

Enxoval – quando nos tornamos pais de uma semana para a outra e temos de 1. Montar quarto e 2. Ter roupa e brinquedos à espera do(s) filhos(s)

O álbum de apresentação dos pais aos filhos

Álbum de vida, a continuação após o centro de acolhimento

Dias D - o primeiro encontro entre pais e filhos e todos os outros primeiros dias

As abordagens das equipas de adopção - o passo-a-passo visto cá deste lado

O encontro com a figura misteriosa “O Juiz” 

O grande dia - receber o cartão de cidadão, a imensa força da identidade

e, precisamente... identidade na adopção

Vinculação – o (duro) processo do parto de uma família

A relação entre o filme Divertida Mente e a adopção (não me esqueci que te devo uma resposta, Joana)

Outra resposta que te quero escrever, Joana, ou antes, não é bem uma resposta, mas tenho este tema em espera também – A mãe perfeita e outros perfeccionismos

Malditos pesadelos, homens e monstros maus!

Adopção aberta - afectos e laços e o seu lugar no presente

O cordão umibilical com o centro de acolhimento

Traumaversary

Adopção de crianças "mais velhas"

Adopção e escola

Adopção e... o resto da sociedade

Muitas novidades da Magnólia
E tantas outras do Chaparrito

~  ~  ~

Para já, deixo-vos com 2 curtas deliciosas do passado fim-de-semana:

Falávamos da evolução da espécie humana ao jantar (não me lembro como surgiu o tema) e a Magnólia muito confusa: 
- Mas a minha catequista de antigamente disse-me que foi o Edgar e a Eva que blábláblá…

Afinal, havia outro e nós não sabíamos :D


Ainda ao jantar, comentei “dá chuva” para o fim-de-semana pelo que seria provável o adiamento do cortejo de Carnaval. Mas o Chaparrito elucidou-me:
- Não, não, mamã, eu vi o tempo e eles dão arco-íris para sábado e para domingo
- Hm?
- Sim, sim, eu vi, tinha um sol e chuva 

Family- Rainbow Happiness, 2012

Há lá coisa mais boa?

Até já,
Cipreste

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

solidão (e outras formas de mau-estar) na missão da parentalidade

Dei comigo a fazer coisas que jamais imaginei fazer (talvez até jurasse que nunca o faria): gritar aos meus filhos e... (engolir em seco antes de escrever isto)... dar-lhes palmadas.

Sim, já dei palmadas aos meus filhos e não me orgulho de o dizer. 
Não, não passei a acreditar nas palmadas pedagógicas e, sim, continuo a achar que ninguém tem o direito de violentar ninguém - quer seja verbal, quer seja fisicamente.

E agora, onde fica a minha incoerência?
Fica num buraco triste e sem fundo. Fica numa desilusão imensa de mim para mim. 
Mora nos momentos de desespero em que cresce uma distância imensurável entre aquilo em que acredito e a urgência em mostrar-lhes que determinado comportamento é inadmissível.
E respondo com um comportamento também inadmissível.
Será que, afinal, acredito na palmada pedagógica? É que, reparem, luto contra a ideia de que a minha palmada foi um acto incontrolável. Eu não sou como os protagonistas da violência doméstica que depois se mergulham em choros e pedidos de desculpa, eu não digo que não o queria fazer (não o desejava fazer, mas sabia o que estava a fazer).
Afinal, quem comanda o quê nestes momentos? O desespero. É o desespero que toma conta de nós, é a ideia de "último recurso". E quando caímos em nós, pensamos que não pode ser. Sendo bem certo que a palmada surge após a escalada de comportamentos abusivos e repetidos por parte das crianças, há sempre hipótese de fazerem pior, e depois o que fazemos? Mais palmadas? Até doer a sério? Não, não pode ser.
E, assim, damos por nós num lugar solitário e dorido e de arrependimento atroz: falhámos numa das promessas mais importantes, falhámos num dos princípios mais básicos na nossa ética de vida. E cresce uma dor profunda dentro de nós. Olhamos os nossos filhos e pensamos coisas terríveis sobre os danos possíveis da palmada. (não, não me escondo atrás do "eu levei palmadas e não estou traumatizada")
Olhamos os nossos filhos e não nos resta mais senão aceitar a nossa humanidade, que nada mais é do que a prova da nossa imperfeição. Olhamos os nossos filhos e sentimos a urgência de compaixão: para com eles e... para connosco.
Voltamos a fazer votos com as nossas convicções - depois de as confirmarmos de nós para nós (haverá quem as mude e passe a incluir a palmada no seu repertório?).
Isto tudo dói terrivelmente. Por esses dias, fugimos de toda a informação sobre a parentalidade positiva e com apego e não é por tentar negar esses princípios - é por nos sentirmos indignos da companhia de quem se mostra mais capaz do que nós.
O amor entretanto sobrepõe-se e recomeçamos o regresso à sensação de sermos também dignos.
E todo este caminho é tão solitário.

Esta solidão tem muitas portas por onde entra: os juízos de valor, por exemplo, que já nos magoaram profundamente. Se já é difícil que as pessoas sejam compassivas na parentalidade biológica de cada um, garanto-vos que na parentalidade através da adopção o não são de forma implacável. Principalmente as pessoas que têm dificuldade em aceitar quem vive de forma diferente à sua. Sentimos nos seus olhares, ouvimo-lo nas suas palavras e recebemo-lo como balas no peito através de algumas atitudes - que nos doem mais ainda quando são direccionadas aos nossos filhos: primeiro atiram e só depois perguntam. E eu deixei de responder. Fechei a loja para quem me julgou implacavelmente e me deitou ao chão em três tempos morais. Acabou. Porque há limites para os falsos humildes, os falsos simples. Há limites para o espaço que damos aos passivo-agressivos das nossas vidas. Há limites para a benevolência perante atitudes sobranceiras e que trazem mau-estar de facto. Cada um que se amanhe com as suas inseguranças, mas que não as imponha aos outros por causa de serem diferentes.

E, assim, damos por nós numa solidão maior. É bem certo que é uma solidão também escolhida, mas não deixa de ser um lugar difícil.

Entretanto, fiz escolhas conscientes e calculadas. Mantenho todas as pessoas nos meus círculos, apenas umas estão nos círculos mais interiores enquanto outras passaram para círculos mais afastados do meu centro.

Dei com esta moça há algum tempo - cujo site certeiramente se chama "famílias imperfeitas", diz umas coisas que me têm ajudado. Fala desta solidão que  creio que todos, em alguma altura, já sentimos. Fala de algo que nunca devemos deixar de fora desta equação e cuja expressão em língua inglesa exprime muito bem: it takes a village (to raise a child) - a comunidade...



Cipreste

domingo, 19 de julho de 2015

ambições

"só" queria conseguir isto:

«Ser “desnecessária” é não deixar que o amor incondicional de mãe, que sempre existirá, provoque vício e dependência nos filhos,(...) Porque o amor é um processo de libertação permanente e esse vínculo não pára de se transformar ao longo da vida. (...) O que eles precisam é ter certeza de que estamos lá, firmes, na concordância ou na divergência, no sucesso ou no fracasso, com o peito aberto para o aconchego, o abraço apertado, o conforto nas horas difíceis. Pai e mãe – solidários – criam filhos para serem livres.»

via este link, que não refere a autoria do texto