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quinta-feira, 10 de dezembro de 2015
qualquer dia formo o clube de fãs da mãe preocupada
«Respeito e aprendizagem, que aconteçam em ambos os sentidos, são o bastante para harmonizar novos e velhos. A obediência, essa é a grande inimiga do futuro.»
Por mãe preocupada
terça-feira, 1 de dezembro de 2015
cá ando, neste emaranhado
já que não tenho tempo, fica aqui uma ideia do que eu gostaria de conseguir fazer e vir dizer, pela mãe preocupada:
Eu, que tantas birras e amuos tenho aturado aos adultos, não compreendo que dificuldade é esta, pisada, repisada e perversamente alimentada, em entender quem acabou de chegar ao mundo e demora a incorporar códigos, rotinas e convenções.
Não se aguenta mais esta conversinha da treta, lucrativa, bem falante e livresca, sobre disciplina e autoridade. Dissertam sobre educação e amor como quem dá dicas para abrir latas de atum sem verter óleo, mas as latas de atum são todas iguais e saem de linhas de montagem com idêntica mecânica, o que não se aplica à humanidade (por enquanto).
Em todo o caso, que valor tem isto num mundo onde os adultos andam desorientados, desfocados, gastando rios de dinheiro em paliativos, terapias, workshops, esperando receber em três tempos dos céus, dos gurus ou dos manuais a serenidade, a compaixão e a gentileza que nem têm tempo para dar aos outros? Quantos adultos conheço que dizem "por favor" e "obrigada"? Quantos vão dormir a bem? Quantos aceitam aquilo que é facto, o trânsito parado, o dia de chuva, a constipação que já atacou? Quantos não têm achaques nervosos a cada contrariedade? Quantos não vivem para alimentar os próprios caprichos, futilidades, gadgets, acessórios, roupinhas? Quantos não sofrem de um narcisismo crónico que mal disfarçam nas conversas de café e na urgência em aderir a nobres causas? Quantos não viram costas e fecham a cara, só pelo desagrado do que acabaram de ouvir? E quantos não se satisfazem depois a rogar uma praga, a espalhar um boato, a maldizer e vomitar palavrões?
Qualquer criança sabe - porque sente - que não se pode confiar em nada disto. Talvez ajude deixar de esperar se portem como macaquinhos amestrados, como brinquedos programáveis, como estabilizadores das nossas próprias emoções. Talvez ajude aceitar que são gente. E então tudo se aquieta, o que não significa que se resolva.»
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
Mãe Preocupada: o melhor sítio da blogosfera portuguesa
título alternativo ao post: escrita brutal e brilhantemente bela que nos faz exclamar "raisparta"
«Somos iguais
«Somos iguais
- Veja, por exemplo, a menina é doutora, eu sou isto que não passa do pouquinho que estudei e bem me arrependo, mas que interessa? Somos iguais, mulheres, mães. Somos humanas, não é?
Foi isto umas semanas depois de o mais velho me ter contado que o rapaz dela chegara à escola todo marcadinho nos braços e nas coxas. Confidenciara-lhe em surdina, obrigando-se ao riso para diminuir a vergonha que sentia: um arraial de porrada na noite anterior, estalo e pontapé, por causa de uma dessas rebeldias de adolescente, nem percebera bem qual porque o desacato era o seu modo natural de ser. Não comentes, nem com a tua mãe, senão a minha dobra a carga. Mas ele comentou, e um dedo nos lábios foi o sinal para que eu não repetisse em voz alta o que acabara de ouvir. Fiquei-me de noite às voltas na cama, nem a leitura me desatou os grilhões ao pensamento. Quantas vezes o miúdo comeu e dormiu lá em casa? Quantos abraços me deu? A gente afeiçoa-se. Mãe de um é mãe do mundo, vê em todos o filho que podia ser tido, rala-se com as dores de crescimento alheias, contrai-se do ventre que pariu o universo torto, imperfeito, aleijão.
Depois, então, encontrei-a. A propósito de assunto que não recordo, disse-me aquilo. Que eu sou doutora, ela não passa do pouquinho que estudou, mas somos iguais. Quase a desdigo, porque sinto-me a milhas dela, em mundo paralelo, incapaz da tolerância que aprendi com aqueles que tiveram vida oposta à minha e cortaram nos afetos para amealhar em resistência. Calo-me, olho-a com secura e dou-lhe apenas o que a boa educação impõe.
Acontece que, subitamente, o rapaz aparece e vejo-os unindo-se num abraço feliz, olhos protetores nos olhos aduladores, cumplicidade de mãe e filho sarando todas as feridas, o laço firme que nem a rebeldia desata, o beijo maior que a sova. Do útero até à morte.
São tremendas, misteriosas, - às vezes até um susto - as coisas do amor. E a minha tese sobre o segundo pilar de Maastricht, além de ser um fastio, não me avisou de nada disso. Doutora do caraças.»
quarta-feira, 10 de setembro de 2014
da boca dos outros
Conta-me histórias
por Mãe Preocupada
«(...) Formas de pensar nem sempre são formas de ser e, muitas das vezes, não passam de modos de dizer. Além disso, sabes o que acho das convicções: são suicídio. Quando a gente insiste num lado, começa logo a morrer dos outros. Poupemo-nos à terrível humilhação de nos faltar o ar quando estamos no cimo do palanque.
Conta-me histórias. Prefiro que me contes histórias, nem que as inventes. Antes ser aldrabada pela tua imaginação do que pelos teus juízos. (...)
Poupa-me a moral, sentença ou epílogo. Para contar uma história é preciso hipotecar o coração e assim logo ficarei a saber o quanto ele vale.»
por Mãe Preocupada
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
da boca dos outros
Bandeiras
por Mãe Preocupada
Tenho aprendido pouco da vida. Não por falta de tabefes ou de atenção às lições, mas porque em nada disto vejo ciência exata e a fórmula que ontem deu conta certa hoje pode resultar em incógnita. De uma coisa, porém, me vou lembrando: que certos apegos são inúteis. Que o "abrigo", o "porto seguro", a "estrutura", a "terra firme" são conceitos fantasiosos, esculturas da nossa debilidade. Que o melhor é manter a disposição para mudar de rumo. Que não há casa que não possa desmoronar-se, caminho que não possa desembocar em precipício, dinheiro que não arda, vida que não tombe em sepultura. Caminhe-se com bons companheiros e vistas amplas, mas não se presumam apropriações, moradas definitivas, territórios cercados, contratos vitalícios.
É tolice espetar bandeiras num mundo que não para de girar.
por Mãe Preocupada
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