terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Adopção: as sessões de formação - sem mistério


Algumas pessoas podem pensar que é fazer formação para aprender a ser pais, mas na verdade não é isso. Quer dizer, é, mas não é. Entre outras coisas, para mim, é aprender sobre como procurar minimizar os danos da vida ou, pelo menos, aprender a não piorar coisas que já são por demais difíceis.
Façamos uma pausa no espírito crítico que está à flor das nossas convicções e deixemo-nos enredar pelas conjunturas  habituais que levam à paternidade: biologia ou adopção.

Com um filho biológico, que surge de uma gravidez desejada e planeada em que há tempo para ver o corpo da mulher a mudar enquanto se faz o enxoval, penso que não há propriamente dúvidas sobre a origem do amor e a sua devida reciprocidade. A criança nasce e tem o amor e protecção dos pais como garantidos. Os pais têm dúvidas, naturalmente, mas isto é a vida e tudo irá fluir, no mínimo, podem mimetizar o que fizeram os seus pais e outros amigos e família que à sua volta também têm filhos. Mais ou menos, têm tudo para que a coisa corra “normalmente”, dedicando-se à puericultura sem necessidade de preocupações e diligências no que concerne a psicologia, a sociologia e até a antropologia.

Com um filho adoptado, e em consciência, não me parece que as coisas possam ser levadas de forma tão “natural”. Não digo que tenhamos de controlar tudo à nossa volta, de todo. Mas acho que será negligência da nossa parte, enquanto pais adoptivos, tentar fingir que é tudo igual, que se educam os filhos adoptados da mesma forma que se educam os filhos biológicos, que é deixar as coisas andar que tudo logo se compõe. Provavelmente num mundo ideal isso aconteceria, mas na proporção inversa do que se possa imaginar num primeiro instante.

Acontece que eu gosto da ideia de mimetizar a família e amigos, dá-me uma sensação confortável de aldeia, de comunidade, de protecção, de haver um espaço legítimo para a tentativa-erro. E, para solidificar e rematar essa prática, fazer como dizia o Professor João dos Santos: educar é fazer falhar a educação que nos deram. 
Eu quero fazer isso, é assim que vou tentar estar na educação do(s) meu(s) filho(s). 
Porém, não me safo de um processo de retaguarda a que os pais biológicos são, na sua grande maioria, poupados. Na adopção há um passado, no mínimo negligente, a ter em conta e muito provavelmente o(s) meu(s) filho(s) trarão memórias que nós teremos de ajudar a neutralizar para que possam retomar as suas meninices em segurança e com alegria.

Devo ler e receber formação e reflectir e discutir os assuntos que me são apresentados com o meu marido e com a equipa de adopções e com outros casais e com outros candidatos à adopção e com a família e com os futuros profissionais que venham a acompanhar o(s) meu(s) filho(s). Já tenho provas dadas disso, dessa necessidadade, pois já analisei situações que tenho a certeza de que eu não enfrentaria da forma mais eficaz do ponto de vista dos afectos se não tivesse lido e recebido formação e reflectido e discutido esses assuntos.

Durante os anos de infertilidade, antes de cada tratamento parei para reflectir sobre a vida, se fazia sentido ter um filho, tentar consciencializar-me para as grandes mudanças na minha vida com a vinda de um filho, etc. Agora, para a adopção, não só ponderei estas questões como se lhe acrescentaram mais algumas e uma das mais importantes é esta: a que necessidades é que eu acho que tenho capacidades para responder?

Isto é algo que tenho aprendido com a equipa de adopções, é a fazer estas reflexões que nos ensinam nas sessões de formação. Não pensem em vir de lá com respostas, vêm com mais perguntas, mas estas são as perguntas que nos ajudam a saber a cada passo mais e melhor aquilo para o que achamos que estamos preparados.
Tudo em prol de uma adopção de sucesso que é dar uma família a uma criança em que ela se sinta  amada e segura, em que saiba que aqueles pais estão ali para o que der e vier, para sempre, e que cada um tem o seu papel e o das crianças é esse… ser criança, com todos os direitos que lhe são devidos. Acrescentando-lhe mais alguns, de preferência.

E querem saber uma coisa? Tudo isto está a acontecer de forma natural na minha cabeça, a encaixar, a fazer sentido que assim seja, estou a sentir isto de forma muito intensa e a sentir a forma humanizada com que nos estão a abordar. A palavra que me surge desta construção é fraternidade, e mesmo adivinhando grandes desafios e dificuldades estou a gostar muito de estar neste sítio, lado-a-lado com o meu amor e com a minha família e amigos que estão todos a viver uma gravidez muito desejada.

Ah! Retenham estas expressões pois suspeito que as vamos usar muito por aqui: neutralizar e necessidades versus capacidades.

Cipreste



4 comentários:

Mãe Sabichona disse...

Adorei cipreste. Descreves na perfeição a realidade da adopção e fico feliz por saber que tudo se está a encaixar no devido lugar. Permites-me partilhar?

Cipreste disse...

é uma honra! :)
e muito obrigada pelo teu feedback, tão importante para mim ***

Joana Mendonca disse...

Também eu fiz toda a formação parte do processo da adoção. Teve muitas coisas importantes, mas nunca a tinha visto assim, desse prisma. A verdade é que antes de iniciarmos o processo tivemos pelo menos um ano de reflexão conjunta, e por isso as duas primeiras formações sentimos que serviam para estimular uma reflexão que nós já tinhamos feito. Também poderia servir para conhecer outras pessoas que vão adotar e criar um espaço para os nossos filhos verem e conhecerem outras crianças adotadas. No nosso caso, isso não sucedeu.

Cipreste disse...

A ideia da adopção sempre andou a cirandar por aqui, mas vivências anteriores levaram a que o processo de decisão fosse muito longo e ponderado

Por acaso, tb não sentimos nenhuma empatia com nenhuma das pessoas que estavam nas nossas sessões