quarta-feira, 2 de abril de 2014

parole parole parole - parte II

Disclaimer: não me levem a mal o eventual tom abespinhado neste post. Reservo-me o direito. Ainda assim, podem reclamar se não gostarem. Ouvirei cada reclamação com a atenção devida :)


Vê lá no que é que te vais meter.

É outra coisa que corremos o risco de ouvir quando falamos com algumas pessoas sobre o processo de adopção.

Para começar, digam-me por favor: alguém tem a veleidade de saber em que se vai meter antes de se meter em seja o que for? Será que não é do senso comum que ninguém sabe, de facto, em que se vai meter antes de se meter nelas?

Aborrece-me um bocado esta pose. Sim, é uma pose. Como se eu fora uma inconsciente e a pessoa do outro lado do discurso esteja a ver a realidade muito além daquilo que eu possa alcançar e que me resta confiar no seu aviso: Que eu veja lá bem no que é que me estou a meter. E pronto, oiço isto e depois o quê? Faço provas da minha idoneidade, atestando o meu (impossível) conhecimento total e esgotado sobre aquilo em que me vou meter? Ou desisto porque, oh, não tinha pensado nisso, muito obrigada pelo laivo de clarividência?

Ouvi isto há dias, de uma pessoa sem filhos. Também este Verão tive uma conversa surreal, com outra pessoa, à volta deste aviso.

Sinceramente, não compreendo.
Sabem, é que de boas intenções está o inferno cheio e isto ofende. É bem certo que sou uma pessoa muito séria e muito cheia de mim e que levo as palavras das outras pessoas como se elas também quisessem dizer aquilo que realmente dizem. Eu sei. Duh para mim.

A conversa do passado Verão foi tão estranha que a pessoa, mãe de uma menina pré-adolescente, quase admitiu que estava arrependida de ter tido a filha. Wow. Falávamos de tratamentos de fertilidade e de adopção e a questão era se tínhamos mesmo pensado nas coisas a sério. O remate da pergunta era uma exclamação: tu não sabes o que é, como é, ser mãe. Tcharan. Eu-não-sei-o-que-é-ser-mãe. [Momento Prémio Sensibilidade do Ano com o patrocínio das evidências presentes na minha vida desde 1997]

Passa pela cabeça de alguém que me conheça que eu nunca me tenha aventurado nas questões do que poderá ser ter um filho? A sério, não percebo. Há pessoas que dizem coisas só para dizer coisas, não é? Sujeitei-me a cirurgia e tratamentos, passei por gravidez e aborto, embarco na adopção, mas nunca me ocorreu pensar em divagar no que poderá ser isso de se ser mãe, isso de ter um filho à minha responsabilidade. Hum? Depois disto tudo, é óbvio que a clarividência está do lado de quem está saturado de viver o peso das responsabilidades de se ser pai (ou mãe) e que embora ame o seu filho não o deseja para mim.

Não consigo perceber, alguém por favor me explique o que leva alguém a fazer este aviso. É que, reparem, serei tão volúvel que, após o aviso, comece a pensar que afinal as “compensações” de que alguns falam sejam uma treta, a grande mentira? Afinal, não vale a pena “ficar para segundo plano” e “abdicar de toda a minha liberdade”? Ah, ok, então parem as rotativas que eu já não quero nada disto, foi apenas um equívoco. Talvez seja bom parar mesmo. Ocorre-me agora que talvez me consideram incapaz da maternidade, até a que não tem filhos. Afinal, será que o Universo tem tentado falar comigo, com o meu percurso de vida, para me dizer “Cipreste, desiste, tu não nasceste para ser mãe, tu não estás talhada para isto”?

E agora, paramos?
Não, não paramos.
Ninguém é bom juiz em causa própria, bem sei, mas não admito este tipo de discurso a ninguém. Ainda sou uma pessoa imputável, e não o sou mais nem menos do que qualquer uma das pessoas que proferiram estes avisos. Não tenho medo de correr o risco de ser (mais) feliz. Tenho um ego de tamanho q.b. pelo que confio no meu discernimento. Não me avisem das coisas óbvias do futuro como das abdicações inerentes à maternidade, por exemplo, antes ofereçam o vosso apoio. Isso, ou afastem as energias negativas que nós precisamos é de apoio. Todos sabemos que nunca estamos a ver o quadro todo antes de estarmos lá dentro. Mas certas evidências em nada ajudam, só trazem de fora uma mensagem de falta de confiança em nós.

Já agora, e para que não restem dúvidas, não encaramos a adopção como ir buscar um cão ao canil municipal. E até conseguimos compreender que adoptar um animal já envolve algum nível de responsabilidade. Não é à toa que sobrevive um gato cá em casa há 10 anos.

Eu-não-sei-o-que-é-ser-mãe, pois não, não sei, obrigada. Mas hei-de saber e espero que seja, em primeiro plano, uma dádiva bonita e não um peso.


Eu hei-de ser capaz, o Chaparro há-de ser capaz. Nós seremos capazes.



Não sabemos no que nos estamos a meter, mas seremos capaz de o fazer o melhor que nos seja possível fazer: com amor e boa vontade.

Deixo uma proposta: ‘bora ser felizes com os sonhos uns dos outros?

Cipreste

5 comentários:

Mãe Sabichona disse...

Por mim podes continuar neste tom sempre que te der na gana que eu adoro e farto-me de rir com o teu sarcasmo. Nao fosse saber que está na origem de uma dose substancial de irritabilidade e de mexer com coisas sérias, pedia-te um todos os dias. Olha, uma mãe há dias dizia-me à frente do segundo filho que se soubesse tinha-se ficado pelo primeiro...e eu fiquei vermelha que nem um tomate, tal a vergonha que senti por ela (mas que na verdade era uma vergonha imaginária, que ela dizia aquilo com muita tranquilidade). Sabes que os filhos para algumas coisas vêm ao mundo para nos dar felicidades. Quando dão outras coisas que também vêm no pacote, já não servem. Já viste a curta-metragem "removed"?

Cipreste disse...

Bom dia!


aí está algo que nunca me lembro de ter sido elogiado: o meu sarcasmo :) é mesmo uma novidade para mim (:

eu sei que as pessoas dizem "Vê lá no que é que te vais meter." da mesma forma como dizem "então quando engravidas" ou "porque é que não adoptas?" ou "então, quando é que vem o segundo", ou seja, é sempre tudo sem mal, mas tb acrecsento que assim que é sem mal tb é sem cuidado e atenção e não passa de discurso vazio, cujo vazio não é inócuo para quem ouve

até fiquei com o coração apertado por essa segunda criança :/

nunca vi, basta pesquisar assim no youtube?

bjs

Mãe Sabichona disse...

sim, youtube

Joana Mendonca disse...

Ui... Não ha pachorra para esses comentários... E alguns ferem quando são ditas por pessoas próximas. Ouvi tantos... E alguns doeram... Também conheço pessoas com filhos saudosistas por "não poderem fazer" as mesmas coisas. Eu celebro sempre o facto de agora poder fazer outras coisas!!!

Cipreste disse...

"Eu celebro sempre o facto de agora poder fazer outras coisas!!!"

gosto de acreditar que é o que vou fazer :) mas como dizem que depois de sermos mães engolimos as nossas palavras, tento refrear as minhas afirmações