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quarta-feira, 16 de março de 2016

nesta pequena aldeia

Ando muito atarefada com um novo e muito aliciante projecto que nada tem a ver com a maternidade nem com a minha profissão, é uma coisa da minha vida dupla e que me faz sentir muito eu, muito a Cipreste ela própria e isso é tão bom, tão revigorante.

Adiante.

Venho dar espreitadas aos blogs dos meus vizinhos e hoje senti o meu coração quentinho.

A Olívia escreveu uma carta à mãe de coração e eu senti-me ali, dentro daquele círculo. Sei que não fui chamada para a conversa, não tinha de ser. Sabemos que fazemos parte de uma comunidade quando nos sentimos parte daquele grupo de pessoas. Senti-me parte de um voto de compreensão e entre-ajuda, para lá das diferenças que são naturais entre as pessoas.

Li a carta e senti-me ao lado da Olívia a dizer à mãe de coração «Estamos aqui, um por todos e todos por um».

Somos poucos*, ou eu é que não os encontro, nesta blogosfera dos pais através da adopção, mas a sensação de comunidade começa a estar lá para mim. A sensação de viver numa pequena aldeia.

It takes a village, diz uma expressão popular em língua inglesa, omitindo o final da frase, pois está lá implícita... to raise a child.

É necessária uma aldeia para criar uma criança.
E garanto-vos que neste mundo da adopção isso se sente de forma muito intensa.
encontrei esta imagem num blog, sem refª ao autor
diz a imagem que a expressão é de origem africana...

Hoje inauguro esta etiqueta - It takes a village, em honra desta pequena comunidade amiga de que me vou sentindo parte.

Bom dia, vizinhos,
Cipreste

* um dia destes vou fazer um apelo à reunião de todos os links da adopção, portugueses, que conheçamos

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Temas fracturantes: onde a porca torce o rabo

(e o gosto de conversar, pelo que o post é muito longo e provavelmente inútil o tempo gasto a lê-lo)

Não foi há muitos anos que encontrei uma forma instantânea para me solucionar dúvidas nos temas fracturantes da sociedade.

Despenalização do aborto. Adopção por casais do mesmo sexo. Doação de gâmetas e o direito da pessoa a saber a verdade sobre a sua origem genética. Eutanásia. O cartaz do Bloco de Esquerda. Etc.

Estes assuntos são tão complexos que devemos sempre desconfiar de soluções instantâneas. Não usei a expressão acima para depois me contradizer como um truque de escrita para atrair a atenção de quem lê. A contradição está lá, ela existe. É verdade que, em determinados assuntos, uso da fórmula instantânea.

~
Antes de avançar, gostaria de sublinhar três coisas:

- Não aceito a realização de referendos para a legislação de direitos individuais

- Acho que se deve dar lugar à discussão pública pelas entidades competentes e que esta, aliás, deve ser renovada amiúde e não apenas para o momento legislativo

- Acho que concordamos todos que estes temas são complexos. O facto de termos opinião sobre eles não quer dizer que os tratemos de forma leviana. Lamento que alguém encete uma discussão e que a arrume para canto confundindo o desejo de não continuar a discussão com a conclusão típica da complexidade do assunto e da sua privacidade.
~



As sociedades tendem à mudança. Aquilo em que se acreditava e que se advogava há 100 anos é muito diferente dos dias de hoje. Aliás, não precisamos de ir tão longe, o nosso país é um bom exemplo com o antes e o após a ditadura. E não esqueçamos que estou a falar do mundo ocidental com todas as diferenças dentro do mesmo (por exemplo, a pena de morte que ainda é muito real em tantos países do ocidente) e que existem fenómenos para nós arcaicos que são prática corrente em tantos outros países do “resto do mundo”. (só para registo: detesto esta distinção entre “ocidental” e “resto do mundo” mas não tenho agora tempo para ser menos “estereotipante”)


Quando uso as expressões “acreditava” e “advogava” estou a fazê-lo para distinguir aquilo que cada pessoa acredita para si daquilo que fica legislado. Isto é importante.


Ao afirmar acima que não foi há muitos anos que encontrei a forma instantânea de me solucionar nos temas fracturantes da sociedade o que quero dizer é que, tenho reparado que a chave para uma “solução” mais imediata para estas dúvidas está no lugar da discussão em que uma parte das pessoas recua.
Vou tentar explicar-me com exemplos.


Despenalização do aborto

Eu acho que somos todos contra o aborto e pró-vida. Aliás, acho a utilização da designação pró-vida por parte dos grupos contra a despenalização uma apropriação indevida do termo.

 A questão que se coloca não é se a pessoa é a favor do aborto, a questão que se coloca é a da sua despenalização e consequente abertura de condições para que seja realizado condignamente. Podia explorar agora o facto de que o aborto existe desde sempre etc., etc., mas não é aí que quero ir, eu quero ir à “solução instantânea”.
Eu acho que as pessoas se enredam nos milhentos argumentos emocionais e esquecem-se de se questionar sobre o significado de cada lado do tema.

Repare-se: se sou contra a despenalização do aborto isso quer dizer que sou a favor da sua penalização. Portanto, penso que a mulher que cometer aborto deverá ser penalizada legalmente (Coima? Prisão?) e, consequentemente, sou contra haver condições de saúde pública para que o façam em segurança. Não resolvo o fenómeno da existência do aborto na minha sociedade nem resolvo a consciência daqueles que praticam ou irão praticar o aborto. A única coisa que faço é permitir que se continue a fazer abortos em condições degradantes (mais toda a economia paralela do aborto) e que essas pessoas sejam punidas legalmente.

Afinal, o que houve de instantâneo aqui? O seguinte raciocínio: se sou contra a despenalização do aborto > sou a favor da sua penalização  > penso que a mulher que cometer aborto deverá ser penalizada legalmente (Coima? Prisão?) > e sou contra haver condições de saúde pública para que o façam em segurança.

É bem certo que o exercício, para ser intelectualmente honesto, deverá ser feito no sentido inverso. Vejamos o que me acontece: se penso que a mulher que cometer aborto não deverá ser penalizada legalmente  e se, reconhecendo que o aborto existe, sou a favor de haver condições de saúde pública para que o façam em segurança  > sou a favor da despenalização do aborto > sou a favor da sua legalização.

Agora questionam-me se a liberalização (sim, acabei de comparar despenalização com liberalização) não trará a sua vulgarização. O que traz a liberalização do aborto são outros quinhentos e os resultados estão à vista, lá está, com as sociedades ocidentais a tenderem todas para a liberalização. Bem, ninguém disse que o tema é simples, pelo contrário, assumi logo a sua complexidade. Não tenho respostas para tudo (ainda bem, senão era apenas uma idiota que pensava ter respostas para tudo). Sou apenas uma parva que pensa muitas coisas e que acaba a escrever sobre elas. E sei apenas que prefiro a segunda equação à primeira. Não desejo que ninguém vá para a prisão por ter feito um aborto e muito menos que morra por o ter feito fora das condições clínicas necessárias para o fazer.
Quando discuto isto com alguém que seja contra a despenalização, este é o momento em que a pessoa vai embora ou põe um ponto final no assunto. Até hoje, não conversei directamente com uma pessoa que me assumisse que sendo contra a despenalização do aborto > logo, é a favor da sua penalização  > e que portanto pensa que a mulher que cometer aborto deverá ser penalizada legalmente (Coima? Prisão?) > e que é contra haver condições de saúde pública para que o façam em segurança.


Adopção por casais do mesmo sexo

Eu acho que estamos todos de acordo que crescer numa instituição não é melhor do que crescer numa família com amor. A questão que se coloca para lá dos direitos das pessoas homossexuais é esta. É do interesse da criança que falamos e não dos adultos, um interesse superior, portanto.

Repare-se: se sou contra a adopção por casais do mesmo sexo isso quer dizer que sou a favor que as crianças continuem institucionalizadas ao invés de serem adoptadas. Portanto, penso que a criança está melhor numa instituição do que no seio de uma família devido à orientação sexual dos pais (ou mães). Uso, por exemplo, a velha deixa da possibilidade da criança ficar traumatizada por ser gozada na escola por ter dois pais (ou duas mães). Imaginemos a cena: a criança adoptada por pais do mesmo sexo é gozada por causa disso e vai para casa, chora, os pais conversam com ela, acarinham-na e ensinam-lhe que o mundo é mesmo assim - injusto e reactivo a tudo o que é diferente de si, à noite, são estes pais que aconchegam esta criança; a criança institucionalizada também anda na escola, é gozada porque é institucionalizada/gorda/magra/clara/escura/inteligente/o-que-desejarem e vai para “casa”, chora, com sorte (muita) uma das funcionárias tem 5 minutos para falar consigo, com sorte essa funcionária acarinha-a e diz-lhe que o mundo é mesmo assim - injusto e reactivo a tudo o que é diferente de si, à noite, não é esta funcionária que aconchega e acarinha esta criança porque já acabou o seu turno. Faz todo o sentido proteger as crianças de serem gozadas, sim senhor. Prefiro, portanto, que a criança cresça sem o amor e a protecção de dois pais (ou duas mães) convencida de que a estou a proteger de vir a ser gozada.

O que traz a adopção por casais do mesmo sexo não me preocupa porque sempre houve crianças a serem criadas por casais do mesmo sexo.

Afinal, o que houve de instantâneo aqui? O raciocínio: se sou contra a adopção por casais do mesmo sexo > sou a favor da institucionalização das crianças mesmo que haja um casal que a queria adoptar.

É bem certo que o exercício, para ser intelectualmente honesto, deverá ser feito no sentido inverso. Vejamos o que me acontece: se não sou a favor da institucionalização das crianças havendo quem que as queria adoptar, amar e criar > sou a favor da adopção por casais do mesmo sexo.

Bem sei que acima ilustrei de forma aparentemente leve as preocupações que as pessoas “contra” têm, desde o trauma à leitura bíblica apelidada errada e convenientemente de biologia. Mas estou antes a falar do imediato família-instituição. Agora questionam-me sobre a passagem de casais do mesmo sexo à frente de casais de sexos diferentes nas listas para a adopção. Bom, o problema é o mesmo que o das adopções individuais. Uma vez mais, ninguém disse que o tema é simples, pelo contrário blábláblá. Seja como for, prefiro a segunda equação à primeira. Não desejo que nenhuma criança cresça numa instituição se houver quem a deseje e saiba amá-la.

Quando discuto isto com alguém que seja contra a adopção por casais do mesmo sexo, este é o momento em que a pessoa vai embora ou põe um ponto final no assunto. Até hoje, não conversei directamente com uma pessoa que me assumisse que se é contra a adopção por casais do mesmo sexo > está a ser a favor da institucionalização das crianças mesmo que haja um casal que a queria adoptar.


Doação de gâmetas e o direito da pessoa a saber a verdade sobre a sua origem genética

Eu acho que estamos todos de acordo que temos direito a saber tudo o que envolve a nossa existência. Acho.

Compreendo e sou a favor da procriação medicamente assistida através da doação de gâmetas e admiro muito as pessoas que a ela recorrem. Mas não lhes reconheço o direito de decidir ocultar esse facto à pessoa que nasce de tal processo.

Imaginemos a cena: a decisão de “contar ou não contar” cabe aos pais, os pais não contam, um dia o filho acaba por saber e agora? Não se iludam, muito provavelmente qualquer dia há testes genéticos na farmácia e esse filho que um dia foi só um bebé, cresce e forma opiniões, nomeadamente sobre a sua vida, mas a situação descrita não o contempla como senhor da sua verdade.

Afinal, o que houve de instantâneo aqui? O raciocínio: sou a favor de que a decisão de “contar ou não contar” cabe aos pais > sou a favor de esconder a verdade à pessoa (o bebé cresce, um dia há-de ser um adulto como os pais o foram na hora da decisão de ocultar) sobre a sua história > sou a favor de que tenho mais direito à história de vida do meu filho do que ele > sou a favor de que tenho mais direitos do que o meu filho.
Hum?! Pois. E sou grata a quem me venha mostrar onde estou errada no raciocínio.

É bem certo que o exercício, para ser intelectualmente honesto, deverá ser feito no sentido inverso. Vejamos o que me acontece: se sou a favor de que o meu filho tem tantos direitos individuais como eu > se sou a favor de que tenho tanto (ou menos) direito à história de vida do meu filho do que ele > sou a favor de ter de dizer a verdade à pessoa sobre a sua história >  sou a favor de que a decisão de “contar ou não contar” não cabe aos pais.

A situação é difícil e acredito que a gestão do “contar” não seja fácil de fazer. Quando? Com que idade? E depois? Com que preço? Etc. Mas não é este facto que deverá tolher o tema, uma vez mais, são questões que ficam em segundo plano. Questões muito pertinentes, é certo, mas não estão no primeiro plano de interesse. Pois, aqui, o que se discute é o direito à verdade.


Eutanásia

Eu acho que todos temos o direito de decidir como desejamos levar a nossa vida, uma vez que não implique maleficência a outros.

Compreendo e sou a favor da medicina procurar prolongar a vida, nomeadamente da evolução dos cuidados continuados e especificamente no controlo da dor. Compreendo que a avaliação de cada caso é uma tarefa muito completa e que exige muita competência e parcimónia por parte dos envolvidos. Não sou a favor de manter as pessoas vivas contra a sua própria vontade, nomeadamente situações de introdução forçada de sondas nasogástricas, por exemplo. Acredito na morte assistida, acredito que a pessoa que deixe de ter condições físicas para terminar a sua vida possa ainda ter algum recurso para o fazer. Mas escapa-me tudo o resto, não consigo avançar e também me escapa completamente a forma como isto tudo deve e possa ser feito. É para mim, dentre os temas fracturantes, dos mais complexos.

Continuando no meu registo de pensante simplória, acho que o facto de haver possibilidade legal de alguém acabar com a vida de outrem extravasa os temas que referi acima. Acabar com a vida de uma pessoa não é, para mim, o mesmo que acabar com a vida de um feto, por exemplo.

Não consigo fazer aqui um raciocínio instantâneo. Fico sossegadita no meu canto, apanho uma opinião aqui, outra ali e leio, mas não me consigo solucionar além do “eu acho que a pessoa tem direito e deveria ter forma de obter ajuda”. Apesar disso, não consigo tecer mais considerações e, no mínimo, magoa-me e assusta-me a hipótese de tal tema vir a ser alvo de consulta popular.


O cartaz do Bloco de Esquerda

Ná, não estou nem aí, foi só uma provocaçãozinha :)



~

Na verdade, este texto surgiu num momento em que me senti um pouco frustrada com a fuga que se costuma ver neste tipo de discussões. Uso muitas vezes este tipo de raciocínio, da solução instantânea como lhe resolvi chamar hoje e acho que acabo por ser interpretada como querendo argumentar até à evangelização do outro. Talvez as pessoas pensem que estou a ser leviana ao querer ir por partes. Talvez seja apenas uma impressão errada, ou talvez sejam complexos por ser tão faladora e cheia de opiniões.

Fui opiniativa desde muito pequenina. Em 1999, num reencontro após 18 anos, um amigo de infância, cerca de 7 ou 8  anos mais velho do que eu, numa conversa à volta de um belo almoço diz “Ah, mas a Cipreste tinha 4 anos e já era muito cheia de opiniões”. Ele disse isto com graça, sem qualquer tom de censura. Lembro-me de ter uma daquelas sensações de que tudo parou naquele momento. Afinal, eu sempre fora assim. Ele usou a expressão em inglês “opinionated”. Caramba, nunca tinha pensado nisto. Quer dizer, era evidente para mim que sempre fui muito conversadora e curiosa, formando opiniões sobre os mais variados assuntos, mas não tinha consciência de o ser desde sempre, de ser parte da minha essência.

Se não estivermos de bem com as nossas opiniões e respectivas dúvidas, se não estivermos conscientes de que estas são dinâmicas, pode ser difícil ser-se assim. Há uma facção da sociedade que trata os opinionated como uns chatos, com exclamações de género “lá vens tu com as tuas opiniões”. É verdade que as pessoas com o meu perfil, se não tiverem muito jeito para a diplomacia, podem ser conotadas como tal. Ora, não lamento e não peço desculpa por pensar e construir ideias e, o escândalo, querer discuti-las. Lamento, no entanto, quando as pessoas saem de fininho, tenho pena e claro que tento rever se foi a minha postura e não o assunto em si.

Um dos únicos confortos que encontro nestas reflexões e discussões é que as minhas ficam-se só por aí. Não faço parte de qualquer grupo legislador porque isto tudo vai muito além dos raciocínios instantâneos e é a partir daí que a porca torce o rabo e eu fico aflita só de imaginar que são pessoas como eu que podem vir a definir o caminho a tomar nestes temas, se consultados através de referendo.
E fico confusa muitas vezes pois grande parte dessas mesmas pessoas que preferem chutar para o canto a discussão de determinado tema são as que não se incomodam que o tema seja referendado. É estranho, não é? Ou então é só impressão minha.


Olá, o fim-de-semana foi bom?
Cipreste

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

carta aberta a quem passa por aqui e deixa um pouco de si

Já falei aqui várias vezes sobre porque escrevo, porque partilho o que escrevo. “Várias vezes” porque me questiono amiúde sobre o assunto. Porque muitas coisas deste fenómeno da convivência no mundo virtual me trazem constantemente em espanto. Em espanto pela dimensão de compaixão que se consegue encontrar.

Tenho as minhas opiniões, mas para lá disso há discussões que não me interessam. E não me interessa discutir se as pessoas são falsas atrás de um monitor ou se assumem várias personas. Nem me interessa o marketing ou rankings bloguísticos (que, atenção, acho perfeitamente legítimos e sei que há quem viva disso).

É bem certo que se identificam também esses fenómenos.
Em relação ao primeiro, já tive algumas desilusões, mas essas são com pessoas que conheço na vida real cujas personas virtuais me deixam constrangidas. Tenho pena, pronto, porque se me arrefece a admiração que tinha por essas pessoas, pela sua humanidade. Custa-me porque quase sempre interpreto como um sinal de mal-estar consigo próprio.
Quanto ao segundo fenómeno, não me constrange, quando muito provoca-me vergonha alheia. Custa-me ver as pessoas em bicos-dos-pés. 

Uma atenção que resulta de um estímulo que não corresponde à verdade, mas apenas a uma imagem construída para seduzir, só pode ser vã.
Parece uma solidão aflita. Uma solidão que se procura combater com uma busca por uma atenção imediata.



Eu sofro de solidão.

Tenho solidão profissional porque sou a única no meu local de trabalho, um sítio onde as pessoas são simpáticas mas estranhamente muito (tão demasiadamente) desligadas umas das outras. Tenho solidão por distância geográfica da família. Tenho solidão porque a minha melhor amiga vive nos antípodas.

Mas não me quero deixar enganar com companhia frugais.

Não sei dizer filosoficamente o que é a verdade, mas sei o que sinto no coração como sendo “de verdade”. E sou uma sôfrega por momentos verdadeiros.
Por isso, mesmo que tivesse algum interesse - para ganhos (sociais, económicos, de visibilidade, etc.) secundários em cativar, seria incapaz de o fazer passando uma mensagem falseada do que vou sendo, de como vou estando nas coisas. É-me contranatura. Como se, se assim o desejasse fazer, os meus dedos se paralisassem no momento de escrever o texto falacioso.


Isto tudo para dizer que, por estes dias, tenho sido especialmente agraciada com comentários e emails tão generosos da vossa parte.

Fazem-me sentir tão grata, tão satisfeita e confirmada por fazer esta partilha. 
Tão acompanhada.

Os gestos que vêm daí, desse lado, têm contribuído para diminuir a minha solidão.


Não sei quantos são os nossos visitantes. Criei uma página no facebook, mas o que faço é só linkar os posts daqui. Não vejo sentido nela, não me apetece dinamizá-la com outros posts efémeros. Talvez acabe com ela um dia destes. Criei a página do pinterest, mas já percebi que aquilo é uma espécie de emprego a tempo inteiro de link-atrás-de-link e não me posso perder por lá. Vou partilhando alguns dos posts/temas no fórum do website da Associação Portuguesa de Fertilidade quando acho que pode ser um mote para encetar alguma conversa. Muito de vez em quando, participo no grupo de Famílias Adoptantes em Portugal no facebook, mas nunca linkei lá o blog para não ser identificada. Ao longo do tempo, tenho mostrado o blog a algumas (poucas) pessoas conhecidas. A alguns amigos e familiares, uns creio que se esqueceram que ele existe, outros não sei se o lêem, mas não me dão feedback nesse sentido. Apenas a minha querida amiga me vai dando um retorno e, às vezes, até comenta. Recentemente, partilhei o blog com a nossa equipa de adopção, com a equipa do centro de acolhimento onde os nossos filhos viveram e com a minha psicóloga. Mais ou menos, é isto, é este o universo por onde ando e com quem partilho. Bastante restrito, portanto.

Não me interessa saber quantos são, interessa-me saber quem são. E eu já sei o que preciso de saber: são pessoas como eu. Pessoas que procuram um pouco mais de mundo na internet. Pessoas que tiram tempo para ler os outros. Pessoas que se emocionam como eu quando lêem da felicidade, da tristeza e da aflição dos outros. Pessoas que querem as coisas por inteiro, sem cortes no feio, no que é, afinal, também parte da nossa humanidade. Pessoas que sentem necessidade de deixar uma palavra sem saber bem o quê, como “oh, que lindo”, “obrigada”, “desejo-vos tudo de bom”, “vamos rezar por vós” ou “mandar energias positivas”. Pessoas que se lembram de nós, mesmo não nos conhecendo, quando vêem algo na rua que os fez lembrar um post nosso (isso não acontece só comigo, pois não?).
Pessoas.
Pessoas que encurtam um pouco a solidão umas às outras.

Hoje, já me fizeram chorar com um comentário, com a imagem cheia de esperança que me deixou. Obrigada, Ana G.

Obrigada a todos os que têm tomado tempo a ler e a dizer-nos que estão aí.
Obrigada pela companhia, muito, muito obrigada.

Que o dia vos seja limpo,
Cipreste

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

solidão (e outras formas de mau-estar) na missão da parentalidade

Dei comigo a fazer coisas que jamais imaginei fazer (talvez até jurasse que nunca o faria): gritar aos meus filhos e... (engolir em seco antes de escrever isto)... dar-lhes palmadas.

Sim, já dei palmadas aos meus filhos e não me orgulho de o dizer. 
Não, não passei a acreditar nas palmadas pedagógicas e, sim, continuo a achar que ninguém tem o direito de violentar ninguém - quer seja verbal, quer seja fisicamente.

E agora, onde fica a minha incoerência?
Fica num buraco triste e sem fundo. Fica numa desilusão imensa de mim para mim. 
Mora nos momentos de desespero em que cresce uma distância imensurável entre aquilo em que acredito e a urgência em mostrar-lhes que determinado comportamento é inadmissível.
E respondo com um comportamento também inadmissível.
Será que, afinal, acredito na palmada pedagógica? É que, reparem, luto contra a ideia de que a minha palmada foi um acto incontrolável. Eu não sou como os protagonistas da violência doméstica que depois se mergulham em choros e pedidos de desculpa, eu não digo que não o queria fazer (não o desejava fazer, mas sabia o que estava a fazer).
Afinal, quem comanda o quê nestes momentos? O desespero. É o desespero que toma conta de nós, é a ideia de "último recurso". E quando caímos em nós, pensamos que não pode ser. Sendo bem certo que a palmada surge após a escalada de comportamentos abusivos e repetidos por parte das crianças, há sempre hipótese de fazerem pior, e depois o que fazemos? Mais palmadas? Até doer a sério? Não, não pode ser.
E, assim, damos por nós num lugar solitário e dorido e de arrependimento atroz: falhámos numa das promessas mais importantes, falhámos num dos princípios mais básicos na nossa ética de vida. E cresce uma dor profunda dentro de nós. Olhamos os nossos filhos e pensamos coisas terríveis sobre os danos possíveis da palmada. (não, não me escondo atrás do "eu levei palmadas e não estou traumatizada")
Olhamos os nossos filhos e não nos resta mais senão aceitar a nossa humanidade, que nada mais é do que a prova da nossa imperfeição. Olhamos os nossos filhos e sentimos a urgência de compaixão: para com eles e... para connosco.
Voltamos a fazer votos com as nossas convicções - depois de as confirmarmos de nós para nós (haverá quem as mude e passe a incluir a palmada no seu repertório?).
Isto tudo dói terrivelmente. Por esses dias, fugimos de toda a informação sobre a parentalidade positiva e com apego e não é por tentar negar esses princípios - é por nos sentirmos indignos da companhia de quem se mostra mais capaz do que nós.
O amor entretanto sobrepõe-se e recomeçamos o regresso à sensação de sermos também dignos.
E todo este caminho é tão solitário.

Esta solidão tem muitas portas por onde entra: os juízos de valor, por exemplo, que já nos magoaram profundamente. Se já é difícil que as pessoas sejam compassivas na parentalidade biológica de cada um, garanto-vos que na parentalidade através da adopção o não são de forma implacável. Principalmente as pessoas que têm dificuldade em aceitar quem vive de forma diferente à sua. Sentimos nos seus olhares, ouvimo-lo nas suas palavras e recebemo-lo como balas no peito através de algumas atitudes - que nos doem mais ainda quando são direccionadas aos nossos filhos: primeiro atiram e só depois perguntam. E eu deixei de responder. Fechei a loja para quem me julgou implacavelmente e me deitou ao chão em três tempos morais. Acabou. Porque há limites para os falsos humildes, os falsos simples. Há limites para o espaço que damos aos passivo-agressivos das nossas vidas. Há limites para a benevolência perante atitudes sobranceiras e que trazem mau-estar de facto. Cada um que se amanhe com as suas inseguranças, mas que não as imponha aos outros por causa de serem diferentes.

E, assim, damos por nós numa solidão maior. É bem certo que é uma solidão também escolhida, mas não deixa de ser um lugar difícil.

Entretanto, fiz escolhas conscientes e calculadas. Mantenho todas as pessoas nos meus círculos, apenas umas estão nos círculos mais interiores enquanto outras passaram para círculos mais afastados do meu centro.

Dei com esta moça há algum tempo - cujo site certeiramente se chama "famílias imperfeitas", diz umas coisas que me têm ajudado. Fala desta solidão que  creio que todos, em alguma altura, já sentimos. Fala de algo que nunca devemos deixar de fora desta equação e cuja expressão em língua inglesa exprime muito bem: it takes a village (to raise a child) - a comunidade...



Cipreste

terça-feira, 29 de abril de 2014

sobre Crescer - e educar, nesta era online


Imprimi esta citação de um blog maravilhoso, em 2003. Está, desde então, afixada no placard do meu gabinete. Há dias, olhava para ela e pensei que uma das coisas que eu quis dizer no post Crescer - e educar, nesta era online, comparando com a era offline, é que o "defeito" está em que a participação online passa demasiadas vezes pelo vazio (muitas vezes tornando-se mesmo numa feira de vaidades), em que, de facto, tantas pessoas estão alienadas dos outros (e talvez mesmo de si). 
Muitos ficam melindrados quando se fala disto, penso que esses são os que padecem do vício que os traz precisamente alienados, dormentes embora (hiper?)activos e sempre online. Quando faço estas observações, não estou a demonizar, como já sublinhei antes, a tecnologia. Estou apenas a reconhecer que o seu mau uso leva a perdas nas relações humanas que considero lamentáveis e isso, quando é desde pequenino, pode distorcer o input das relações face-a-face, levando a uma proporção inversa de presença online em relação (e em detrimento) à presença e participação comunitária offline

Cipreste