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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

(compras racionais) e (será que estou a projectar blábláblá?)

Ontem encomendámos 2 livros pela net. Não temos muito hábito de fazer compras online, gostamos de ir à fonte, dar os bons dias a quem está atrás do balcão, palpar e cheirar as coisas antes de as comprar, beber um café pelo caminho, fazer o caminho de mãos dadas, enfim, gostamos de coisas de carne e osso. Não quer dizer que por vezes não recorramos ao clique. O que dita essas compras é geralmente o facto de não ter o produto acessível na nossa cidade ou por ter um preço que lamentavelmente nos faz abdicar dos bons dias a quem está atrás do balcão, etc. etc.
Temos lido bastante sobre adopção, sempre a partir de material disponível na net (blogs, artigos, teses), só tínhamos comprado um livro até agora. E foi uma bela compra, ambos o lemos (nota mental: a ver se deixo aqui uns excertos, um dia destes). Agora aguardamos A Aventura da Adopção de John R. Thompson e Karen J. Foli e Este Meu Filho que Eu Não Tive, A adopção e os seus problemas de João Seabra Diniz. Não são os que estavam no topo da lista mas algumas circunstâncias levaram a que cheguem primeiro. Vamos ver o que nos dizem.

Entretanto, e ainda sobre compras e mais especificamente sobre compras na net, tenho de confessar que ultimamente ando com mais dificuldade em controlar os meus cliques, mais do que alguma vez tive com o controlo do hábito do tabaco, por exemplo (e para verem o quão intenso isto é). Fica-me estranhamente difícil não comprar certas e determinadas coisas. Digo estranhamente porque nem por isso me considero uma pessoa que compra por impulso (na verdade, nem sequer sei se sou forreta, mas acho que não sou). 

Acontece que ao pesquisar a imagem de um brinquedo para o último post sobre o enxoval dei de caras com todo um mundo revivalista que me dá uns calores de felicidade no peito deixando-me sozinha e impotente com os tais impulsos para clicar no botão “comprar”.

Deixo-vos dois exemplos de coisas que os meus filhos têm-de-ter porque, convenhamos, os meus filhos têm-de-ter isto:




e esta lancheira, é absolutamente imprescindível ter uma lancheira do Curious George!

eu gostava tanto (mas tanto!) das histórias deste maluco que até deu azo a crítica da minha educadora de infância que me acusou de não ser original e escolher sempre o mesmo livro (bof!)

Percebem agora o drama de uma pobre futura mãe assalariada que tem acesso à net no trabalho e que ao invés de ir ao bar tomar um café fica a seguir link-após-link e a suspirar e a lembrar-se de quão feliz foi na sua infância?
Afinal, criar não é (também) proporcionar momentos felizes aos nossos filhos? Se estes objectos/personagens nos trouxeram tanta felicidade nas nossas infâncias, não fazemos mais do que a nossa obrigação ao transmiti-los aos nossos filhos.
Parece-me que sim, mas isso também pode ser só o impulso para clicar no botão “comprar” a falar.

Cipreste


p.s. só mais uma coisinha: será que conseguem imaginar o quanto me tive de conter para não deixar um post quilométrico e resumir-me a apenas dois (2!) objectos de desejo? Por exemplo, não postei esta sacola que qualquer mãe deve ter para transportar lanchinhos para os filhos.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O enxoval

Já avançou mais um pouco, o enxoval. E a casa. Temos feito algumas mudanças: já tirámos as tralhas que estavam no futuro quarto da(s) criança(s) e mudámos o escritório para a divisão imediatamente ao lado, divisão essa que na verdade nunca tinha sido usada (era para ser um estúdio e acabou por ser um albergue de lixo espólio artístico que entretanto foi devidamente distribuído no ecoponto) ficando, assim, o antigo escritório transformado em... quarto de brincar! Yay!
Prefiro chamar-lhe "quarto de brincar" ao invés de "quarto dos brinquedos" porque me dá mais a sensação de acção :)
No quarto de dormir já vivem: alguns dos meus antigos peluches; uma boneca de trapos tipicamente canadiana - A Raggedy Ann; o mocho que a tia Ana fez; um Panda que comprámos - o primeiro brinquedo comprado pelo pai e pela mãe :) ; a Family Tree House, era minha e está em óptimo estado, pedi à minha mãe (a avó B) que a lavasse e ela assim o fez em modo ritual; e três quadros, um pintado pela minha sobrinha S (a prima S, portanto), outro que me foi oferecido pela minha avó materna e outro que me foi oferecido pela minha mãe, tinha ambos há muitos anos e só faz sentido estarem no quarto da(s) criança(s).
Entretanto, o Chaparro apareceu um dia com este livro em casa :) (um daqueles momentos tão cheios de ternura em que olhas para o teu companheiro de vida e pensas "oh céus, I Love this guy so much!").

Portanto, o enxoval, ou cesto da esperança, está a ganhar forma e nós gostamos de ir vendo a casa a ser habitada de futuro.

Também começámos a olhar para as camas nas lojas de móveis, mas essa compra ficará para quando soubermos quem serão os nossos filhos e algo mais sobre eles, para fazer uma compra mais personalizada de algo tão íntimo como o é uma cama. 

Há outras coisas que fazemos questão de adquirir em avanço porque achamos que serão apreciadas. E depois há os caprichos... eu queria tanto ter uma Sophie, the Giraffe Teether. Imagino que me vão chegar filhos com a dentição de leite já completa, mas um capricho é um capricho é um capricho. O problema é que este é um bocado* caro.

Cipreste


* bocado é eufemismo, eu sei

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

O enxoval.

Percebo que a minha vida tem sido muito feita de enxovais que não chegam a ir com a noiva. Nesta óbvia distorção do ditado popular, o que eu quero dizer é que, não obstante ter alcançado muitos objectivos nos últimos anos, outros houve que ficaram pelo caminho. Por exemplo, em 2011, preparámo-nos para zarpar até às Áfricas mas acabámos por ficar. No fim, constatamos que foi muito bom não ter ido, muita coisa aconteceu que poderia ter sido mais “fatal” se não estivéssemos cá. Entretanto, falámos e lemos muito sobre a vida de emigrante em Angola, ou Moçambique ou Cabo Verde. Serviu para a nossa cultura geral, pronto. 
2012 e 2013 foram anos com grandes sonhos de gravidez e cheirinho a bebé. Também lemos muito e iniciei-me na realidade dos grupos de entre-ajuda. Escrevi um pouco, não tanto quanto pensei fazer ou, pelo menos, quanto escrevi “mentalmente”. Embora fosse muito claro para nós que as probabilidades de uma gravidez eram baixas, e porque houve equipas dispostas a sujeitar-nos a tratamentos (isto são outros quinhentos) deixamo-nos sonhar. Decidimos que não íamos ficar presos ao grande número que indicava que não iríamos alcançar o sonho e voámos por momentos. Vestimo-nos de espírito positivo. Muito se falou aqui em casa de cheirinho a bebé, de enxoval, de nomes, da probabilidade de fazer uma gravidez gemelar, etc. Sonhámos. 

A verdade é que na gestação dos sonhos acabamos por falar muito de futuro. E, sinceramente, não me interessam as máximas que sugerem que é uma perda de tempo pensar no futuro. Ele existe enquanto preparação do nosso presente, portanto, não vale a pena negá-lo. E, neste momento, o nosso grande futuro é a adopção, não há lugar a dúvidas quanto a isso. Entre a incerteza que é hoje inerente a um casal em que ambos são empregados com vínculos sem termo, nem assim conseguimos viver descansados quanto à capacidade para manter uma casa que foi comprada dentro das regras de esforço das famílias, entre a incerteza quanto à saúde dos nossos entre-queridos (e a nossa, já agora…), o bem estar do Freixo, etc., entre todas estas preocupações e vivências paira a adopção como o maior tema das nossas vidas.
Já provocámos algumas mudanças na nossa casa a contar com a adopção, mesmo compreendendo que pode ainda passar muito tempo até que esta aconteça. A parte prática do meu ser resolveu que mais vale perder tempo com determinadas alterações agora do que no momento em que subitamente nos surge uma proposta e, num instante, temos a(s) criança(s) em casa. E isto faz sonhar. E falamos muito. E verbalizamos situações hipotéticas do dia-a-dia. Sonhamos. Como não fazê-lo?

Por vezes, a parte mais magoada de mim diz-me: pára com isso. E converso comigo sobre todos os sonhos de ser mãe que já passaram por mim desde 1997 e, no limite, penso que nada disto se vai concretizar porque… nada disto se vai concretizar para mim, porque me está destinado não ser mãe. E depois choro. E depois trago-me de novo à razão e explico-me que também tenho uma palavra a dizer em relação ao meu destino. E volto a acreditar e desculpabilizo-me por querer fazer um enxoval.

A verdade é que há muito passado neste sonho e, por vezes, é preciso fazer um grande exercício para não deixar que as derrotas residam no presente (e que tomem conta dele). E assim se cumpre a luta do bem-querer. É preciso que não nos esqueçamos, e mesmo quando nos distraímos é preciso regressar depressa ao presente e às pessoas que junto connosco estão a construir os dias.

O tempo é um grande fantasma, mas não vejo como não viver com ele porque, por um lado, há coisas que nunca quero esquecer e, por outro, nada faz mais sentido do que sonhar com os meus filhos e fazer-lhes o enxoval.

Já temos:

- 2 fronhas bordadas a dizer “good night” - sim, também vamos ser anglófonos

- as 2 mantas-mais-fofinhas-do-mundo - são as prendas do Natal 2013 do pai e da mãe

- um mocho - feito pela tia Ana que o deu à mãe mas que a mãe já pôs no nosso quarto

- e hoje a mãe vai comprar duas molduras iguais às dos avós e das tias, uma cá para casa e outra para o Freixo - para pôr a nossa primeira fotografia


Cipreste

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Ajuda

(publicado inicialmente no facebook)


Acto de auxílio é uma das definições desta palavra.
Não sendo uma pessoa crente numa entidade superior única, sou crente no bem-querer entre as pessoas. E aqui entra uma expressão-chave: entre.
Tenho pensado muito sobre este assunto nos últimos tempos, um pouco mais nos últimos 3 anos. Muita água tem passado debaixo da minha ponte. Alguns sustos e aflições.
Vou juntando as expressões para esta reflexão: ajuda; entre; e escrita.
É de escrita que também quero falar. Escrita e leitura - suas necessidades e eventuais utilizações (que é como quem diz da serventia). E do fenómeno dos livros de auto-ajuda.
Conheço poucas pessoas que admitam ler livros de auto-ajuda e vejo lógica nisso, já vou explicar a razão.

Antes, quero dizer que, vivendo uma “condição” específica  há muito tempo, no último ano encontrei ajuda além da habitual (família, amigos, colegas de trabalho, etc.) nessa coisa que um dia pareceu tão distante de mim: os grupos de entre-ajuda. Sim, a partilha das nossas dores e receios com perfeitos estranhos. Ou deverei dizer estranhos perfeitos? Sim, isso.
Aprendi mais umas lições. A primeira (a velha lição) foi sobre não negar à partida uma ciência que se desconhece.
Não me vou alongar sobre o que ganhei por me abrir a mais uma dimensão das relações humanas. É tudo demasiado óbvio para mim, e compreendo que possa parecer demasiado obscuro para quem nunca o praticou. Fiquemo-nos nas nossas realidades se assim for mais confortável. Está tudo bem.

E volto às expressões que juntei para este texto e à auto-ajuda.
Ontem, encontrei um livro na caixa de correio. Já o encomendara no dia 04 pelo que a ansiedade de o receber estava já sossegada. Trata-se de um livro escrito na primeira pessoa por alguém que vive uma condição parecida com a minha. Digo parecida porque todas as histórias são diferentes, obviamente. Entrei em casa e li logo as 2 ou 3 páginas iniciais. Hoje, tenho estado a fazer tarefas soltas entre as quais pego no livro amiúde e vou lendo uma página de cada vez. Gostava de ficar a lê-lo de seguida, mas compromissos do coração falam mais alto.
Porém, tive de vir aqui partilhar uma série de sentimentos que têm brotado ao longo das parcas páginas que já li. Sim, sentimentos por vezes acompanhados de uma lagrimita, mas não, não é um livro de emoções-instantâneas e posso dizer que está muito bem escrito por uma pessoa que se revela muito inteligente.

Adiante. As ideias que desejo partilhar são as seguintes:

- Vale a pena entrar, nem que seja muito devagarinho, no mundo da entre-ajuda. Não estou, de todo, a desvalorizar o papel da restante rede de apoio (expressão feíota, eu sei, mas acho que é a que define melhor). Nem sequer estou a dizer que, na minha experiência, uma das dimensões onde vou encontrar alento é melhor do que a outra. São diferentes, ponto. E, vou contar-vos… esta menina tem-se surpreendido muito a cada passo na entre-ajuda. E, até agora, só ganhei.

- Penso que percebo agora porque é que a auto-ajuda pode ser algo falacioso: é auto e não entre. Duh! Não querendo ajuizar quem se faz valer da auto-ajuda, penso que é apenas mais uma forma de estar virado sobre si próprio. E um dos riscos de estarmos sempre virados para o espelho é precisamente a oferta limitada de visões que essa perspectiva oferece. Há que viajar e ver outras realidades, nem que sejam viagens pela net que foi onde encontrei o “meu” grupo de entre-ajuda.

- Sobre a leitura: fico sempre tão aparvalhada quando leio outras pessoas a descreverem na perfeição episódios que eu vivi. Estou a falar de livros que fazem partilha de experiências, e entra aqui uma grande diferença: não são livros de entre-ajuda, são de partilha, isso, apenas isso. Porque estamos a falar de leitura e de humanos que escrevem e não de génios - seres superiores e infalíveis. Ninguém pode pensar que vai ajudar alguém através de um livro. Não compreendo a ajuda como algo que acontece de forma unidireccional. E a leitura é-o. A leitura é um acto numa só direcção. E a escrita também. Por isso mesmo a diferença que refiro. O máximo que pode acontecer é eu ligar peças ao ler um livro de partilha e, a partir daí, tornar esse corolário em algo útil. Não quero, com isto, dizer que não nos possamos sentir gratos a quem escreveu.

Estarei a fazer sentido?

O que quero aqui dizer, e talvez fosse desnecessário o texto acima(?), é que, quando vivemos situações específicas que requerem alguma resiliência  para não se andar por aí a mal-dizer a vida, há ajudas. Não estamos sozinhos. E eu acho que é tão importante saber que não estamos sozinhos. Não que desejemos aflições às outras pessoas, mas porque sabemos que, de facto, shit happens e não é só a nós. Então, porque não nos aproximarmos um pouco (pode ser à laia de raposa) para observarmos como convivem outras pessoas com o mesmo tipo de situações?
Porque não? Porque somos muito ciosos da nossa privacidade? Ok, legítimo. Mas depois não me venham cá dizer que a privacidade é um lugar muito só. Vou começar por explicar que acho que a privacidade pode ser muito mais do que aquilo que pensamos ser um segredo bem guardado. E que, a cada camada da nossa privacidade que revelamos, estará lá outra a formar-se. E que não vamos deixar de ser únicos porque levantámos o véu de algo que, afinal, não nos é exclusivo. E acresce que, nos tempos que correm, nem sequer temos de o fazer revelando a nossa identidade ;)
Enfim, se me disserem que gostam de se considerar uma espécie de eremitas, então não percebo porque é que ainda estão a ler este texto :)

Finalizo confessando que tenho pensado muito em escrever sobre as minhas vivências, em formato de blog, apenas ainda não consegui resolver que grau de identificação da minha pessoa é que quero revelar. A decisão não é linear, é de tipo pau-de-dois-bicos, mas hei-de lá chegar. Porque, noutros contextos, já tive a oportunidade de saber que a partilha de algumas situações nos pode permitir a abertura de horizontes. E porque gosto de escrever. E porque me faz sentido que utilize a escrita para além da poesia. Ou antes, porque a entre-ajuda tem muito de poético. Vá, chamem-me fatela. Eu chamo-lhe uma espécie de entre-auto-ajuda ;)

Reli o texto e ainda não percebi se só fará sentido a mim.
Enfim, hoje sinto-me muito grata e quis partilhar estas ideias soltas.
Clique-se no botão “publicar”.



Cipreste