quinta-feira, 10 de abril de 2014

Sonhar, uma constante da vida*

Sonho com a maternidade desde pequenina. Percorri o Anita Mamã vezes sem conta, sei-o de cor. Comecei por sonhar com bordado inglês e colónia de bebé e sapatinhos Chicco e fraldas e biberões. Sonhei com papas e sestas consoladas e histórias da noite. Sonhei que cuidaria de uma família – da minha família, que cuidaria de preparar cada um para o mundo lá fora. Sonhei com dois mundos, o de fora e o de dentro.
Sonhei com cheirinho a bebé e cedo comecei a cirandar as vizinhas que tinham bebés. E passei a ser uma espécie de ajuda para ficar a ver o bebé “enquanto vou só ali à loja”. Assim que as minhas mãos atingiram o tamanho suficiente, confiaram-me mudas de fraldas e rapidamente passei a poder dar as papas também. Tudo - tudo - me encantava. Estes bebés, por vezes irmãs e irmãos dos meus amigos, esticavam os braços para mim como segunda pessoa de eleição após as suas mães. Volta e meia, eu andava rodeada de bebés e infantes (e de cães, mas isso é uma história para contar noutro dia). No meio disto, sonhava com a minha hora. Quando eu for mãe. Ponto final. Sem reticências.
Vieram os sobrinhos e uma nova dimensão da vivência do amor às crianças. E passei a cuidar com outra responsabilidade. Por esta altura, sonhar com a maternidade era muito mais do que a Anita Mamã. Eu já tinha passado pelas noites de choro da minha menina, pelas suas dorzinhas na perna aos dois anos (que nenhum médico conseguia resolver, uma angústia), pela traquinice do mais novo, pelas birritas dos dois, pela surpresa da alegria que se sente só de se pensar naqueles dois seres. O sonho de ser mãe era algo mais. Crescera comigo. Eu era casada com o tio deles e sonhava com o dia em que lhes daria primos e os veria todos juntos a brincar.
Entretanto, a infertilidade foi admitida. Fui operada, fiz uma gravidez e sofri um aborto espontâneo. Pelo meio, houve a possibilidade de adopção que não foi concretizada (um dia destes vou falar – muito – disto). E veio o divórcio.
A vida deu uma reviravolta e eu nunca dei primos à Princesa e ao Gostarzinho. Cresceram sem brincar com os primos e isso ficou-me sempre como uma mágoa. Sonhei tanto com os primos todos juntos. E é disso que quero dizer - que sonhamos. Que é impossível não sonhar.

Depois vi-me sozinha numa cidade sem qualquer raiz, qualquer amizade, apenas trabalho. Hoje parece-me que os anos entre essa solidão e o encontro com o Chaparro foram muito mais rápidos do que, de facto, foram. Nesse tempo, o sonho de ser mãe deixou de fazer sentido. Nunca tive o impulso de construir uma família sem um companheiro. Agora, já penso que talvez nesta idade considerasse ser mãe solteira, acaso não estivesse numa relação, mas na altura nunca me passou pela cabeça. Assim, o sonho de ser mãe adormeceu durante alguns anos.

A nossa relação aconteceu muito rapidamente. Logo percebemos que estávamos para ficar e, com isso, planeámos, também logo, a vida a dois. E dei por mim a olhar para ele e a pensar “quero ter filhos com ele, quero que seja o pai dos meus filhos”. E o sentimento foi recíproco, falámos desde cedo em filhos. No entanto, eu trazia uma ferida ainda aberta do meu passado – tanto da infertilidade e da perda, como da adopção não concretizada. E percebi a força que o medo pode ter sobre nós, uma força monstruosa.
Para que saibam o quanto resisti a recomeçar nas consultas, digo-vos que marcámos uma consulta em 2010 (4 anos após o início da relação), no privado, para obter um diagnóstico, mas tivemos de desmarcar por motivos de saúde familiar e só voltámos a remarcar em 2011, e não estou a falar da distância Dezembro-Janeiro, mas de 11 meses.

Recomeçado o vai-vem das consultas de infertilidade, vi-me no meio de picas, medo, ecografias, ansiedade, exames dolorosos, desilusões, a mágoa de não atingir um sonho. Cada insucesso na infertilidade foi como uma derrota que me deitou abaixo naquilo que me deveria ser de direito, por natureza e não por decretos inventados pela humanidade. Aqueles momentos nas salas de espera, aquele lugar prévio a nos dizerem se havia folículos, se haveria lugar a punção, se houve óvulos, se houve fecundação, se haveria transferência, eram esperas de um desgaste horroroso. E eu perdi a luta. A cada falha, era eu que não prestava, era eu dilacerada por dentro. Era o meu sonho destruído, passo a passo.
Chegou o dia em que conseguimos dois embriões e eu lutei com todas as minhas forças para fingir, para mim e para os outros, que estava lidar bem com o facto da bióloga me dizer que os meus meninos não estavam a evoluir. Ao fim de dois dias, recebi a notícia – os nossos embriões eram inviáveis. Inviáveis, os meus filhos eram inviáveis e nunca chegariam a entrar no meu útero (também inviável, já agora…). Foram os cortes derradeiros na minha alma. Ajudei a fazer os golpes, em modo de automutilação, fingindo que estava a lidar bem com aquilo tudo. A dor foi tão grande que não consegui encará-la de frente. E acreditem que se há coisa que sou é corajosa, mas as pernas falharam-me e não consegui olhar a minha dor de frente.
Fingi que me prepararia para novo tratamento.

Chorei pouco na altura. Ando a chorar agora, aos bocadinhos. Já percebi que funciono assim, fiz o mesmo quando sofri o aborto, não chorei no momento e depois fiz o luto ao relanti. Penso que esta forma de estar nas coisas protege-me, por um lado, de não cair numa cama a chorar durante semanas seguidas, mas, por outro lado, traz-me num sofrimento mais arrastado.

Há dias, numa sala privada online em que participo, uma companheira de luta deixou-nos esta mensagem:

«O sonho acabou...
Fiz um tratamento de infertilidade, o beta na sexta deu positivo, hoje repeti e o valor baixou, estou mal...a minha revolta é muito grande, tantos sacrifícios e o final é o mais devastador!
Nunca deixem de acreditar, mas hoje não estou nos dias para ter estes pensamentos, são anos de muita batalha!
Um beijinho a todas»

O sonho acabou, reticências. Há tanta coisa dentro destas reticências. Reparem que não me arrogo falar em nome da mulher que recebeu a notícia brutal. Não falo em nome de mais ninguém, senão de mim. Sei apenas que há coisas da dor que têm nome e reconheço-as amiúde em companheiras de confidência. Esta mensagem foi apenas um mote para me tocar a ferida e humedecer os olhos em nome de uma estranha.

Falo do que é em mim este sonho de ser mãe. Falo do que é o corpo todo abrasado em nome de um sonho. Falo das reticências que abomino na escrita literária, mas que não sei como contornar quando falo do meu sonho de ser mãe.
Definitivamente, ainda tenho lágrimas para chorar. Ainda não consigo ler relatos destes sem sentir tudo cá dentro, cada momento, o telefonema... os seus embriões não resistiram. Sem reticências, não eram viáveis, ponto final.

Passados cerca de 2 meses, acordei num bonito Sábado de manhã e senti no meu coração que podia partir para a adopção. O Freixo estava cá, chamei o Chaparro ao quarto, que já se tinha levantado, e falámos em sussurro para não fazer barulho. Disse-lhe que entendia que uma nova fertilização InVitro seria mal sucedida porque a minha endometriose claramente tinha piorado. Perguntei-lhe o que sentia em relação à adopção dizendo-lhe que me sentia cheia de amor para dar e de força para enfrentar (novamente) um processo de adopção.
E o Chaparro sorriu com o seu sorriso maravilhoso e disse-me que só estava à espera de encerrarmos o capítulo dos tratamentos para ter “a conversa da adopção” comigo.

Reparem nesta ideia: ele, o meu amor, só estava à espera que eu me preparasse.

É possível ser mais afortunada do que isto?

É esta a história da minha vida. É este o rumo do meu sonho de ser mãe, do meu sonho de ter filhos. Tenho uma ferida cá dentro, mas também tenho esperança. Escolhi o caminho da adopção e entretanto percebi que a adopção não é, de facto, uma alternativa à forma biológica da maternidade. São mundos paralelos. Mas o meu sonho é o mesmo: ter filhos.


Cipreste


* evocando António Gedeão in Pedra Filosofal 

8 comentários:

Carla Oliveira disse...

Enquanto percorria o teu texto, as lágrimas iam caindo à mesma velocidade da leitura...sinto que podia ser a protagonista desta história, senti-a tão minha.
Desde o sonho de ser mãe já em pequenina a um diagnostico de infertilidade associado a endometriose.

Apenas muda o final e o que eu queria que fosse igual. Mas ainda não consigo sentir no coração a força necessária para partir para a adopção. E também o meu marido continua à espera do dia em que eu abra esta porta. Mas tenho tanto medo de não estar à altura...tanto medo...

Serás, sem dúvida alguma, uma excelente mãe.

Cipreste disse...

Tinha ideia da adopção ser um assunto fora de questão para ambos, não percebi que é algo que estava pendente pelo "teu lado".
O medo é um grande vilão. O nosso medo vai além daquele medo que faz parte do ser-se consciencioso. É um medo monstruoso, horroroso.
Muitas vezes, leio pais adoptivos indignarem-se por as outras pessoas os elogiarem pela "coragem para adoptar". e eu compreendo de onde vem essa indignação, muito mais coragem têm as crianças de se colocarem nas mãos de estranhos, eu sei. Mas é, de facto, necessária coragem para nos assumirmos, para dar o salto dentro de nós até sentir que estamos "prontos" para o turbilhão da adopção.

Já sabes que estou aqui, se quiseres conversar sobre o processo de decisão, ou o que mais desejares...

Lisonjeia-me a tua fé na mãe que eu venha a ser, esperemos que eu venha a ser uma mãe "normal" :)

Um abraço apertado, Carla***

Cham disse...

Já referi em outro local que gostei muito de ler o que escreves-te e espero continuar a vir aqui e maravilhar-me com as novidades do teu processo de adoção.
Quero apenas dizer-vos, que como mãe adotiva, por vezes passamos por muitas duvidas antes de avançarmos com o processo, mas isso julgo que seja idêntico a uma mãe de 1ª viagem que tem nos seus braços pela 1ª vez o filhote acabado de nascer e começam a surgir imensas duvidas (no que fazer, como tratar)...Não tenham medo de não conseguir lidar com qualquer situação que possa surgir, apenas tenham a certeza que vão conseguir amar da mesma forma os filhos que não viram nascer e garanto-vos que se tiverem essa certeza então avancem, porque em todas as situações vocês vão estar à altura de as resolver.
Bjs
Cham

Mãe Sabichona disse...

O luto consegue ser tão traiçoeiro. Já aconteceu achar que me estava a erguer de uma forma muito positiva ou de pensar que já sabia lidar com certos sentimentos por calo ou "habituação" a eles. Mas o tempo mostrava-me que mais tarde aparecia do nada. Como se ao não chorar com um pedragulho, depois uma simples pedrinha me fizesse desabar. E por norma o meu corpo dá sinais violentos antes de me aperceber e é aí que sou obrigada a olhar de frente.
E sim, acho que és muito afortunada e serás ainda amais :)

Cipreste disse...

Obrigada pelas tuas palavras de encorajamento, Cham, gosto muito de te ler sobre a vossa experiência :)

Traiçoeiro, indeed, Mãe Sabichona :| e eu agora também dei conta de que somatizo mais (aliás, eu nem era de somatizar), e às vezes preciso que seja o Chaparro a lembrar-me de que provavelmente estou a somatizar. Algo que misturado com a endometriose dá um cocktail cómico :P quando comecei a ter dores fora do período menstrual dizia que eram dores psicomusculares. Enfim, é um pau-de-dois-bicos.

somos :)

beijinhos!

Joana Mendonca disse...

Amor de mãe é amor de mãe, independentemente dos filhos serem de origem biologica ou adotados, não há diferença. A adoção traz outros desafios que a biologia não traz, mas é uma viagem de amor maternal maravilhosa.

Cipreste disse...

Obrigada pelas tuas palavras :) pelo testemunho real,
beijinhos

Anónimo disse...

Bom dia, não leve a mal a minha ousadia mas vou guardar o seu post no ambiente de trabalho. Também eu li em modo repeat o Anita Mamã e durante toda a infância quis ser mãe (pelo menos 5). Entretanto a idade avançou, comecei a namorar com o meu marido e disse-lhe que não queria ter filhos. Chegada aos 30 percebi que tinha coragem para ser mãe e nas tentativas descobrimos que não podemos!
Vamos agora entrar na fase do tratamento mas o seu texto deu-me a esperança que precisava: por mais tumultuoso que seja o caminho, mais cedo ou mais tarde vou encontrando respostas para abrir novos caminhos, mudar a rota, "viver novas aventuras" sem pressas nem receios. Bem haja, Helena.