terça-feira, 1 de setembro de 2015

Amanhecer

Não sei se vou conseguir. Para ser honesta, não sei se é isto que quero. Mas afeiçoei-me a vós, a alguns de vós. Passei a gostar de falar convosco. Mas não sei se vou conseguir falar convosco agora.

Agora é o início da era da maternidade. Agora é o início da nova era - a era após a partida do meu pai. Agora sou eu diferente. Eu estou diferente. Mudei. Afinal, mudamos. Sou a mesma pessoa, obviamente, porém houve mudanças cá dentro e reflectem-se no meu dia-a-dia, na forma como me movo, na forma como falo. Estou diferente e ainda me estou a habituar a isso.

Diferente pode ser tão-só a expressão para dizer que estou cada vez mais real e próxima das coisas pequenas e mais simples. Ficando, assim, mais complexa na extensão dos meus pensamentos, sendo agora uma missão mais difícil esta, a de escrever.

Queria contar-vos como é tão difícil cumprir o slogan Pessoano do “primeiro estranha-se, depois entranha-se” da maternidade ready-made que a adopção traz. Queria contar-vos como é possível que esta mais-difícil-tarefa-de-sempre me traga voluntariamente sequestrada neste estado de (sim!)-é-isto-que-eu-sempre-quis-fazer.
Queria escrever sobre as coisas práticas, deixar-vos dicas.
Apesar da vontade, dou por mim ainda neste estado de uma certa inércia comunicativa.
Talvez ainda precise de mais tempo. Hoje, li estas duas citações, explicam-me muito:

"Where there is much light, the shadows are deepest"
Goethe

“For my belief is that if we have five hundred a year and a room of our own; if we have the habit of freedom and the courage to write exactly what we think; if we escape a little from the common sitting-room and see human beings not always in their relation to each other but in relation to reality…then the opportunity will come and [we] will be born.”
Virginia Woolf


Sinto vontade de partir, de viajar com o Chaparro e com os miúdos, percorrendo o mundo. Não à procura da civilização mas perseguindo a maravilhas da natureza. Começaria pela aurora boreal.

Amanhecendo devagar nesta nova era.

Até já,
Cipreste

p.s. parcimoniosamente, deixo a grande notícia em post scriptum: chegaram os novos cartões de cidadão dos meninos - os nossos filhos são oficialmente nossos. Processo burocrático findo após 10 meses. Confere!

5 comentários:

Maria Nunes disse...

Sigo o seu blog desde o início, e a mudança de que fala é bastante clara deste lado.
Quando se segue um blog é porque se gosta, e desde a sua mudança gosto ainda mais. O que faz com que a possibilidade de a Cipreste o vir a abandonar me deixe ... mas compreendo que o ciclo que o iniciou terminou e que o blog já não faça sentido, o que tal se traduza na falta de vontade de escrever.
Qualquer que seja a decisão, desejo-vos as maiores felicidades.
Teresa

patricia disse...

Por muito tonto que seja...o dia da chegada dos cartões de cidadão dos nosso filhos, onde escrito preto no branco...o que a vida já escreveu nos nossos corações é sem dúvida um marco!

Patricia

Joana Mendonca disse...

O cartão de cidadão é mesmo um marco!!! Parabéns!!! (oh, não vás...)

Mar disse...

Toda a felicidade do mundo para vós, Cipreste.

E não vás, ou volta rápido, que toda a informação e partilha sobre adopção é útil. A maior parte das pessoas tem ideias completamente erradas sobre adopção, a todos os níveis, e todos os contributos para contar a verdade sobre luzes e sombras são essenciais.

Cipreste disse...

Olá, meninas,
peço desculpa se dei impressão de deixar o blog, não tenho essa intenção :) o desabafo prende-se com a constatação de que tenho tanto para vos dizer mas uma certa inércia para o fazer. Sinto um certo silêncio ou necessidade de deixar assentar mais o pó antes de escrever sobre ele, não sei se é isso... enfim e adiante :) mas tenho intenção de ir partilhando o que for saindo naturalmente, nem que seja uma imagem :)

e, sim, o cartão do cidadão é um marco brutalmente poderoso, quem diria...

até já!