terça-feira, 1 de março de 2016

A Vida Breve

Estou no carro com o Chaparrito à espera que a Magnólia saia da escola. São 17.50. Ouvimos rádio, como sempre. Antena 2, como quase sempre. 
O Chaparrito pergunta-me - são quase horas do teu programa, não são, mamã?
- Que programa, filho? - pergunto, espantada, para me certificar 
- Aquele da poesia
- Foi há uma hora, filho - respondo, pensando Oh, coisa mais boa da sua mamã.

Refere-se ao A Vida Breve que passa pelas 16.50.

Estas coisas dos miúdos. Estas atenções às pequenas coisas provocam-me um contentamento, uma excitação que foi muito bem explicada pelo meu pai. Quando as minhas sobrinhas se saíam com coisas deste género, ele olhava para nós com um ar simultaneamente derretido e indefeso e dizia “dá vontade de uma pessoa se atirar para o chão”. É isso. 

O meu coisa-mais-boa não foi ensinado verbalmente deste facto da mãe parar quase todos os dias por  volta dessa hora para ouvir os poetas a dizer a sua poesia. Provavelmente, já aconteceu pedir-lhe para se calar porque queria ouvir aqueles minutos que passam tão depressa, mas não tenho ideia de falar do programa.

Observou-me.
O meu filho observou-me.


Chamem-me novata nesta coisa de ser mãe, mas eu sou uma eterna espantada e estas coisas deixam-me pasmada. Não, eu não acho que o meu filho seja estúpido que não conseguisse aperceber-se de um pormenor destes, nem acho que seja preciso um génio para o fazer. Foi a forma como o verbalizou, o tom, o carinho, o reconhecimento de "uma coisa da mãe".

O meu filho observou-me em silêncio e eu acho isso absolutamente extraordinário.

Deixo-vos com a maravilhosa peça que faz o genérico deste programa perfeito em tudo menos na duração.
Bom dia,
Cipreste


6 comentários:

Lígia disse...

como compreendo esse orgulho!! são mesmo momentos únicos que enchem o coração de uma mãe de uma forma que não tem medida possível.
acho até que, o facto de termos sido privadas da presença dos nossos filhos, na nossa vida, desde o seu início, faz com que esses momentos sejam ainda mais especiais. Eu fico muitas vezes com a sensação que estou a receber o carinho dos anos em falta, todo de uma vez!!! é tão bom que chega a doer!!! ah mas que boa e doce dor que é!!! ;)

Maria Nunes disse...

Que Chaparrito querido.
Como uma afirmação tão simples pode revelar tanto.

Um grande abraço aos dois, por terem originado esta conversa.

Teresa

dia limpo disse...

Olá, Lígia :)
É capaz que tenhamos de facto uma propensão para valorizar mais as pequenas coisas, mas não vou desenvolver senão ainda levamos na cabeça de alguma mãe biológica :P digamos que as recebemos com um entusiasmo de "oh, sonhei tanto com este momento" ;)

doce dor, mesmo :)

Obrigada, Teresa :)

Cipreste

Anónimo disse...

Lindo!
Deve ser o mesmo sentimento que a infertilidade tráz... valorizar as pequenas coisas da gravidez, mesmo as menos agradáveis pq nos custou tanto a chegar lá.... tb achamos que as mamãs que engravidam com facilidade não compreendem nem dão valor... como se costuma dizer quando as coisas custam a alcançar damos mais valor... e um filho é um filho chegue de que forma chegar quando entra no coração faz-nos ver o mundo de outra maneira, com a lágrima ao canto do olho e a baba pro tá a pingar ;)
Beijinhos e felicidades, parabéns pela linda familia

Cipreste disse...

:) obrigada

Joana Mendonca disse...

Que lindo :)