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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

carta aberta a quem passa por aqui e deixa um pouco de si

Já falei aqui várias vezes sobre porque escrevo, porque partilho o que escrevo. “Várias vezes” porque me questiono amiúde sobre o assunto. Porque muitas coisas deste fenómeno da convivência no mundo virtual me trazem constantemente em espanto. Em espanto pela dimensão de compaixão que se consegue encontrar.

Tenho as minhas opiniões, mas para lá disso há discussões que não me interessam. E não me interessa discutir se as pessoas são falsas atrás de um monitor ou se assumem várias personas. Nem me interessa o marketing ou rankings bloguísticos (que, atenção, acho perfeitamente legítimos e sei que há quem viva disso).

É bem certo que se identificam também esses fenómenos.
Em relação ao primeiro, já tive algumas desilusões, mas essas são com pessoas que conheço na vida real cujas personas virtuais me deixam constrangidas. Tenho pena, pronto, porque se me arrefece a admiração que tinha por essas pessoas, pela sua humanidade. Custa-me porque quase sempre interpreto como um sinal de mal-estar consigo próprio.
Quanto ao segundo fenómeno, não me constrange, quando muito provoca-me vergonha alheia. Custa-me ver as pessoas em bicos-dos-pés. 

Uma atenção que resulta de um estímulo que não corresponde à verdade, mas apenas a uma imagem construída para seduzir, só pode ser vã.
Parece uma solidão aflita. Uma solidão que se procura combater com uma busca por uma atenção imediata.



Eu sofro de solidão.

Tenho solidão profissional porque sou a única no meu local de trabalho, um sítio onde as pessoas são simpáticas mas estranhamente muito (tão demasiadamente) desligadas umas das outras. Tenho solidão por distância geográfica da família. Tenho solidão porque a minha melhor amiga vive nos antípodas.

Mas não me quero deixar enganar com companhia frugais.

Não sei dizer filosoficamente o que é a verdade, mas sei o que sinto no coração como sendo “de verdade”. E sou uma sôfrega por momentos verdadeiros.
Por isso, mesmo que tivesse algum interesse - para ganhos (sociais, económicos, de visibilidade, etc.) secundários em cativar, seria incapaz de o fazer passando uma mensagem falseada do que vou sendo, de como vou estando nas coisas. É-me contranatura. Como se, se assim o desejasse fazer, os meus dedos se paralisassem no momento de escrever o texto falacioso.


Isto tudo para dizer que, por estes dias, tenho sido especialmente agraciada com comentários e emails tão generosos da vossa parte.

Fazem-me sentir tão grata, tão satisfeita e confirmada por fazer esta partilha. 
Tão acompanhada.

Os gestos que vêm daí, desse lado, têm contribuído para diminuir a minha solidão.


Não sei quantos são os nossos visitantes. Criei uma página no facebook, mas o que faço é só linkar os posts daqui. Não vejo sentido nela, não me apetece dinamizá-la com outros posts efémeros. Talvez acabe com ela um dia destes. Criei a página do pinterest, mas já percebi que aquilo é uma espécie de emprego a tempo inteiro de link-atrás-de-link e não me posso perder por lá. Vou partilhando alguns dos posts/temas no fórum do website da Associação Portuguesa de Fertilidade quando acho que pode ser um mote para encetar alguma conversa. Muito de vez em quando, participo no grupo de Famílias Adoptantes em Portugal no facebook, mas nunca linkei lá o blog para não ser identificada. Ao longo do tempo, tenho mostrado o blog a algumas (poucas) pessoas conhecidas. A alguns amigos e familiares, uns creio que se esqueceram que ele existe, outros não sei se o lêem, mas não me dão feedback nesse sentido. Apenas a minha querida amiga me vai dando um retorno e, às vezes, até comenta. Recentemente, partilhei o blog com a nossa equipa de adopção, com a equipa do centro de acolhimento onde os nossos filhos viveram e com a minha psicóloga. Mais ou menos, é isto, é este o universo por onde ando e com quem partilho. Bastante restrito, portanto.

Não me interessa saber quantos são, interessa-me saber quem são. E eu já sei o que preciso de saber: são pessoas como eu. Pessoas que procuram um pouco mais de mundo na internet. Pessoas que tiram tempo para ler os outros. Pessoas que se emocionam como eu quando lêem da felicidade, da tristeza e da aflição dos outros. Pessoas que querem as coisas por inteiro, sem cortes no feio, no que é, afinal, também parte da nossa humanidade. Pessoas que sentem necessidade de deixar uma palavra sem saber bem o quê, como “oh, que lindo”, “obrigada”, “desejo-vos tudo de bom”, “vamos rezar por vós” ou “mandar energias positivas”. Pessoas que se lembram de nós, mesmo não nos conhecendo, quando vêem algo na rua que os fez lembrar um post nosso (isso não acontece só comigo, pois não?).
Pessoas.
Pessoas que encurtam um pouco a solidão umas às outras.

Hoje, já me fizeram chorar com um comentário, com a imagem cheia de esperança que me deixou. Obrigada, Ana G.

Obrigada a todos os que têm tomado tempo a ler e a dizer-nos que estão aí.
Obrigada pela companhia, muito, muito obrigada.

Que o dia vos seja limpo,
Cipreste

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

a adopção - tema a tema

Eu tinha tantos planos para vos escrever nestas mini-férias de Carnaval, mas estivemos demasiado ocupados aos mimos e abracinhos pelo que os posts ficaram em banho-maria.
Sei que é uma queixa recorrente da minha parte, mas reparem nos posts que tenho em rascunho e respectivos temas em lista de espera:

Enxoval – quando nos tornamos pais de uma semana para a outra e temos de 1. Montar quarto e 2. Ter roupa e brinquedos à espera do(s) filhos(s)

O álbum de apresentação dos pais aos filhos

Álbum de vida, a continuação após o centro de acolhimento

Dias D - o primeiro encontro entre pais e filhos e todos os outros primeiros dias

As abordagens das equipas de adopção - o passo-a-passo visto cá deste lado

O encontro com a figura misteriosa “O Juiz” 

O grande dia - receber o cartão de cidadão, a imensa força da identidade

e, precisamente... identidade na adopção

Vinculação – o (duro) processo do parto de uma família

A relação entre o filme Divertida Mente e a adopção (não me esqueci que te devo uma resposta, Joana)

Outra resposta que te quero escrever, Joana, ou antes, não é bem uma resposta, mas tenho este tema em espera também – A mãe perfeita e outros perfeccionismos

Malditos pesadelos, homens e monstros maus!

Adopção aberta - afectos e laços e o seu lugar no presente

O cordão umibilical com o centro de acolhimento

Traumaversary

Adopção de crianças "mais velhas"

Adopção e escola

Adopção e... o resto da sociedade

Muitas novidades da Magnólia
E tantas outras do Chaparrito

~  ~  ~

Para já, deixo-vos com 2 curtas deliciosas do passado fim-de-semana:

Falávamos da evolução da espécie humana ao jantar (não me lembro como surgiu o tema) e a Magnólia muito confusa: 
- Mas a minha catequista de antigamente disse-me que foi o Edgar e a Eva que blábláblá…

Afinal, havia outro e nós não sabíamos :D


Ainda ao jantar, comentei “dá chuva” para o fim-de-semana pelo que seria provável o adiamento do cortejo de Carnaval. Mas o Chaparrito elucidou-me:
- Não, não, mamã, eu vi o tempo e eles dão arco-íris para sábado e para domingo
- Hm?
- Sim, sim, eu vi, tinha um sol e chuva 

Family- Rainbow Happiness, 2012

Há lá coisa mais boa?

Até já,
Cipreste

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

e assim se passou mais um Natal

E eu sem dar notícias
Gostava francamente de conseguir reorganizar as minhas prioridades por forma a dedicar-me mais ao blog. Eu sei, estou sempre a escrever este lamento: mas queria mesmo escrever para mais do que apenas as actualizações dos nossos dias, escrever sobre os assuntos da adopção e da parentalidade, dar dicas, dizer como foi e como tem sido connosco, partilhar, dar e receber.
Hoje é o final oficial da época de Natal. Já demos conta dele no passado Sábado, quisemos entrar no 2º período do ano lectivo com a casa à civil. Nem por isso deixamos de sentir como o garfield. Assim que consiga, volto cá. Não fiz, nem faço, resoluções de ano novo, mas talvez não fosse má ideia ponderar esta: rever os meus dias para dar mais tempo a este blog que é hoje um dos meus maiores depósitos de pensamentos. Bom dia a todos, bom ano, boa vida,

da família toda para todos vós aí desse lado

esta tira está no meu placard do trabalho há uns 12 anos, diz muito, diz muito...

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

e é isto


Este é o terceiro post que escrevo a justificar-me perante quem nem sequer me pede contas mas a quem sinto dever mais respeito (no mínimo, respostas).

Quero tanto falar-vos sobre o que é isto de adoptar duas crianças “mais velhas”. Quero falar-vos sobre a surpresa da maternidade. Sobre a minha constante luta interior, sobre a minha ânsia de ser boa mãe, de, quando muito, nas minhas falhas lhes causar males menores. Quero partilhar os meus encontros recorrentes com a discrepância entre o que reflicto e como ajo.

Penso que vou ter tempo de escrever e vir aqui partilhar os meus pensamentos convosco durante as férias, mas, como ultimamente aprendi a avaliar bem os compromissos que tomo, não faço promessas pois é bem possível que, ao contrário de o actualizar, deixe o blog em stand-by.

Somos pessoas com ligações ao mar.
Vamos a banhos e talvez voltemos já.
Talvez voltemos mais tarde.
Saudinha,
Cipreste