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segunda-feira, 8 de setembro de 2014

talvez escrever

Estou cansada de desabafar sobre os meus problemas. Estou cansada de tentar colocá-los em perspectiva, de me acusar de me queixar de “barriga cheia”. Estou cansada de olhar para o lado, para os problemas dos outros e sentir-me indigna dos meus queixumes. Às vezes, estou simplesmente cansada de mim.

Cada vez menos confidencio com amigos. Na verdade, os meus únicos confidentes têm sido mesmo o Chaparro e este blog.

Estando eu própria cansada de mim, receio cansar os outros. Aliás, penso já ter cansado algumas pessoas que claramente se afastaram de mim nos últimos meses. Nem sequer sinto legitimidade para abordar essas pessoas. Sinto que posso ter sufocado um ou outro amigo com tanta intensidade de relatos de eventos em sucessão. Deixo-me ficar no meu canto. Disse-lhes um ou dois olás, perguntei-lhes como vão, responderam-me que vão bem ou que vão indo. E ficou por ali. Confirmei de mim para mim que as suas ausências se devem ao espaço que ocupo e que precisam de libertar para si. E assim tenho vindo a ficar no meu canto.

Não exploro o assunto solidão porque não o identifico, embora reconheça que o afastamento de pessoas que habitualmente fazem parte do nosso círculo íntimo leve a uma certa solidão. Mas não creio ser essa a solidão que sinto.
Resta a saudade do que foi e a consciência de que o que se foi não volta, nunca mais. Fico com a auto-estima periclitante e falo mais baixinho com quem quer que se aproxime de mim. Desejo não ferir os ouvidos das pessoas.
Reflicto sobre o bem-querer. Reflicto sobre a efemeridade.
Recuso-me a considerar que já não se fazem amizades como antigamente porque não acredito que antigamente é que era.
Começo textos sobre a necessidade que sentimos, que sinto, de cultivar a lealdade e apago tudo. E depois recomeço outro texto.

Não sou prisioneira da obrigação de se ser zen e detesto a tirania do optimismo. Apesar disso, e de reconhecer que todos temos os nossos dias, procuro fazer por contrariar o mal-estar interior. Acima de tudo, porque não gosto (mesmo nada) desta sensação de querer fugir, de fazer um sprint, ouvindo esta canção em repeat, e só parar quando chegar a um penhasco da Galiza e ficar ali em pendência com as minhas vertigens.

Há dias em que nenhuma solução se adivinha, há dias em que sentimos muito mais forte que a nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer*.
Hoje, a minha manhã foi regular, igual a tantas outras, cumpri o meu dever e fui almoçar. Não senti o sabor da comida, depois tomei um café e fui fumar um cigarro. Tenho fumado uns cigarros, ainda assim não me sinto consolada. Há pouco, voltava ao meu posto de trabalho e listava mentalmente os eventos e tarefas para os próximos tempos, sendo a ocupação mais importante a cirurgia da mãe-Chaparro, e o revolver a cabeça à procura de uma solução profissional para o Chaparro, seguem-se as ninharias que me levarão as energias: uma reunião hoje ao final do dia com outra entidade com que colaboro; retomar aquele compromisso que ficou interrompido com a minha cirurgia; preparar a formação do final da semana; preparar-me para a reunião de amanhã; preparar-me para a reunião de 5ªfeira e que levará à escrita de 3 resumos e 1 proposta de projecto que tenho de fazer até dia 25; preparar a formação de Outubro, e a de Novembro e a de Dezembro, sem falar na outra que começa no dia 22; contactar aqueles indivíduos que vêm ajudar nesta formação que começa no dia 22; (reparem que todas estas formações, excepto uma, são extra o meu emprego/horário de trabalho) inscrever-me na outra associação; pagar quotas; já agora, lembrar o Chaparro de pagar o selo do automóvel assim como da inspecção periódica; ah! e pagar aquela conta da oficina; inscrever-me no congresso profissional; planificar as 6ªs e Sábados que vou ter ocupados com formação que, essa sim, vou receber; e o sindicato (oh céus, como me deixei envolver em mais esta?!);  continuar a marimbar-me para a limpeza da casa, mas pôr roupa a lavar ur-gen-te-men-te; e decidir se sempre publico o meu livro.

O meu livro. Nunca vos contei: eu escrevo. Quero dizer, escrevo sobre outros assuntos que não só a infertilidade, a endometriose e a adopção. Escrevo uma coisa a que penso se possa chamar de prosa poética. Ando há anos (anos!) para publicar e parece que vai ser agora. São tudo textos escritos a anos-luz desta que hoje se apresenta como Cipreste. Embora este apelido venha da convivência desses dias. À distância, reli-os, e leram-mos em voz alta convencendo-me que, ok, é publicável.

Ao listar estas tarefas, pensei que não vou conseguir levar avante tudo isto. É demais, pensei. Não é um dia de cada vez, são 4 meses muito cheios. E senti o canso todo em miscelânea, senti os cansaços todos juntos dentro e fora de mim, como uma nuvem de fumo, mas de fumo indestrutível. E pensei que, uma vez que não tenho disponibilidade nem dinheiro para ir passar os próximos meses a Bora-Bora, talvez deva voltar a escrever sobre os outros assuntos que não só a infertilidade, a endometriose e a adopção. Ou, talvez, sejam  os mesmos assuntos, apenas todos juntos nesses dois que dizem obcecar os poetas: o amor e a morte.

Tenho uma vaga memória de me sentir mais perto do mundo quando escrevia sem travões. E eu que ando tão atreita a deixar-me vaguear ao deus-dará. Talvez hoje passe por um café antes de zarpar para casa e tente escrevinhar uma ou duas linhas com a alma toda lá dentro.
Em busca de me sentir mais perto de casa.

É isso: tenho saudades de casa.

Cipreste

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

desejar que o dia nos seja limpo

Cada pessoa tem o seu jeito de levar a vida. Eu tenho um jeito que me traz sempre a analisar as coisas que se passam, a reflectir sobre a existência.
Actualmente, as redes sociais estão cheias de memes com citações sobre como levar a vida e confesso que me enjoam um bocado. Acredito, ainda assim, nalguns mantras que outros considerarão ingenuidade e sei que, muitas vezes, o que digo possa ser apelidado por pessoas mais práticas como sendo um discurso de auto-ajuda.
Mas a verdade é que estão sempre a acontecer”-me” coisas que não consigo ignorar, acabando por me ver nesse lugar de dissecar os dias. Reparem, não me estou a queixar da minha sorte, pois considero-me uma pessoa muito sortuda e privilegiada, mas não me lembro de viver sem sobressaltos.
Cada um tem os seus problemas, é bem certo, porém, às vezes, parece-me que há vidas um pouco mais tranquilas do que a minha. Isso, ou talvez seja apenas eu a achar que a vaca da vizinha é mais gorda do que a minha.

Amanhã é um dia bonito nas nossas vidas, porque se dará um marco que é bonito de se celebrar. É uma data especial, mas nem por isso deixou de ser assombrada.
Esta semana tivemos duas más notícias, daquelas que os psicólogos colocam nas listas de tipo “Os 5 eventos marcantes de vida como sendo causas de depressão ou stress”.
Uma delas é ultrapassável, traz angústias mas até pode vir a servir para uma viragem de vida positiva, por agora, constitui um problema a ser resolvido - que vai ser resolvido.
A outra, e as possibilidades que traz dentro, tira-nos o tapete por debaixo dos pés, deixa-nos momentaneamente sem fôlego, faz-nos ter medo, faz-nos sentir as lágrimas sempre prontas a brotar.
É chegada uma nova hora de termos todos muita força, de estarmos atentos e nos apoiarmos uns aos outros, de torcer para que as piores suspeitas não se confirmem.

A ser sincera, digo que gostava que a vida nos desse uma pausa nestes sobressaltos, mas não tenho a quem o pedir pelo que também me vejo sem ninguém para culpar. São acasos da sorte e do azar. E queixar-nos também não terá serventia, não é? E talvez fosse mesmo uma heresia, pois, como disse, sei que somos uns privilegiados.

No meio disto tudo, temos conversas de esperança. Sonhamos com os nossos meninos e confessamos a ânsia da sua chegada aos nossos braços. Vamos compondo o enxoval do sobrinho que aí vem e já o imaginamos a adormecer ao nosso colo.
via post secret
Somos uns sortudos, não é? Temo-nos uns aos outros e sonhos de embalar.

E depois, mesmo sem acreditar num Deus, mas acreditando na energia do bem-querer, podemos rezar e desejar dias limpos uns aos outros, que sempre traz alguma inspiração aos nossos sorrisos.

Saúdinha!
Cipreste