terça-feira, 1 de setembro de 2015

Amanhecer

Não sei se vou conseguir. Para ser honesta, não sei se é isto que quero. Mas afeiçoei-me a vós, a alguns de vós. Passei a gostar de falar convosco. Mas não sei se vou conseguir falar convosco agora.

Agora é o início da era da maternidade. Agora é o início da nova era - a era após a partida do meu pai. Agora sou eu diferente. Eu estou diferente. Mudei. Afinal, mudamos. Sou a mesma pessoa, obviamente, porém houve mudanças cá dentro e reflectem-se no meu dia-a-dia, na forma como me movo, na forma como falo. Estou diferente e ainda me estou a habituar a isso.

Diferente pode ser tão-só a expressão para dizer que estou cada vez mais real e próxima das coisas pequenas e mais simples. Ficando, assim, mais complexa na extensão dos meus pensamentos, sendo agora uma missão mais difícil esta, a de escrever.

Queria contar-vos como é tão difícil cumprir o slogan Pessoano do “primeiro estranha-se, depois entranha-se” da maternidade ready-made que a adopção traz. Queria contar-vos como é possível que esta mais-difícil-tarefa-de-sempre me traga voluntariamente sequestrada neste estado de (sim!)-é-isto-que-eu-sempre-quis-fazer.
Queria escrever sobre as coisas práticas, deixar-vos dicas.
Apesar da vontade, dou por mim ainda neste estado de uma certa inércia comunicativa.
Talvez ainda precise de mais tempo. Hoje, li estas duas citações, explicam-me muito:

"Where there is much light, the shadows are deepest"
Goethe

“For my belief is that if we have five hundred a year and a room of our own; if we have the habit of freedom and the courage to write exactly what we think; if we escape a little from the common sitting-room and see human beings not always in their relation to each other but in relation to reality…then the opportunity will come and [we] will be born.”
Virginia Woolf


Sinto vontade de partir, de viajar com o Chaparro e com os miúdos, percorrendo o mundo. Não à procura da civilização mas perseguindo a maravilhas da natureza. Começaria pela aurora boreal.

Amanhecendo devagar nesta nova era.

Até já,
Cipreste

p.s. parcimoniosamente, deixo a grande notícia em post scriptum: chegaram os novos cartões de cidadão dos meninos - os nossos filhos são oficialmente nossos. Processo burocrático findo após 10 meses. Confere!

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

e é isto


Este é o terceiro post que escrevo a justificar-me perante quem nem sequer me pede contas mas a quem sinto dever mais respeito (no mínimo, respostas).

Quero tanto falar-vos sobre o que é isto de adoptar duas crianças “mais velhas”. Quero falar-vos sobre a surpresa da maternidade. Sobre a minha constante luta interior, sobre a minha ânsia de ser boa mãe, de, quando muito, nas minhas falhas lhes causar males menores. Quero partilhar os meus encontros recorrentes com a discrepância entre o que reflicto e como ajo.

Penso que vou ter tempo de escrever e vir aqui partilhar os meus pensamentos convosco durante as férias, mas, como ultimamente aprendi a avaliar bem os compromissos que tomo, não faço promessas pois é bem possível que, ao contrário de o actualizar, deixe o blog em stand-by.

Somos pessoas com ligações ao mar.
Vamos a banhos e talvez voltemos já.
Talvez voltemos mais tarde.
Saudinha,
Cipreste

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

copy/paste

um pouco à pressa, cansada e descansada, preocupada e tranquila, cheia de dias cheios ocupados e desocupados, ainda sem conseguir vir falar convosco na primeira pessoa, responder a comentários e a emails, deixo-vos com este copy/paste ao qual digo "ámen" (adoro resumos bons!)
beijinhos e boa praia-trabalho-viagens-etc
Cipreste
~ ~ ~

Jennifer Lehr

Want respectful children?

If you want respectful children…

You gotta be respectful to them.

You want your children to listen to you?

You gotta really listen to them.

You want a child who is caring, sensitive and patient?

You gotta be caring, sensitive and patient to them.

You want a resilient child?

You have to let them practice struggling and recovering—with support.

And if you want your child to have impulse control…

you have to have it with them!

As in, don’t lose your cool. And when you make a mistake and respond in ways you wish you hadn’t (which we all inevitably do), you need to make amends—the benefits of which are numerous: 1) Your children will see you as fallible and thus human, 2) they’ll know you truly care about their feelings and 3) you’ll be modeling remorse and humility.

And just because you do treat them with respect and compassion, doesn’t mean they will transform their behavior overnight.

Patience, repetition and predictability are key.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

curtas

Chamo os meninos mas só ela comparece. Pergunto por ele ao que ela me informa que hoje ele só responde por "fada", chamo pela fada e lá surge por detrás da cortina com as asas e as antenas* de fada na cabeça

*a mim, parecem antenas, mas não sei se as fadas têm antenas

domingo, 19 de julho de 2015

ambições

"só" queria conseguir isto:

«Ser “desnecessária” é não deixar que o amor incondicional de mãe, que sempre existirá, provoque vício e dependência nos filhos,(...) Porque o amor é um processo de libertação permanente e esse vínculo não pára de se transformar ao longo da vida. (...) O que eles precisam é ter certeza de que estamos lá, firmes, na concordância ou na divergência, no sucesso ou no fracasso, com o peito aberto para o aconchego, o abraço apertado, o conforto nas horas difíceis. Pai e mãe – solidários – criam filhos para serem livres.»

via este link, que não refere a autoria do texto

sábado, 18 de julho de 2015

ambições


Dos novos dilemas que surgem com a maternidade: fazer conviver a sofreguidão por livros de poesia com a sofreguidão por livros "infantis".


curtas

Enquadramento da situação: ter uma mãe que fala português e um pai que fala alentejano

Os efeitos do bilinguismo, numa prova de nêsperas, a minha filha diz: É bom! Só que ainda não consegui perceber bem se sabe a maçã ou a pêro.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Vou ali (e acolá) e já venho

Olá, olá

Só para dizer que o blog está em auto-gestão ("postagem" agendada), andamos a mil, motivo pelo qual temos deixado comentários e emails por responder. Voltamos já-já para vos dar as novidades das últimas duas semanas (e da próxima!) :)
Bom fim de semana!
Cipreste




do léxico do Chaparrito

Obrigadação
Resmate
Desfender
Desquecer
Canguruja

quarta-feira, 8 de julho de 2015

curtas

07h15
Dar um beijo ao Chaparro. Lembrá-lo dos pormenores logísticos do dia. Dar outro beijo ao Chaparro.
Espreitar os meninos. Dormem ferrados.
07h20
Descer as escadas, engolir uma taça de cereais.
07h25
Pegar na trouxa, ouvir os passos de alguém no andar de cima. O «Bom dia, mamã» que se ouve ensonado. Chegar-me ao corrimão, «Quem está aí?», «Sou eu, mamã.», diz ele ensonado, «Estou na casa de banho», explica. «Bom dia, filho, a mamã já não consegue ir aí acima, estou mesmo de saída para apanhar o autocarro», «Está bem, mamã, até logo, tem um bom dia», «Para ti também, amo-te muito».

Fazer a viagem com um sorriso "parvo" na cara, rever cada segundo de beleza, dar graças por isto. Por tudo.
E o pormenor atencioso «tem um bom dia».
E a doçura ensonada com que repete «mamã».
Oh céus, quanta ternura consegue uma mãe aguentar?

This is bliss.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Criar

Quando me dei com dois filhos no regaço não foi no amor de mãe que pensei, não foi isso que senti em primeiro lugar. Quando me dei com dois filhos no regaço foi a possibilidade o seu sofrimento que tomou conta de mim.
É óbvio que, se falamos de uma situação de adopção, estamos a falar de perdas específicas, mas não falo apenas do evidente sofrimento que se adivinhará a quem o percurso de vida familiar tenha sido interrompido precocemente. Falo do sofrimento natural e inerente a todos nós.
A primeira vez que me deparei com uma situação de stress da minha filha, com aquele corpo magro a tremer e ela a encostar-se a mim como se quisera entrar por mim adentro, senti que ia desfalecer, pensei mesmo que ia desmaiar. Quis fugir. Não era possível que o sofrimento daquele ser pudesse influenciar de tal forma a minha capacidade respiratória. Mas foi – é – possível.


Tenho dois filhos maravilhosos. São as pessoas mais corajosas que conheço. São pessoas de bem com a vida.
São os meus heróis.


O nosso início de vida foi como o é a vida no seu todo:implacável. Estávamos juntos há menos de um mês quando o estado de saúde do meu pai se começou a agravar até que nos deixou, ainda não havia passado dois meses da nossa vida em comum. Ao entrar numa vida nova e totalmente desconhecida com sonhos de serem um príncipe e uma princesa, prontos para viver felizes para sempre, os meus filhos vieram encontrar uma mãe em lágrimas.
Assim, a nossa vida começou com risos e choro à mistura, com conversas sobre o amor e sobre a tristeza. Afinal, não estavam ali apenas duas crianças de luto pela sua vida anterior, mas uma família inteira de luto.

Dou comigo, assim, no lugar em que me questiono como posso criar os meus filhos para saber estar de bem e conviver naturalmente com o sofrimento próprio da vida. Sinto, assim, que a dimensão do amor pelos filhos não passa, para mim, por descrições cor-de-rosa sobre como seria capaz de dar a minha vida por eles ou que os filhos é que vêm dar sentido à nossa vida. Aliás,sempre achei que existir para dar sentido à vida dos pais é no mínimo, e para começar, uma herança demasiado pesada para um filho.
Adiante.

Não deixo de ler o que posso sobre pedagogia, o que não é o mesmo que dizer que ando à procura da teoria acertada para educar. Para lá do ensino das boas maneiras à mesa, a educação para a vida nada tem que ver com discursos e é quando nos vemos mergulhados no meio destas emoções todas que damos verdadeiro sentido ao “educar através do exemplo”.
É óbvio que temos desejos para o tipo de pessoa que gostaríamos que os nossos filhos crescessem para ser, para além das suas essências próprias, mas nada mais do que o básico: ser boa pessoa, honesto, amigo, trabalhador, etc.


Passam 8 meses desde que a minha vida mudou para sempre – assim mesmo, com todo o dramatismo próprio à frase que acabo de escrever. 
Assinalo os dois grandes marcos desta viragem da minha vida: a confirmação de que a aprendizagem sobre o bem-querer vem do bem-querer ele próprio e não de palavras vãs, precisamos de actos coincidentes com as palavras; e a constatação de que o meu bem/mau-estar vai estar para sempre a passo com o destes dois seres maravilhosos que entraram de rompante na minha vida.

Este texto que linko resume o que tentei dizer neste post, de uma forma que receio ter sido atabalhoada mas que penso ser útil na partilha de experiências e dúvidas que cabem a muitos de vós que estão deste lado comigo. Acima de tudo, é sobre a nossa capacidade de luta contra o sofrimento de um filho quando percebemos e aceitamos que a vida (também) é sofrimento e que é possível conviver e rir com ele sem ter de decretar derrotas antecipadas à morte – pois esta é a única coisa que não tem remédio.

Brian Rea

«The most optimistic people often struggle the hardest. They can’t quite square what’s going on in the world with their beliefs, and the disparity is alarming.
(...)
In retrospect, my poetry project was a harmless sideline that kept me benevolently out of her way as she struggled not just to see the horizon but to march bravely toward it.»




Cipreste



domingo, 5 de julho de 2015

regressar à labuta

Foram 5 meses de licença de maternidade. A nossa opção foi de 150 dias [120+30(criança "extra")] a 100% do meu vencimento. Não partilhámos a licença, lembram-se que o Chaparro havia perdido o emprego? Pois, aconteceu tudo ao mesmo tempo para não ser monótono :P

Adiante, o que vinha dizer é que tive de regressar e embora goste do meu trabalho e dos meus colegas e tal, confirma-se o que sempre suspeitei antes de ser mãe: gostava de ser uma stay-at-home-mom.

Não estava era à espera de, às 8h, quando coloco o dedo no sistema de identificação biométrica já estar com saudades da minha gente.
Resta-me adaptar até que me saia o euromilhões ou tenha uma qualquer epifania.
Enquanto isso, dou por mim murmurando a toada desta canção ao longo do dia.

sábado, 4 de julho de 2015

ai, ai, cupido

De pequenino se torce o coração

dia 1
ele: A MB anda sempre atrás de mim, é um castigo!
eu: Está apaixonada por ti?
ele: Sim.
eu: E tu também gostas dela?
ele: Eu não!

dia 2
ele: A MB não me larga!
eu: Será que não gostas nem um bocadinho dela?
ele: Eu não!

dia 3
eu: O que estás a fazer?
ele: Um livro.
eu: Ah, que giro, e para quem é?
ele: Para a MB.
(acresce a informação de que a capa do livro estava crivada de corações)

Entretanto, contabiliza as namoradas, diz que foram 12 só este ano lectivo (incluíndo uma menina da 3º ano) :/

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Conselhos totalmente grátis

Hoje começamos esta rúbrica muito atrevida: conselhos básicos não solicitados.
Porque sim. Ao estilo pouco modesto de "quem vos avisa, vossa amiga é".

Primeiro conselho, dirigido a candidatos à adopção:

Confiem na vossa equipa de adopção e estejam disponíveis para observar os eventos por todas as perspectivas possíveis. Tenham a mente aberta. Sejam sinceros e não tentem esconder informações ou dúvidas por receio que possam ser utilizados contra vós. Não fujam. Não tenham medo de considerar hipóteses justificativas que normalmente não seriam contempladas no vosso círculo de reflexão. A equipa é o vosso grande aliado e será porventura quem melhor compreenderá as vossas dificuldades.
Acima de tudo, não se esqueçam que na adopção os comportamentos de todos, e especialmente das crianças, não podem nem devem ser lidos pelo mesmo manual do que o de crianças não-adoptadas.
Sim, educar um filho por adopção tem diferenças e elas devem ser consideradas, o que não significa que os filhos sejam tratados (ou amados, é melhor deixar a ressalva para alguém mais sensível) de forma diferente do que "outros" filhos.



Portanto...
Confiem na vossa equipa de adopção e partam para a adopção com a mente aberta

facebook


Para muitos utilizadores como nós o feed do facebook funciona como um aviso de actualização de sites que seguimos. Por isso, resolvemos criar uma página para o blog. É apenas mais uma ferramenta para facilitar a comunicação e nós temos o vício de facilitar a comunicação :)
Estamos aqui. Até já.


quinta-feira, 2 de julho de 2015

8 meses

Tenho tanto para vos contar que é difícil decidir por onde começar. Os últimos 8 meses foram muito intensos - tão difíceis e tão especiais. Resolvi começar com isto que escrevi e dediquei à minha família no dia em que entregámos no Tribunal de Família e Menores a petição para a adopção plena dos nossos filhos. É uma espécie de exercício em forma de resumo poetico-prático:


Superior Interesse do Amor

Outubro
O telefone tocou
Magnólia e Chaparro Júnior
A hora em que nos vimos pela primeira vez
Papá, mamã
Filha, filho

A vinda para casa
A primeira noite
O primeiro choro
A primeira dor
O primeiro dia de escola
O medo a instalar-se dentro de todos nós

Novembro
Conhecer o mano mais velho e a paixão imediata
Viva a capacidade de amor das crianças
Tios, primos, avós – e a última fotografia tirada com o meu pai
E o resto da vida a acontecer
O primeiro internamento do avô, duas semanas após estarmos juntos
Prepararmo-nos para o pior
Disse o médico
Preparar a rede para o pior
Conhecer a família alargada
Conhecer os amigos dos pais

Os primeiros recados na caderneta dele
A primeira chamada da professora à escola

Dezembro
O segundo internamento do avô
A dor dos dias seguintes
O testemunho do último suspiro do meu pai querido:
Adeus, paizinho,
Não vás, por favor, não vás
Até sempre, paizinho

O pai que os foi buscar ao campo de férias do Natal e lhes disse
“O avô foi embora, nunca mais vai estar connosco”
E a dor dos dias seguintes
O funeral a assinalar o nosso aniversário de casamento
As datas, sempre as datas
Ficarem ao cuidado da família alargada, sem ainda terem estado longe de nós
Os dias seguintes
O meu aniversário e um bolo absurdo com velas
E o Natal mais triste de sempre
(Era para ser o Natal mais feliz de sempre)
O Natal mais triste de sempre
As datas, sempre as datas
E os foguetes de ano novo que se ouviam
Na casa onde o silêncio reinava entre as nossas lágrimas
As datas, agora a contar para trás no que é a memória do meu pai

E o resto do mundo, ingrato, que não parou solenemente

E um Inverno duro e confuso
Os dias mais confusos de sempre
Cheios de medo e incompreensão

A questão: como era possível que aquilo fosse o resultado da minha busca de vida

Janeiro, Fevereiro
Tanta dor
Tanta força a ser necessária
E o amor a tentar pôr-se em bicos dos pés
E os dias com as suas coisas práticas a intrometerem-se
Era necessário assegurar
Refeições, roupa, trabalhos de casa, educação, regras, estabilidade
Amor

E a negridão a aproximar-se para dentro de mim
(Mas o amor já estava em bicos dos pés)
E precisar de ouvir: estão a fazer um bom trabalho
Precisar de votos de confiança, receber silêncio e ausências
Eu caio
E, um dia, receber uma carta generosa
De uma pessoa inesperada
(És uma boa mãe)
Guardar essa carta como um tesouro
E dar graças pelas pessoas bondosas
Levanto-me e grito
Deixo de precisar daqueles que não fazem um extra mile
Nem geográfico, nem emocional
Hoje e para sempre
Contar comigo e com o meu amor
E com as pessoas bondosas

Compaixão e saber perdoar

Março
Dizemos em voz alta: somos um rochedo
«Somos um rochedo.»

O primeiro dia do pai
E o amor
«O amor.»

Abril
Ele faz anos
Nós desdobramo-nos para lhe mostrar: amamos-te
Muito
Três festas: uma no dia, com os amiguinhos
Outra no Sábado seguinte, com os familiares
E no primeiro dia de aulas após as férias da Páscoa
Três festas, três bolos
E ele segue, com o terceiro bolo, a caminho da escola
Com a ajuda do pai, e diz-lhe:
A mãe é uma pessoa amorosa a fazer bolos de anos.

Confirmo o meu sonho:
Ser uma mãe-sempre-em-casa
Mas não posso
Regresso ao trabalho
Regressam alguns pesadelos nocturnos
Resolve-se com dormidas a quatro
Madrugada fora
Viva a cama dos pais
Abaixo quem julga as opções alheias

Ainda Abril:
Os nossos corações dão de si
Libertos do medo
Serenos

Maio
O primeiro dia da mãe
E o amor
Recebo outra carta: dela
«Mãe», diz-me ela, «amo-te»
Duas páginas repletas de juras de amor
Trago-a comigo, para ler em momentos de medo

Serenidade em pleno
Nos corações
Todos
Nos nossos sorrisos
Nos abraços matinais
Viver, agora e para sempre
Até que a morte nos separe

Junho
Ufa, a canseira de final de ano
Somos, como suspeitávamos que iríamos ser,
Pais participantes, lavamos tachos
Servimos sardinhas no arraial da festa de fim de ano
E saímos da escola à meia-noite
Damos um duche a duas crianças felizes que se deitam
Consoladas
Para ter sonhos bons
Abaixo os pesadelos

Lemos cerimoniosamente, na petição ao tribunal,
Escrita com a ajuda da jurista da nossa equipa de adopção:
Superior Interesse da Criança
E choramos
Da solenidade e da verdade
Desta expressão escrita agora dentro da história das nossas vidas

Tantas primeiras vezes, verdades e erros,
Tudo junto e plenamente humano
No superior interesse do amor
Hoje e para sempre
Que a morte só há-de separar-nos dos nossos abraços.

Cipreste

faltam aqui as patinhas do Freixo :)

terça-feira, 30 de junho de 2015

curtas

Ouvir os filhos a "brincar aos adultos" pode ser um bocado assustador. Quando mimetizam situações de stress, uma pessoa fica ali uns segundos na expectativa de os ouvir a reproduzir as barbaridades que, às vezes, damos por nós a dizer-lhes tongue emoticon
Para já, tenho suspirado de alívio, parece que têm bons filtros

tudo ao molho

uma página que não se percebe muito bem o que é, tendo como apresentação a seguinte mensagem «Somos por uma educação centrada na individualidade de cada ser que, promova a autonomia, criatividade e cooperação entre pessoas e em amor com a Natureza.», sem outros dados, tendo como imagem de "cover" uma daquelas citações erradamente atribuídas, não inspira muita confiança, mesmo sendo "pelo coração"

curtas

portanto, tenho dois filhos mas quem fica de castigo porque não deixa os outros brincar... é o gato squint emoticon
«oh, mãe, o Manji está a roubar-nos os brinquedos outra vez!"
«oh, mãe, o Manji está deitado em cima dos brinquedos outra vez!"
«oh, mãe, o Manji passou por cima dos brinquedos outra vez!"
and so on
^.^

curtas

Eu diria que é um exagero a quantidade de ovos e coelhinhos de chocolate que os meus filhos receberam. Diria mas não digo

Ainda Abril

Há um ano comemorávamos. "Só nós" foi o único desejo dos meus pais para festejar as suas bodas de ouro. E foi lindo. 50 anos de união é obra feita.
Hoje, enfim, hoje resta-nos apenas recordar. Recordar é pouco, não chega. Nada chega para ocupar uma ausência que ocupa tanto espaço.

Tanto e tão pouco e outros dias


(peças não tão soltas assim)
# o filho diz que vai dormir no céu quando vê que virei o edredon para o lado com estrelas
# o filho diz que se encontrará com o avô, lá no céu, durante o sono
# uma canção cujas primeiras palavras perdem a inocuidade porque me levam para as 4 da manhã da malograda madrugada de Dezembro
# pedir ao filho que diga ao avô que tenho saudades dele (e que lhe entregue um beijinho meu)
# pensar no que devia importar mais e desejar que abolissem os tpc
# o filho que aponta uma estrela do edrdeon e me descansa, que sim, que entregará a mensagem ao avô e aponta de novo a estrela “é ele” diz, em sussurro
# confirmar certas crenças e desejar que abolissem as provas nacionais
# assistir ao clube de leitura na escola e sentir as lágrimas correr pela face, voluntariosas lágrimas
# no dia seguinte, o filho diz “ah, é verdade, estive com o avô este noite e ele disse que também tem muitas saudades da filha dele e manda um beijinho”
# pensar na compaixão, e voltar a pensar (arrumar e desarrumar ideias, sempre)
# e completa “ele também tem muitas saudades da avó Bia”
# e eu penso que algo só pode estar certo neste momento, não obstante a tal madrugada que modificou a canção
# a expressão “cuidar dos vivos”

curtas

O meu filho a ver desenhos animados e a tentar ler os genéricos e a fazer, em silêncio, sinal de "thumbs up" ou a cerrar os punhos, conforme a cena corre bem ou mal, é heart emoticon

pai

o meu pai partiu
algumas canções mudaram para sempre



Getting close by going far away
Going far by staying here
To the kind of place
Where loneliness ‘s travelling best
Leaving ill and well alone
If all fails
All fails
Let the clock strike upon this resting hour

For now
For now
Leaving point despair
Leaving point hope

Getting lost to find a way back home
Getting back by letting go
Make another thought fall
In the flow of things
And death is just a breath away
But so is life
Saying this, but knowing not
Which scares the most

For now
For now
Leaving point despair
Leaving point hope

Whatever worry
running through the veins
When you go, we go
Whatever worry
Raise the flair
When you’re there
You’re there
Getting close
Abandoning point home
Leaving point despair
Looking up from the rush of things
in the point of life
that is now
a point of life
Adoro animais. Quando era miúda, havia quem me chamasse "Maria dos cães", na minha rua, porque andava sempre com uma matilha de cães vadios atrás de mim. Adoro o meu gato, gosto mais dele do que de muita gente. Tenho dito, é verdade. Chorei que me desunhei de cada vez que me morreu cada um dos companheiros de 4patas que já tive. E não me venham cá com histórias da longevidade do meu Manjerico que eu não quero saber: vamos morrer juntos, muito velhinhos.
MAS deixemo-nos de m*rd*s, um cão não é o mesmo que uma criança
Este vídeo é simplesmente estúpido. É uma ofensa a crianças - pessoas, que já passaram pelo drama do abandono. Idiotas. Misantropos de m*rd*!
E, já agora: não sou daquelas pessoas que desconfia de quem não gosta (aprecia) animais e vice-versa.

curtas

Tenho amigos que se queixam dos filhos não falarem, de não dizerem o que se passa na escola, etc. É bem certo que os meus ainda não chegaram à idade do armário e eu sei que um dia vou ter saudades do tempo em que me contavam tudo. Mas também não é preciso exagerar. São tramelas como a mãe, não sabem fazer resumos tongue emoticon
Reparem, à mesa, o pai conta qualquer coisa sobre o seu dia, depois a irmã, ao que ele pergunta se queremos saber como foi o seu dia. Respondemos que sim. E ele começa:
- Então, de manhã, começámos por escrever a data, depois escrevemos o sumário...

dia da criança

(post pouco ortodoxo para o dia da criança)
eu (indisposta à custa dos abusos de fds): não consigo almoçar, acho que vou fazer um chá de limão
filho: e se fosse um gin, mamã?

dia da criança

Das coisas que nos povoam o pensamento - nós, aqueles cujo pensamento tem caminhos paralelos para sobreviver a ausências: Hoje, o meu pai teria perguntado à minha mãe «o que é que compraste para dar aos meninos?».

«E esta música diz o quê, mamã?»

erm...

e damos por nós

e damos por nós a olhar para o lado e a perceber onde encaixam as peças
e conformamo-nos
com os dias inacabados,
com os planos que ficam pelo caminho,
com palavras fora do sítio, com o que não foi feito no início deste mundo
e com o que foi feito sem contar, sem sonhar, sem querer
e com o mundo que ficou pelo caminho e que não pudemos embalar
porque o que paira no ar não se diz de repente, antes sente-se, vive-se
e damos por nós a sorrir aos planos que ficam na gaveta, foi tão bom sonhá-los e ter agora a serenidade para os largar
damos por nós num lugar tão acertado, mesmo naquilo que sai de fazer das tripas coração, porque I bet we been together for a million years
é absolutamente *fascilante* (citando o meu filho)

da minha infância

apelo a sugestões


sendo que os DVDs do Noddy desapareceram e que apanho seca com os filmes da Barbie, alguém quer deixar sugestões de filmes se faz favor?
obrigadinhas
p.s. não tem de ser necessariamente do calibre "era uma vez", estou apenas a aproveitar para repetir o link tongue emoticon

curtas

o pai goza comigo e ela diz: oh, paiiii!
e eu penso "oh, que querida, a defender a mãe"
o pai pergunta-lhe: o quê?
ela responde: não se goza com as pessoas mais velhas

curtas

2º dia de férias e os meus filhos estão a brincar aos professores

curtas

É bem certo que cada um é como é, e tal, mas eu tenho de desabafar: o Noddy é um sonso.
E uma seca.

curtas

Com a chegada dos meus filhos, em idade escolar, o Acordo Ortográfico entrou na minha vida

curtas

que tipo de mãe és: daquelas que vão roubar chocolates aos filhos depois de os deitar. shiu.
2 ou 3 coisas sobre a escola:

# eu seria uma mãe muito mais feliz se não existissem tpcs

Não é que me custe pôr os meus filhos a fazer os tpc, são responsáveis e nem sequer tenho de os mandar ir fazê-los. O meu filho diz sempre que é pouco – “São só três fichitas”.
Também não é por achar que as professoras estão a tentar que os ensinemos em casa, é mesmo porque “tem de ser”. Aliás, pedem-nos sempre para não lhes dar as respostas e tentar reduzir ao mínimo a forma como os apoiamos nessas tarefas em casa.

É pelo tempo para brincar, e fazer outras coisas igualmente divertidas, que os miúdos acabam por perder em prol dos tpc

# os meus filhos devem ter as melhores professoras de sempre. Com elas ninguém faz farinha mas também não vão dali sem um carinho. My kind of gals.

Nunca tinha pensado no descanso que é ter uma professora assim. Sinto-me mesmo muito grata por isto.

São amorosas e ferozes, como escreveu uma menina da sala dele “A minha professora é linda e minha amiga, a minha professora ensina-me muitas coisas, a minha professora é muito feroz” tongue emoticon

# já fui a algumas reuniões só de pais e outras com as professoras e os pais e tenho a dizer que fiquei surpreendida pela positiva, sim senhora, nunca pensei

sempre tive das reuniões de pais uma ideia de serem uma espécie de “reunião de condomínio”, mas tenho tido muita sorte até agora, tudo gente muito cordial, uns mais calados outros mais faladores, mas todos participantes, ninguém a armar ao pingarelho

# quem me dera poder escolher uma método de ensino diferente – mas não me perguntem qual que não sei, seria algo em que o potenciar das capacidades dos pequenos não estivesse limitado a este formato tão formal que inventámos

vejo muito potencial na miudagem toda que fica pelo caminho neste modelo de ensino que temos

# que fixe que, sem querer – porque nem sequer pensámos nisso, os meus filhos foram parar a uma escola pública pequena e bastante heterogénea nas “origens” dos alunos

só depois de os ver lá dentro e começar a olhar para o lado me dei conta a sério disto e da sua importância

# não obstante muitas coisas que se podem apontar e que devem melhorar, sempre adorei a escola e revivo agora esta sensação tão boa, porque a minha gente gosta da escola (so far)

Com a água que tem passado debaixo desta ponte, ter as professoras como as nossas aliadas principais de dia-a-dia e encontrar na escola um porto seguro é algo que não tem preço.

O nosso telefone tocou!

Olá a todos,
Esta é a nossa família.
Um sonho tornado realidade com a chegada da Magnólia e do Chaparro Júnior.

Eis-nos num desenho feito pela Magnólia no dia seguinte ao nosso primeiro encontro, em Outubro de 2014.
A Magnólia tem 10 anos e o Chaparro Júnior tem 7 anos (feitos já connosco).
Apreciem a bela imagem, depois vimos deixar-vos um resumo dos últimos meses e segue-se uma corrida a actualizar-vos com fotos de tipo gato-escondido-com-o-rabo-de-fora e textos que fomos escrevinhando.
Até já!
Cipreste e Chaparro, muito orgulhosos



quinta-feira, 25 de junho de 2015

Nós e este blog

Na primeira pessoa do singular
Cipreste, porque afinal sou a mais faladora deste blog :)

Escrevo este texto no rescaldo de grandes eventos nas nossas vidas e da vontade de escrever sobre esses e outros assuntos.

Escrevo este texto porque é uma coisa que eu faço: escrever textos.
Não me estou a justificar, estou a fazer outra coisa que faço amiúde: questionar-me.
Enquanto escrevo, tenho ideias já formadas, formo ideias novas, mudo de ideias, transformo certezas em incertezas e vice-versa. São as minhas ideias e as minhas opiniões e é tudo parte de um processo dinâmico. Aceito e assumo mudanças de perspectiva. Não tenho intenção que alguém viva sob os meus princípios. Aceito opiniões respeitosas. Aceito discordar. Aceito críticas e sugestões. Não aceito imposições e não tenho muita paciência para pessoas que revelam não estar disponíveis para sair das suas zonas de conforto e olhar outros cenários. Detestaria que toda a gente fosse como eu, gosto que o mundo seja diverso. Estou nisto como no resto, com uma ética de vida que pressupõe fazer o bem (seja lá o que isso for, não é?). Os efeitos de quem venha tresler são da inteira responsabilidade de quem o faça.

Este texto serve também para organizar ideias sobre privacidade e partilha.
Não gostando muito de epítetos, mas de forma a facilitar a expressão, digamos que sou uma pessoa extrovertida e muito aberta, gosto muito de conversar, adoro conversar, adoro relacionar-me com o outro. Isto não faz de mim uma pessoa que não goste de estar sozinha: eu gosto – muito – de estar sozinha e não me rodeio de pessoas para mascarar inseguranças e outras dificuldades que uma psicologia de almanaque pretendesse diagnosticar.
Portanto, sou uma pessoa extrovertida e muito aberta, gosto muito de conversar, adoro conversar, adoro relacionar-me com o outro, mas isso não faz com que tudo o que partilho seja tudo e o todo sobre mim e sobre a minha vida, nem quer dizer que o que se possa ler escrito por mim, na primeira pessoa, permita um conhecimento de mim, da Cipreste. Acima de tudo, o que me importa é assumir tudo o que escrevo aqui perante os meus. Uma vez mais, não, não me estou a justificar por expôr pormenores e pensamentos, estou a fazer outra coisa que faço amiúde: questionar-me. Quem sabe um dia algo me leve a mudar de ideias (lá está) e decida ser imperioso apagar isto tudo.


Na primeira pessoa do plural
Posto isto, este texto serve também de explicação e apelo.

Explicação - estas pessoas que poderão ler aqui também somos nós mas não é tudo sobre nós, falta aqui a pele, o olhar, a voz e tanto mais. O que poderão ler aqui é apenas uma parte das nossas vivências e ideias, tirar daí conclusões sobre as nossas pessoas será porventura precipitado e decerto incompleto.

Apelo - acaso consigam, através da leitura de eventos ou das imagens aqui partilhadas, identificar-nos, por favor, não revelem publicamente a nossa identidade porque:
- Alguém pode ter a veleidade de fazer a confusão que tentamos evitar com a explicação dada sobre achar que fica a saber tudo sobre nós e as nossas vidas
- Se escrevemos aqui de forma anónima é porque é assim mesmo que desejamos estar aqui ;)
- Existem situações específicas e sérias que exigem que nenhum de nós esteja identificado

Somos pessoas que escrevem. 
E assim se vai alimentando este blog, um texto de cada vez, uma reflexão de cada vez, uma partilha de cada vez.
E o nosso desejo para com quem está aí desse lado é que desfrutem. Se assim o desejarem, conversem connosco, partilhem de volta com outras experiências, etc.
E, se por um acaso nos identificarem, venham dizer-nos olá :) Pode ser através do endereço odiatesejalimpo@gmail.com ou através dos contactos pelos quais nos conhecem ;) Acima de tudo, pedimos-vos discrição.
Obrigado,
Esta família de árvores

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Queremos regressar

Olá,
Estamos a tentar encontrar a forma mais confortável para regressar:
sim, já somos pais, pais muito felizes e orgulhosos.

Já cá voltamos para apresentar a nossa descendência.
Até já. Ou até logo.
Tenham paciência.
Agora fazemos tudo mais devagar.

Um abraço,
Cipreste e Chaparro


edit: ao publicar o post, percebemos que passam exactamente 8 meses desde a última vez que cá estivemos... ena!

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

só porque sim

Já disse que não comprarei nada além de livros, antes do grande acontecimento. Apenas... estava  a olhar o site do ikea e isto surgiu à frente dos meus olhos. Não adicionei ao carrinho de compras: palavra de Cipreste.


quinta-feira, 16 de outubro de 2014

das milhentas coisas que me amedrontam

«Becoming a family
It may take months or years for an older child and his family to fully adjust to one another. Many parents report that they acted as if they loved their child long before they felt that love. Margolese says, “You have to get to know each other and adjust to personalities, tastes, and routines. It is a huge adjustment for both sides, and you should expect some bumps. I think some transitions are difficult because parents are not realistic about what to expect. No transition will be free of problems.»
(lido ali)


Dentro daquilo que não sabemos sobre aquilo em que nos vamos meter, é isto que me assusta, este desconhecido que não tenho como conhecer até estar lá, até chegar a esse dia. E nada podemos fazer para antecipar este conhecimento. É uma das ansiedades que se associa á da espera: se todas as histórias de adopção implicam dificuldades, quais serão as que nos vão "calhar"?

Tentar não pensar nisto é como "chover sobre o molhado", não nos leva a lado algum e só serve para aumentar angústias. E assim temos de ir andando, enquanto não sabemos, de facto, em que estaremos metidos.
:)
Que venha daí, é a única resposta possível.

Cipreste

compaixão. firmeza. pro-actividade.

Partindo do princípio de que não há receitas ideias e/ou 100% eficazes no que respeita a educação parental na adopção, vou coleccionando algumas e fazendo a minha "manta de retalhos".
Gosto desta máxima: Tenha compaixão. Seja firme. Seja pro-activo.

Cipreste

sábado, 11 de outubro de 2014

ReMoved - parte II


Olá,
Lembram-se deste filme? Pois bem, os seus autores querem ir mais longe e estão a precisar de financiamento, para isso, lançaram esta acção de crowdfunding. Já agora, podem fazer "like" na sua página ;)
Beijinhos,

Cipreste e Chaparro

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

ninho vazio

Com todo o respeito pelos pais que estão a passar pelo "verdadeiro" síndrome do ninho vazio, é assim que me sinto: o meu ninho está vazio e os meus pardalitos tardam em chegar a casa.


E assim me vou deitar. Passo pelo quarto vazio e, uns dias, olho o quarto deles (ou dele, ou dela, ou delas), outros dias não olho. 



Enfim, boa noite,

Cipreste


p.s. a propósito, numa pesquisa, fui dar a este trabalho muito interessante, vale a pena clicar ;)

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

estou aqui

Apenas um pouco mais ocupada do que habitualmente. Ando de volta dos recados que listei ali e - três vivas! - estou a conseguir fazer tudo. Ainda pensei que que fosse deixar alguma coisa para trás, mas não, e vou repetir porque me vai saber bem: estou a conseguir concretizar o montão de compromissos assumidos.

A parte mesmo boa disto tudo é que não está a ser às custas de sacrificar o tempo da família. Depois dos aniversários da Princesa e do Freixo, não falhámos* o da minha mãe, o do meu pai e o da minha mana.
A disposição de todos está a melhorar em escadinha, o meu pai, que me estava a parecer entrar em depressão (perfeitamente compreensível considerando o que se está a passar na sua vida) foi melhorando a sua disposição de aniversário para aniversário. No da minha mãe, deixou-me o coração afundado ver uma pessoa tão resistente, sempre tão de bem com a vida assim desanimado, triste. No seu aniversário, já estava mais bem disposto e no da minha irmã atá cantámos todos à mesa - extra o parabéns, entenda-se :)
Deve haver tempo e lugar para tudo, eu sei. E uma data vale o que vale, mas custa muito ver alguém triste num aniversário, principalmente quando essa pessoa é o nosso pai querido.

Bom dia a todos e desejos de uma óptima semana,
Cipreste



*sempre são cerca de 100km para cada lado

terça-feira, 23 de setembro de 2014



Se a ideia dos chineses da antiguidade de que não nascemos completamente humanos, mas antes que nos tornamos humanos à medida que nos cultivamos, e às nossas relações com os outros, está correcta – e que o façamos num mundo tão hostil e ameaçador em que os acontecimentos tomam rumos terríveis e em que aquilo que conseguimos controlar é muito limitado – então, o cuidar é uma daquelas relações e práticas de auto-cultivação que nos torna, mesmo quando experimentamos os nossos limites e falhas, mais humanos.

Arthur Kleinman, 2010

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Chegou o nosso certificado

Com 6 meses de atraso em relação ao prazo legal, ou seja, datado do dia em que fez 1 ano da candidatura, mas isso agora não interessa para nada.
São duas folhas. Uma diz “notificação de selecção”, a outra diz “Certificado de Selecção de Candidato a Adoptante” e reza assim:

«Certifica-se que nos termos do disposto no nº 3 do art. 6º do Decreto-Lei nº 185/93, de 22 de Maio, na redacção que lhe foi dada pelo Decreto-Lei nº 120/98, de 8 de Maio e pela Lei nº 31/2003, de 22 de Agosto, Chaparro e Cipreste residentes no Que o Dia Te Seja Limpo, foram seleccionados como candidatos a adoptantes, por decisão do Exmo. Senhor Director Distrital de Segurança Social.»
Assinado e com carimbo branco e tudo e tudo.

Registe-se: temos o papel!



Estais, portanto, perante duas pessoas certificadas a nível Estatal para serem pais. Duas pessoas que nunca pensaram ficar com os olhos marejados de lágrimas, ao abrir a caixa de correio, só por causa de um papel.

Cipreste e Chaparro

coisas que nos fazem sentir muito, muito, pequeninos


"I can't see, so he guides me. Whenever I make a sound, he will come running. He reads to me. He cooks for me. And he got the second highest ranking in his 6th grade class."

Nurpur, India

E uma vez lançada, a palavra voa irrevogável*

Consulto o Priberam para confirmar a conjugação de um verbo e os meus olhos são chamados para a nuvem do lado direito com as palavras mais pesquisadas do dia. 


Fico suspensa a pensar nas pessoas que terão procurado o significado de paliativo, que dou por mim a dizer no plural: paliativos. Cuidados. Sinto proximidade e compaixão por essas pessoas.

Diz-se que há três coisas que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida. O momento em que alguém nos diz a palavra paliativo consegue conjugar estas três coisas. Sentimos como que uma flecha no peito, a palavra fica a ecoar e mergulhamos nas oportunidades que não voltam atrás.

Não há-de ser fácil ler, de chofre:

1. Que serve para paliar.
substantivo masculino
2. Remédio que não cura mas mitiga a doença.
3. Recurso para atenuar um mal ou adiar uma crise; adiamento.
4. Disfarce.

Seguir a palavra paliar e encontrar a crueza de:

verbo transitivo
1. Encobrir, revestir de falsas aparências.
2. Pretextar.
3. Demorar, adiar.
4. Atenuar, aliviar.
5. Travar com paliativos.

Perceber que tudo isto não passa de um verbo transitivo. Seguir o significado de transitivo e receber a mensagem "que passa" e confirmar que não serão os dicionários a amenizar as nossas suspeitas.
Cipreste

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Desafio

Há muito tempo que não vos venho falar da endometriose e convém ir fazendo-o amiúde porque é muito importante ir passando a palavra.
Fica a mensagem de ontem da Associação Portuguesa de Apoio a Mulheres com Endometriose, no facebook:

Esta doença afeta mais de 176 milhões de mulheres em todo o mundo!
Já a conhecias? A divulgação é a nossa maior arma para um diagnóstico correcto e atempado podendo assim evitar a progressão da doença e sequelas irreversíveis!
Sabe mais em mulherendo.

A ideia é escrever a palavra Endometriose de forma original, fotografar e partilhar com a mensagem no vosso mural desafiando 4 amigos a fazê-lo também.

Têm 48h para cumprir este desafio (foi a contar desde ontem dia 15, eu é que me atrasei...), caso contrário deverão fazer um donativo de 1€ à MulherEndo - Associação Portuguesa de Apoio a Mulheres com Endometriose!

Fica o meu contributo, em dia de aniversário da Mafalda ;)



Pf ajudem a passar a palavra e, se possível, uma pequena contribuição para a nossa associação que tanto nos tem ajudado - pelo menos, a mim, já fez uma enooorme diferença na vida

Obrigada e beijinhos,
Cipreste

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Consolo

Ontem, foi o último dia de trabalho do Chaparro. Alegando a extinção de postos de trabalho, o patrão milionário viu-se obrigado a arrumar contas com os primeiro 25 que despachou colectivamente, alguns com 30 anos de casa. E assim se viram livres dos 2 meses legais da tortura da praxe que distam entre a oficialização do despedimento e a sua concretização.

Ontem, entre intervalos do meu trabalho, acompanhei o meu pai nas consultas – Oncologia Médica e Consulta da Dor. O dia começou ameno, mas quando chegou à Consulta da Dor começou a queixar-se de forma mais intensa. Contratempos e urgências a que os médicos foram chamados, levaram-nos a perceber que as dores do meu pai não eram ali uma urgência major. E nós compreendemos. Nós compreendemos sempre. São 13 anos a arrastar-nos entre muitas especialidades.
Agora, a especialidade da dor.

O meu pai saiu de lá aliviado da dor. Eu, nem por isso.

Trouxera o carro para a cidade, a 100km de casa deles, ainda insisti que os levava, que conduziria o seu carro. Mas ele é um resistente. Disse-me: eu consigo. E eu acreditei nele. Lá foram. A minha mãe ligou quando estavam a chegar. “Quando chegarem, liga-me”. Que é para eu ficar mais descansada. Mas eu não fiquei mais descansada. A minha mãe disse “Já chegámos, o pai está melhor.” e ele, lá do volante, disse bem alto, para eu ouvir, “beijinhoooos!”. E eu disse “beijinhoooos!”. E o meu coração fez aquela coisa de ficar muito pequenino e muito grande ao mesmo tempo.

Tive de anular umas das reuniões que ia ter mas ainda consegui ir à outra. O Chaparro foi buscar-me no fim, com o porta-bagagens cheio de caixas com livros e catálogos e mais não sei o quê – o espólio que lhe restou.

Dias grandes.

Hoje, vim ainda mais cedo que o habitual, sozinha, de carro, e ele lá ficou. Vai ao banco e vai continuar a obcecar com as várias hipóteses profissionais, que maioritariamente passam por criar o seu próprio emprego. Não vale a pena ter a veleidade de que conseguirá, na conjuntura actual, emprego na sua área.

Costumávamos sair de casa juntos pela manhã. Só temos um automóvel. Ele deixava-me de manhã e seguia, ao final da tarde eu regressava a casa de autocarro ou a pé. Não sei como vai ser agora.
Estacionei na garagem do meu trabalho, no -1, o elevador desceu ao -2 para apanhar mais alguém. Entraram 3 colegas com quem simpatizo. Um perguntou-me pelo meu pai e dei por mim a responder “um dia de cada vez” já entre lágrimas. Coitados, embaracei-os. Pediu-me desculpa por perguntar. Eu agradeci o seu cuidado ao perguntar. E desculpei-me pela vontade própria das minhas lágrimas.

Cheguei ao meu gabinete para de seguida sair com um cigarro e uma moeda para tirar café da máquina.
A caminho do cantinho dos fumadores, trauteava que a vida é sempre a perder.
Éramos 3 fumadores. Uma desabafou que é 6ªfeira, o outro disse em desalento que é igual a ser fim-de-semana. Ele não trabalha por turnos nem noites, os dias são iguais porque sim e rematou que somos sortudos por ter emprego. Eu não disse nada. Eu pensei “hoje é o primeiro dia do Chaparro desempregado”.
Pensei que sei que sou sortuda por ter emprego e pensei que sou ainda mais sortuda por ter um emprego em que não estou simplesmente a enriquecer um porco rico que tem coragem para despedir pessoas com cancro ou acabadas de comprar casa ou de ter um filho – esse é o ex-patrão do Chaparro. É essa a forma como cumpre a responsabilidade social de que tanto os da sua laia apregoam fazer.
Eu estou no serviço público e sei que é isso que faço. Nenhum ordenado paga a humanidade que venho buscar aqui. Estou feliz por ver o Chaparro livre daquele ambiente.

A vida pode ser sempre a perder, mas há formas mais dignas de perder do que outras. Não odeio o que é fácil, nem acho que tudo o que vale a pena é difícil de conseguir. Mas tem sido a nossa experiência de vida. Estou mesmo muito feliz por ver o Chaparro livre daquele ambiente. Consola-me saber que pode estar aí ao virar da esquina o realizar de um sonho para ele.
Ok, ainda não será o sonho de ter uma cabana na praia, mas já não será nada mau. Está nas nossas mãos.

Deixo-vos com este poema:

BIOGRAFIA

Tive amigos que morriam, amigos que partiam
Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
Odiei o que era fácil
Procurei-me na luz, no mar, no vento.

Sophia de Melo Breyner Andresen



Um bom dia para vós,
Cipreste

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

da boca dos outros

Conta-me histórias

«(...) Formas de pensar nem sempre são formas de ser e, muitas das vezes, não passam de modos de dizer. Além disso, sabes o que acho das convicções: são suicídio. Quando a gente insiste num lado, começa logo a morrer dos outros. Poupemo-nos à terrível humilhação de nos faltar o ar quando estamos no cimo do palanque.
Conta-me histórias. Prefiro que me contes histórias, nem que as inventes. Antes ser aldrabada pela tua imaginação do que pelos teus juízos. (...)
Poupa-me a moral, sentença ou epílogo. Para contar uma história é preciso hipotecar o coração e assim logo ficarei a saber o quanto ele vale.»

por Mãe Preocupada

terça-feira, 9 de setembro de 2014

dos aforismos do dia

Being negative may make a difficult journey more difficult.
You may be given a cactus, but you don't have to sit on it.

a caminho de me tornar numa Schmuck colossal

Felizmente, é raro dar-me chiliques como o de ontem. Nessas horas, parece que, à minha frente, só existe um muro intransponível. Nessas horas, sinto-me próxima de um point of no return. Quando passa, percebo que essa sensação é falaciosa. Nem o muro é intransponível, nem, trespassando esse muro, chegarei a um lugar sem retorno.
Embora todos os tempos sejam sem retorno, e alguns lugares também, o retorno, aqui, surge mais como uma sobrevivência e não como um regresso. Ou seja, a única coisa que não tem remédio é a morte, ao resto, no mínimo, resistimos.
E, quando falo em sensação falaciosa, penso que se pode fazer uma analogia com aquilo que os antigos (provavelmente alguns contemporâneos também) chamariam de “espíritos maus”. Porque uma pessoa como que se sente possuída por uma força que nos impede de ver mais além, de perceber que há uma saída, que aquele momento é só isso – um momento.
São horas difíceis, horas de desesperança.
É uma implosão, consequência de idades sucessivas a fazer por escapar a torvelinhos.

Este fenómeno, a sua constatação, tem uma importância imensa na minha biografia. Vivi um episódio em que esta cegueira tomou conta de mim e me fez vivenciar um dos momentos mais negros da minha existência. Nesse dia, eu disse com todas as minhas forças “não consigo”. Toda a conjuntura à minha volta foi favorável a uma desistência. E eu desisti. Foi nesse dia que eu quis morrer. No entanto, vai uma distância entre achar que a nossa vida não vale nada e acabar com ela. Não fiz nada no sentido de atentar contra a minha própria vida. E continuei a respirar até me sentir gente de novo. Tudo porque me deixei tomar conta pela desesperança.

Sabemos que a vida não é estanque, sabemos que há dias bons e dias maus, ainda assim, nunca estamos preparados para as quedas. 

Quando eu era adolescente e nos sentíamos em baixo, dizíamos que estávamos na fossa. Parece-me uma boa metáfora. Há horas em que perdemos o Norte e nos questionamos sobre a própria inteligência ao evocar outras horas em que achámos algum sentido a isto. Relembrando o Mickey Sabbath, «Qualquer pessoa com alguma inteligência compreende que está destinada a levar uma vida estúpida porque não há outra espécie de vida».

Depois, há qualquer coisa que nos impele a seguir em frente. Conformamo-nos que é isto que temos e admitimos que há horas bem passadas. As sensações físicas sossegam, a aflição esvai-se. A humanidade que há em nós leva-nos à conciliação e damos por nós a seguir em frente. 

Não acho que o Universo ande a conspirar contra, nem a favor (já agora), a minha vida. Acho que somos uma cambada de acasos, mas não tenho como afiançar. Os dias enchem-se de acontecimentos aos quais vou encontrar sentidos e que uso para fazer ligações. Falamos do medo, somos uma cambada de medos que podemos ligar uns aos outros. Porque estamos todos no mesmo patamar de conhecimento sobre o mistério da vida.

Hoje, o Google festeja Tolstoi, autor de um dos livros da minha vida – A Morte de Ivan Ilitch. Podem ler sobre o livro aqui. Também concordo que cada página é como um espelho. E estou certa de que o relerei mais vezes. Preciso de me lembrar amiúde da nossa ignorância.

Ontem, uma pessoa que me é muito querida, que faz parte do meu bem-querer, partilhou este post no facebook com a legenda “me too”. Quando vi, fiquei em pânico. Fiquei aflita porque não posso ver que alguém se sinta na fossa, impotente, nesse mesmo lugar em que eu, ainda ontem, me sentira. Corri a dizer-lhe que vai ficar tudo bem, que são horas que devemos tentar fazer com que sejam pequenas, que devemos breathe in e breathe out e, logo-logo, you're gonna be alright.
Disse-lhe tudo o que o Chaparro me havia dito horas antes ao tentar ajudar-me.

Mais tarde, quando o Chaparro chegou a casa e lhe falei sobre tudo isto e lhe disse que já me sentia melhor, rematei, citando o meu amigo Sabbath, que, um dia, vou ser uma Schmuck colossal:

«As parvoíces em que temos de nos meter para chegarmos onde temos de chegar, a extensão dos erros que precisamos de fazer! Se nos informassem antecipadamente de todos os erros, diríamos não, não posso fazer isso, têm de arranjar outro qualquer, eu sou demasiado esperto para fazer essas asneiras. E responder-nos-iam, nós temos confiança, não te preocupes, e nós responderíamos não, nada feito, precisam de um schmuck muito maior do que eu, mas eles repetiriam que têm confiança que somos a pessoa indicada, de que evoluiremos para um schmuck colossal mais conscienciosamente do que podemos começar sequer a imaginar, de que cometeremos os erros numa escala que nem podemos sonhar agora: porque não existe nenhuma outra maneira de atingir o fim.»
in Teatro de Sabbath de Philip Roth
Publicações dom Quixote, Colecção Ficção universal, 2000
Gosto da palavra schmuck.

Cipreste

novas demais para casar


"Too Young to Wed /Novas Demais para Casar" - é uma exposição sobre os casamentos infantis, precoces e forçados que põem em causa os Direitos Humanos de milhões de crianças em todo o mundo. Pretende contribuir para o aumento da consciencialização sobre o tema, apoiar as raparigas já casadas, desencorajar e eliminar esta prática e salvar cerca de 142 milhões de outras raparigas de igual destino. Chega a Portugal no âmbito da campanha "Continuamos à Espera" e estará aberta ao público de 1 a 15 de setembro, em Lisboa.
Em muitas sociedades o casamento é uma celebração que significa a união entre dois adultos. Mas infelizmente, diariamente, 39.000 meninas, em idade de brincar e ir à escola, são forçadas a casar. Muitas noivas são tão pequenas ainda que levam os seus brinquedos para a cerimónia de casamento. Geralmente essas meninas tornam-se mães no início da adolescência, enquanto elas próprias ainda são crianças. Isto pode resultar em profundas consequências negativas para as meninas, para as suas famílias e para toda a comunidade.

Esta exposição internacional é fruto de parceria entre o Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA) e a Agência Premier Photo VII, integrando trabalhos das fotógrafas Stephanie Sinclair e Jessica Dimmock com diversas fotos e infografias organizadas em cinco áreas temáticas: expectativas da comunidade, viagens, saúde materna, violência e saúde mental, esperança e educação.

Depois de inaugurada na sede da ONU, em Nova Iorque, e passar por várias capitais e países, chega a Portugal no âmbito da campanha "Continuamos à Espera", da iniciativa de quatro organizações portuguesas: P&D Factor – Associação para a Cooperação e Desenvolvimento, CCC- Associação Corações com Coroa, AJPAS – Associação de Intervenção Comunitária, Desenvolvimento Social e Saúde e Oikos – Cooperação e Desenvolvimento; em parceria com o Camões - Instituto da Cooperação e da Língua, IP e apoio da Caixa Geral de Depósitos.

A apresentação oficial da Exposição será no próximo dia 10 de Setembro pelas 16h30 no local da exposição e contará com as presenças do Secretário de Estado da Cooperação e Negócios Estrangeiros (Luís Campos Ferreira), do UNFPA (Alanna Armitage), da Presidente da P&D Factor (Graça Campino Poças), da Presidente do Camões - Instituto da Cooperação e da Língua, I.P. (Ana Paula Laborinho), dos dirigentes das demais ONG parceiras da Campanha "Continuamos à Espera" -  Presidente da Corações Com Coroa e Embaixadora de Boa Vontade do UNFPA (Catarina Furtado), Presidente da AJPAS (António Carlos Silva), da Oikos (Pedro Krupenski), entre outras entidades e personalidades.

"Too Young to Wed" - Novas demais para casar - estará aberta ao público entre 1 a 15 de setembro, das 9h00 às 19h00 no átrio central do edifício sede da Caixa Geral de Depósitos, na Avenida João XXI em Lisboa (a entrada pode ser feita também pela Culturgest, Rua do Arco Cego). 
Entrada livre.

via OIKOS 

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

talvez escrever

Estou cansada de desabafar sobre os meus problemas. Estou cansada de tentar colocá-los em perspectiva, de me acusar de me queixar de “barriga cheia”. Estou cansada de olhar para o lado, para os problemas dos outros e sentir-me indigna dos meus queixumes. Às vezes, estou simplesmente cansada de mim.

Cada vez menos confidencio com amigos. Na verdade, os meus únicos confidentes têm sido mesmo o Chaparro e este blog.

Estando eu própria cansada de mim, receio cansar os outros. Aliás, penso já ter cansado algumas pessoas que claramente se afastaram de mim nos últimos meses. Nem sequer sinto legitimidade para abordar essas pessoas. Sinto que posso ter sufocado um ou outro amigo com tanta intensidade de relatos de eventos em sucessão. Deixo-me ficar no meu canto. Disse-lhes um ou dois olás, perguntei-lhes como vão, responderam-me que vão bem ou que vão indo. E ficou por ali. Confirmei de mim para mim que as suas ausências se devem ao espaço que ocupo e que precisam de libertar para si. E assim tenho vindo a ficar no meu canto.

Não exploro o assunto solidão porque não o identifico, embora reconheça que o afastamento de pessoas que habitualmente fazem parte do nosso círculo íntimo leve a uma certa solidão. Mas não creio ser essa a solidão que sinto.
Resta a saudade do que foi e a consciência de que o que se foi não volta, nunca mais. Fico com a auto-estima periclitante e falo mais baixinho com quem quer que se aproxime de mim. Desejo não ferir os ouvidos das pessoas.
Reflicto sobre o bem-querer. Reflicto sobre a efemeridade.
Recuso-me a considerar que já não se fazem amizades como antigamente porque não acredito que antigamente é que era.
Começo textos sobre a necessidade que sentimos, que sinto, de cultivar a lealdade e apago tudo. E depois recomeço outro texto.

Não sou prisioneira da obrigação de se ser zen e detesto a tirania do optimismo. Apesar disso, e de reconhecer que todos temos os nossos dias, procuro fazer por contrariar o mal-estar interior. Acima de tudo, porque não gosto (mesmo nada) desta sensação de querer fugir, de fazer um sprint, ouvindo esta canção em repeat, e só parar quando chegar a um penhasco da Galiza e ficar ali em pendência com as minhas vertigens.

Há dias em que nenhuma solução se adivinha, há dias em que sentimos muito mais forte que a nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer*.
Hoje, a minha manhã foi regular, igual a tantas outras, cumpri o meu dever e fui almoçar. Não senti o sabor da comida, depois tomei um café e fui fumar um cigarro. Tenho fumado uns cigarros, ainda assim não me sinto consolada. Há pouco, voltava ao meu posto de trabalho e listava mentalmente os eventos e tarefas para os próximos tempos, sendo a ocupação mais importante a cirurgia da mãe-Chaparro, e o revolver a cabeça à procura de uma solução profissional para o Chaparro, seguem-se as ninharias que me levarão as energias: uma reunião hoje ao final do dia com outra entidade com que colaboro; retomar aquele compromisso que ficou interrompido com a minha cirurgia; preparar a formação do final da semana; preparar-me para a reunião de amanhã; preparar-me para a reunião de 5ªfeira e que levará à escrita de 3 resumos e 1 proposta de projecto que tenho de fazer até dia 25; preparar a formação de Outubro, e a de Novembro e a de Dezembro, sem falar na outra que começa no dia 22; contactar aqueles indivíduos que vêm ajudar nesta formação que começa no dia 22; (reparem que todas estas formações, excepto uma, são extra o meu emprego/horário de trabalho) inscrever-me na outra associação; pagar quotas; já agora, lembrar o Chaparro de pagar o selo do automóvel assim como da inspecção periódica; ah! e pagar aquela conta da oficina; inscrever-me no congresso profissional; planificar as 6ªs e Sábados que vou ter ocupados com formação que, essa sim, vou receber; e o sindicato (oh céus, como me deixei envolver em mais esta?!);  continuar a marimbar-me para a limpeza da casa, mas pôr roupa a lavar ur-gen-te-men-te; e decidir se sempre publico o meu livro.

O meu livro. Nunca vos contei: eu escrevo. Quero dizer, escrevo sobre outros assuntos que não só a infertilidade, a endometriose e a adopção. Escrevo uma coisa a que penso se possa chamar de prosa poética. Ando há anos (anos!) para publicar e parece que vai ser agora. São tudo textos escritos a anos-luz desta que hoje se apresenta como Cipreste. Embora este apelido venha da convivência desses dias. À distância, reli-os, e leram-mos em voz alta convencendo-me que, ok, é publicável.

Ao listar estas tarefas, pensei que não vou conseguir levar avante tudo isto. É demais, pensei. Não é um dia de cada vez, são 4 meses muito cheios. E senti o canso todo em miscelânea, senti os cansaços todos juntos dentro e fora de mim, como uma nuvem de fumo, mas de fumo indestrutível. E pensei que, uma vez que não tenho disponibilidade nem dinheiro para ir passar os próximos meses a Bora-Bora, talvez deva voltar a escrever sobre os outros assuntos que não só a infertilidade, a endometriose e a adopção. Ou, talvez, sejam  os mesmos assuntos, apenas todos juntos nesses dois que dizem obcecar os poetas: o amor e a morte.

Tenho uma vaga memória de me sentir mais perto do mundo quando escrevia sem travões. E eu que ando tão atreita a deixar-me vaguear ao deus-dará. Talvez hoje passe por um café antes de zarpar para casa e tente escrevinhar uma ou duas linhas com a alma toda lá dentro.
Em busca de me sentir mais perto de casa.

É isso: tenho saudades de casa.

Cipreste

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

da boca dos outros

Bandeiras

Tenho aprendido pouco da vida. Não por falta de tabefes ou de atenção às lições, mas porque em nada disto vejo ciência exata e a fórmula que ontem deu conta certa hoje pode resultar em incógnita. De uma coisa, porém, me vou lembrando: que certos apegos são inúteis. Que o "abrigo", o "porto seguro", a "estrutura", a "terra firme" são conceitos fantasiosos, esculturas da nossa debilidade. Que o melhor é manter a disposição para mudar de rumo. Que não há casa que não possa desmoronar-se, caminho que não possa desembocar em precipício, dinheiro que não arda, vida que não tombe em sepultura. Caminhe-se com bons companheiros e vistas amplas, mas não se presumam apropriações, moradas definitivas, territórios cercados, contratos vitalícios.
É tolice espetar bandeiras num mundo que não para de girar.

por Mãe Preocupada

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Companheiro de vida

Não me lembro exactamente quando soube que o Chaparro era o companheiro com quem queria partilhar a minha vida. Guardo muito carinhosamente a memória de um email que me enviou num dia em que eu estava triste e lhe pedi para me fazer rir. Nesse dia, pensei na amizade que me dera nos últimos tempos, no seu sorriso, na sua generosidade que é enorme. Senti um calorzinho bom. Ainda éramos apenas amigos. Ficou este poema, constante desse email, como parte da nossa antologia:


- Gostas da palavra litote?

gostas da palavra litote?
é um tropo.
e não gostas da palavra tropolitote?
então diz comigo:
tropolitóóóóóóóte !
litote
tropope
tropolipope
tripopopote
tripolitripolitote
tripolitripolipoli
toliloli
tropopopoli
tripopeli
popoli
poplili
popli
popliiii,

Ana Hatherly in um calculador de improbabilidades
Quimera, 2001
Cipreste

sobre os ritmos de desenvolvimento

Bom dia,

Andava há algum tempo para vir partilhar este post convosco - a altura certa.
Ainda não sou mãe e, na verdade, tenho-me tentado "preparar" (eu sei, nunca estamos "preparados") para lidar com eventuais dificuldades de desenvolvimento, apesar disso não sei se serei uma mãe ansiosa acerca das várias etapas, com o "já faz" versus o "ainda não faz".

Gostava de conseguir ser como esta mãe que não esconde angústias mas transmite muito eficazmente o amor pelos filhos tal-como-são, um saber viver devagar o dia-a-dia .

Como diz uma comentadora do post,  porque «Cada um tem o seu ritmo e os nossos filhos apenas são extraordinários na medida em que são nossos.».

boa leitura,
Cipreste

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Sweet sixteen

Invadi o mural do facebook do Freixo :) fiz um meme como este, um pouco mais "personalizado", a rimar e tudo!
hip hip, hurra!


Cipreste