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terça-feira, 13 de maio de 2014

Canções tristes

I
Maldades googlianas

Pronto, já tenho data de internamento para a cirurgia. No meu jeito de navegadora inveterada, só porque sim, digitei “hospital packing” no Google e cliquei em Images. (sim, tenho por hábito pesquisar em inglês caso não esteja à procura de receitas de caldo verde) Pesquisem e vejam que “bonitos” resultados obtêm.
Bah. Não precisava de ser lembrada que vou ser internada numa maternidade não para trazer um filho em braços para casa mas para deixar os órgãos que tantos dissabores que têm dado desde há 26 anos, sendo o maior, precisamente, o impeditivo de gerar vida.
Preciso mesmo de ir ali chorar um bocadinho.

Na 6ª-feira, comecei a escrever um texto sobre a necessidade de chorar, um texto que não acabei, nem chorei como era o meu plano. Ao invés disso, fui sair com o Chaparro e dois amigos e seguiu-se um fim-de-semana de jardinagem, algo que é sempre muito terapêutico para mim.
De seguida, fica o texto inacabado.

II
Tristesse

Trago uma tristeza dentro de mim desde pequenina. Embora não seja francófona, faz-me sentido chamar-lhe tristesse.

Se partirmos de uma postura psicanalista-de-trazer-por-casa, podemos procurar identificar algum acontecimento de vida que seja responsável por esta característica. Se partirmos de uma postura geneticista-de-trazer-por-casa, podemos cabalmente afirmar que haverá um gene qualquer que é responsável por esta característica.
Não sei o que poderá ser identificado na minha meninice como responsável por esta tristesse. Radicais das filosofias New Age provavelmente diriam que, para começar, eu nem sequer queria nascer, pois tive de ser “arrancada a ferros” e chorei que me desunhei até aos 9 meses levando a minha mãe à exaustão, pelo que a minha tristesse já virá de vidas anteriores.
Por outro lado, se falarmos na genética, e partindo do princípio de que não sou adoptada, nunca esquecerei o dia em que a minha mãe me disse que eu sou tal-qual o meu avô, pai dela, também conhecido como “avô dos pães”, por ser padeiro. Quando perguntei à minha mãe porque acha que sou parecida com o avô dos pães, ela simplesmente respondeu “Porque ele também tinha uma tristeza.”. Nunca mais falámos disto, como se proferir que o seu pai tinha uma tristeza fora como que uma traição. Mas nunca o vou esquecer, por ser para mim uma honra ser parecida com o avô dos pães.

~ ~ ~

Ouvi toda a vida que sou parecida com a avó dos pães e isso constituiu sempre uma dificuldade para mim. Eu amava a minha avó mas, se for para sermos honestos, temos de admitir que ela tinha um feitio difícil, muito difícil. E eu não queria ser comparada com uma pessoa difícil. Ninguém quer ser uma pessoa difícil. Antes triste do que difícil. Até hoje, tenho esta insegurança que me traz a auto-estima e a auto-confiança em corrupio. Por vezes, dou por mim a pensar se terei sido difícil com determinada pessoa, ou em determinada situação. Isto também pode tornar-se num pau-de-dois-bicos, pois uma pessoa menos honesta com os seus sentimentos pode usar isto facilmente contra mim. Basta que alguém, para não assumir a sua falha, me acuse de estar a ser difícil e deixar-me de quatro, ficando ali uma situação mal resolvida mas declarada como finda.

Fui aprendendo a juntar bocadinhos bons para procurar neutralizar a minha parte “difícil”, um lado que creio estar muito no rigor com que assumo as coisas e a minha frontalidade terrível. Vou buscar outros bocadinhos, os bons, à avó dos pães que também misturo com bocadinhos bons dos outros avós, e assim levo os meus dias a procurar ser uma pessoa melhor.

~ ~ ~

Acredito nisto: procura ser uma pessoa melhor a cada dia.

Ser uma pessoa melhor é, para mim, ser uma pessoa que leva a sua vida, com as suas pessoas e no desenvolvimento dos seus interesses, numa ética de vida que procura o bem-estar sem consequente prejuízo de outros.

Acontece que, por mais que façamos, há sempre falhas na circunstância do bem-estar. Essas falhas podem ser do exterior, como o exemplo dos acontecimentos de vida, ou do interior, como o exemplo da predisposição genética.
E eu tenho andado tão periclitante nesta coisa do bem-estar, quer espiritual, quer físico.

É de propósito que digo espiritual e não emocional e não vejo sentido em explicar essa opção.

Temos vivido uns anos muito intensos cá para estes lados da minha família. É sempre tudo tão grande, é sempre tudo tão de vida ou de morte. Há sempre tantos eventos, tantas reflexões, tantas decisões, tantas alegrias e tantos medos.
Isto são coisas espirituais e merecem a devida parcimónia. Importa encontrarmos o lugar para o seu crescimento. Importa encontrar o lado da vida que proporcione a sua aceitação.

~ ~ ~

Na verdade, eu não sei se o meu avô dos pães trazia uma tristeza dentro de si, mas a observação da minha mãe fez sentido. Trago uma tristesse dentro de mim, desde pequenina. Porém, nada do que tenho sentido tem a ver com essa tristesse, o que tenho sentido tem a ver com desalento, com a procura de me adaptar às realidades duras da vida. O que tenho sentido tem a ver com doença, minha e dos meus. O que tenho sentido tem a ver com medo e com impotência. O que tenho sentido tem nome e não é de cá dentro, vem de fora, sem dó nem piedade.
É tristeza, não é a minha tristesse.
E é-me muito importante reconhecer esta diferença e actuar.

Tenho procurado dar o lugar devido à tristeza sem me afligir imediatamente em tarefas vãs a procurar enxotá-la dos meus dias. Ela tem estado aí. Os motivos para a sua existência são reais. Já ouviram falar deles por aqui.
A tristeza tem-me rondado, fruto deste sofrimento e deste medo. Hoje de manhã, percebendo que estava a tentar disfarçá-la com as dores físicas que exigiram analgesia, pensei: se não tiveres forças para dar um giro ao final da tarde, vais para casa deitar este corpo dorido no sofá e vais ouvir as canções mais tristes que conheces e vais chorar.

Há que encontrar um lugar para tudo, nuns dias dá para ir beber uns finos e rir de baboseiras, noutros dias ouvem-se canções tristes.
Contando com o dia seguinte.
Contando que teremos forças para nos desenrolarmos do próprio corpo, dos dramas próprios, e dar lugar a toadas mais alegres.


III
Medo & raiva

Ontem, com a carta da convocatória na mão, apeteceu-me iniciar um sprint e fugir, mas eu sei que tenho pouquíssima resistência e que antes de chegar ao fim da minha rua já estaria com os bofes de fora, encostada a um muro, a arfar defraudada com a minha própria raiva.
Não sei que pensar disto tudo. 
Não tenho medo de cateteres e agulhas e o diabo a sete, mas tenho medo. Tenho medo que o estadiamento da minha endometriose obrigue à intervenção noutros órgãos. Tenho medo da vida com terapêutica hormonal de substituição. Receio que a histerectomia total não compense em qualidade de vida – que é, afinal, o meu maior motivo para me sujeitar a tão grande mutilação.

Repara, Cipreste: vais permitir que te amputem.

Não estou a, nem vou, dramatizar. Mas as coisas são o que são e uma histerectomia total é uma amputação.

IV
Bondade

Não sei o que pensar e preciso de me preparar: organizar a casa, dar conta de dois ou três recados, organizar a minha vida profissional, fazer a mala e chorar. 
Tenho de fazer isso. As lágrimas andam por aqui a cirandar e não saem, mas eu sei que têm de sair. Preciso de chorar o meu corpo para que depois se possa renovar. Não sei se isto é certo ou errado, nem sequer sei se há um certo e um errado para estas coisas. 
O que sei - o que sinto, é que agora é hora de ouvir canções tristes.
Para depois me preparar para entregar o meu corpo nas mãos de estranhos e contar com a sua bondade.



Deixo-vos com esta imagem por vários motivos, um deles é que sei que me esqueci disto no trato a uma pessoa a semana passada. Entretanto, já me retractei com a pessoa, mas fico sempre um pouco desiludida comigo quando deixo que algo me tolha a visão. 
O conceito de neutralização - de que passei a tomar mais consciência desde uma das formações da adopção, parece-me ser um bom passo para conseguirmos lembrar desta máxima: sermos bondosos uns com os outros, pois estamos todos a travar batalhas.

Desculpem o estilo soturno dos últimos dias,
I'm gonna be alright ;) eu sei que sim

Cipreste

quarta-feira, 2 de abril de 2014

parole parole parole - parte II

Disclaimer: não me levem a mal o eventual tom abespinhado neste post. Reservo-me o direito. Ainda assim, podem reclamar se não gostarem. Ouvirei cada reclamação com a atenção devida :)


Vê lá no que é que te vais meter.

É outra coisa que corremos o risco de ouvir quando falamos com algumas pessoas sobre o processo de adopção.

Para começar, digam-me por favor: alguém tem a veleidade de saber em que se vai meter antes de se meter em seja o que for? Será que não é do senso comum que ninguém sabe, de facto, em que se vai meter antes de se meter nelas?

Aborrece-me um bocado esta pose. Sim, é uma pose. Como se eu fora uma inconsciente e a pessoa do outro lado do discurso esteja a ver a realidade muito além daquilo que eu possa alcançar e que me resta confiar no seu aviso: Que eu veja lá bem no que é que me estou a meter. E pronto, oiço isto e depois o quê? Faço provas da minha idoneidade, atestando o meu (impossível) conhecimento total e esgotado sobre aquilo em que me vou meter? Ou desisto porque, oh, não tinha pensado nisso, muito obrigada pelo laivo de clarividência?

Ouvi isto há dias, de uma pessoa sem filhos. Também este Verão tive uma conversa surreal, com outra pessoa, à volta deste aviso.

Sinceramente, não compreendo.
Sabem, é que de boas intenções está o inferno cheio e isto ofende. É bem certo que sou uma pessoa muito séria e muito cheia de mim e que levo as palavras das outras pessoas como se elas também quisessem dizer aquilo que realmente dizem. Eu sei. Duh para mim.

A conversa do passado Verão foi tão estranha que a pessoa, mãe de uma menina pré-adolescente, quase admitiu que estava arrependida de ter tido a filha. Wow. Falávamos de tratamentos de fertilidade e de adopção e a questão era se tínhamos mesmo pensado nas coisas a sério. O remate da pergunta era uma exclamação: tu não sabes o que é, como é, ser mãe. Tcharan. Eu-não-sei-o-que-é-ser-mãe. [Momento Prémio Sensibilidade do Ano com o patrocínio das evidências presentes na minha vida desde 1997]

Passa pela cabeça de alguém que me conheça que eu nunca me tenha aventurado nas questões do que poderá ser ter um filho? A sério, não percebo. Há pessoas que dizem coisas só para dizer coisas, não é? Sujeitei-me a cirurgia e tratamentos, passei por gravidez e aborto, embarco na adopção, mas nunca me ocorreu pensar em divagar no que poderá ser isso de se ser mãe, isso de ter um filho à minha responsabilidade. Hum? Depois disto tudo, é óbvio que a clarividência está do lado de quem está saturado de viver o peso das responsabilidades de se ser pai (ou mãe) e que embora ame o seu filho não o deseja para mim.

Não consigo perceber, alguém por favor me explique o que leva alguém a fazer este aviso. É que, reparem, serei tão volúvel que, após o aviso, comece a pensar que afinal as “compensações” de que alguns falam sejam uma treta, a grande mentira? Afinal, não vale a pena “ficar para segundo plano” e “abdicar de toda a minha liberdade”? Ah, ok, então parem as rotativas que eu já não quero nada disto, foi apenas um equívoco. Talvez seja bom parar mesmo. Ocorre-me agora que talvez me consideram incapaz da maternidade, até a que não tem filhos. Afinal, será que o Universo tem tentado falar comigo, com o meu percurso de vida, para me dizer “Cipreste, desiste, tu não nasceste para ser mãe, tu não estás talhada para isto”?

E agora, paramos?
Não, não paramos.
Ninguém é bom juiz em causa própria, bem sei, mas não admito este tipo de discurso a ninguém. Ainda sou uma pessoa imputável, e não o sou mais nem menos do que qualquer uma das pessoas que proferiram estes avisos. Não tenho medo de correr o risco de ser (mais) feliz. Tenho um ego de tamanho q.b. pelo que confio no meu discernimento. Não me avisem das coisas óbvias do futuro como das abdicações inerentes à maternidade, por exemplo, antes ofereçam o vosso apoio. Isso, ou afastem as energias negativas que nós precisamos é de apoio. Todos sabemos que nunca estamos a ver o quadro todo antes de estarmos lá dentro. Mas certas evidências em nada ajudam, só trazem de fora uma mensagem de falta de confiança em nós.

Já agora, e para que não restem dúvidas, não encaramos a adopção como ir buscar um cão ao canil municipal. E até conseguimos compreender que adoptar um animal já envolve algum nível de responsabilidade. Não é à toa que sobrevive um gato cá em casa há 10 anos.

Eu-não-sei-o-que-é-ser-mãe, pois não, não sei, obrigada. Mas hei-de saber e espero que seja, em primeiro plano, uma dádiva bonita e não um peso.


Eu hei-de ser capaz, o Chaparro há-de ser capaz. Nós seremos capazes.



Não sabemos no que nos estamos a meter, mas seremos capaz de o fazer o melhor que nos seja possível fazer: com amor e boa vontade.

Deixo uma proposta: ‘bora ser felizes com os sonhos uns dos outros?

Cipreste

parole parole parole - parte I

Daquilo que dizemos uns aos outros.

Nunca me não habituei a esta ideia de que algumas pessoas, por vezes, não queriam bem dizer aquilo que disseram nem queriam bem ter feito aquilo que fizeram. Baralho-me e levo as coisas a peito, partindo do princípio equivocado de que somos todos pessoas francas. Sim, estou a entrar pelas generalidades sobre aquilo que dizemos uns aos outros. Já explico melhor.

Há dias, líamos antes de dormir, ou antes eu lia já no sofá e o Chaparro, invejoso, foi buscar a sua leitura também. Digo invejoso porque eu lia o Adoption Reunion in the Social Media Age: An Anthology, de Laura Dennis e ele foi buscar o “seu” A Aventura da Adopção, de John R. Thompson e Karen J. Foli. Há duas semanas que não pegávamos no assunto adopção por andarmos entretidos com outras coisas, também boas. Confesso que já tinha saudades de me afundar nestes meandros. Acho que tenho aprendido muito sobre a vida e sobre as pessoas com esta história de me querer documentar sobre a adopção.
Só um à parte: por favor, não confundam, pois ando um bocadinho cansada de ser mal interpretada - eu disse “aprender muito” não disse “saber muito”, ok?

Avante.

Gosto de pessoas que não adiantam muitas palavras sobre os assuntos mas que, quando as adiantam, fazem-no de forma certeira. Eu sou daquelas pessoas que usam muitas palavras (creio que já repararam nisso) e o Chaparro é daquelas pessoas que não precisa de muitas palavras para dizer “as verdades”. Sobre o tema deste post: aquilo que dizemos uns aos outros, ontem recebi uma carta linda do Chaparro, que tem estado fora em trabalho. E foi assim que ele validou sentimentos que me têm minado os dias.

Às vezes, inventamos na nossa cabeça dimensões para as relações que estas não têm, de facto. Acontece que vivenciei há pouco tempo um quid pro quo que serviu para me abrir os olhos sobre a autenticidade de determinadas coisas. Não sou pessoa de me contentar com coisas mornas e tenho-me concentrado em tentar perceber a razão das minhas atitudes e das das outras pessoas. Demoro-me, não sou assim uma daquelas pessoas fixes que arrumam assuntos num piscar de olhos e toca a andar de bicicleta que isto é tudo muito divertido e nós somos todos muito cool e não temos paciência para remoer (n)as coisas. Não sou adepta do toca-e-foge, vejo algum sentido em procurar perceber porque é que alguém me diz uma coisa num dia e as desdiz completamente no dia seguinte como se nunca as tivesse proferido. Mas as palavras já estão cá dentro e, se a pessoa não está disponível para conversar comigo e fazer-me entender o seu lado, fico sozinha a tentar solucionar o puzzle. Fico a mastigar tudo bem devagarinho para que no fim sobre uma digestão sem refluxos malucos. E consigo sempre que o que me sobre seja verdadeiro. Há, porém, várias contas que acabo por ter de pagar no final destes desacertos. Lamento, por exemplo, ver-me resumida àquela aborreceu toda a gente e que não os deixou gozar o momento. Quando o que eu desejava era ver solvida uma tensão. Decepcionamo-nos e os afectos até queriam contrariar essas desilusões, no entanto, no fim damos por nós a admitir, como canta o Sérgio Godinho, que mais vale um bom desengano do que andar enganado sempre. Mas não deixa de ser triste. E depois, nesta era online vê-se tudo tão a céu aberto, vêem-se poses que acabam por provar que ninguém enterrou coisa nenhuma mas, afinal, concentrou as energias bem longe dos afectos e da vontade de lavar o que ficou sujo.

Hei-de lutar para sempre contra a tentativa de provar que as pessoas são todas assim, porque eu (pessoa com outros defeitos) não sou assim e não estou sozinha.

Estas coisas só vêm confirmar a minha sensibilidade sobre como devo encaminhar as minhas relações e a vontade que tenho de contrariar invariavelmente todas as tentativas de se falar dos ausentes e, pior, como tenho visto mais vezes do que desejaria - o julgamento de quem não está presente para se defender. E digo mais: sinceramente, não estou certa deste tipo de comportamentos estar muito longe da origem do bullying. É assustador quão hostil se pode tornar uma agremiação quando contrariada.

Eis a miscelânea com que tenho labutado cá dentro.

No fim, com uma carta linda de morrer, cheia de bem-querer e de gostar de compreender e de não recear falar as coisas, o Chaparro validou-me os sentimentos e propôs-me caminhar no sentido da conciliação com o facto de que fiz o que podia fazer, fui franca, independentemente do resultado a que me levou. Mas que agora é hora de aceitar que nem toda a gente quer levar as coisas ao mesmo porto.
Que as noções de bondade e do cuidar do outro, por vezes, são conformes aos egos. Nem sempre se consegue conciliar as verdades das várias consciências, facto que se incompatibiliza com a noção de genuinidade necessária às relações.

Essa carta rematava o raciocínio com esta citação do livro A Aventura da Adopção:

«nós controlamos as nossas acções e somos responsáveis pela forma como agirmos perante as nossas emoções.(...) Ao aceitarmos a nossa incapacidade de controlar, podemos libertar a energia que tem sido empregue a tentar mudar o imutável. Não estamos a advogar a passividade, mas antes uma assertividade apropriada e a abdicação daqueles acontecimentos improdutivos que nos custam tempo e energia.»


E foi assim que consegui pôr o ponto final no que me tem consumido emoções e tentativas de neutralizar as beliscadelas dos últimos tempos. Resta-me lamentar e fazer o luto de algo que eu pensava existir e fazer-me rodear daqueles que correspondem no bem-querer comigo. Tudo para não perder a fé em mim e nos outros, continuar a lembrar que todos carregam as suas histórias e dificuldades. Continuar a cuidar, como sempre cuidei. E preparar-me para a minha cirurgia e para a entrevista com a psicóloga* e para o 50º aniversário de casamento dos meus queridos pais.
Andar em frente, de consciência limpa, dar-me bem com a minha almofada e afirmar: Se os meus pais conseguiram, eu também hei-de conseguir.

Um bom dia para vós. Já tinha saudades.

Cipreste

* “finalmente!” marcada: a nossa equipa das adopções ficou sem psicóloga há uns meses e no dia em que teremos a entrevista com a psicóloga já distarão 7 meses do início do nosso processo, portanto 1 mês além da data legal para termos o certificado que ainda não temos, faltará ainda a visita domiciliária e a aprovação do casal Cipreste&Chaparro como candidatos competentes à adopção :)


terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Adopção: as sessões de formação - sem mistério


Algumas pessoas podem pensar que é fazer formação para aprender a ser pais, mas na verdade não é isso. Quer dizer, é, mas não é. Entre outras coisas, para mim, é aprender sobre como procurar minimizar os danos da vida ou, pelo menos, aprender a não piorar coisas que já são por demais difíceis.
Façamos uma pausa no espírito crítico que está à flor das nossas convicções e deixemo-nos enredar pelas conjunturas  habituais que levam à paternidade: biologia ou adopção.

Com um filho biológico, que surge de uma gravidez desejada e planeada em que há tempo para ver o corpo da mulher a mudar enquanto se faz o enxoval, penso que não há propriamente dúvidas sobre a origem do amor e a sua devida reciprocidade. A criança nasce e tem o amor e protecção dos pais como garantidos. Os pais têm dúvidas, naturalmente, mas isto é a vida e tudo irá fluir, no mínimo, podem mimetizar o que fizeram os seus pais e outros amigos e família que à sua volta também têm filhos. Mais ou menos, têm tudo para que a coisa corra “normalmente”, dedicando-se à puericultura sem necessidade de preocupações e diligências no que concerne a psicologia, a sociologia e até a antropologia.

Com um filho adoptado, e em consciência, não me parece que as coisas possam ser levadas de forma tão “natural”. Não digo que tenhamos de controlar tudo à nossa volta, de todo. Mas acho que será negligência da nossa parte, enquanto pais adoptivos, tentar fingir que é tudo igual, que se educam os filhos adoptados da mesma forma que se educam os filhos biológicos, que é deixar as coisas andar que tudo logo se compõe. Provavelmente num mundo ideal isso aconteceria, mas na proporção inversa do que se possa imaginar num primeiro instante.

Acontece que eu gosto da ideia de mimetizar a família e amigos, dá-me uma sensação confortável de aldeia, de comunidade, de protecção, de haver um espaço legítimo para a tentativa-erro. E, para solidificar e rematar essa prática, fazer como dizia o Professor João dos Santos: educar é fazer falhar a educação que nos deram. 
Eu quero fazer isso, é assim que vou tentar estar na educação do(s) meu(s) filho(s). 
Porém, não me safo de um processo de retaguarda a que os pais biológicos são, na sua grande maioria, poupados. Na adopção há um passado, no mínimo negligente, a ter em conta e muito provavelmente o(s) meu(s) filho(s) trarão memórias que nós teremos de ajudar a neutralizar para que possam retomar as suas meninices em segurança e com alegria.

Devo ler e receber formação e reflectir e discutir os assuntos que me são apresentados com o meu marido e com a equipa de adopções e com outros casais e com outros candidatos à adopção e com a família e com os futuros profissionais que venham a acompanhar o(s) meu(s) filho(s). Já tenho provas dadas disso, dessa necessidadade, pois já analisei situações que tenho a certeza de que eu não enfrentaria da forma mais eficaz do ponto de vista dos afectos se não tivesse lido e recebido formação e reflectido e discutido esses assuntos.

Durante os anos de infertilidade, antes de cada tratamento parei para reflectir sobre a vida, se fazia sentido ter um filho, tentar consciencializar-me para as grandes mudanças na minha vida com a vinda de um filho, etc. Agora, para a adopção, não só ponderei estas questões como se lhe acrescentaram mais algumas e uma das mais importantes é esta: a que necessidades é que eu acho que tenho capacidades para responder?

Isto é algo que tenho aprendido com a equipa de adopções, é a fazer estas reflexões que nos ensinam nas sessões de formação. Não pensem em vir de lá com respostas, vêm com mais perguntas, mas estas são as perguntas que nos ajudam a saber a cada passo mais e melhor aquilo para o que achamos que estamos preparados.
Tudo em prol de uma adopção de sucesso que é dar uma família a uma criança em que ela se sinta  amada e segura, em que saiba que aqueles pais estão ali para o que der e vier, para sempre, e que cada um tem o seu papel e o das crianças é esse… ser criança, com todos os direitos que lhe são devidos. Acrescentando-lhe mais alguns, de preferência.

E querem saber uma coisa? Tudo isto está a acontecer de forma natural na minha cabeça, a encaixar, a fazer sentido que assim seja, estou a sentir isto de forma muito intensa e a sentir a forma humanizada com que nos estão a abordar. A palavra que me surge desta construção é fraternidade, e mesmo adivinhando grandes desafios e dificuldades estou a gostar muito de estar neste sítio, lado-a-lado com o meu amor e com a minha família e amigos que estão todos a viver uma gravidez muito desejada.

Ah! Retenham estas expressões pois suspeito que as vamos usar muito por aqui: neutralizar e necessidades versus capacidades.

Cipreste